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O clássico decadentista O Grande Deus Pã

créditos: Marina Franconeti

MACHEN, Arthur. O Grande Deus Pã. Tradução Thais Rocha. Feira de Santana, BA: Editora Corvus, 2020.

Escrito em 1894 por Arthur Machen, a história de O Grande Deus Pã ressoa diversas narrativas do mundo pop no século XX e XXI. O enredo carrega o decadentismo e ares apocalípticos e melancólicos do fim do século XIX, colocando no centro uma mulher, experimentos científicos e a figura de um deus das florestas, corrompendo almas.

A trama se divide entre vários personagens, anos e fatos reunidos. Um tanto fragmentária, exige que o leitor vá montando as pecinhas junto aos personagens, que buscam entender a origem de suicídios misteriosos em Londres e a figura de uma mulher misteriosa, a possível causa desse horror.

Começamos com o experimento do Dr. Reymond e Clarke. Por meio de um procedimento semelhante à lobotomia, os dois interferem no cérebro da jovem Mary e, depois disso, ela não é mais a mesma. Pois com um corte ela fez a passagem e conseguiu ver além do véu, ou seja, ela esteve em contato com o deus Pã.

A partir disso, a história se desenrola em casos estranhos conectando diversos homens que foram corrompidos ou morreram ao entrar em contato com uma mulher de vários nomes.

A mulher, a loucura, a corrupção

Toda a trama se constitui pela idealização da mulher como geradora de vida e como o contato com o outro mundo, a natureza, o perigo, o descontrole pela loucura, concepções dadas pelo século para o que significaria o feminino. Eles realmente redigiam em compêndios a suposta suscetibilidade que as mulheres tinham à loucura, os nervos sensíveis, e sua condição biológica como o mistério de um gênero que estaria em contato com o outro mundo, com a morte. Hoje, felizmente, debatemos essas questões.

Na história, Mary é uma mediadora, é simplesmente o meio pelo qual esses cientistas vão testar suas ideias. E se não bastassem os humanos, ela ainda é usada pelo deus Pã para acessar o mundo material. Então é preciso ter em mente que Arthur Machen reproduz a narrativa sobre a mulher de seu século, bem como o da ciência.

Quanto ao uso dessa mulher pela ciência, Machen parece ser um tanto crítico e receoso do que envolve esse progresso científico. É um claro embate entre cristianismo e ciência, mas também entre política e ciência. Questiona-se quem eram as pessoas usadas em experimentos reais, não é? Onde entrava a ética nesses estudos?

Mary será, então, literalmente esse fardo de Maria, Eva e Pandora, a responsável (e vítima) por abrir o portal. Os outros nomes femininos na trama são o claro temor do homem diante das mulheres no século XIX: essa figura que é esposa, que é bem posicionada na sociedade, uma ameaça ao poder. Os homens que saem aterrorizados ao falar com elas, o que viram? O que os fizeram se matar? A associação natural para o período, entre mulher e monstro, nem precisa de justificativa para o leitor do século XIX.

Talvez nesse ponto fundamental a trama não tenha envelhecido bem. Esperamos entender o que ocorria, não convence mais essa narrativa da mulher como ameaça, pois ela é simplesmente usada como verdade. No entanto, ainda assim o livro é uma fonte de estudo para visualizar as perspectivas de uma época.

O trio cristianismo x mitologia x ciência

A leitura do livro é interessante se você a fizer pensando como um leitor do século XIX. Todas as marcas do decadentismo e das questões do século estão lá, começando por esse dilema com os avanços da ciência e do materialismo, onde tocam as questões éticas. O procedimento errado, dominador, da lobotomia, numa figura feminina é pesado para uma leitora de hoje. É difícil compreender o quão natural para esses personagens é acabar com a vida de uma mulher transformada em experimento.

