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Categoriaarte

Obras de Picasso e Monet são queimadas por mãe de ladrão, após roubo de museu holandês em 2012

Matéria publicada nos sites Literatortura e Fashionatto

É indiscutível o misto de indignação e tristeza quando sabemos de mais um caso de incêndio ou roubo envolvendo obras de arte. Não é preciso enfatizar o valor inestimável das obras, que vão além dos milhões de dólares que valem. Elas são tomadas como um registro cultural e artístico que compõe a identidade do homem na História. Em outubro de 2012, 7 obras foram roubadas do Centro de Arte de Roterdã (Kunsthal), na Holanda. Segundo as autoridades do país, há a possibilidade de terem sido queimadas pela mãe do ladrão a fim de evitar provas de que o filho cometera o crime.

Na última terça-feira, Olga Dogaru, mãe de um dos autores do furto, Radu, declarou aos investigadores que enterrou duas vezes as obras de arte, no jardim de uma casa abandonada no leste europeu da Romênia e em um cemitério. Mas resolveu queimá-las para protegê-lo. “Coloquei o pacote onde estavam as pinturas em uma panela, coloquei alguns pedaços de madeira, chinelos e borracha e esperei até que queimassem completamente”, disse Olga Dogaru, segundo o documento citado pela Mediafax. E ainda acrescenta “Após a prisão de meu filho em janeiro de 2013, tive muito medo, porque percebi que o que ele havia cometido era muito grave”.

Os seis romenos que participaram do roubo devem ser julgados por um dos maiores roubos de arte do século a partir de 13 de agosto. O roubo ocorreu na madrugada de 16 de outubro de 2012. Eles levaram menos de 90 minutos para roubar as seguintes telas: Cabeça de arlequim, de Pablo Picasso (1971); A ponte de Waterloo, Londres, de Claude Monet (1901); A ponte de Charin Cross, de Claude Monet (1901); Leitora em branco e amarelo, de Henri Matisse (1919); Autorretrato, de Meyer de Haan (em torno de 1889-1891); Mulher diante de uma janela aberta, de Paul Gauguin (1888); eMulher com os olhos fechados, de Lucian Freud (2002).

Este foi o maior roubo de obras de arte na Holanda desde 1991, quando 24 telas foram levadas do Museu Van Gogh, em Amsterdã.  A exposição, com os quadros roubados no ano passado, foi avaliada em bilhões e celebrava os 20 anos do museu. “O Kunsthal tem 20 anos e esta coleção era única. Tivemos exposições de outras coleções únicas e até agora tudo correu bem, como nos outros museus. É preciso ter em conta que nunca pode haver 100% de segurança”, diz o presidente do museu, Willem van Hassel, em reportagem ao site Euronews. Ton Cremers, especialista em segurança da rede holandesa de museus, afirmou também que seria impossível, aos ladrões, vender as obras, o que resultaria na destruição delas ou escondê-las em algum lugar. Infelizmente, ao que tudo indica, ocorreu a primeira opção. Como não está confirmado que as cinzas encontradas correspondem às telas queimadas, técnicos do Museu de História Natural da Romênia estão examinando-as para comprovar a informação. Resta esperar o resultado do processo de identificação, que pode demorar meses.

Outros casos de destruição de obras vieram à tona na mídia nos últimos anos. Em agosto de 2012, o quadro Samba, de Di Cavalcanti e outras obras foram destruídas em um incêndio acidental que ocorreu no apartamento do marchand Jean Boghici. Também há o registro de inúmeros roubos conhecidos na História. Em 2007, O Lavrador de Café, de Candido Portinari, e Retrato de Suzanne Bloch, de Pablo Picasso, foram roubadas em apenas 3 minutos no MASP (Museu de Arte de São Paulo), durante a troca de turno dos seguranças. Mas 18 dias depois, elas foram recuperadas.

No Museu de Arte Moderna de Paris, em 2010, houve um roubo feito, surpreendentemente, por um único homem. Ele levou cinco obras de Henri Matisse, Georges Braque, Amedeo Modigliani, Fernand Leger e Pablo Picasso. Só no dia seguinte é que o museu se deu conta do roubo, porque o alarme estava quebrado há 3 meses.

Voltando um pouco no tempo, em 1990, houve um dos maiores roubos da história dos EUA. Os ladrões, disfarçados de policiais, adentraram no Isabella Gardner Museum, em Boston, levandotreze obras de arte, avaliadas, na época, em cerca de 300 milhões de reais. Apesar de ter passado 23 anos, as obras de Rembrandt, Degas, Vermeer e Manet continuam desaparecidas. O FBI oferece recompensa de 5 milhões de dólares para quem tiver informações sobre o paradeiro das obras.

