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A volta do parafuso e sua adaptação Os Inocentes (1961)

Novela de 1898, A volta do parafuso, ou também traduzida como A outra volta do parafuso, foi escrita por Henry James. Publicada inicialmente de forma serial na revista Collier’s Weekly e um dos maiores clássicos da história de fantasmas e da literatura gótica, foi adaptada para filmes como Os Inocentes (1961) e uma das mais recentes, a série A maldição da mansão Bly, na Netflix.

Primeira página da publicação seriada de The Turn of the Screw no Collier’s Weekly, (27 de Janeiro – 16 de abril, 1898). Fonte: wiki

A história é proposta inicialmente como um relato que será contado para um grupo que se reuniu no Natal. Na sequência, seguimos com a história narrada em primeira pessoa, uma governanta que vai trabalhar na mansão Bly para cuidar de duas crianças, Flora e Miles. O período em que a governanta vive na mansão a choca em alguns episódios, até que ela descobre que viu os fantasmas dos dois funcionários anteriores que habitavam a mansão, Peter Quint e srta Jessyl.

A influência que ambos exercem em Flora e Miles é penetrante e descomunal, sob a perspectiva da narradora. De alguma forma, ela sabe que os dois estão sendo controlados por esses dois seres sobrenaturais. E a trama é essa perseguição pela verdade.

A mansão Bly e seu isolamento são marcas que pesam nas costas dos personagens. Nada sabemos de quem eles eram antes disso. Pouco se fala das tragédias. O vínculo familiar do tio e dos pais falecidos é uma nuvem carregada que apenas sobrevoa a mansão, mas nunca pode ser citada. Os personagens estão presos nesse universo, quase como bonecos manipulados pelo tio à distância. O mais curioso, porém, é que ele também funciona como um fantasma. Ninguém ousa enunciar sua existência nem incomodá-lo. O que prende essas pessoas à Bly, então?

Projeções da governanta

A linha entre sanidade e loucura é tênue. Até o fim, Henry James deixa o leitor em suspenso, honrando essa outra virada do parafuso, em que a novela se sustenta em um estado de tensão da mente comprimida, e das surpresas que ficam sem respostas.

A personagem da governanta parece, aos poucos, perder a sensação de controle que tem por sua posição social. Ela é quem deve zelar por aquelas crianças abandonadas no meio do nada, e o fato de que mesmo naquele lugar isolado tem uma ameaça sobrenatural às crianças foge do controle dela. A personagem se vê numa vulnerabilidade dos adultos diante do mundo do qual ela não pode proteger nem as crianças nem a si mesma.

O fato de ser contratada com essa finalidade, quase servindo como uma substituição materna, é o que mais confunde a personagem. Porque ela não tem como recorrer ao tio, ele paira como uma ameaça, e ela mesma é tão jovem que não sabe o que fazer.

No enredo, ela parece ter uma paixão platônica pelo tio das crianças que a contratou, quase uma promessa de se dar tão bem com elas que no fim possa ocupar literalmente a posição de mãe. Mas ela não contava com a frieza do tio, do espaço, e com o horror do isolamento.

A dualidade do caráter infantil

O horror está na sugestão de que aquelas crianças viveram e sabem mais do que a própria governanta. A relação social entre eles é desigual, porque apenas aparenta ter uma hierarquia entre adulto e crianças. No fim, o mistério são as crianças e a própria governanta. O triunfo dela vai se tornando uma neurose projetada, porque ela quer ver as crianças falhem, digam a verdade à qualquer custo, revelando que sentem tanto medo quanto ela, porque no fundo ela também é uma criança vulnerável.

Enquanto Flora é ainda uma criancinha mais doce, dependendo mais da governanta, Miles já é um mini adulto e a forma com que ele estranhamente flerta com a governanta chega a causar arrepios. No filme Os Inocentes fica bem mais evidente a pedofilia que paira atmosfericamente no livro de Henry James.

Os Inocentes (1961)

O filme evoca uma versão da governanta um pouco mais decidida e sagaz. No livro, ela é mais vulnerável e indecisa, o que deixa também mais espaço para tornar sutil a possível dúvida sobre a sua versão da história.

Dirigido por Jack Clayton e com Truman Capote como um dos roteiristas, o filme é uma obra-prima do terror. A fotografia em preto e branco, os grandes espaços bucólicos e encantadores de Bly se tornam uma massa branca onírica que contrasta com perfeição nas sombras da mansão. Incorporando toda a energia gótica do livro, Os Inocentes deixa mais claro algumas das mensagens subliminares da novela.

O próprio título é ambíguo. Não sabemos mais quem é inocente nessa história. São as crianças? A governanta? A empregada? Quem tem culpa se algo ruim aconteceu naquela mansão? O desejo da governanta de descobrir a verdade começa a parecer muito mais uma vontade de afirmar sua autoridade e controlar alguma coisa do que apenas o bem-estar das crianças.

Por outro lado, como a virada do parafuso, não sabemos se as crianças dizem a verdade e o quanto são controladas. Miles fez o que fez na escola por vontade própria, já influenciado por Quint em vida, ou por ele já morto?

No início do filme, o tio pergunta se a governanta tem imaginação. E diz que só pessoas imaginativas têm acesso à verdade. Essa frase dá o tom de toda a história, porque já não sabemos mais se a imaginação afasta da verdade ou se transformou em loucura o desejo da governanta em ver as crianças assumindo o que estavam fazendo.

Com isso, há repressão e temor pela corrupção no enredo de Henry James, marcas do século XIX. O medo de as crianças terem sido corrompidas, misturando isso a sugestões de cunho sexual, aumentam ainda mais o medo dessa governanta, uma jovem pueril, de saber o que se passou, afinal. Até mesmo porque criança é sinônimo de uma bondade pura. Se elas estão cometendo o mal, o que restam aos adultos? O sobrenatural em A volta do parafuso, no fim, mistura o medo do Diabo, do Inferno e da corrupção com o receio de ver adultos e crianças cometendo erros grotescos na existência terrena. O controle cristão e a culpa só se tornam ilusões diante disso.

Ler A volta do parafuso parece aquela experiência de mergulhar em um globo de neve: um mundo em miniatura, com pessoas vivendo em um campo isolado, não há nada além de Bly. As memórias se congelam, os sentimentos viram neuroses repetidas, e isso dá margem à dúvida sobre a versão contada pela própria narradora. Basicamente parece que todo mundo está doido naquele lugar. E talvez seja a mansão Bly que enlouquece também os moradores, justamente pelo seu isolamento e pelas emoções de cada um serem reprimidas diante do código social. Em Bly permanece o mistério, se o medo da verdade paira em saber que os espíritos maus permanecem vagando na Terra ou se a pureza da bondade não existe.

O filme Os Inocentes está disponível online legendado no Youtube, aqui

Aqui no blog também tem a resenha de A maldição da mansão Bly, adaptação mais livre de A volta do parafuso.

E sobre esse assunto da mansão como responsável por enlouquecer seus habitantes, vale ler o livro A assombração da casa da colina, de Shirley Jackson, a qual foi adaptada livremente para outra série, A maldição da residência Hill. Resenha aqui.

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e Mestre em Filosofia na USP, na área de Estética, com a pesquisa Confrontos do olhar: a pintura e a figuração feminina por Édouard Manet. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia nas tintas e na prosa do mundo.

3 comentários em “A volta do parafuso e sua adaptação Os Inocentes (1961) Deixe um comentário

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