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O curta All Too Well de Taylor Swift e o agridoce dos términos

Nos últimos dias, a cantora e compositora Taylor Swift lançou um curta-metragem para uma faixa de seu álbum Red, chamada All Too Well. Entre os fãs, é uma música que vinha sendo aguardada por volta de uma década, que virasse essa versão dramatizada da letra. Taylor não apenas lançou um curta-metragem dirigido por ela, mas ainda a versão original da música com 10 minutos. E parece que poderíamos ouvir mais dez dessa música, porque é lindíssima.

Trata-se de uma música sobre o término de um romance. No caso, sabe-se que diz respeito ao relacionamento dela com o ator Jake Gyllenhaal. O que eu gostaria de ressaltar é que a música, e principalmente o clipe, deixam claros o problema da diferença de idade. Uma garota de 19 anos com um homem de 29, ou no caso de outro relacionamento da Taylor, o desequilíbrio entre ter 19 anos e estar com alguém de 32.

O curta repassa cenas desse relacionamento, entre viagens de carro, o laranja do outono, visita a famílias e amigos, até a tensão das brigas e explosões. A cena da cozinha, onde o casal briga, é muito tensa porque justamente mostra o abalo dessa jovem vendo o namorado aumentar o volume da voz, chamar de ridícula a reação dela, jogar a culpa na outra pessoa porque deve estar imaginando tudo. Mas, no fim, era uma garota de 19 anos entre pessoas muito mais velhas, e deixada completamente de lado. É um tipo de humilhação, um ponto de virada na relação, desconfortável de assistir.

Muitos homens procuram garotas justamente por esse domínio de poderes. O curta-metragem, estrelado por Sadie Sink e Dylan O’Brien nos mostra o estranhamento dessas relações. São mundos muito diversos.

Outra cantora que recentemente expôs isso foi Billie Eilish, nas faixas Your Power e Happier Than Ever: no caso dela, relatos em forma de música sobre um relacionamento em que ela era adolescente com um homem na faixa dos 30. Ela se sente mais feliz afastada dele, longe das inconstâncias de humor e de situações perigosas. E esse relacionamento equivalente à cobra que se amarra à Billie no clipe, sinuoso e sedutor, mas que a sufoca.

“Quando estou longe de você
Fico mais feliz do que nunca
Gostaria de poder explicar melhor
Queria que não fosse verdade

(…)
Eu não me identifico com você, não
Porque eu nunca me trataria tão mal
Você me fez odiar esta cidade”,

Happier Than Ever, Billie Eilish

Mulheres muito jovens, ainda naquele intervalo de alguém que acabou de sair da adolescência, com homens que não se responsabilizam por uma relação. Não se colocam no lugar dessa jovem que ainda está se iniciando no mundo. É só pensarmos em quem éramos aos 19 anos, somos despreparados demais nessa idade.

Um tanto diferente das músicas da Billie Eilish, a de Taylor tem um sabor agridoce, a confusão de lembrar de coisas delicadas e amorosas, ao mesmo tempo em que são passado, de uma relação que ela não entendeu por que acabou. A faixa da Taylor tem uma delicadeza poética, mas dando vazão também a uma raiva reprimida. Com um poder muito marcante das suas composições, Taylor refaz quase como um álbum de fotografias todo um período de sua vida, usando metáforas e excelentes imagens, sendo o cachecol a principal que ganha um sentido da inocência deixada para trás, perdida, impossível de ser recuperada.

Passei pela porta junto com você, o ar estava gelado
Mas algo ali me fez sentir em casa, de alguma forma, e eu
Deixei o meu cachecol lá, na casa da sua irmã
E você ainda o tem na sua gaveta, mesmo agora

(…)

Álbum de fotos no balcão
Suas bochechas estavam ficando vermelhas
Você era uma criança pequena de óculos em uma cama de solteiro
E a sua mãe está me contando histórias sobre você na liga infantil de baseball
Você me ensinou sobre o seu passado pensando que eu era o seu futuro

(…)

Talvez nós tenhamos nos perdido na tradução
Talvez eu tenha pedido demais
Mas talvez isso fosse uma obra prima
Até você rasgá-la por completo
Correndo assustada, eu estava lá
Eu me lembro disso tudo muito bem

(…)

A ideia que você tinha sobre mim, quem era ela?
Uma joia sempre carente, sempre amorosa
Cujo brilho refletia em você

(…)

E eu nunca fui boa em contar piadas, mas a conclusão serve
Eu vou envelhecer, mas as suas namoradas permanecem da minha idade
De quando você não tinha nada, minha pele e ossos
Eu sou um soldado que está retornando com metade do seu peso

Taylor cresce, envelhece, mas o ex continua, mesmo aos 40, tendo namoradas jovens, da idade que ela tinha. Sair de alguns relacionamentos parece o mesmo que se retirar de uma guerra, como sobrevivente. Não deveria ser assim. Vale dizer que não necessariamente o relacionamento deva ser abusivo para ser difícil de esquecer, de seguir em frente. Ou que todas as relações entre homens e mulheres serão iguais. Algumas atitudes inexplicáveis, impetuosas também deixam marcas. No entanto, o caso de All Too Well enfatiza algo que, infelizmente, acontece demais, entre idades muito diferentes, de garotas em situações vulneráveis em relacionamentos injustos. Enfatiza uma face misógina das relações, mesmo que essa misoginia ocorra em diferentes graus.

Por isso, ser mulher e ouvir essa música da Taylor traz um sentimento profundo, de entender a tristeza dela em perder algo que era bom, mas que em algum instante se inverteu, mudou, e ela não reconheceu mais com quem estava. All Too Well é o poder retomado de dizer “eu lembro de tudo muito bem”, como forma de reafirmar que não se estava louca na relação, como gostam tanto de jogar nas costas de muitas mulheres. A música de Taylor Swift é, sobretudo, uma retomada de suas memórias, uma afirmação de que estava lá. Existindo, viva, naquela relação, e que ela lembra de todas as partes do que viveu.

Pela primeira vez, Taylor apresentou a versão de All Too Well de 10 minutos e é absurdamente perfeita:

O álbum regravado Red, de Taylor Swift, já está disponível no Spotify:

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e Mestre em Filosofia na USP, na área de Estética, com a pesquisa Confrontos do olhar: a pintura e a figuração feminina por Édouard Manet. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia nas tintas e na prosa do mundo.

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