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Dez anos de Ceremonials, de Florence and the Machine

Hoje, dia 28 de outubro, às portas do Halloween, este belíssimo álbum da banda britânica Florence and the Machine, tendo como vocalista Florence Welch, completa uma década encantando com uma aura sombria, um encontro entre o medieval, o barroco pop e a estética pré-rafaelita.

As faixas do álbum contam pequenas histórias feito uma antologia de um enredo sombrio, melancólico, em que as metáforas religiosas se unificam às dores terrenas. Florence começa com Only It For a Night, sobre um sonho na escola, uma aparição vindo em lamento. Esta música é especial porque Florence a escreveu a partir de uma visão que teve em sonho de sua avó já falecida.

“E a única solução foi ficar e lutar
Meu corpo estava machucado e eu fui incendiada
Mas você veio até mim como algum rito sagrado
E embora eu estivesse em chamas
Você é a única luz
Mesmo que só por uma noite”

Curiosamente, anos depois, sem saber desta história, eu também tive um sonho impressionante com meu avô, e ao fundo neste sonho tocava uma música da Florence, Breath of Life. Um ano após o seu falecimento, meu avô dizia que era hora dele de voar. Eu acordei em choque porque lembro claramente de me ver voltando para o meu corpo e acordar muito quente e chorando. Foi impressionante. E a música da Florence acompanhando tudo, como esta faixa que conta também sobre sua avó.

A metáfora das águas

Ceremonials é um álbum grandioso sobre as lembranças e as dores reavivadas como fantasmas, tal qual um enredo gótico. Algumas faixas têm em comum o uso da água como metáfora. What the Water Gave Me evoca a melancolia do suicídio da escritora Virginia Woolf. “O que a água me deu” também serve como uma metáfora para o quanto a própria vida, as dores, os resultados de tudo, é tão grande quanto um rio. E mesmo a água parecendo tão fluida, às vezes pesa mais do que alguém pode aguentar. Na música, Florence se refere à figura de Atlas, um dos titãs condenado por Zeus a carregar o mundo nas costas. Neste mesmo sentido Never Let Me Go, é a entrega aos braços do oceano e alguma paz e benção dada pelas águas, assim como Heartlines associa as linhas da mão aos rios.

Ofélia, Sir John Everett Millais, 1851-1852

O desejo pela salvação

O esgotamento e a solidão são também fantasmas. Em Breaking Down o fantasma no canto do quarto, segurando sua mão, é o próprio episódio de crise ansiosa, depressiva. Lover to Lover, assim como em Breaking Down, são duas baladas animadas que contrastam com a tristeza da letra. O eu lírico viaja, passa de rua e rua, um fantasma na própria vida, e crê que não há salvação para si mesma. No Light, No Light, é uma música que pende ao conflito numa relação. O fato de estar olhando para o outro à luz do dia e o encanto se esvair, com o eu lírico sofrendo a dificuldade de dizer aquilo que o outro quer ouvir, de conceder uma revelação que salve o relacionamento.

O medo do diabólico

A grande força do álbum é quando ele penetra nesse tema do horror. Seven Devils se aproxima de O exorcista quando diz que há sete demônios na própria casa:

Água benta não pode te ajudar agora
Veja, eu vim para queimar o seu reino
E nenhum rio e nenhum lago podem apagar o fogo
Vou levantar as estacas
Vou acabar com você

Sete demônios ao meu redor
Sete demônios na minha casa
Veja, eles estavam lá quando acordei esta manhã
Eu estarei morta antes do dia acabar

Se Seven Devils tem o peso da vingança, Spectrum equivale as emoções aos espíritos se comunicando, contando que se originaram do frio até que ganham cores quando enunciam seus nomes, perdendo o medo. Soa como uma canção de apelo de se tornarem vivos quando relembrados:

E quando nós voltarmos estaremos vestidos de preto
E você vai gritar meu nome bem alto
E nós não comeremos e não dormiremos
Nós vamos carregar os corpos das suas covas

Com este mesmo tom, o coração do álbum reside em Shake it Out, uma das músicas mais potentes entre as obras da Florence. É uma letra de desespero de alguém esgotado, desejando cortar o coração e recomeçar. Mas só sente as costas pesadas pelo demônio e o desejo de alcançar o céu, a paz de espírito e o conforto no amanhecer.

Arrependimentos se acumulam como velhos amigos
Estão aqui para reviver seus momentos mais sombrios
Não vejo uma saída, não vejo uma saída
E todos os fantasmas saem para brincar

E cada demônio quer seu pedaço de carne
Mas eu gostaria de guardar algumas coisas para mim
Gostaria de deixar minhas questões bem delineadas
É sempre mais sombrio antes do amanhecer

“E eu cansei desse meu coração sem graça/Então, esta noite vou arrancá-lo e recomeçar”, Florence. Alegoria da Caridade, Francisco de Zurbarán, 1655
O pesadelo, de Johan Heinrich Füssli, 1781

Considerando que passei dez anos ouvindo essa música, ela sempre soa de outra forma. Em tempos de ansiedade e depressão, esse peso é muito mais real do que a metáfora diabólica. Esta música é um conforto, uma expiação:

E estou condenada se eu o fizer
E condenada se não o fizer
Então, aqui estou para brindar no escuro
Ao final da minha estrada
Estou pronta para sofrer
Pronta para ter esperança
É um tiro no escuro mirando direto na minha garganta
Pois buscando pelo paraíso, encontrei o demônio em mim
Buscando pelo paraíso, encontrei o demônio em mim
Bem, que se dane
Vou deixar acontecer comigo

A parte mais bela é que o fim em que Florence canta “what the hell” parece também o ato do eu lírico cedendo ao fato de que sempre estará entre o céu e o inferno, que a ascensão significa, na verdade, ceder à imperfeição da vida terrena, o tiro no escuro no fim da estrada direto na própria garganta, estar pronto para sofrer e ter esperança, lançando-se, enfim, ao desconhecido e ao mistério.

Para ouvir o álbum no Spotify:

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e Mestre em Filosofia na USP, na área de Estética, com a pesquisa Confrontos do olhar: a pintura e a figuração feminina por Édouard Manet. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia nas tintas e na prosa do mundo.

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