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Categoriaarte

OBRA DE ARTE DA SEMANA | Os olhos fechados, de Odilon Redon

À primeira vista, a cena aparenta ser a de uma mulher, com os olhos fechados, os ombros nus. Os cabelos são longos, a expressão diz pouco, e da obra emana algo vaporoso da interioridade no instante íntimo, mas dá indícios de um tom sagrado na obra. A confusão sobre o tema e a figura é permanente e alimenta as interpretações no ponto central da obra Os olhos fechados (Les yeux clos, 1890), de Odilon Redon.

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Dividido em duas partes, a composição apresenta uma água opaca, com um brilho central, onde o reflexo do corpo não é visto. Isso oferece uma quebra nos dois espaços, como se a água fosse um bloco que varia entre o translúcido e o opaco. O curioso efeito aos olhos do observador reside no contraste entre essa massa de tinta branca e o resto da tela, que une fundo e água em lilás.

A figura também parece dual, remontando às representações de Cristo, o que daria a essa água, então, algo de sagrado. Há um movimento no traço do ombro, com o esboço deixado aparente, o que dá ao corpo esse mover-se em onda fantasmática, indica o espaço onde esse corpo se desloca.

Se os olhos da figura não retornam o olhar ao observador, o que há para se saber? É uma obra do não-dito, do onírico. De uma grande pausa meditativa, entre a melancolia e a serenidade, um confronto aos olhos que buscam definir e organizar um quadro em um tema, gênero e técnica. Os olhos do próprio observador são seduzidos ao brilho da água, no lugar exato onde estaria o reflexo do rosto. Nesse espaço nos é negado a expectativa do reflexo, de certa normalidade dos sentidos. Só há essa mancha inexplicável, que promove um deslocamento que é o próprio ato de ver.

Nos comentários sobre a obra pelo Musée D’Orsay, afirma-se:

“Os olhos fechados do sono ou da morte [que] evocam o mundo interior, o sonho, a ausência ou a aparência, temas férteis em Odilon Redon, como ele conta em A soi-même, seu diário publicado em 1922. A diluição extrema da tinta a torna quase imaterial, deixando visível o grão da tela. O busto parece flutuar em um espaço que o artista deixa indefinido”.

Na mancha branca que chama nossos olhos, está a bem-vinda confusão dos sentidos, em desconhecermos se são olhos fechados pelo sono ou pela morte. Não difere do grande mistério que reside em olhar os olhos dos outros, de encontrar esse vácuo inexplicável. A ironia está numa obra que, pelos olhos fechados, velados, incita a ver: se instigar pela mancha, pela interioridade, por tudo aquilo que não se vê. Como lançar uma pedra numa água para vê-la se tornar turva.

Há também o próprio ato da respiração nesses olhos fechados, que negam por um instante o real e os estímulos, para se concentrar nas águas, no silêncio que revela. Não é uma negação completa do real: é um reconhecimento do corpo nesse real. Por vezes, o desafio humano está em constatar que se pode abrir os olhos de outras formas durante a vida, que o seu movimento é sempre entre o abrir-se e o fechar-se.

Ademais, o texto do Musée D’Orsay chega a dizer que esse é “sem dúvida um retrato da esposa Camille Falte”. Odilon Redon se apoiava bastante no mistério e no ato da fantasia da pintura simbolista. Procurar as suas outras obras é como adentrar em um mundo colorido imaginado, entre borboletas e flores.

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Butterflies, 1910
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Pandora, 1914

Por isso mesmo, ele toma o sagrado entre esse gesto comum da intimidade, fundindo, numa possível interpretação, a imagem da esposa com Cristo. Na pintura de 1897, Cristo em silêncio, conseguimos encontrar as correspondências dos olhos fechados. Somado a isso, haveria também uma referência aos bustos de Francesco Laurana, como Busto de uma mulher (Bust of a Lady, 1470).

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Le Christ du silence, 1897
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Bust of a lady, Francesco Laurana, 1470

Com essa soma de referências, Os olhos fechados, de Odilon Redon, incita a recriar a serenidade da contemplação. Na jovem de Francesco Laurana, no próprio Cristo de Redon, está essa proposta de ver com os olhos fechados o próprio silêncio e vazio. E unifica o observador à oração sagrada dos momentos.

Referências bibliográficas

Musée D’Orsay

DIXON, Christine. Masterpieces from Paris: Van Gogh, Cézanne, Gauguin and beyond Post-Impressionism from the Musée d’Orsay exhibition book. National Gallery of Australia, Canberra 2009 (site)

Créditos de imagem:  © Musée d’Orsay, dist.RMN / Patrice Schmidt

OBRA DE ARTE DA SEMANA | A praia e o mar por Eugène Boudin

chegada da tempestade boudin

Publicado no site Artrianon (abril)

O ar revolto do mar, o conflito da água com o céu, a expansividade das nuvens pesadas enunciando a chuva. E o repouso do público cativo na areia, desse novo modo de vida, de buscar a praia como descanso. Eugène Boudin foi cativado, entre seus trabalhos, pela mudança de atmosfera das praias e, arranjando-se na técnica impressionista, registrou os instantes de luz entre areia e mar.

Nascido na Normandia em 1824, Boudin conviveu com o pai marinheiro em uma das primeiras embarcações a vapor que corriam entre Le Havre e Honfleur. Essa experiência vendo o mar é importante como parte de sua trajetória e no encantamento pelos fenômenos. Discípulo de Corot, há um alinhamento entre as ideias de ambos quando consideramos os seus registros. Corot disse “submetamo-nos à nossa primeira impressão. Se realmente nos comovermos, a sinceridade da nossa emoção será transmitida a outros”. Boudin, por sua vez, falou a um aluno “a impressão é obtida em um instante, mas deve ser condensada seguindo as regras da arte, ou melhor, o seu próprio sentimento, e isso é a coisa mais difícil – terminar uma pintura sem estragar nada”. Essa conjunção da fala dos dois revela a base estrutural da técnica impressionista, registrar a atmosfera e a sensação em conjunto na observação de uma cena na vida ordinária.

Prenunciava-se, com Boudin, as tendências impressionistas. Corot o chamou de “o rei dos céus”. Monet encontrou nele, então, o frescor da sensação que viria a ser o seu enfoque anos depois, por ter trabalhado quando adolescente ao lado de Boudin. O pintor costumava fazer esboços, no verão, a partir de suas viagens. E os terminava em seu estúdio em Paris, durante o inverno. Ele chegou a dizer que “tudo o que é pintado diretamente e no local sempre tem uma força, um poder, uma vivacidade de toque que não se pode recuperar no estúdio”. O hábito dele era ficar entre a Normandia e a Bretanha, uma costa que inspirou igualmente Monet em suas cenas plein air de montanhas e gramados no limite em face ao mar. Embora Boudin tenha feito também pinturas voltadas às paisagens do interior, cenas de camponeses e naturezas-mortas, o fascínio exercido pelo litoral, pelos espaços da praia e do mar, foi um forte elemento entre seus quadros.

Em 1862, ele começou a pintar o amontoado de turistas que passavam férias nos resorts de praia da Normandia. Essas imagens, as mais conhecidas, eram muito comercializadas, até mesmo indicando que a pintura passa a ser parte de imagens de difusão de uma classe, por gravuras e fotos mais acessíveis do que o quadro.

A série de quadros na praia revela o trabalho concentrado, de Boudin, em representar a atmosfera e as alterações de luz em um mesmo espaço diante dos olhos. A Chegada da Tempestade (Approaching Storm), quadro de 1864, é o exemplo claro de uma obra que transmite o sentimento da observação do artista. A escolha em aplicar uma sombra que se expande pela areia, onde as pessoas se abrigam, o vento que levanta a borda da saia de uma dama, já abrigada com um casaco preto. Tudo anuncia o temor da tempestade, a queda de temperatura, o instante exato da transição não apenas de um clima, mas de um humor: da celebração e do lazer ao recolhimento quase melancólico. No céu, as nuvens são muito cinzas e maciças, e o sentimento claustrofóbico de ameaça preenche o quadro inteiro, juntamente com a cor.

Parece que o pincel acaba sendo regido pelo sentimento da impressão observada. Para verificar as alterações na praia, podemos ver o trabalho de cor em outros quadros de Boudin. Em Cena de praia (Beach Scene, 1862), o céu é limpo, vemos mais fatos acontecendo, como uma dama andando com a sombrinha, pessoas sentadas, um rapaz brincando com o cachorro. A tranquilidade está no sentimento de espera e fluidez no tempo.

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Beach Scene, 1862

Praia em Villerville (The Beach at Villerville, 1864) anuncia o crepúsculo, com o cinza já querendo tomar o espaço do laranja. As pessoas se agrupam, nos últimos instantes de descanso antes de ir embora de mais um passeio. Damas andam e conversam, venta um pouco, o cachorro contempla esperando a multidão decidir partir. A sensação que o quadro dá é de apreciação antes do fim, e não de uma interrupção pela tempestade. Outra versão semelhante é Figuras na praia em Trouville (Figures on the Beach in Trouville, 1869), onde os personagens estão enfileirados, em vez de amontoados. Parecem olhar o sol ir embora, e o céu está mais laranja e adocicado.

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The Beach at Villerville, 1864

 

Museo Thyssen- Bornemisza
Figures on the Beach in Trouville, 1869

Para comparar com uma obra feita anos depois, em 1885, o quadro Mares tempestuosos (Rough Seas) a cena já ganha uma pincelada mais agressiva, o cinza tem mais frescor. Parece tão molhado quanto a própria tempestade. As ondas são de um branco pouco diluído, e tudo leva a parecer que testemunhamos a aflição do barco no perigo marítimo.

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Rough seas, 1885

Nota-se o projeto de Boudin em se aperfeiçoar pela técnica impressionista. De forma quase humilde, o pintor chegou a afirmar: “posso muito bem ter tido alguma pequena influência sobre o movimento que levou os pintores a estudarem a luz do dia real e a expressar os aspectos mutáveis ​​do céu com a máxima sinceridade”. Com isso, Eugène Boudin reinou nos céus mutáveis da impressão para que outros, como Monet, seguissem observando o fenômeno nas cores fugidias do mundo.

Referências bibliográficas 

National Gallery of Art 

SCHAPIRO, Meyer. Impressionismo: reflexões e percepções. Tradução: Ana Luiza Dantas Borges. São Paulo: Cosac & Naify, 2002.

OBRA DE ARTE DA SEMANA | As quatro partes do mundo sustentando a esfera celeste, de Jean-Baptiste Carpeaux

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Publicado no Artrianon (março)

Uma obra grandiosa que fala sobre a humanidade e que soa incrivelmente renovada se a pensarmos nos últimos dias de anúncio de uma pandemia, com fechamentos de fronteiras e países tomando decisões emergenciais em razão do novo coronavírus. A escala mundial, de repente, se tornou pequena e possível de se sentir em poucos dias, em qualquer região.  A escultura em bronze do artista Jean-Baptiste Carpeaux, As quatro partes do mundo sustentando a esfera celeste (Les quatre parties du monde soutenant la sphère céleste) de 1872, representa o trabalho da Europa, da América, da Ásia e da África em segurar, no alto, o globo terrestre.