A questão da segurança sempre entra em pauta nesses casos. Willem van Hassel, entrevistado no dia seguinte ao roubo no museu holandês, membro da direção do Kansthal, disse que “o museu tinha optado por uma vigilância eletrônica”, não havia guardas no local nem nas imediações no momento do furto. O fato ocorrido faz repensar o formato do museu, se somente a tecnologia pode garantir a segurança. A arquitetura do prédio não pode ser culpada pelos roubos, mas é esperado haver uma adaptação a fim de garantir a segurança das obras. Pode-se reconsiderar o espaço dividido entre as obras mais caras, o acervo e dificultar ao máximo uma possível fuga com as telas, deixando-as distantes da saída do prédio. Ademais, o museu ainda precisa continuar garantindo a interação entre o público e a obra sem que haja uma interferência grave na fruição com a mesma.

As obras roubadas no museu Kansthal, em Roterdã, não ganham importância somente por ter sido a primeira vez que estavam expostas ao público. Mas porque houve uma perda definitiva de obras que raramente vemos até mesmo em livros de Arte. Eram raras e, como em toda obra de arte, o seu valor está na fruição com o observador e a experiência que ela proporciona no momento em que a vemos no museu. A obra existe além de seu formato e do material utilizado na sua concepção. Ela traz à luz o artista, o contexto histórico e, mais ainda, o momento efêmero da sua criação, que logo se eterniza. É o momento em que ela ganha um significado. Não é somente um quadro, mas vira uma lembrança.

fonte.

Revisado por Carlos Cavalcanti

Um olhar pulsante sobre a modernidade por Baudelaire, Poe e Hoffmann

Matéria publicada no site Literatortura

“Multidão, solidão: termos iguais e permutáveis, para o poeta ativo e fecundo. Quem não sabe povoar sua solidão tampouco sabe estar só em meio a uma massa azafamada. (…) O andarilho solitário e pensativo tira uma embriaguez singular desta universal comunhão. Quem desposa facilmente a massa conhece gozos febris, dos quais serão eternamente privados o egoísta, trancado como um cofre, e o preguiçoso, internado como um molusco. Ele adota como suas todas as profissões, todas as alegrias e todas as misérias que a circunstância lhe apresenta”, As massas, Baudelaire.

Aos olhos de um homem num café se destaca um sujeito misterioso na multidão. Dois primos observam da janela tudo o que acontece numa feira. Um poeta vive às margens da cidade buscando a própria escrita. Essas são as figuras que nós conhecemos no livro “Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo”, de Walter Benjamin. Nele, o autor constitui um mosaico do que foi a modernidade, no final do século XIX, entre Paris, Londres e Berlim. O grande destaque da obra é o significado do flâneur, termo em francês para aquele que é um andarilho, a pessoa que se perde pela cidade, andando e andando sem um destino e, assim, observa tudo a sua volta como se fosse novidade. É alguém aberto ao que o mundo expõe a cada segundo.

Para isso, Walter Benjamin compara o significado de multidão entre três autores: Baudelaire, Poe e Hoffmann. O que pretendo fazer é, na verdade, chamar a atenção para algo ainda mais curioso entre ambos: o olhar vivo, surpreso, encharcado pelas cores da modernidade, do novo diante desses três autores. Primeiro, vamos começar com Baudelaire. Ele vivenciou intensamente as mudanças de Paris, em meio ao absinto, às prostitutas e às reformas urbanistas. E o que ele viu? Baudelaire era um flâneur. Havia muito para ser visto nessa virada do século XIX para o XX. Imagine pertencer a uma cidade que, em pouco tempo, passa a receber muito mais pessoas, formando multidões pelas ruas (não muito diferente da realidade paulistana, não?). E ainda uma cidade que passa por reformas com muita rapidez. De um lado está a Paris antiga e, do outro, a moderna ainda em formação. A qual cidade você pertenceria, então, já que há tantas mudanças?

E o olhar de Baudelaire se depara com inúmeros personagens. A imagem do trapeiro, que recolhe o lixo da cidade, chama-lhe a atenção por ser semelhante à imagem do poeta, que o próprio Baudelaire assume. Ambos se encontram à margem da sociedade e as palavras e gestos entre os transeuntes são “guardados” pelo poeta assim como o lixo pelo trapeiro, ganhando uma nova forma útil e agradável. Assim como há a dificuldade de sobrevivência para o trapeiro, Baudelaire se vê solitário em Paris. Mas prefere ser solitário na multidão, assumindo as galerias e a vida pulsante das ruas como sua morada. Nisso reside, em Baudelaire, a essência do flâneur, porque toma a observação dos acontecimentos como igualmente relevante às palavras que cata enquanto perambula pela cidade.

