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A maldição da mansão Bly: as repetições da memória

Vivemos e escrevemos perseguindo um esforço por nunca esquecer. Tentamos segurar as pessoas e as lembranças, as vivências e os instantes nos lugares que habitamos, porque no fim o grande temor é que sejamos apenas isso: o que nos lembramos e o que nos esquecemos. Confesso que esse texto é um desses esforços de não perder aquilo que uma história me suscitou. A série A maldição da mansão Bly, da Netflix, dialoga diretamente com esses e muitos outros sentimentos extremamente humanos, mostrando que o terror pode ser uma grande conversa com o interior humano na história de sua existência.

Os moradores da mansão são duas crianças, Flora e Miles. O tio delas, tio Henry, deseja que liguem para contar apenas se algo não estiver bem. Elas são deixadas para viver na mansão após os pais morrerem, e só podem contar com a governanta Hannah, o chef Owen, a jardineira Jamie e a babá Dani, com quem ingressamos na mansão logo no início da série.

A babá Dani em A maldição da mansão Bly

Mas a mansão não está vazia. Vivos se confundem com os mortos, e eles têm conhecimento disso. As crianças sabem dos fantasmas que assombram a casa, avisam a babá, ficam atentos para que nada de ruim aconteça. Por trás das desgraças da família das crianças, há outras. A mansão é uma soma de histórias tristes de vidas abandonadas. Conhecemos histórias de outras épocas, pois tudo se encontra numa mesma linha temporal, já que a mansão é a grande constante de sofrimentos.

Quem se diz decepcionado porque esperava sustos com a série, acaba se concentrando numa expectativa falha que pode prejudicar uma outra experiência muito rica. A série se apoia na estrutura das antigas narrativas góticas, de casas assombradas por fantasmas que vivem o tormento da memória. Não é uma mera figura para assustar e servir à adrenalina do espectador. São pessoas deixadas no mundo, e contar suas histórias pode ser de alguma forma um processo de dividir as dores.

Hannah, governanta em Bly

O que há de belo na estrutura da série é que os sentimentos daquelas pessoas são exatamente o que enfrentamos a cada dia. Ser assombrado por si mesmo e seus vícios; o medo de morrer e ser esquecido; temer que uma pessoa ame outro; sequer pensar em viver os amores e os prazeres da vida; medo de perder as lembranças de um familiar; receio de fazer cortes e seguir em frente.

Toda a fotografia é sombria. Mesmo que estejamos nos anos 80, não há muito dessa época tão celebrada na tv e no cinema como alegre. Estamos parados no tempo, junto com os personagens. Houve momentos em que senti a própria suspensão dos personagens, de não estar nem aqui nem no universo da história. Mesmo muitas cenas sendo iluminadas, a impressão é de que o sombrio prevalece.

O ponto é esse: a série propõe que o espectador e os personagens não temam mais o sombrio e a morte. Revelar os fantasmas até que eles tragam mais empatia do que medo.

Tempo, a memória e o outro

A maldição da mansão Bly é algo que conhecemos muito bem: a maldição da repetição do tempo e aprender a deixar as coisas irem. Quantas vezes, ansiosos ou não, já nos vimos ensaiando os mesmos dias? O problema não está exatamente na repetição, porque sempre estaremos vivendo circunstâncias semelhantes. Dormimos, acordamos, escovamos os dentes, comemos. Mas nos aprisionamos em ciclos intermináveis que podem nem ser o que realmente desejamos, onde um trauma às vezes se torna até maior do que ele é porque contamos a mesma velha história.

Flora, uma das crianças em Bly

Socialmente, repetimos crenças, de que precisamos amar, trabalhar, conquistar de forma uniforme, todos precisam agir e fazer do mesmo jeito. Os sentimentos dos fantasmas e dos vivos, na mansão, revelam que no fim temos fatores parecidos, mas tudo depende dos momentos específicos de como resolvemos agir com essas emoções.

Tempo e memória revelam algo ainda mais substancial: a maldição, criada culturalmente e reforçada por todos nós até se tornar um tormento, é a de não aceitar a mortalidade das coisas. Inventou-se formas de imaginar divisões entre céu e terra para que, assim, aceitássemos a recompensa após a morte. No entanto, o que a série e o gênero gótico propõem é que, mesmo depois de mortos, os fantasmas continuam ligados aos lugares e aos sentimentos. Na trama, ele não vai encontrar paz no além se sua vida terrena foi tão fortemente enraizada no medo. Não há esse céu para recebê-los. E essa lição que a ficção nos mostra é muito bonita, no fim das contas. Porque também é a possibilidade de se libertar desse desejo por algo a mais e perfeito, divino, em vez de aceitar que a base da vida é a perda: não em um sentido negativo, mas como um ciclo em que tudo acaba sendo, pela natureza, renovado. Se algo terminar um dia, isso não reduz o valor da lembrança quando ela estava sendo construída.

Além disso, a base da história dessa série é justamente a relação com o outro. Quando dizem nas cenas “eu, você, somos um” é uma lógica impossível: sempre estaremos com certo descompasso com o outro. Porque ninguém é igual. Quando se tenta ser como o outro ou anular uma parte importante de si para se encaixar nesse outro, é o mesmo que a morte. A destruição central das pessoas envolvidas nessa mansão é anular-se por querer que o outro fique sem desejá-lo.