Sobre Carpeaux, sabe-se que o artista foi filho de pedreiro e fabricante de rendas. Seu pai conseguiu matriculá-lo aos 10 anos na famosa Petite École de Paris, onde aprendeu desenho, arquitetura e lapidação. Em 1844, ele ganhou a entrada para a École des Beaux-Arts e passou a maior parte da década seguinte repetidamente tentando ganhar o Prix de Rome em escultura. Quando finalmente ganhou, pôde viver em Roma e se inspirar nos grandes nomes italianos. Carpeaux criou também as obras Ugolino e seus filhos e A Dança, um grande e animado grupo para a fachada da Opéra de Paris, e a qual foi recebida pelos críticos e público como um escândalo.

Exposta no saguão do Musée D’Orsay, trata-se de uma das principais esculturas que reside na simbologia do museu junto ao relógio. Vale observar, em primeiro lugar, que hoje consideramos como continentes a América, Europa, África, Ásia, Oceania e a Antártida. A escolha do artista se concentra em nomear apenas as regiões, possivelmente, a partir dos domínios entre impérios e reinos. É uma divisão com a perspectiva do século XIX.]

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Dito isso, podemos pensar sobre a estrutura da escultura. Para começar, a esfera celeste é toda vazada. A escolha de Carpeaux em representar o globo dessa forma é inteligente, pois aquilo que poderia parecer uma massa densa, o peso enorme que Atlas segura nas costas, é figurada com leveza, quase sem forma. O contraste entre o mármore dos corpos e o globo dão a impressão de que o peso reside mais entre os continentes do que na esfera.

É preciso notar que cada figura apresenta um movimento à cena. Elas não se encontram estáticas ao sustentar o globo, mas girando em aflição por dividir o peso e o movimento. A Europa tem os braços levantados, o cabelo esvoaçando e olha para o globo, o corpo todo reto. A Ásia, com suas tranças longas, olha preocupada, com o rosto voltado para a Europa. A África e a América estão lado a lado, uma com os cabelos longos olhando para o alto, e a outra com o cocar de penas, o corpo virado para o lado. O detalhe interessante está na figura da África: grilhões foram quebrados, e ela está livre da escravidão. Carpeaux fez bustos em vários materiais dessas personagens, e a figura da África deu origem a um busto que Carpeaux exibiu com a inscrição “Por que nascer escravo?”.

Considerando que o século XIX é um período tomado pelo orientalismo e visões reducionistas sobre nacionalidades além da europeia denominadas como o “outro”, o trabalho de Carpeaux é admirável, nesse contexto, por preservar os traços de cada figura e marcas das culturas. É verdade que os corpos seguem os padrões europeus da beleza feminina, que retorna constantemente à Vênus. Ainda assim, o artista não escolheu em representar as quatro partes do mundo por figuras femininas de mesma face, alterando só os gestos. São figuras com características e emoções próprias, tornando o conjunto da escultura uma reunião de nacionalidades além das fronteiras europeias, as quais tinham perspectivas hegemônicas no século.

Além dessa obra, há outra versão feita por Carpeaux, no Jardim de Marco Polo, na Fontaine de l’Observatoire, em Paris. O barão Haussmann, o prefeito de Paris responsável pelas alterações que delinearam o aspecto que conhecemos hoje da cidade, encarregou Carpeaux de projetar a fonte em 1867. O escultor escolheu o tema que combinou com o do Observatório e a figura de Marco Polo, mercador veneziano que viajou para a Ásia, com todo o ideário europeu de “descoberta” de outras culturas.

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Foi Emmanuel Frémiet quem continuou o trabalho da escultura na fonte após a morte de Carpeaux em 1875, fabricando os oito cavalos, os golfinhos e as tartarugas da bacia. Louis Vuillemot fez as guirlandas em torno do pedestal. E Pierre Legrain esculpiu o globo com os signos do zodíaco.

O trabalho todo de Carpeaux é uma composição majestosa da delicadeza no bronze e na pedra. O pathos da cena, a emoção, é a escolha central do artista em contar uma história pela escultura e cativar. Isso aparecia no seu gosto pelo movimento das vestes, dos gestos e olhares, algo mais expansivo e apaixonado do que o ar contido do neoclassicismo e as referências gregas. A escolha do globo terrestre também retoma a cosmogonia grega, de Parmênides e Platão, pois nessa tradição havia o mundo terrestre e o Outro-Mundo. Passando para esse segundo, pela morte, leva ao círculo desejável.

O universo, em Timeu de Platão, estaria na forma da esfera: “Quanto à forma, Ele (o Criador), deu-lhe (ao Universo) a mais conveniente e natural. Ora, a forma mais conveniente ao animal que deveria conter em si mesmo todos os seres vivos, só poderia ser a que abrangesse todas as formas existentes. Por isso, ele torneou o mundo em forma de esfera, por estarem todas as suas extremidades a igual distância do centro, a mais perfeita das formas e mais semelhante a si mesmo, por acreditar que o semelhante é mil vezes mais belo do que o não-semelhante” (PLAO, 2, 488).

Seguindo esse trecho de Platão, a proposta da obra de Carpeaux propõe o equilíbrio pela esfera porque as quatro partes do mundo podem ser vistas como a principal conforme fizermos o círculo, o movimento da esfera em torno da escultura. Nós mesmos passamos a ser uma parte do movimento de sustentação. Estando o globo segurado pelas duas mãos de cada figura, evita-se representar o globo como objeto detido em apenas uma das mãos, como dominância de território. O poder está nas quatro figuras, de modo que esteja submetido à preservação do todo. E, sendo o círculo essa perfeição que dá ao semelhante a beleza, não há distinção entre as partes. São todas em igual equilíbrio responsáveis pela manutenção da esfera celeste.

Nada diferente da situação vivida no século XXI, em que a possibilidade de viver uma pandemia em escala global e dar visibilidade a mais histórias e vivências das pessoas em torno do mundo ao mesmo tempo, reúne, em certa medida, esse belo do semelhante e a perfeição da totalidade. E, ainda, demonstra que a sustentação de algo tão grandioso como a Terra e a vida ainda reside numa responsabilidade social pelo coletivo.

Referências bibliográficas

CHEVALIER, J. Dicionário de símbolos. Jean Chevalier, Alain Gheerbrant, com a colaboração de: André Barbault. coordenação Carlos Sussekind; tradução Vera da Costa e Silva. 26a edição. Rio de Janeiro: José Olympio, 2012.

Tortured Soul, Golden Touch – The New York Times

Enciclopédia Britânica

Musée D’Orsay

Les rues de Paris

Créditos das imagens: Louise Going out, Wikipédia

OBRA DE ARTE DA SEMANA | A noite veneziana, de Umberto Brunelleschi

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Publicado no site Artrianon

O carnaval chega ao fim e permanecem apenas vestígios das fantasias encenadas nos dias de comemoração. Nosso carnaval, cheio de cores vibrantes, brilho, saias de tule, capas, máscaras citadas nas marchinhas antigas de carnaval ecoam marcas da tradição vienense. Cada uma pertencente aos seus próprios contextos reacende a magia e o mistério da comemoração coletiva e enchem a cidade de novas tonalidades inesperadas.

A obra em questão é uma ilustração do artista italiano Umberto Brunelleschi, ‘A noite veneziana’, parte de um livro de 1913 do autor Alfred de Musset. Segundo o livro Histoire de l’édition français, no final do século XIX, o jovem artista foi a Paris, onde produziu anúncios publicitários, desenhando retratos e criando cenários e figurinos para o teatro, alguns deles para a dançarina Joséphine Baker. Na resenha satírica, L’assiette au beurre, ele publicou caricaturas sob o pseudônimo de Arcun Al-Raxid, com ilustrações de livros bastante graciosas e inspiradas por representações galantes do século XVIII. Os personagens foram emprestados principalmente da ‘commedia dell’arte’, à qual Brunelleschi associou o art déco, e os ares frívolos dos bailes, sua escolha temático, em particular para reedições de obras clássicas, como as de Goethe, os contos de Hans Christian Andersen, e as histórias de Alfred de Musset. Ele também ficou famoso por suas ilustrações eróticas.

Esta edição ilustrada, composta por três obras de Alfred de Musset, é marcada pelo estilo galante de Brunelleschi: cenas românticas, perucas, máscaras. A primeira história se passa na noite de Veneza, trazendo os elementos das máscaras e dos vestidos volumosos presentes nos bailes, junto às cores brilhantes e os gestos grandiosos da “comédia de arte”. As ilustrações contam com molduras e ornamentos decorativos, tais como os livros de luxo do século XVIII. Ainda de acordo com o livro Histoire de l’édition français, na primeira metade do século XX dois estilos ‘antigos’ eram particularmente populares: um referente à Idade Média, com xilogravuras no texto, muitas vezes impressas em vermelho (como as de Louis Jou), o outro em estilo barroco e rococó francês, inspirado em ilustrações coloridas e textos levemente irônicos. Brunelleschi é um representante do segundo estilo.

A coletânea A noite veneziana; Fantasia; Os caprichos de Marianne (La nuit venitienne ; Fantasio ; Les caprices de Marianne) foi publicado em 1913 por Alfred de Musset. A edição é de Piazza, cujo proprietário, Henri Piazza (falecido em 1929), foi um dos poucos editores antes da Primeira Guerra Mundial, especializado em livros de luxo. A edição de Musset foi impressa em 500 cópias, todas em papel japonês, com um selo correspondente à assinatura do artista.

Na cena, vemos as fantasias características do carnaval de Veneza. A ilustração é chapada, trazendo marcas da art déco. Vemos ao fundo nuvens, um céu estrelado e alguns edifícios que projetam uma luz amarelada, criando formas quadradas no chão e delimitando o espaço. As cores vibrantes se concentram nas fantasias dos personagens mascarados: os três usam uma máscara Colombina, uma invenção moderna, pois oculta apenas parte do rosto. Trata-se de uma leitura mais associada aos bailes aristocráticos do século XVIII. Sem grandes significados, como as máscaras clássicas dentro de suas hierarquias vienenses, elas apenas encenam a celebração junto aos figurinos.

O personagem central parece evocar, com certa liberdade na escolha das vestes, a figura do Pierrot, do Louco (como é representado em algumas cartas de tarot), o descontrole da alegria carnavalesca. Ele segura uma espécie de globo o qual lembra a luz solar, sorri para o objeto enquanto os outros dois personagens dançam e tocam um bandolim e um pandeiro.

O trio encerra o equilíbrio da cena nos itens que carregam para garantir a diversão infinita. A ilustração de Umberto Brunelleschi atravessa os séculos, trazendo a felicidade vibracional das fantasias e da promessa de encenar o oculto pelas máscaras, em dias de exceção pelo carnaval. Uma data festiva onde a inversão acontece, as tradições cedem às loucuras infantis da imaginação libertina, ganhando vida entre tules, olhares e brilhos.