Benjamin compara Baudelaire com Edgar Allan Poe, no conto O homem da multidão. O personagem do conto se encontra sentado junto à janela de um café, porque ficou muito doente por um tempo, mas agora já está em convalescença, em um estado de espírito de intenso entusiasmo por redescobrir tudo ao seu redor. Nesse estado de curiosidade efervescente, o personagem observa cada detalhe, pela janela, dos transeuntes da cidade. Mas logo um sujeito chama a atenção do convalescente, por causa de sua aparente insanidade. Fascinado por essa figura, o que o convalescente faz? Segue, pelas ruas, esse homem da multidão, querendo saber o motivo para aquele desespero e horror estampado no rosto do desconhecido. A questão é que, mesmo assim, é impossível descobrir quem era aquele homem e o que sentia. Ou seja, a massa se torna um grande mistério a partir da modernidade.

Em Poe, há uma junção entre o flâneur e o detetive, isto é, ambos andam pela cidade atentos aos detalhes que veem a fim de encontrar respostas, seja para crimes ou apenas para se deixar conduzir pelo fascínio enigmático exercido por um transeunte. Já a postura de Baudelaire é de um poeta que observa a modernidade a sua volta, mas não se deixa conduzir sem rumo pela multidão; pelo contrário, ele sabe muito bem que o seu objetivo é coletar o máximo de versos e acontecimentos e manter sua criação individual. A diferença é que o convalescente em Poe segue o sujeito sem um objetivo concreto, apenas pela curiosidade, deixando-se levar pelo caminho do outro.

É possível também traçar uma comparação entre esse convalescente de Poe e o personagem do conto de Hoffmann. O ímpeto que o primeiro tem, e que o leva à experiência de vivenciar a flâneriepelos passos dos outros e se emaranhar pela multidão não é o que o olhar do personagem no contoA janela de esquina do meu primo, de Hoffmann, experimenta. O primo observa todo dia o movimento do mercado, de uma janela localizada em um ponto privilegiado de seu apartamento. Ele não tem o movimento das pernas e, por isso, só pode observar a multidão de longe. Ou seja, ele não pode seguir o outro, a não ser pelo olhar. A janela chega a ser um consolo, pois é imaginando histórias que o primo se sente livre para conhecer a multidão. Porém, o faz do alto, distante, seguro e somente pela sua imaginação e pelo que o agrada. O primo ensina ao narrador a “arte de enxergar” as pequenas cenas de gênero, como se focassem em cada mundo da feira que ele via da janela.

Depois de ver do que se trata cada referência que Benjamin faz a Baudelaire, Poe e Hoffmann, temos que perceber a nuance que há no flâneur. Não é só uma pessoa que sai andando pela cidade. O flâneur tem fascínio por tudo o que vê, como o convalescente em Poe, e não hesita em se inserir na multidão para observar. Já Baudelaire se constitui por uma dualidade: se insere na multidão, observa tudo ao seu redor, mas não deixa de fazê-lo sem pesar e angústia ao se esforçar em proteger a sua individualidade. Seguir o outro significaria a ele perder a si mesmo, nas palavras de Benjamin. Mas se pensarmos assim, como fica, então, o convalescente em Poe? É importante ver que há uma linha tênue entre o flâneur e o homem da multidão, porque o convalescente pode até ser movido pelos passos do outro, mas ainda tem algo que é seu: a curiosidade. Já no caso do homem da multidão, ele só deseja estar entre as pessoas para existir, a sua existência só ganha significado na massa. E esse homem da multidão está bem próximo de uma terceira figura que o próprio Baudelaire aponta existir na modernidade: o basbaque. Esse simboliza o fim do flâneur, pois já se encontra refém e perdido entre as mercadorias, haja vista que anda pelas lojas ansioso por consumir o que vê. Ou seja, tanto o basbaque quanto o homem da multidão, em Poe, são o fim daflânerie, dessa liberdade de andar, dos quais Baudelaire se distancia para evitar a neutralização na massa.

O olhar de Baudelaire é desiludido quanto à modernidade e ao seu espaço nela, não apenas pelo pouco que recebe por seus escritos e por não estar inserido no mercado literário, mas por se sentir estrangeiro na própria cidade. É por meio desse olhar que Baudelaire redefine o aspecto do herói moderno, que se sente também como um estrangeiro.