No fim, o que a personagem inicial faz ao contar a história da mansão Bly é o de conversar com o espectador sem distinções. Ela faz algo que está mais para o processo da terapia: recontar nossas histórias para lembrar mais uma vez. A fábula, a fantasia, são formas de ajudar nessas projeções a ver o que não se encontra na superfície.

Escutar o outro e permitir também abrir-se a ele é quase a chave para amenizar essas dores. Contar nossas histórias não se sustenta no sentido nocivo da repetição da nossa própria mente, mas cura por incluir esse outro que é ouvinte, deixar mais claro (ou evidenciar a confusão) do papel que temos nas nossas próprias vidas. Porque o grande terror do mundo é a angústia da liberdade e o que fazer com ela, com a nossa e com a do outro.

Análise dos personagens (com SPOILERS – revelações do enredo)

Flora e Miles

Duas crianças traumatizadas pela perda dos pais. Os fantasmas da mansão Bly são o constante reavivar desse imaginário infantil também. Pois o que fortalece a presença daqueles que querem usar os dois para permanecer no mundo físico se alimentam do desejo que Flora e Miles têm de se manter para sempre no devaneio de suas memórias felizes, quando os pais ainda habitavam o mundo.

Mesmo que, ao fim, ambos não se lembrem do terror da mansão, sabemos que tudo se encontra sublimado, reprimido. O choro e o medo de Flora em perder o marido, de um dia perder o amor que sente por ele, é precisamente o medo que alimentou por séculos a história da mansão (e do mundo): o receio de iniciar uma relação já imaginando o instante em que perderá o outro, o medo da dor e de ser esquecido.

Tio Henry

O grande fantasma de Henry é ele mesmo. Ótima metáfora para quem tem ansiedade e cria um tormento mental com quase um duplo que condena os próprios atos. É com ele que Henry bebe, desenvolve seus vícios, em um ciclo de autossabotagem e punição por sentir uma culpa imensa em ter traído o irmão com a cunhada e pela morte dos dois, numa viagem feita justamente para reconstruir um casamento abalado pelo caso extraconjugal. O corte de Henry é calar esse outro eu que o enterra a cada dia, e retomar o contato com os sobrinhos, a família que lhe resta.

Hannah e Owen

Os dois trabalham como governanta e cozinheiro na mansão Bly. Existe uma paixão platônica entre eles, um enorme carinho, respeito e amizade, mas que nunca se realiza como relação, porque Hannah está frequentemente suspensa na mansão. Ela não consegue distinguir o tempo, o que é presente e o que já se passou, dada a repetição e o isolamento da mansão. Destinou sua vida a cuidar das crianças, e o episódio sobre o passado de Hannah é um dos pontos mais fortes da série, porque ela precisa lidar com a ideia de morte e perda de forma muito brusca. Trazer à tona o que vinha sublimando, ter a coragem de cortar.

Jamie

Quem nos conta a história de fantasma, a qual vira uma grande história sobre o amor, é Jamie mais velha. Na mansão Bly, ela trabalhou como jardineira. Cultivava as rosas, a raridade das damas da noite. E redescobre o sentido do amor ao namorar Dani.

Jamie é uma personalidade essencial na mansão, pois ela é a pessoa que, apesar de ter seu passado doloroso de perda em relação à família pouco estruturada, entende o sentido de vida e morte. Ao cultivar as flores, entende que vale se dedicar àquilo que florescerá por tão pouco tempo; que a matéria orgânica, na morte, vira o início de outra vida. Mesmo que ela sofra e tenha medo de amar os outros, Jamie vê a vida de forma mais livre e sábia do que o tormento do apego que condenou a mansão Bly aos tempos intermináveis de fantasmas se arrastando pela terra.

Dani

Iniciamos a história acompanhando os passos de Dani, somos os olhos dela sendo inundados pela novidade da mansão Bly quando ela é contratada como babá das crianças. Dani tentou ser professora, sonhou em mudar vidas, mas a dor de lhe escapar esse sonho de formar uma geração revelou a dificuldade de dar conta de tantas crianças ao mesmo tempo em sala. O autocontrole, a impotência a atingiram e Dani deseja apenas poder se dedicar com calma e profundidade a duas crianças ao invés de se perder entre várias numa sala. Ela deseja desfrutar o tempo e a experiência.

O seu passado a persegue: toda vez que olha para o espelho, vê um ser com focos de luz no lugar dos olhos. Com o tempo, descobrimos se tratar de seu noivo, amigo com quem tentou se casar. Mas, ao revelar que era gay, o noivo saiu do carro e foi atropelado na sua frente. A luz nos olhos é o reflexo dos faróis nos óculos.

Dani tenta a todo custo viver o amor ao qual tem direito, livre das amarras do passado. Ao fim, ela é quem entrou intacta quanto às dores da mansão e termina traumatizada por ela, não conseguindo ir além. As crianças a esquecem, a vida parece estranhamente normal enquanto ela ainda tem um segundo fantasma a atormentando, a felicidade não parece o suficiente.

Ao se sacrificar por Flora, ela perdeu algo de si mesma. Mas, ao contrário dos fantasmas da mansão, Dani é a única que respeita a continuidade do tempo: não faz Jamie sofrer como aparição do passado; não se vinga do que sofreu; não levou consigo o rancor e a perda. É a única que decide enfrentar a morte como um corte para o seu sofrimento, do que a prisão pós-vida que sustentou a mansão por décadas.

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e Mestre em Filosofia na USP, na área de Estética, com a pesquisa Confrontos do olhar: a pintura e a figuração feminina por Édouard Manet. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia nas tintas e na prosa do mundo.

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