Referências bibliográficas:

Histoire de l’édition français: Le livre concurrence. Paris, Promodis, 1989 (National Library of the Netherlands)

Gallica BNF

Imagem 

 

OBRA DE ARTE DA SEMANA | O tocador de pífaro, de Édouard Manet

Hoje, dia 23 de janeiro, seria aniversário do Manet! Artista que estudo desde a iniciação científica e atualmente no mestrado. Por isso resolvi escrever esse mês sobre O tocador de pífaro.

Publicado no Artrianon

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O tocador de pífaro (1866), de Édouard Manet, é uma obra delicada e simpática. Um garotinho toca um pífaro, uma espécie de flauta, encerrado em vestes formais e uma postura imponente. A delicadeza da criança se transforma nas dimensões grandes do quadro e Manet refaz as concepções de retrato apresentando essa obra.

Ao ver Velásquez no Museu do Prado, em viagem feita em 1865, Manet escreve ao amigo e artista Henri Fantin-Latour: “Esta é a porção de pintura mais surpreendente que eu jamais vi…o fundo desaparece: é o ar que contorna o homem, todo vestido em preto e vivo”. Essa inspiração hispânica encontrada em breve viagem participa das obras em que Manet situa personagens da multidão de forma isolada no centro do quadro, em um fundo neutro ou, como no caso posterior de O Artista (1875), entre uma leve tonalidade nebulosa simulando o ar, o qual não distingue chão e fundo.

Manet aplica em O tocador de pífaro essa técnica, tornando o garotinho uma figura grandiosa na tela em um fundo cinza. A platitude é sua marca, onde a forma se torna bidimensional. A platitude do quadro seria esse aspecto de um espaço suprimido entre o tocador de pífaro e o fundo. Distinguimos com uma leve linha vaporizada no chão, quase imperceptível, talvez uma ilusão aos olhos. A sombra do personagem é pouco projetada, onde percebemos pouco o volume da forma.

Com efeito, é uma representação bem simples. O artista escolhe um caminho diferente, desvia-se da opção de triunfar pelo desenho a partir da disposição do detalhe nos objetos ao fundo, ou mesmo dar um cenário que especifique a posição espacial e também social do personagem. Manet opta por um fundo neutro. O cinza traz apenas um pouco de um amarelo enevoado, o qual ilumina brevemente o lado direito da tela, e o azul claro contorna em fumaça a silhueta do personagem, criando um efeito de engrandecimento da forma. O vermelho da calça é opaco, o branco se destaca com poucos efeitos de sombra nas dobras do tecido. O preto é uma mancha brutal e poderosa, em que o tecido do casaco tem pouca fluidez e só ganha contraste pelo dourado dos botões.

O destaque é dado mais ao objeto do que à figura humana. A flauta aparece mais escura, enquanto o estojo vibra em dourado e chama a atenção do olhar do espectador. A face do menino tem uma expressão que pende entre o estar concentrado nas notas e levemente distraído com qualquer atividade que esteja acontecendo como um desfile pela cidade, onde possivelmente pertence a um grupo de músicos. As bochechas se encontram coradas por uma mancha, onde a pele tem algumas tonalidades justapostas, como o amarelado, o rosa claro, o vermelho, destoando um pouco das orelhas mais sombreadas. Tem uma vivacidade nessa tomada da pele, pois Manet não busca uma uniformidade acetinada, mas sim uma confusão de manchas e desigualdades, onde se percebe as marcas do pincel.

De fato, a tomada da cor por Manet, ao precisá-la enquanto tom reduzido é muito semelhante àquele inicial do tubo de tinta. Nela não houve tantas interferências para alterar a cor na paleta e, assim como a simplicidade dada à figura, esses elementos destacam a obra de Manet entre os demais artistas do Salão como uma espécie de estranhamento.

A obra foi rejeitada pelo júri do Salão de 1866. Mas provocou o entusiasmo do crítico e escritor Émile Zola, amigo do pintor. Ele identifica na obra um “sentimento propriamente moderno”. “Eu disse mais acima que o talento de Monsieur Manet era feito de justiça e simplicidade, me remetendo principalmente a impressão que esse quadro me deixou. Eu não acredito que seja possível de obter um efeito mais pulsante com modos menos complicados” (ZOLA, 1979, p. 289).

O filósofo Michel Foucault também fez algumas considerações sobre O tocador de pífaro, em uma conferência na Tunísia em 1971. Ele menciona essa supressão da profundidade no quadro, e se concentra na luminosidade da tela. Em vez de Manet utilizar uma luz advinda de uma janela na cena, a luz parece incidir de forma perpendicular. Por isso se percebe uma sombra apenas no ombro do garoto, no interior da mão e do pé que se ergue levemente. Isso dá “uma iluminação real à tela, como se a tela em sua materialidade tivesse sido exposta a uma janela aberta” (FOUCAULT, 2004, p. 36). Ou seja, coloca em dúvida a própria representação da luz na tela, o uso dos artifícios para simulá-la e lembra o espectador de que se trata de uma pintura.

O trabalho de Manet altera as impressões sobre o retrato e mesmo quem pode ser protagonista de uma obra de arte. Assim, em vez de escolher as figuras aristocráticas, é a pessoa comum quem ganha o espaço grandioso da tela, com a vivência moderna finalmente adquirindo suas próprias cores na história da arte.

Musée D’Orsay 

FOUCAULT, Michel. La peinture de Manet suivi de Michel Foucault, um regard. Éditions du Seuil, 2004.

ZOLA, Émile. Mês Haines/ Mon Salon. Ressources. Paris – Genève, 1979.

OBRA DE ARTE DA SEMANA | Natividade Mística, de Sandro Botticelli

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Publicado no Artrianon (DEZEMBRO 2019)

Natividade Mística, obra de 1500 feita por Sandro Botticelli, demarca o ar de celebração no nascimento de Jesus, data comemorativa do dia 25 de dezembro. Traz a combinação do nascimento de Cristo, conforme narrado no Novo Testamento, com a visão da Segunda Vinda, como prometido no Livro das Revelações. A Segunda Vinda – o retorno de Cristo à Terra – traria o fim do mundo e a reconciliação de cristãos devotos.

O quadro está hoje exposto no National Gallery em Londres e é a única obra a ter sua assinatura. A dimensão da cena apresenta a ordem de importância: Maria e Cristo se encontram no centro da cena e o tamanho das figuras é um pouco maior se comparadas às demais. À esquerda se encontram os Três Reis Magos e, à direita, os pastores, fazendo menção de falar com Maria e José.

Apesar dos gestos se mostrarem estáticos, a pintura simula o acontecimento do nascer de Cristo e o instante que antecede a Adoração dos Magos. Conforme a descrição feita pelo National Gallery, presenciamos o instante em que “a cúpula dourada do céu se abriu e é circundada por 12 anjos segurando ramos de oliveira entrelaçados com pergaminhos e pendurados com coroas”. Em primeiro plano, três pares de anjos e homens se abraçam e, entre seus pés, há alguns demônios ocultos que buscam abrigo nas fendas localizadas nas rochas, oriundos do submundo.

Botticelli sentiu que ele estava vivendo durante a Tribulação. Presume-se, no texto bíblico, que dificuldades, fome e guerra precedam imediatamente a segunda vinda de Cristo. Em 1494, um enorme exército francês invadiu a Itália e 10.000 soldados entraram em Florença, de modo que os florentinos temiam que o rei da França pretendesse saquear a cidade. Savonarola entrou no vácuo político, encontrou-se com o rei francês e o convenceu a deixar Florença pacificamente. Em sua gratidão e alívio, os florentinos viam cada vez mais o frade como um profeta e sua pregação atraiu enormes multidões para a Catedral de Florença.

Savonarola afirmou que Florença poderia se tornar a nova Jerusalém se os cidadãos se arrependessem e abandonassem seus luxos pecaminosos – e isso incluía destruir obras artísticas. Suas crenças foram concretizadas quando grupos de jovens evangélicos saíram às ruas para incentivar as pessoas a se separarem de seus luxos, suas imagens lascivas e livros, suas vaidades, pentes, espelhos”. Foi nessa atmosfera que Botticelli criou Natividade Mística.

Influenciado por Savonarola, as falas dele sobre os pecados humanos e o temor pelo fim do mundo ecoam na obra de Botticelli. Ainda segundo o National Gallery, a inscrição grega menciona “os problemas da Itália”, uma referência à invasão dos franceses. O texto é sombrio e cita o diabo. Botticelli teria associado, em sua obra, os eventos políticos turbulentos ao Apocalipse, tratando-se, então, do fim do mundo e a segunda vinda de Cristo. O período de revolta que ele descreveu terminaria com o retorno de Cristo, quando o diabo seria enterrado, como na figura.

Os anjos representativos da fé, esperança e caridade, dançam celebrando a vida de Cristo acima da mãe e do bebê. O nascimento místico que nomeia a tela apresenta esse contraste entre o bebê e seu simbolismo divino, o mundo dos vivos e o dos santos, o fantástico e o místico tanto nos demônios quanto na salvação pelos anjos. Trata-se da combinação dos opostos entre as sombras e as luzes. Assim, Botticelli demarca uma celebração que não se esquece das tragédias humanas, corporificando-as pelo discurso marcado por um tempo de temores e esperanças sobre o futuro. Como todo fim de década e início de mais outra.

Referências bibliográficas

National Gallery

BOTTICELLI, Sandro. Complete Works of Sandro Botticelli. Delphi Classics, 2015, p. 165.

OBRA DE ARTE DA SEMANA | Ofélia, de Sir John Everett Millais

Ophelia 1851-2 by Sir John Everett Millais, Bt 1829-1896

Publicado no Artrianon (NOVEMBRO 2019)

A imagem de Ofélia e outras personagens de Shakespeare foram inspirações frequentes para os pintores vitorianos que usavam passagens da obra para representar as cenas imaginadas. Uma das mais reconhecidas é Ofélia (Ophelia,1851-2), de Sir John Everett Millais. Inerte nas águas, Ofélia se encontra rodeada por flores em um vestido prateado e temos, pelo olhar vago, apresentado o instante em que a vida se esvaiu da jovem.

O trecho de Shakespeare tem a imagem tornada clássica posteriormente da personagem. Ofélia se lança ao rio, cantando músicas antigas, como uma sereia. As vestes se expandem e, por um tempo, permanecem suspensas. Até que o peso vai aos poucos levando-a ao fundo e o vestido fica enlameado pela densidade da água. A representação da personagem trágica era frequente nos Salões, aparecendo regularmente nas exposições da Royal Academy. Como exemplo, Arthur Hughes exibiu sua versão no mesmo ano em que a pintura de Millais foi exposta.

Com efeito, tratarei aqui de algumas passagens de um artigo que publiquei sobre a idealização de Ofélia como uma representação comum, do século XIX, à morte de personagens femininas. Usando a leitura de Shakespeare como referência, os indícios de loucura de Ofélia passam a surgir após o choque em ver o seu pai, Polônio, morto por Hamlet, até culminar em seu suicídio. O diálogo entre dois coveiros no quinto ato da peça insinua que a jovem teria se matado, e eles questionam se “deve ser sepultada em terra santa aquela que voluntariamente conspira contra a própria salvação” (SHAKESPEARE, 1979, p.301).