O poeta se arrisca por entre a massa atrás das rimas, mas com o cuidado de manter a sua individualidade. O convalescente em Poe gostaria de encontrar os olhos do homem da multidão, para pelo menos ver um ínfimo pedaço de sua alma e compreender o que o faz fugir. O narrador de Hoffmann se decepciona quando, ao descer à feira e ver uma florista lendo o seu livro, não é visto como autor e, portanto, um indivíduo. E Baudelaire também receou perder a auréola que o qualificaria como um poeta e indivíduo.

Em suma, o olhar que Poe, Hoffmann e Baudelaire voltam à modernidade é um esboço do que veem, é um olhar incerto, duvidoso quanto ao corpo que a cidade está assumindo. A modernidade é até escorregadia para ser definida. O homem das multidões permanece misterioso; a imaginação do primo vendo a feira se movendo é infinita e nunca alcançará a total verdade dos transeuntes. Contudo, é dessa incerteza moderna que os três autores extraem a beleza. Eles olham para o mundo redescobrindo os fantasmas do passado. A criação torna-se o abrigo para o artista sobrevivente. Assim, o olhar deles é daquele que se sacrifica em ser estrangeiro entre os outros homens a fim de ser um “homem de espírito”, autônomo, um herói moderno.

Revisado por Iêda Ágnes.

Dândi

Do meu passado sobraram os ternos antigos,
A bengala em prata luxuosa.
Dias brilhantes em taças e efêmeros amigos,
Que me viam rei de vida suntuosa.
 
A mim se voltavam olhares de admiração!
Ao mundo entediante eu cedia graça,
E a todos eu era inspiração!
Eu sabia adornar a desgraça.
 
O mundo está prestes a explodir,
Mas no luxo vivo intensamente.
Em roupas a inovação sei exprimir.
Sou um herói de alma impertinente!
 
Coroaram-me dândi,
Fui a esperança de uma época entediante.
E agora me resta esse poema incerto,
Ora com rimas, certeiro quanto a minha figura.
Ora inseguro…quebradiço, como minha época.
Aquela que ficou para trás.
A mim os olhos não se voltam,
E hoje sou apenas um sujeito mal-educado.
Minhas roupas parecem esquisitas
Ou insistem em me chamar de vintage.
Não sou vintage! Uso a época que foi minha!
Só vejo em mim a decepção
Que antes era esquecida nos bailes.
Agora ela me perturba,
Afoga-me em copos,
Em jogos de azar incessantes,
Em tardes suspensas no passado.
Sou um homem perdido num mundo hostil.
Tornei-me o que abominava:
Apenas um extravagante,
Sem coragem de persuadir, insultar, divertir.
Rabisco no papel algo que nem sei bem o que é.
Um poema, uma prosa, um grito.
Sei que o texto corresponde a mim.
Para sempre serei dândi,
Mesmo que apenas em meu espelho,
Em meu terno.
A você, ser desprezível desse mundo,
Fui o passado que desconhece.
Nunca saberá o que é ter um século seu!
Lamento, a você continuarei um herói,
Com minha bengala e meu orgulho. 
 
 
Para comemorar o 3º ano desse blog (:
Aqui está a música Dandy Darling, do Thiago Pethit, muito divertida e que me inspirou a escrever!

Ofício

Ideias discorrem pela caneta
Esboço que já respira e incendeia.
No tempo legislador da ampulheta,
Ao acordar, a vida me esbofeteia.
 
Busco nas esquinas a epifania.
Foge de meu traço a imaginação?
O mundo me reprime em anarquia
Do infinito busco uma só visão.
 
Avante à luta! Com um lápis e espada 
Torno em escrever heroico meu ofício! 
É da luta que crio grande arte.
 
Assim, são as ruas meu baluarte,
Construção poética do artifício 
Em calçada viva, minha morada.
 

