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Ilusões perdidas, adaptação imersiva e magistral de Balzac

Illusions Perdues (Ilusões Perdidas)

2021 | França, Bélgica | 149 min |

Direção: Xavier Giannoli | Roteiro: Jacques Fieschi, Xavier Giannoli, Yves Stavrides Elenco: Benjamin Voisin, Cécile de France, Vincent Lacoste, Xavier Dolan, Salomé Dewaels, Jeanne Balibar, André Marcon, Louis-Do de Lencquesaing, Gérard Depardieu, Jean-François Stévenin, Candice Bouchet.

O romance clássico Ilusões Perdidas, publicado em 1837, pelo autor francês Honoré de Balzac virou belíssimo filme homônimo pela direção de Xavier Giannoli, o mesmo diretor de Marguerite e A Aparição. Na trama de Ilusões perdidas, Lucien de Rubempré (Benjamin Voisin) atravessa a história dramática do jovem inocente que sonha em se tornar escritor. Apaixonado por uma mulher mais velha e rica, Louise (Cécilie de France), o poeta sai da vida provinciana e campestre de Angoulême para o mundo vasto da cidade de Paris.

Lucien de Rubempré (Benjamin Voisin)

Lucien sonha com as belezas da natureza, com o amor e a poesia na sua eternidade. Ao chegar em Paris, começa a obviamente perder as ilusões doces que alimentava com a corrupção urbana e social. Conhece outro amor, cai na lábia dos jornalistas, e vai trabalhar como crítico das peças teatrais e dos livros.

Nesta caminhada jornalística, a literatura vai ficando para trás, como uma inocência irrecuperável. Tendo em vista que precisa sobreviver, começa a escrever os textos que o orientam a fazer: a sórdida e ácida pena do crítico, que exalta ou destrói o artista, seduz o jovem e assim ele passa a constituir uma confusa e terrível derrocada.

Lucien de Rubempré (Benjamin Voisin) e Louise (Cécilie de France)

A sagacidade de Balzac em transcrever e dar vida ao painel de costumes do século XIX é muito bem transferida para a tela. Tanto a fotografia, o trabalho do figurino e a direção de arte recriam Paris nos detalhes. Estudei por anos no mestrado justamente esse recorte e assistir ao filme foi o mesmo que adentrar por quase 3 horas no encanto de Paris e não querer sair de lá. A delicadeza das descrições, o poético e o sórdido, foram claramente tomados por essa homenagem ao autor em forma de filme.

Mesmo que já tenhamos lido e assistido histórias sobre jovens escritores inocentes se corrompendo mundo afora, o filme Ilusões perdidas nos convence com seus personagens. Todos são muito vivos, a começar por Lucien. Realmente acreditamos na sua inocência e na mudança sofrida pelo jovem. Sem contar que o filme traz temas que conversam diretamente com os dias atuais.

O papel da crítica e as notícias falsas de ontem e hoje

A começar, Ilusões perdidas reflete demais sobre o que testemunhamos tanto hoje, as fake news. Os periódicos independentes, um deles onde Lucien trabalha, passam a saborear o doce poder da mentira, criando rumores que desgraçam a vida de muitos. Há descrições balzaquianas geniais, em que mergulhamos em inúmeros esquemas de uma cidade que é feita para o espetáculo. Um gigantesco teatro onde todos são personagens cênicos.

Na minha dissertação de mestrado sobre Manet, pesquisei e traduzi exatamente essas críticas raivosas publicadas nos jornais de época, em que o prazer era o de criar as falas mais absurdas e aleatórias sobre uma obra e um artista. Olympia, de Manet, foi classificada como “mulher-gorila”, “um corpo em putrefação”, termos que ao ver o filme, entendemos que eram comuns a crítica criar, alimentando polêmicas.

Há uma ambiguidade no papel da crítica. Um dos personagens ironiza que se pode criar jargões, expressões que aparentam estar dizendo alguma coisa. Como se analisar uma obra e escrever a respeito dela fosse só virar uma chave e dizer aquilo que for o melhor para a figura do crítico e o artista. Além disso, um jornalista conseguia mudar de ideologia política como bem quisesse, para aquele jornal que pagasse mais. Ao mesmo tempo, havia uma clara pressão entre os jornais independentes de serem considerados inimigos da monarquia, marcados pelo posicionamento político.

O autor odiava jornalistas. Mas qualquer um? Não. Especificamente como a mídia estava sendo tomada por censuras internas e acionistas. “Balzac até acalentava o sonho de se tornar um editor de jornal e de dar liberdade de expressão, contornando a censura da equipe editorial ou de acionistas poderosos, para oferecer a artistas cuja fama dependia em parte da boa caneta de “comerciantes de linha”, como diz artigo no France Culture.