Millais escolhe retratar a morte de forma sublimada pelas diversas flores e cores intensas que, em vez de indicarem o horror da morte de uma jovem, emolduram um corpo que aparenta estar apenas dormindo. Aqui, o voyeurismo não se encontra pela exposição da nudez feminina. Ainda assim, a obra ressalta a contemplação desta figura feminina pelo viés do auto sacrifício causado pelo ato de Hamlet e a morte do pai. Portanto, o olhar, no quadro de Millais, apresenta “um lirismo que a natureza emprestaria à cena a fim de conceder uma delicadeza na morte, amenizando-a a partir da figura de Ofélia lançada às águas como quem repousa no leito”.

Há, porém, uma sutileza que não pode passar despercebida no texto de Shakespeare, que é o fato o qual intensifica o abalo psicológico de Ofélia. Na cena em que se considera a loucura de Ofélia, ela conversa com a rainha através de uma canção ambígua. Trata-se de uma breve história de uma jovem que perde a virgindade e se vê desiludida pelo amado:

É dia amanhã de São Valentim.

Bem cedo estarei à sua janela,

Donzela que sou, pra ser Valentina.

Ergue-se ele então, sua roupa veste,

Abre-lhe a porta de seu dormitório.

Donzela ela entrou, mas quando saiu

Não mais era como ali tinha entrado”

 E Ofélia prossegue:

“Por Jesus Cristo e Santa Caridade,

Coitada de mim! Vergonha, meu Deus!

 Se isto o moço faz, tendo ocasião,

Merece, por Deus, censura severa.

– Antes – diz ela – de me derrubar,

Tu prometeste comigo casar.

– Pela luz do sol, tê-lo-ia feito,

Não tivesses tu, vindo pro meu leito”

O contato de Ofélia e Hamlet, no decorrer da peça, aparenta ser mais um segredo entre a corte. Ofélia chegou a simular uma conversa com Hamlet, que estava sendo ouvida pela rainha, o pai Polônio, e o rei. A conversa que se segue é obscura e Hamlet se mostra agressivo com ela, ironiza a honestidade de Ofélia enquanto ela afirma que guarda dele lembranças que gostaria de lhe devolver (SHAKESPEARE, 1979, p.253). Hamlet reconhece que Ofélia está, nesta conversa, representando um papel. Contudo, ele acrescenta “amei-te antes”, ao que Ofélia rebate “Foi, na verdade, meu senhor, o que me fizestes acreditar”, o que se aproxima do verso da canção posterior. E, por fim, Hamlet responde “Entra para um convento” (SHAKESPEARE, 1979, p.254).

No original, Shakespeare faz uso da palavra “nunnery” que, de acordo com a nota do tradutor da edição usada nas citações anteriores, tem um sentido, como gíria, de prostíbulo. Para reforçar a referência do tradutor, de acordo com o site da British Library, o primeiro registro do termo nunnery, no Oxford English Dictionary, consiste no sentido de “bordel”, feito em 1593 na obra Christ Teares of Jerusalem, de Thomas Nash. Em adição, no ato 3 de Hamlet, no original o protagonista fala a Ofélia “Get thee to a nunn’ry” (3.1.120; 128–29; 136-37; 139). Estamos também diante de um fato curioso, pois no século XIX, tanto artistas franceses quanto britânicos e americanos, representavam o máximo da delicadeza e auto sacrifício feminino na forma da freira ou da mulher no leito de morte, ou retratavam, em contraste, as cortesãs, as quais por vezes também sucumbiam à morte na pintura e na literatura. Assim, a loucura de Ofélia parece muito bem justificada, se considerarmos que houve o desvirginar da jovem, a provável recusa posterior de Hamlet, a perda desse amor e o qual será ainda responsável pelo assassinato do pai de Ofélia.

Segundo informações de descrição da obra pelo Tate Museum, a modelo de Ofélia foi Elizabeth Siddal, uma das favoritas dos pré-rafaelitas que mais tarde se casou com Rossetti. À título de curiosidade, ‘Lizzie’ foi obrigada a posar por um período de quatro meses em um banho cheio de água mantida quente por lâmpadas embaixo. Certa vez, as lâmpadas se apagaram, fazendo-a pegar um resfriado severo. O pai da modelo ameaçou Millais com uma ação legal até ele finalmente concordar em pagar as contas do médico.

O simbolismo da obra merece também atenção. A representação das flores teve um cuidado à parte por Millais. Com características minuciosas da botânica, as plantas povoam as águas e fazem referências também ao texto shakespeariano. Pela descrição do Tate Museum, as rosas perto da bochecha e do vestido de Ofélia possivelmente fazem alusão a seu irmão Laertes que a chamou de “rosa de maio”. Com efeito, “o salgueiro, a urtiga e a margarida estão associados ao amor, à dor e à inocência abandonados”. As violetas, que Ofélia usa em uma corrente em volta do pescoço, “representam fidelidade, castidade ou morte dos jovens”. A papoula significa morte. Todo o conjunto de flores, na verdade, reforça o caráter feminino e a associação habitual da flor à fertilidade e à inocência.

Embora a composição das flores e das cores torne o quadro um exemplo de grande mérito na execução, é o olhar de Ofélia que consegue, ainda assim, retomar a melancolia do abandono da personagem feminina e de seu desespero. É a expressão facial, advinda do trabalho da modelo e da recriação do artista, que fornece certa destituição do mero voyeurismo. Na obra de Arthur Hughes, por exemplo, Ofélia é só uma jovem pequenina e delicada repousando sentada no tronco de uma árvore, sem necessariamente ser apenas a representação da personagem de Shakespeare. Poderia muito bem ser mais uma ninfa na floresta, se não houvesse a moldura em torno do quadro com o trecho de Shakespeare inscrito para delimitar a representação.

ophelia arthur

No caso da Ofélia de Millais, porém, há a presença desse tom onírico das ninfas, com a adição pertinente do olhar da personagem que dá a explicação necessária para anunciar que se trata de Ofélia, uma jovem já morta nas águas. São os olhos da modelo e da personagem, forjando a ausência de vida, que preservam resquícios do choque e até um possível desconforto no tom mórbido de se escolher representar a morte feminina por essa perspectiva. Apesar das flores e da insistente delicadeza idealizada, é o olhar de Ofélia no quadro que ainda resiste e corporifica o sofrimento da personagem clássica de Shakespeare, dando um passo além entre as idealizações dos corpos femininos desfalecidos entre as flores.

Referências bibliográficas

Tate Museum

British Library

DIJKSTRA, B. Idols of perversity.  New York: Oxford University Press, 1986.

FRANCONETI, Marina. “AS IDEALIZAÇÕES DO FEMININO E AS OBRAS DE MANET NO SÉCULO XIX”, p. 165-182 . In: . São Paulo: Blucher, 2018.

SHAKESPEARE, William. Hamlet. São Paulo: Abril Cultural, 1979.

OBRA DE ARTE ESPECIAL DE HALLOWEEN| São Bartolomeu esfolado, de Marco d’Agrate

Publicado no site Artrianon

A estátua de São Bartolomeu esfolado, feita pelo escultor Marco d’Agrate em 1562 para a Veneranda Fabbrica do Duomo di Milano chama atenção pelos seus detalhes, poesia e certa obscuridade de seu tema. Atualmente, fica entre o altar da Apresentação e o de St. Agnes Duomo de Milão, em um pedestal alto, na ala direita do transepto da Catedral.

são bartolomeu esfolado

São Bartolomeu é um dos doze apóstolos de Cristo, executado por sua fé cristã, retratado na escultura com base na iconografia pela qual ele é identificado após a pena sofrida. Não há evidências de uma “introspecção psicológica” ou fé expressa no martírio de Bartolomeu. Ele se confunde mais com uma ode à anatomia humana e faz um encontro entre ciência e fé. O trabalho de Marco d’Agrate não é o de enfatizar o gesto do Santo em misericórdia ou em sacrifício. Demora um pouco para se compreender a história que envolve a estátua e delimitar o que significa o suposto pano que ele segura.

são bartolomeu esfolado detail

A curiosidade que o século XVI carrega pela anatomia humana recebe destaque na obra, em que cada filamento, ossatura se constitui de forma tão perfeitamente talhada no mármore que a surpresa é a de ver exposto o interior do corpo humano. O primeiro trabalho científico sobre anatomia de Andrea Vesalio, sobre o estudo de autópsia do corpo humano e a dissecção de cadáveres, foi publicado em Veneza em 1453. Vale destacar também o grande apelo da anatomia nos trabalhos e pesquisas de Leonardo Da Vinci e o valor dado ao desenho do corpo humano como máxima expressão da proporcionalidade e perfeição da Natureza.

Trata-se, portanto, de um personagem bíblico exposto mais como humano do que santo. A história de São Bartolomeu é que ele foi esfolado vivo. E a surpresa causada pela estátua é que o elemento o qual se parece com um manto, na verdade, é a pele que o santo carrega nos ombros e ao redor do corpo, referência à tortura infligida. Até o século XIII-XIV, o apóstolo era retratado vestido segurando um livro e uma faca, alusão ao Evangelho proclamado e martírio sofrido. Começaram a retratar a agonia do santo a partir do Renascimento. Enquanto o ícone do santo com a própria pele removida da carne foi finalmente santificado depois que Michelangelo, no século XVI, o retratou dessa maneira no Julgamento Universal na Capela Sistina do Vaticano.

La statua di San Bartolomeo scorticato,  Duomo di Milano

O trabalho de Marco d’Agrate é o de um exímio escultor que presentifica não só a ameaça da morte, mas o horror também do sacrifício em vida em uma pena tão duramente infligida. Afinal, trata-se de um santo esfolado vivo. Em forma escultural ele, então, contempla-nos ainda vivo. O exercício da estátua, pelo artista, se constitui como um grande ensaio acadêmico a fim de apresentar a estrutura corporal, o humano e o santo entre músculos e ossos.

Há, ainda, um fato curioso, dado o uso do mármore. O material anuncia a ideia da vida petrificada, como se guardasse uma origem perdida em seu interior, uma vida humana por debaixo da pedra, a qual o artista traz à luz. “A natureza parece agir ‘como um pintor’”, afirma Didi-Huberman em A pintura encarnada. O corpo em mármore “poderia evocar algo como uma origem perdida da figuração dos corpos, momento em que a figura teria sido, miticamente, (quase) um corpo”. No caso, a ironia do poético se concentra no fato de que Marco d’Agrate apresenta a forma da morte e da vida nessa figura impossível do corpo sem pele, expondo aquilo que comumente é velado: o universo particular e interior dos corpos, as camadas até se chegar ao esqueleto e às ruínas.

Ao pé da estátua, uma curta inscrição diz: “Non me Praxiteles, sed Marcus finxit Agrates”, referia-se ao “medo” do escultor, pois ele temia não ter o valor necessário para essa tarefa de representar São Bartolomeu, e que ela deveria ser tarefa concedida à Praxiteles, um dos escultores mais habilidosos e famosos de Atenas na Grécia Antiga.