Arthur Machen se mostra dividido na escrita da obra: o deus Pã, da mitologia grega, que espanta o mal das florestas, vira o próprio mal e a corrupção dos seres vivos que se colocam diante dele. Mary acaba encenando as referências bíblicas, Pã vira a encarnação do demônio, e temos essa mistura entre cristianismo e paganismo. No entanto, o paganismo acaba virando tão maléfico quanto a ciência, e nesse ponto talvez resida a visão do verdadeiro temor de um cidadão do século XIX: ao mesmo tempo em que tem fascínio pelas mitologias, os dogmas cristãos, o temor pelo inferno, estão muito presentes. Rendendo nessa mistura de referências religiosas, a própria confusão psicológica de um habitante do século XIX, o que é bem interessante de se perceber.

Na introdução da edição da Corvus, ficamos sabendo que Machen teve um êxtase ao passar entre ruínas romanas e nos campos escoceses, por isso redigiu essa história. As descrições dessas florestas são a melhor parte do livro, e acho que eu gostaria de ter ficado mais no enredo da pequena Helen e Rachel, nos mistérios da floresta de Pã, do que em grande parte na urbana Londres, onde a magia se perde um pouco.

Pã e as referências

A palavra “pânico” tem sua associação à Pã. Deus dos bosques, dividindo-se entre caças e danças com ninfas, ele é representado como um híbrido, tem feições humanas, orelhas e patas de bode. É tanto a proteção dos bosques, quanto o terror noturno. Na trama de Machen, ele é a mistura da loucura e do terror, e talvez desses homens que perdem o amor da amada ou são recusados por elas. Diante das personagens femininas, eles relatam enlouquecer.

O grande mistério da história é a presença de Pã. Talvez para um leitor que encharcou os sentidos de inúmeras tramas visuais do século XX e XXI, onde vimos aliens, demogorgons, trolls, pode ser um tantinho difícil embarcar no mesmo temor que os personagens.

Um exemplo do mesmo período é O Rei de Amarelo, do qual já falei em resenha e em matéria, com o seu legado decadentista e a mitologia amarela. O mistério, as entrelinhas, são o suficiente para sustentar os contos e nem precisa mostrar necessariamente o rei responsável pela loucura. É um bom combo ler O Rei de Amarelo e O Grande Deus Pã, pela semelhança em torno do medo cósmico.

O Labirinto do Fauno

O livro de Machen virou um clássico do terror e pode ter sido inspiração para o diretor Guillermo del Toro criar O Labirinto do Fauno. A capa do livro com sua ilustração de um fauno se assemelha e muito ao personagem do filme. No trama de Del Toro, é como se tivéssemos ficado justamente na parte mais fascinante da história, imaginar as explorações da menina na floresta e a visão de Pã. Em O Labirinto do Fauno, temos Ophelia, que descobre ser a princesa do submundo, seguindo os desafios do Fauno.

O fauno maléfico em vira uma versão mais fofa por Del Toro, um guia de Ophelia

Del Toro fornece um diálogo inteligente diante dessa possível inspiração livre no livro. Imagino que seja uma referência ao diretor, grande conhecedor do gótico e do decadentismo. O filme transforma esse ideal da mulher como aquela que tem um contato com o submundo, sendo os homens, como políticos, soldados, os verdadeiros vilões da história, e não a figura feminina. Ophelia passa por toda uma jornada enfrentando a Guerra Civil Espanhola, o luto e os traumas por meio da fábula. A heroína confronta os monstros e os medos em vez de se tornar má. E se o Fauno parece alegre e doce, o Homem Pálido é justamente sua outra face, o pânico herdeiro de Pã, mas aqui ele é o monstro que não divide a refeição, assiste a fome e a destruição dos humanos, o verdadeiro horror da humanidade.

Para quem se interessar, escrevi aqui a respeito do livro A História Secreta, de Donna Tartt, onde existem algumas proximidades entre o descontrole do deus Pã e a figura de Dionísio. O clássico medo de perder a razão e o controle.

Neste mesmo tema que une ciência e religião, minha resenha de O exorcista, de William Peter Blatty

E a obra A Volta do Parafuso, de Henry James, com a adaptação cinematográfica Os Inocentes, toca um pouco neste assunto.

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e Mestre em Filosofia na USP, na área de Estética, com a pesquisa Confrontos do olhar: a pintura e a figuração feminina por Édouard Manet. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia nas tintas e na prosa do mundo.

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