Honoré de Balzac (1799-1850). Prova corrigida de Iluões Perdidas : segundo livro, Cenas da Vida provinciana. Paris, Maison de Balzac.

Neste cenário e nas décadas de história do jornalismo, claro que há nuances no sentido de censura. Governos autoritários que cortam a liberdade de expressão e perseguem pessoas. Jornais com linhas editoriais apegadas ao posicionamento dos acionistas. Assim como jornalistas que também usam do espaço para proliferar mentiras, não muito diferente de canais no Youtube de pessoas disseminando fake news política e anti-vacina, bem como tabloides e sites sem fonte confiável alguma, passados adiante em grupos de Whatsapp. A ponto de eleger políticos tendo como base mentiras e fumaças.

A atualidade da fala de Balzac é absurda. O mundo editorial também não sai incólume. Pela figura do livreiro que Lucien procura, interpretado por Gérard Depardieu, ninguém quer mais poesia. O livreiro sequer sabe ler, entende mesmo é de marketing. Com essa ironia, Balzac desnuda séculos, e o filme acompanha essa acidez, fazendo com que saiamos da sessão desejando ler as 700 páginas do autor.

Paris, um mundo artificial

O filme assume a suntuosidade desse mundo artificial diante dos olhos de Lucien. O filme tem cenas antológicas como a que Lucien está deitado e a câmera desliza por ele enquanto passa pelo personagem bebidas, notas de dinheiro, joias, uma contemporaneidade enorme que iguala Lucien a Madonna em Material Girl, sem perder o sentido histórico da obra.

Desta artificialidade também comento no terceiro capítulo da minha dissertação. Paris se torna uma cidade que coloca todos no centro da visão, onde se vê e se deseja ser visto. A fama pode ser criada facilmente, assim como destruída. A ida à Ópera e aos boulevares fornecem os espaços onde os códigos sociais regem as vidas e as reputações. Lucien é exaltado e massacrado diversas vezes. Assim como a sua esposa, Coralie (Salomé Dewaels), uma jovem cortesã que se torna atriz .

Coralie (Salomé Dewaels)

Quem é o artista em Ilusões perdidas?

Lucien se apaixona por uma jovenzinha chamada Coralie, transformada em cortesã e tão inocente quanto ele. Dois jovens quase crianças sendo influenciados por todos. No entanto, Coralie é, no filme, a verdadeira imagem da artista: saindo das ruas, torna-se uma atriz que interpreta Racine, o sangue literário francês, e encara a literatura não apenas com devoção, mas com seriedade, empenho e estudo. Se temos Lucien como o suposto artista aspirante à literatura, é Coralie quem realmente dá vida à literatura em Ilusões perdidas, ao encarnar a personagem literária no palco.

Nathan (Xavier Dolan) também aparece como o escritor inimigo de Lucien. Excelente, verdadeiro na pena, mas também refém das relações sociais. Ele se torna escritor contando a história de outra pessoa, de um sofrimento que ele assistiu e do qual fez parte. Ao fim, o filme e o livro lançam uma questão complexa, do quanto vale a pena ir e adentrar no jardim de delícias e se sacrificar pela Arte e deixar de viver. Que Arte e Literatura são essas , postas em maiúsculo, como deusas, que pedem tanto? Isso será mesmo literatura ou algo muito mais ilusório, a mera sede de fama e tocar a eternidade?

Assisti ao filme à convite da distribuidora Califórnia Filmes. O filme estará em cartaz na programação do Festival Varilux de Cinema nos dias 25 de novembro a 8 de dezembro, e estreia em 2022 nos cinemas.

Referências bibliográficas:

Minha dissertação de mestrado Confrontos do olhar: a pintura e a figuração feminina por Édouard Manet está disponível aqui, no Teses USP

Pauline, Petit. Les “Illusions perdues” : et déjà au XIXe siècle, on aimait détester les journalistes. France Culture.

BALZAC, Honoré de. Ilusões Perdidas. Tradução de Rosa Freire Aguiar. São Paulo: Penguin, Companhia das Letras, 2011.

Marina Franconeti Ver tudo

Escritora e Mestre em Filosofia na USP, na área de Estética, com a pesquisa Confrontos do olhar: a pintura e a figuração feminina por Édouard Manet. Ama pintar aquarelas, descobrir a magia nas tintas e na prosa do mundo.

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