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Outra versão de São Bartolomeu, ainda de Marco d’Agrate, datada de 1556, fica na frente da Certosa de Pavia, onde o escultor trabalhou por um longo tempo criando muitas estátuas. O delicado acabamento da superfície fez com que a escultura fosse movida para o interior. Primeiro, atrás do coro da catedral, e depois em seu local atual, seguindo uma ordem capitular de 1664, ordenando “um local mais adequado para a admiração dos intelectuais de arte”.

Depois de quase cinco séculos desde sua criação, escolho a estátua de São Bartolomeu, de Marco d’Agrate, nessa semana em que se comemora o Halloween não pela suposta característica sinistra que lhe concedem, a de ver um santo sem pele, mas pela grandiosidade de se admirar a morte e a vida entrelaçadas na existência do corpo humano. Todo esse monumento abaixo das peles que vivifica os corpos e o quanto a pele, por sua vez, se faz ao mesmo tempo como proteção e contato com o mundo. Desfiar-se da própria pele não deixa de ser uma morte simbólica, acontecendo inúmeras vezes na própria vida. A iconografia de São Bartolomeu acaba por apresentar o belo gesto que reside em segurar a pele como manto e se expor, vulnerável e humano, ao mundo.

Fonte:

DIDI-HUBERMAN, Georges. A pintura encarnada. Georges Didi-Huberman ; tradução de Osvaldo Fontes Filho e Leila de Aguiar Costa. São Paulo, Escuta, 2012

The statue of St Bartholomew in the Milan Duomo (Duomo de Milano)

OBRA DE ARTE DA SEMANA | Bernardino Campi pintando Sofonisba Anguissola, de Sofonisba Anguissola

sofonisba anguissola retrato

À primeira vista, o quadro Bernardino Campi pintando Sofonisba Anguissola (1559), da artista renascentista Sofonisba Anguissola, parece evocar uma cena comum: um artista em cena pintando uma mulher. O título logo indica se tratar do professor de Anguissola, Bernardino Campi. E nos diz que a pessoa retratada pelo professor é a própria artista do quadro, Sofonisba Anguissola.

Ambos os personagens da tela parecem devolver o olhar ao espectador, principalmente Bernardino Campi. O fundo é enegrecido e engolfa professor e quadro. Há a aparente representação da dualidade entre o personagem ativo, o artista masculino, e o objeto passivo, esse comumente dado como a mulher representada. O que Anguissola propõe, porém, é expandir esse intervalo entre a artista mulher e a mulher retratada, colocando um personagem masculino o qual parece confundir as motivações da cena.

Nesse retrato, há múltiplas possibilidades de interpretação e nele reside um segredo a ser desvendado. A primeira é o fato de se assemelhar ao processo comum entre artista homem e mulher representada: como na história de Pigmalião, esse homem artista concederia vida à figura inerte da mulher, que está lá à serviço do ideário de modelo vivo e objeto a ser conhecido. Assim, ele se faz artista em função da mulher representada. A genialidade cai como um manto sobre o artista homem e o simples ato de se por diante de uma tela o legitima como artista, porque o espaço da crítica, o público, toda a estrutura é à favor do homem.

De acordo com Whitney Chadwick, em Women, Art, and Society, esse retrato feito por Anguissola é considerado “o primeiro exemplo da mulher artista conscientemente criando um colapso na posição do sujeito-objeto”. Isto é, a diferença entre a mulher artista, na posição de sujeito, e a mulher como tema da pintura e objeto de apreensão do olhar. Voltar ao fato de que a obra é assinada por Sofonisba Anguissola é o truque que busca quebrar a expectativa de que não se trata de um quadro feito por um homem, muito menos um quadro feito por uma artista mulher pintando a si mesma, sozinha na obra.

Essa cena comum é o que parece resumir o cenário do quadro. Mas não é o que a pintora pretende demonstrar com a obra. Sofonisba Anguissola apresenta outra história, oculta pelo gesto de si mesma representada no quadro. A resposta reside em sua mão. Ao olhar para a mão do pintor segurando o pincel, vemos logo abaixo a mão curvada de Anguissola, quase uma garra, o que dá a impressão de que ela está só posando. Porém, com mais atenção, percebe-se que há outra mão junto ao pincel de Campi: é a mão de Anguissola.

sofonisba anguissola retrato detalhe

Essa distorção que, ao ser percebida, torna o quadro inteiramente estranho, é a sagacidade de Anguissola e sua crítica. Porque a mão que antes era da mulher posando vira logo um membro abandonado, e o outro rompe por todo o cotovelo flexionado. Ela está, ao fim, segurando o pincel que a cria. Ela se enuncia como a verdadeira artista da obra.

Se fosse tirado do título e do quadro a assinatura, acharíamos que é mais uma obra do artista pintando a modelo feminina. Mas a mão duplicada dá o estatuto da obra. Com isso, Sofonisba Anguissola está falando, por meio do artifício, da dura função que é precisar usar a linguagem artística masculina, toda essa estrutura que mobiliza o artista oficial como homem, para que ela possa afirmar seu valor como artista.

Quando Anguissola inclui esse gesto criador no limite do visível e do invisível, ela apresenta como a ação da mulher artista muitas vezes é inviabilizada e obrigada a ser posta em segundo plano. Como algo que só pode ser feito nos bastidores, na escuridão. Não sob o mesmo direito da genialidade concedida ao homem.

A mão de Anguissola se encontra exatamente abaixo do mahlstick, essa espécie de estaca onde o artista apoia a mão para pintar. Ela é o real sustento da criação dessa obra. O próprio artista que ela pinta não se faz tão necessário na cena, principalmente pelo fato de que ele parece olhar para a Anguissola real que estaria fora do quadro e, assim, a pinta. Mas se Anguissola pinta esse quadro ao mesmo tempo em que Campi a observa para pintá-la, seria esse resultado de Campi tão fiel à Anguissola real? A possibilidade que isso dá, então, é que o quadro de Anguissola já estaria pronto e que Campi apenas posa fingindo que o pinta. Ou seja, ao fim ele é o modelo de Sofonisba Anguissola, e ela no quadro pende mais à situação de sujeito artista dela mesma do que apenas representação ao canto.

Além disso, essa versão de Bernardino Campi não indica ter sido pintado a partir do professor que posou para Anguissola. Ele é tão criação quanto a representação do feminino no quadro. E isso leva a questionar as idealizações em torno do feminino e do que é pintura. A noção do feminino, no Renascimento, era a de que uma mulher artista “virtuosa” era um desvio de rota, um caso particular e oposto à suposta natureza da mulher, que não teria a capacidade de intelecto em aprender e criar. Não era bem vista. Lavinia Fontana passou pelo meu escrutínio e a mulher artista, até hoje, ainda tem suas dificuldades de ser desvinculada da única imagem reservada a ela, a de representação feita por mãos e mentes masculinas.

O retrato de Sofonisba Anguissola revela uma autossuficiência, a qual muitas mulheres nobres e da classe média italiana buscavam, se reafirmar além da condição de virgens dispostas ao matrimônio e à maternidade. O que Sofonisba faz é um gesto importante demais, ao mostrar também que a musa da qual uma obra é feita é dotada de existência, e que a mulher artista tem igual direito de se firmar pelo intelecto e criação de uma obra de arte.

Referências bibliográficas

GARRARD, Mary. Here’s looking at me: Sofonisba Anguissola and the Problem of the Woman Artist in Renaissance Quarterly, vol. 47, no. 3 (Outono, 1994), pp. 556-622, Cambridge University Press, pela Renaissance Society of America

A palestra “Quando as mulheres (se) pintam: representações do motivo iconográfico da artista em ação (séculos XIV-XIX)”, ministrada pela Profa. Dra. Maria Cristina Pereira (FFLCH-USP), no MASP dia 14 de setembro de 2019. Foi comentada brevemente a obra de Sofonisba Anguissola, bem como uma enorme variedade de quadros feitos por mulheres artistas em ateliês e retratando a si mesmas como artistas.

OBRA DE ARTE DA SEMANA | Simpatia e outras obras com cães, de Briton Rivière

Sympathy c.1878 by Briton Riviere 1840-1920

Publicado no Artrianon (agosto)

O desolamento das duas criaturas sentadas em retiro na escada é de comover e levar ao riso doce. A obra Simpatia (1878), de Briton Rivière, tem a doçura singular da infância e da inocência no cão branco que acompanha a menininha e o lamento mudo nos olhos dos dois.

A escada é onde os dois se encolhem. A imaginação perpassa a cena, pensando se a garota foi repreendida e o cãozinho é o único que intervém a seu favor. Ou se ambos foram proibidos de passear lá fora com uma chuva torrencial acabando com os planos de diversão da menina e seu cãozinho.

O espaço demarcado pelo mogno pesado da escada descomunal onde a garota se apoia contrasta com a sinuosidade delicada e mole do cãozinho branco. Naquilo que serve de muro imbatível e claustrofóbico onde a garota melancólica se apoia dilui-se a tristeza pela amenidade do carinho que jorra do cachorro ao seu lado.

Há a correspondência dos olhinhos doces e inocentes entre os dois personagens, a mesma altura ao se sentar, e a pequenez no espaço da casa e dos adultos. Ambos fazem um biquinho de descontentamento e, assim, o cãozinho puro é a figuração duplicada da menina. Rivière consegue despertar não só a simpatia do espectador adulto, mas promove uma leve sensação de culpa em ser o espectador que presencia a cena, por estar entre os dois e o adulto que parece reprimi-los.

Rivière alcançou imensa popularidade com o público vitoriano por suas imagens anedóticas e muitas vezes cômicas de animais. A primeira versão de Simpatia foi exibida na Academia Real em 1878, mas a obra exibida no Tate é um estudo que Rivière fez para uma segunda versão.

Outra obra do artista é Requiescat, que em latim significa algo similar ao descanso, o repouso final de alguém que faleceu. Nele, um homem está deitado com sua armadura. E o cachorro de grande porte emoldura a cama ao seu lado, numa postura altiva igualmente heroica à do dono que faleceu sob serviços prestados. O perfil do humano se encaixa perfeitamente com o do cachorro; e os olhos amendoados do cão se perdem numa leve melancolia. The Long Sleep (O Longo Sono), também de Rivière, tem o tema da morte, mas com um tom mais lúgubre quando nos damos conta de que os cães se encontram desesperados tentando despertar o dono que está morto.

requiescat briton riviere

the long sleep briton riviere

A expressividade que os cães ganham pelo seu desenho é de uma exatidão admirável. A forma com que o corpo se agita, o brilho dos pelos, os pulos, tudo é milimetricamente bem formulado por Rivière para pensar o movimento que sabe forjar muito bem a vida.

“Eu nunca trabalho com um cachorro sem a ajuda de um homem que conheça bem animais. Eu acho que os collies são os cães mais inquietos, os galgos também são muito inquietos, assim como o fox terrier. A maneira de pintar animais selvagens é gradualmente acumular um grande número de estudos e um grande conhecimento do próprio animal, antes que você possa pintar sua imagem. Eu pinto tanto animais mortos quanto vivos. Tive o corpo de uma bela leoa no meu estúdio. Trabalhei bastante nas salas de dissecação dos Jardins Zoológicos de tempos em tempos”.

Entre seus trabalhos, há cães que se debruçam no joelho do dono enquanto ele chora, em Fidelity (1869). Ou aquele que participa compulsoriamente do estudo da garotinha, em Compulsory Education (1887). Sempre um técnico supremo em suas obras, Rivière também pintou assuntos e retratos históricos, mas foram suas cenas de animais às quais o público respondeu com mais entusiasmo. Elas têm uma carga de humanidade muito densa. Olhar a dignidade dos cachorros que acompanham seus donos em situações diversas se conecta com muita profundidade com a vivência mundana. Ao mesmo tempo em que Rivière lança luz a essas cenas anedóticas com uma composição dramática, cômica ou heroica, elas emolduram as histórias e vivências cotidianas com as quais é fácil se identificar, como a amizade, a fidelidade, a morte, o medo, amenizando assim a aura que o academicismo do Salão e seu júri rendiam à pintura.

Mesmo sendo valorizado enquanto artista histórico, gênero de pintura do mais alto grau de qualidade aos olhos dos críticos, eram os animais em sua existência profana que ganhavam tons de pequeninas divindades espalhadas mundo afora.

 

Artist Art

compulsory education briton riviere

Referências bibliográficas

Tate 

“How I paint animals”, Chums Boys Annual, No. 256, Vol. V, 4 August 1897.

OBRA DE ARTE DA SEMANA | Duas mães, de Frans Stracké

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Publicado no Artrianon (julho)

A escultura Duas mães (Two mothers) foi feita em 1893 pelo artista holandês de origem alemã Frans Stracké. A história da obra tem um ar melancólico que facilmente comove quem a visita no Rijksmuseum, em Amsterdam. As pessoas passam pela obra, interpretam cada detalhe e, finalmente, entendem o que significa as duas mães e o desespero delas. Nas figuras duplicadas das mães e dos filhos, a obra incorpora com peso os elementos do abandono, da pobreza e da vulnerabilidade social.

Os olhos são tristes e olham para um lugar distante acima dos ombros do espectador, como se procurasse algo que sabe não encontrar. É uma jovem mãe, à espera. Ela caminha descalça, com as vestes dobradas nas pernas para evitar que molhem e aparenta cansaço de horas de trabalho. A rede que a jovem arrasta atrás de si está vazia e o resultado da pesca é só dois pequenos peixes que carrega em um pano na mão direita.

A razão de sua tristeza pende pelo olhar desatento, pesado, porque aqueles peixes precisam alimentá-la além do bebê, da cachorrinha e dos filhotes dela. Servirão de alimento ou foram pescados para venda. De qualquer forma, a quantidade é muito pequena. O que conseguir com dois peixes? O significado do título dessa obra é o que coroa o peso da história dessa figura: são duas mães, uma humana e a outra animal, precisando alimentar os filhos.

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(photograph © Kiwidutch)

Essa correspondência permanece pela forma com que a cachorra aos pés praticamente se funde à dona, como se fossem uma só vida. Tão pequenina e jovem quanto a dona. A fragilidade das duas vidas que a moça segura no colo, dos dois filhotes, são igualmente vulneráveis ao filho que carrega. A urgência da sobrevivência é o que dá a densidade à pedra dessa escultura, pois testemunhamos um dia de desespero dessas duas mães. E o ar que sustenta as duas personagens parece se entrelaçar à questão feita pelos olhos da jovem mãe, “hoje tem poucos peixes, mas e amanhã? Como alimentar todas essas bocas?”.

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(photograph © Kiwidutch)

A cachorrinha olha em um diálogo mudo com a jovem mãe e também olha, como se protegesse a cria. Mesmo com essa composição que fala sobre fragilidade da sobrevivência com figuras tão vulneráveis quanto o bebê e os filhotes, é uma escultura da qual emana muita força, advinda dessa figura da mãe humana, mesmo exausta, tentando encontrar formas de continuar sobrevivendo. Reconhece-se essa força, mas não se ameniza o choque presente na sua condição imutável de pobreza.

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(photograph © Kiwidutch)

 

Referências bibliográficas:

Rijksmuseum

Crédito das imagens: © Kiwidutch

OBRA DE ARTE DA SEMANA| A loucura da noiva de Lammermoor, de Emile Signol

A loucura da noiva de Lammermoor emile signol

Publicado no site Artrianon (junho)

A obra A loucura da noiva de Lammermoor (La Foule da la fiancée de Lammermoor) (1850), de Emile Signol, é o vislumbre do horror da morte. Baseado no romance homônimo de Sir Walter Scott, a história trágica compõe com Une légende de Montrose a terceira obra de Contes de mon hôte. A referência é a vida de Lucy, filha de Sir William Ashton, em um contexto de rivalidade ancestral entre as famílias da jovem e de seu futuro marido. O casamento era a promessa de tempos pacíficos. Porém, a mãe de Lucy, Lady Ashton, teria provocado grandes desentendimentos os quais originaram um casamento forçado e o triste fim da jovem protagonista, que em um rompante de loucura, esfaqueia o marido e morre em terríveis convulsões.

O quadro de Signol encerra o instante no qual a jovem matou o marido e se refugia na lareira, com todo o aposento se desmanchado na sua loucura. Os olhos, quando aliados à observação do sangue em suas vestes e mãos, provocam a sugestão da morte recém-cometida, e faz pensar no que virá depois. O olhar de Lucy é o registro do momento em que ela se dá conta brevemente do que cometera, mas o ato se mantém distante pois é revestido, ainda, por sua insanidade, de quem teme por ser visto pela própria loucura.

É muito recorrente na literatura do período o fim de uma personagem feminina ser pela loucura. Constantemente associada a mulher à ideia de uma fraqueza dos nervos, esse imaginário criado no século XIX tanto pela pintura quanto pela literatura definem o feminino pelo perigo do descontrole. Não se pode afirmar categoricamente que foi isso o que se passou na história real em que Sir Walter Scott se inspira, pois era uma saída confortável dizer que essa mulher a qual assassinou o marido tenha agido assim por ter essa propensão “natural” à loucura.

 Havia o temor tácito, no próprio matrimônio dos moldes do século XIX, de que a mulher poderia sucumbir não à loucura, mas à recusa de servir. Ambas se associam, com o argumento da loucura sendo usado para simplificar e anular expressões psicológicas da mulher e sua voz. Significava a ruína do matrimônio e da formulação em vida dessa família burguesa, pois se uma mulher enlouquece no ambiente doméstico é porque o marido não soube controlar. Ou seja, mulher, casa e família são o trio de posses e, se um lado se rompe, a perpetuação do nome e título masculino falham.

Sabe-se, hoje, que por “loucura” havia diversas respostas plausíveis para diagnosticar o quadro psicológico de uma mulher. Inclusive tendo a clausura, o isolamento e a situação abusiva do matrimônio como agravantes ou causas de um quadro que não podia ser meramente resolvido com a internação forçada e violenta. Por isso, essa expressão da loucura associada ao feminino é frequentemente usada para anular a atividade da mulher e sua autonomia.

No caso, o que se destaca no quadro de Signol é que a personagem é posta em um espaço ambíguo: apesar do uso da loucura feminina como argumento redutor do gênero, ela ainda tem lugar ativo nesta história. Em vez de se tratar do corpo feminino desfalecido pela loucura e haver uma erotização dessa morte, o pintor encapsula a máxima do horror no olhar da personagem ainda viva ao constatar o que aconteceu. E a história se torna sugestiva. Se essa mulher está encolhida com sangue nas vestes e uma faca na mão, isso a coloca no centro da ação narrativa. Por isso o horror, para o olhar do século XIX, se concentra no fato de que o sangue nas vestes não é o da jovem donzela, mas sim do único ao qual ela pertenceria, o marido, encerrando assim o contrato de servidão ao matrimônio.

Tendo em vista que o horror é uma sensação provocada por uma impressão bem particular, diante de um fato exposto aos olhos ou a presença de um pensamento, isso revela que ter o leve vislumbre do choque nas faces femininas é ter, ainda, o segredo nunca revelado, de uma intimidade a qual o voyeur masculino não consegue acessar. Ele nunca compreenderá o que se passa na mente dessa mulher. A bem da verdade, a loucura feminina como perigo é justamente pela anunciação de que existe um ser pensante nesse corpo que recebe inúmeras projeções eróticas masculinas. A beleza posta em relação à morte, do corpo feminino desnudo na privacidade de seu quarto, tentando gritar e pedir pela vida que reside do outro lado, constrói o voyeurismo para o observador que participa da cena. O retrato de Lucy em seu instante de loucura ainda se aproxima da intimidade do leito e do instante que ninguém teria presenciado – a morte do marido, o rompante de loucura e o fim de Lucy–, da mesma forma que o desposar da donzela reside na intimidade com o marido.

            Por isso, do quadro de Signol emana um poder muito pulsante do perigo de uma liberdade em um espaço onde a autonomia reside nas mãos do outro. O horror se concentra no fato de que essa liberdade só acontece com o corte abrupto e, ainda assim, por se tratar de uma mulher, o imaginário do século traz a loucura como a punição e o único destino possível para essa ação. Mesmo para quem tenha agido em função de si mesma, possivelmente por proteção, a ideia de predisposição feminina à loucura se conecta ao horror do que é desconhecido e ao assombro pelo descontrolável na condição humana.

Referências bibliográficas

A exposição Visages de l’effroi: violence et fantastique de David à Delacroix (Musée de la vie romantique, 2015)

Musée des Beaux Arts 

OBRA DE ARTE DA SEMANA | Joana D’Arc, de Albert Lynch

Publicado no site Artrianon 

No dia 30 de maio de 1431, a jovem francesa Joana D’Arc foi queimada em praça pública ao ser acusada de heresia e feitiçaria por um tribunal eclesiástico inglês e francês. Joana D’Arc teve papel importante no contexto da Guerra dos Cem Anos, elevando o sentimento nacional do povo francês contra o domínio inglês. Essa figura feminina logo encerrou em si a carnação do povo, com um ideal de unidade nacional e uma vítima da Igreja. Heroína histórica para uns, santa para outros, Joana D’Arc acabou se tornando a santa padroeira da França.

Há muitas referências na cultura ao nome e à imagem de Joana D’Arc, além de servir como inspiração direta para personagens de livros, filmes, seriados. Na história da arte, diversos pintores como Ingres, Rossetti, John Everett Millais retrataram a heroína. A obra de Albert Lynch, porém, traz alguns elementos que remetem tanto aos fatos históricos quanto ao simbolismo da jovem morta em sacrifício em nome de Deus.

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A pintura de Joana D’Arc foi feita para a capa do Le Figaro em 1903, alguns anos antes de ela ser beatificada numa cerimônia na Catedral de Notre Dame, o que ocorreu em 1909, e canonizada em 1920 pelo Vaticano. Lynch foi um artista peruano, formado na Escola de Belas Artes e teve sua obra exposta no Salão de 1890 e 1892, e na Exposição Universal de 1900, na qual ele recebeu uma medalha de ouro. Lynch ilustrou livros como Dama das Camélias de Alexandre Dumas, O pai Goriot de Honoré de Balzac e La Parisienne de Henry Becque.

Antes de entrar nas considerações acerca do quadro, é preciso contextualizar primeiro, de forma breve, a trajetória de Joana D’Arc. Aos 13 anos, a jovem teria revelado que ouviu vozes e teve visões, com as aparições do que alegou ser o arcanjo São Miguel, a Santa Catarina de Alexandria e a Santa Margarida de Antioquia. Essas figuras teriam lhe dito que ela deveria fazer parte do exército francês, ajudando o rei Carlos VII na luta contra a Inglaterra.

Já com 16 anos, Joana D’Arc pediu para ir até a cidade de Vaucouleurs a fim de conversar com o funcionário local do reino francês, Robert de Baudricourt, e ser levada à corte real francesa, em Chinon. Porém, Baudricourt não atendeu ao pedido de imediato da adolescente. D’Arc persistiu em visitá-lo até que obteve aprovação popular e, em 1429, Baudricourt aceitou o pedido, concedendo um cavalo e a proteção de diversos militares que a escoltariam pelo caminho.

“Nós nunca saberemos o que aconteceu em Chinon. Esse é um dos maiores mistérios da história”, afirma Marina Warner, professora da Universidade de Essex (Reino Unido) em sua obra Joan of Arc: The Image of Female Heroism (1981). De qualquer forma, ela conseguiu convencer o rei.

A trajetória de Joana D’Arc a alçou ao título de heroína pois seria ela uma emissária divina intercedendo pela França. O apelo místico para o imaginário da época era muito forte. E ele se reforçou porque, durante o período da presença de D’Arc no exército, a armada francesa obteve sucesso.

Siobhan Nash-Marshall, autora do livro Joan of Arc: A Spiritual Biography (1999), escreve que na primeira batalha que D’Arc participou, na região de Orleans, o ideário de honra e moralidade entre os soldados e civis se mostrou mais presente com a figura dela: “A moral francesa era tão baixa antes de ela aparecer que os franceses até perdiam as lutas em que eram maiores em exército do que os anglo-borgonheses. Normalmente, eles preferiam simplesmente ficar fora do campo de batalha”.

A região de Orleans foi assegurada sob domínio dos franceses, e outras batalhas foram bem-sucedidas. Em 17 de julho de 1429 na cidade de Reims, Carlos VII ganhou uma cerimônia na cidade reintegrada à França, e foi o marco da conquista de D’Arc.

Depois disso, se inicia a queda trágica da figura heroica. A marcha de Reims até Paris, para celebrar a coroação de Carlos VII, precisou se render em várias cidades dado o reforço do exército inglês em Borgonha, que os deixou sem proteção. O exército foi diluído e, em maio de 1430, Joana D’Arc é capturada e vendida ao exército da Inglaterra.

O fato de supostamente Deus ter intercedido por meio de Joana D’Arc à favor do exército francês colocava os ingleses numa situação em que a medida para deslegitimar o que D’Arc representava foi acusá-la de heresia, feitiçaria, possuída pelo demônio, acusações que pairavam em torno das mulheres, questionando também sua virgindade.

A execução de Joana foi um exercício de brutalidade. A escolha por condená-la à heresia era uma forma de buscar destruir a missão da jovem e a coroa de Carlos VII, bem como a legitimidade da conquista francesa. E assim, na Place du Vieux Marché, em Rouen, ela foi queimada três vezes, duas vezes postumamente, para garantir que nada dela sobrevivesse e restasse algo para ser cultuado, antes que suas cinzas fossem jogadas o rio Sena.

Na pintura de Lynch, nota-se como a heroína é jovem. Ela ganha o corte de cabelo curto, a armadura e o estandarte. Não é possível dizer exatamente o que está escrito no estandarte erguido por Joana D’Arc, mas sabe-se que ela tinha pelo menos três. O objetivo de ter um estandarte era por dois motivos, tanto prático quanto simbólico. Tendo ele em vista, os homens podiam correr em sua direção para se reunir, dispersando-se da confusão da batalha. E ainda de colocar-se como um ponto fixo de segurança e vitória, de forma divina. Em várias ocasiões, quando suas tropas estavam perdendo terreno, é relatado que Joana d’Arc entrou no meio da batalha, usando seu estandarte para marcar sua posição no campo e reunir seus homens à vitória.

No livro In Her Own Words, Willard Task fez um compilado de falas de Joana D’Arc retiradas de transcrições e testemunhos dos julgamentos. E uma delas teria sido exatamente a imagem que Lynch recria em pintura. “O campo foi semeado com lírios, e ali estava nosso Senhor segurando o mundo, com dois anjos, um de cada lado. Era branco, e nele estavam escritos os nomes de Jesus, Maria, e era orlada de seda”. Então, mesmo que Joana tivesse mais de um estandarte, o que está presente na pintura seria o de sua visão, devido ao material de seda branca da bandeira.

Sobre o campo de lírios, o simbolismo é bem evidente. Em Dicionários dos símbolos, Chevalier escreve “o lírio do vale, segundo uma interpretação mística do séc. II, o vale do Cântico dos Cânticos significa o mundo, o lírio designa Cristo. O lírio do vale é relacionado com a árvore da vida plantada no Paraíso. É ele que restitui a vida pura, promessa de imortalidade e salvação”. Na sequência, ele acrescenta: “O lírio é sinônimo de brancura e, por conseguinte, de pureza, inocência, virgindade. Pode-se encontrá-lo em Boehme ou em Silesius como símbolo da pureza celeste: O noivo de tua alma deseja entrar. Floresce: ele não vem se os lírios não florirem”.

O lírio também é dotado de uma ambiguidade em seu simbolismo. Ele acaba por ganhar também a conotação da “flor do amor, de amor intenso, mas que, na sua ambiguidade, pode ficar irrealizado, reprimido ou sublimado. Se ele é sublimado, o lírio é a flor da glória”. Isso quer dizer que Joana D’Arc com os lírios ao fundo encerra a virgem que se sacrifica em amor à Cristo, seu único amor, sublimado. E ainda a coloca como a eleita de Deus.

Com efeito, a alusão ao campo de lírios é feita a partir do discurso proferido por Jesus nos evangelhos de Mateus e Lucas:

Ninguém pode servir a dois senhores; pois ou há de aborrecer a um e amar ao outro, ou há de unir-se a um e desprezar ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas. Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos da vossa vida pelo que haveis de comer ou beber, nem do vosso corpo pelo que haveis de vestir; não é a vida mais que o alimento, e o corpo mais que o vestido? Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem ceifam, nem ajuntam em celeiros, e vosso Pai celestial as alimenta; não valeis vós muito mais do que elas? Qual de vós, por mais ansioso que esteja, pode acrescentar um cúbito à sua estatura? Por que andais ansiosos pelo que haveis de vestir? Considerai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham nem fiam, contudo vos digo que nem Salomão em toda a sua glória se vestiu como um deles. Se Deus, pois, assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós, homens de pouca fé? Assim não andeis ansiosos, dizendo: Que havemos de comer? ou: Que havemos de beber? ou: Com que nos havemos de vestir? (Pois os gentios é que procuram todas estas coisas); porque vosso Pai celestial sabe que precisais de todas elas. Mas buscai primeiramente o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas”(Mateus 6:24-33)

Além dos lírios, ao fundo, a Catedral de Notre Dame de Reims, na região de Champanhe, é posta como o lugar onde o rei Carlos VII foi coroado. Ela tem a mesma estrutura arquitetônica gótica da Catedral de Notre Dame de Paris, onde em 1909 Joana D’Arc foi beatificada. Pelo fato da pintura ter sido feita em 1903, antes desse fato, sabe-se que se trata da Catedral de Reims e ela consta na pintura por enunciar essa vitória do rei por quem D’Arc teria decidido lutar desde suas primeiras visões.

Assim, a Joana D’Arc de Albert Lynch reside em pé vitoriosa no cenário de sua visão, sendo sua maior conquista póstuma quando obtém inocência das acusações de heresia, tornando-se depois uma entre os nove santos padroeiros da França, a nação que em vida Joana D’Arc encarnou na armadura, na espada e no estandarte por entre os campos de batalha, seja como mensageira divina, seja como uma misteriosa esperança diante da morte.

Referências bibliográficas

In Her Own Words, compilação de Willard Task

Le procès de Jeanne D’Arc (Ministère de la Justice – France)

Joana D’Arc: Relembre a história da guerreira e santa francesa (Revista Galileu, 2018)

Site Saint Joan D’Arc (Joan D’Arc and Her Battle Standard)

CHEVALIER, J. Dicionário de Símbolos. Rio de Janeiro: José Olympio, 2003.

OBRA DE ARTE DA SEMANA | Una e o leão, de Briton Rivière

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Publicado no site Artrianon (abril)

Una e o Leão (Una and the Lion), do pintor irlandês Briton Rivière, é um quadro de 1880. Foi inspirado pelo Livro I de A Rainha das Fadas, obra com cantos datada do século XVI, de Edmund Spenser, e é chamado no original de “The Faerie Queene”. No poema, Una é a bela jovem filha de um rei e uma rainha que foram aprisionados por um dragão feroz. Una empreende uma missão para libertar seus pais, mas em sua jornada ela encontra um leão feroz. O leão é tão cativado pela inocência e beleza de Una que ele abandona seu plano de comê-la e promete se tornar seu protetor e companheiro. Os 12 livros de A Rainha das Fadas possui o intento de apresentar as formas da virtude didaticamente. Apenas 6 foram publicados. A ideia é a de apresentar o ideário de um cavalheiro ou pessoa nobre fundado na disciplina gentil e virtuosa.

O quadro é uma cena pastoral, com a natureza ganhando ares majestosos na forma das árvores, com tonalidades douradas prevalecentes. Esse poderio natural reside na forma gigantesca do leão. O animal se curva ereto, apoiando o focinho no cotovelo de Una, como se desejasse chamar-lhe a atenção. E com os olhos fechados, simbolizando comprometimento e entrega. O leão grandioso, com os pelos feitos detalhadamente, se confunde com o vestido dourado e em tom creme da jovem e parece ser uma duplicata da personagem, como se fossem um só.

Una olha para um ponto fixo, melancólica. As mãos torcidas podem denotar um gesto de aflição como quem espera que uma situação fora do quadro seja resolvida, no caso o resgate dos pais. Ou uma tensão diante do leão. O que importa é que esse gesto de Una, se for pela preocupação com os pais, revela a sua face relacionada ao cordeiro, de um amor puro.

Existe o contraste pela imagem da bravura do cavaleiro existente no leão, e a castidade e resiliência na personagem feminina. Os livros trazem as virtudes privadas, encerradas na santidade, temperança e castidade, e nas ações públicas do indivíduo, como amizade, cortesia e justiça. Essas duas faces do indivíduo se encerram na Una e no leão. Desta forma, o correspondente de Una é, simbolicamente, o cordeiro: a pureza que se sacrifica. Ele evoca também Jesus Cristo e a salvação pelo cristianismo, que irá se dar pelo embate do leão com a figura do dragão nos cantos.

A obra de Rivière é, portanto, uma cena de encontro inspirada na obra literária, em que imagina-se a interação entre a jovem a qual conquista a fidelidade de um cavaleiro, simbolicamente representado pelo leão, e a tensão fundada no imaginário do período entre a castidade no amor e os sacrifícios oriundos do discurso cristão a fim de se conquistar a máxima virtude entre os homens.

Referências bibliográficas

Michelle M. Sauer. The Facts on File companion to British poetry before 1600, Volume 1. Companion to Literature Series, Facts on File library of world literature. Infobase Publishing, 2008

OBRA DE ARTE DA SEMANA | Vaidade, de Frank Cadogan Cowper

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Publicado no site Artrianon 

Vaidade (Vanity), de Frank Cadogan Cowper, é uma pintura de 1907. Nela, uma personagem com fios dourados e vestes suntuosas olha o espelho com uma espiadela curiosa e séria. Sabendo que o seu olhar significava uma condenação: o fascínio pela própria imagem. Um fascínio muito humano.

Com este título, a referência à vaidade é dupla, tanto pelo tema quanto pelo seu gênero. Vanitas foi um gênero de pintura simbólica conhecido nos séculos XVI e XVII. Tratavam-se comumente de naturezas-mortas, com a proposta de trazer à tona a mortalidade dos humanos e da fugacidade da vida terrena, tomando a ideia bíblica de que “tudo é vaidade”.

No retrato de Cowper, o título nos lembra que a moça, mesmo ainda tão jovem, encantada com o luxo das vestes e do mundo que floresce diante dela, não viverá para sempre. Pois vanitas traz a ideia do memento mori, de que apesar de tudo “lembre-se que você deve morrer”. Essa efemeridade do gênero da pintura surge, então, com o próprio conceito de vaidade figurado pelo feminino.

Com cabelos loiros, longos, a jovem parece ter sido encontrada em um momento detoilette. Esse instante tão presente na pintura, do ato feminino de enfeitar-se diante do espelho, confunde-se com o ideário da vaidade: vemos que ela segura um espelho na mão direita e com cautela o espia. Não se trata apenas de uma pessoa arrumando-se diante de um espelho. Mas sim do pecado da vaidade em se despir do pudor e se regozijar com a própria imagem. Como se essa face bela fosse eterna, uma impossibilidade na vida terrena. Ela é, assim, uma afronta à divindade.

Os traços da personagem remontam às modelos da fase pré-rafaelita, com Gabriel Rosetti e John Everett Millais. Na década de 1990, a poeta Frances Sackett escreveu um poema a partir da perspectiva da modelo desconhecida de Vanity, imaginando-a perplexa com seu papel na criação da pintura: “E assim ele me chama de ‘Vaidade’ / E me faz sentir a culpa de todos / Sua observação”. Este poema é válido para ressaltar o fato de que a personagem do quadro é o conceito abstrato, e como se associava o feminino às ideias de vaidade, pecado e culpa.

As roupas da pintura mostram uma mistura de influências históricas e contemporâneas. O prateado espelho de mão e colar de pérolas refletem a moda do início do século 20, mas a influência predominante é a Itália renascentista. A jovem usa uma ferronnière, enfeite transpassando a testa, em um estilo que remonta ao século 15, enquanto o vestido elaborado com seu padrão de serpentina é semelhante a um retratado no retrato de Margherita Paleologo do artista italiano Giulio Romano, que Cowper pode ter estudado.

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Frank Cadogan Cowper nasceu em 1877 e estudou nas Royal Academy Schools em seus vinte anos. Ele foi aclamado pela crítica no início de sua carreira, escrevendo para sua mãe que tanto Vanity quanto outra pintura exibida na AR em 1907 foram “um grande sucesso. Estou sempre recebendo cartas de pessoas querendo comprar uma ou outra”. Mais tarde naquele ano, Cowper tornou-se membro associado da Royal Academy aos 30 anos, fazendo dele o mais jovem artista a receber a honra em quase três décadas. Seu interesse no gênero vanitas pode estar ligado ao seu próprio estilo de vida supostamente modesto – quando ele finalmente se tornou um acadêmico real completo em 1934, ele comentou “Eu pensei que eles nunca elegeriam um homem a menos que ele mantivesse algum tipo de show em seu caminho de viver. Mas é claro que, como fizeram, posso continuar vivendo como eu gosto! ”

Sobre a pintura, há algo de corajoso na personagem do quadro. Essa vaidade se sustenta por um gesto compreensível entre os humanos, o da curiosidade. Mesmo sabendo que a condenação social dada ao feminino é a de ter consciência de sua imagem, a Vaidade criada por Cowper tem essa bravura em retesar o corpo para um retrato feito aos olhos do espectador, mas desviar os olhos para si mesma. Como se houvessem quatro olhares e imagens entrecruzando o plano: o vulto visualizado no espelho, a projeção do artista, a do espectador, e a imagem a qual somente a Vaidade tem acesso.

Ainda assim, tem mais um movimento entre esses olhares: se encontra implícito o medo do flagra. Portanto, o olhar dela é permeado por este receio, cedendo à vaidade, mas também à coragem de se olhar. Ao fim, a Vaidade é um espelho do próprio espectador que, ao ver o objeto na mão, entende ou surpreende-se que a verdadeira curiosidade dessa jovem mulher não está em quem a olha e a idealiza por sobre os panos dourados. Não se trata da presença física do espectador e do artista que a verão em forma de pintura e dos quais ela se desvencilha com receio para se olhar. E sim está em jogo essa abstração do olhar do Outro, pelo espelho. Ela é a curiosidade e o prazer humano em face de sua própria existência ao Outro. E o olhar entre ela e o espelho guarda uma personalidade inacessível e que, portanto, escapa livremente do espectador.

Referências bibliográficas

Royal Academy 

Tate Museum

OBRA DE ARTE DA SEMANA| Retrato de uma fada, de Sophie Gengembre Anderson

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Publicado no site Artrianon (fevereiro)

Retrato de uma Fada (1869) (Portrait of a fairy), de Sophie Gengembre Anderson, é uma representação delicada de uma figura mágica, parte do imaginário europeu dos contos infantis e da mitologia grega. Com título variante entre A Fada Rainha(The Fairy Queen) e ‘Take the fair face of a woman’, a pintura incorpora alguns elementos essenciais para tornar a personagem a imagem de uma fada.

Desde a infância, a artista britânica nascida na França Sophie Gengembre Anderson tinha paixão pelo desenho e persistiu em aprender a pintura enquanto autodidata. A sua trajetória revela a dificuldade que uma mulher artista tinha para conseguir obter instrução simples, mesmo tendo um pai arquiteto e vivenciando a proximidade das artes no ambiente familiar. Aos 17 anos, Sophie teve um momento importante para que decidisse insistir na carreira: um pintor visitou sua cidade e ofereceu dinheiro para executar retratos de alguns habitantes. Ansiosa para ver pelo menos alguém pintar e conhecer um artista, ela levou um de seus irmãos para serem retratados. Foi a única e breve lição que recebeu até anos depois ser convidada por amigos da família a passar um ano em Paris e estudar. Porém, o professor do atelier mudou-se para a Rússia e seus estudos foram interrompidos muito cedo sem perspectiva de retorno. Mas ela desenvolveu relações com outras mulheres artistas na escola, ganhando um pouco mais de instrução.

Sophie passou a praticar a pintura por conta própria. Ao se mudar com a família para a América, casou-se com um pintor americano, Walter Anderson. O casamento certamente favoreceu seus estudos, fato que ocorria com muitas mulheres artistas quando se casavam, pois entendia-se que o marido seria, então, a permissão para circular em ambientes artísticos restritos. Posteriormente ela expôs no Royal Academy em 1855 e a obra No walk today é seu trabalho mais valioso.

A pintura O retrato de uma fada é um tanto desconhecida e é difícil encontrar textos que comentem as obras da pintora. Não é possível afirmar com certeza se de fato a obra foi inspirada no poema de Charles Ede, o fundador da The Folio Society. O trecho seria o seguinte:

“Take the Fair Face of Woman, and Gently Suspending, With Butterflies, Flowers, and Jewels Attending, Thus Your Fairy is Made of Most Beautiful Things (Você vai precisar de um belo rosto de mulher. Erga-o gentilmente, junto a borboletas, flores e também joias, de maneira que sua fada seja feita de tudo que é mais lindo).

Esse trecho tem claramente o ideário criado pelo olhar masculino sobre a mulher. Apanhar um belo rosto de mulher e fabricar a tão sonhada fada de beleza extrema e abstrata. Nessas representações tomadas comumente no século XIX para pensar a mulher enquanto encarnação da Natureza e de figuras mágicas, acontecia com frequência aliar erotismo e a nudez idealizada ao corpo da mulher enquanto fada, estações do ano, Gaia, ninfas, etc. Porém, na pintura de Sophie, trata-se de uma garota e a representação difere das imagens carregadas de erotismo feitas por artistas homens no século.

No caso, Sophie Gengembre teria se apoiado no poema e tornado visível a magia encantadora das fadas ocultas pelas florestas. Por isso a execução dos objetos que definem essa garota como fada – as borboletas e o saco nas mãos – é feita com muitos detalhes para enfatizar os elementos que a tornam essa figura mística.

As borboletas ganham um sentido distinto quando portadas por uma menina. Sem o erotismo relacionado à borboleta enquanto inocência que descobre o prazer do amor, como é possível vê-la circundando Psiquê em Cupido e Psiquê (1798), de François-Gérard, as borboletas na cabeça da fada jovem são a profusão do poder que ela detém: o de transitar entre o mundo espiritual e o terreno, de tocar a eternidade, sendo sempre uma criança.

Com efeito, o saquinho de pérolas representando a riqueza também traz à tona o conceito de fortuna. E a origem da palavra fada é do latim Fata e quer dizer fortuna ou destino. Tendo essa tarefa de definir a vida de uma pessoa até a morte, coroar uma mulher com os bens de uma fada seria, portanto, assemelhar o conceito à ideia do matrimônio como aliança para uma vida inteira. Além disso, sendo a fada uma mensageira de outro mundo, o ideário do século aliava a compreensão que havia do feminino como naturalizado pela capacidade de gerar filhos e todo o misticismo criado em torno da mulher a própria encarnação da Natureza por gerar filhos.

Sophie Gengembre deixa para a sua representação de fada mais a leveza de uma criança a qual teria nas mãos o destino das criaturas. No saco bem fechado, ela tem escondida a fortuna, o desejo mais intrínseco da humanidade. E significa fortuna enquanto felicidade também. O olhar dela reconhece que desejamos tal fortuna. As roupas têm um panejamento muito leve aliando a mancha azul clara quase transparente ao movimento do esvoaçar das vestes. Atrás dela as asas são verdes e se misturam ao tom musgo de uma possível gruta onde a fada se esconde, detendo toda a fortuna do mundo oculta para os olhos, quase uma Pandora às avessas.

CLAYTON, Ellen Creathorne. English Female artists. Tinsley Brothers, 8 Catherine St. Strand, 1876, p.9

Biografia de Sophie Gengembre Anderson

Tradução do poema por Amanda Leonardi

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