(Soneto decassílabo, com rimas em abab e cdeedc)

Fala

Sou meio hiperativa com as palavras desde pequena. Minha mãe deixou escapar esses dias que talvez a minha vó deve ter feito alguma simpatia escondida para que eu começasse a falar logo. Deve ser isso. Passou a fazer sentido. As pessoas, quando ligavam em casa (esse passado em que se utilizava telefone com frequência. E também porque eu era criança), acabavam por me estimular a falar. Contava tudo da escola, sobre o brinquedo que minha amiga tinha levado, qual eu escolhera para aquele dia, as histórias que eu criava para meus ursinhos e bonecas – essas eram longas, praticamente novelas – tudo era motivo para minha fala. Nos momentos de quietude eu deitava no quintal e gostava de olhar as nuvens e o céu girando. Não, isso não é recurso poético em meu texto e nem possui uma premissa implícita, como se estivesse dizendo “ah, desde pequena eu era uma pequena filósofa, questionava o mundo a meu redor!”. Não, era apenas curiosidade infantil, ficava olhando as nuvens se movimentando. Desfaziam-se em enigmáticas imagens que eu tentava decifrar. Talvez fossem o início de meus devaneios.

Os desenhos animados me conduziam a desenhar também. Lembrava das falas dos filmes do Harry Potter e as repetia. Tudo bem, talvez até hoje haja um resquício dessas falas na minha memória, não vou negar. Músicas da Disney também grudavam ao meu dia, mas eu gostava mesmo é de desenhar os personagens que conviviam comigo durante o dia, na TV. Talvez esse fosse o momento introspectivo em que as palavras do dia se tranquilizavam e eu deitava no chão do quarto apenas para desenhar. Sempre com música, Toquinho tocava com muita frequência em casa.

Depois que eu cresci e comecei a ler Fernando Pessoa eu entendi a história de sentir essa ebulição interna. Começo a falar e já quero escrever. Não com a grandiosidade dele. Mas sem dúvida o surgimento dos heterônimos nas obras de Pessoa despertaram em mim a ideia de que talvez não seja tão esquisito (um pouco) ter tantas ideias se cruzando mentalmente.

Durante as minhas aulas da faculdade, ouço palavras tão belas! Sinto-me Macabea com seu fascínio pelas palavras que ecoam no rádio. Pompidou, Baudelaire, Renoir…tudo relacionado a arte, não tem jeito. Eu percebo que, ao falar Kandinsky, as letras unidas provocam uma sonoridade tão profunda que me faz pensar, no momento da fala, em mágicas explosões de cores, linhas para todos os cantos. Não deixa de ser um tanto próximo das obras que ele já criou. E Delacroix? Que nome heroico! Não apenas porque ele pintou o quadro Liberdade guiando o povo, tão reproduzido por aí em capas de livros baratos de Os Miseráveis. Não, é um nome imponente que me faz imaginar uma transcendência do Dela para o croix que deve ser a responsável pela sensação grandiosa ao observar seus quadros, creio que até sorrio por dentro quando falo seu nome.

Após essa explanação tão repentina sobre os nomes dos artistas – provavelmente, ao terminar de escrever esse texto, vou achar que minhas observações foram insanas demais – eu percebo que sempre tenho mais uma palavra a acrescentar. Tanto à minha fala quanto a esse texto. É difícil lidar com a infinitude do discurso. Parece-me que a maior preciosidade que tenho é a linguagem, dada a mim para me socializar com os outros e, principalmente, traduzir a minha própria existência.

Mas como lidar com o fato de que sempre posso dizer algo a mais? Sei que às vezes o silêncio do final de um texto alcança maior profundidade do que determinadas frases, pois permite, humildemente, que fique ecoando em cantinhos da memória o que foi dito. Elas guardam-se lá e, com o passar do tempo, recriam-se. Proliferam-se em novas ideias. E é, desta forma, que vou enrolando-me em letras para construir um silêncio finito, que se explode em palavras e ideias novas.

Do anúncio à arte

João trabalhava numa agência publicitária. Ele projetava desenhos para pequenos anúncios publicitários. Pasta de dente que prometia um sorriso branco, um lápis de cor que possibilitava o melhor desenho, o desodorante que atrairia todas as mulheres quando usado. Vivia imerso num mundo de sorrisos imediatistas, anúncios que serviam para o hoje e, amanhã, já estavam no lixo. Desenhos feitos por ele meramente produzidos e dispensados após terem feito o seu trabalho de persuasão.

O chefe de João não era lá muito agradável. Na verdade, ele era bem populista. Como os anúncios, ele se desmanchava em sorrisos pelos corredores, mas sala adentro falava o quanto a Maria havia engordado, se ela estava com problemas em casa. Falava também do rapaz da copiadora, “aquele lá tem um olhar soturno, parece prestes a dar um golpe na empresa. Ou será terrorista?”. Imaginação fértil e maldosa. É, ele vivia num mundo paralelo em que todos poderiam trai-lo, indo trabalhar para o concorrente. Ah, palavra que soava terrível. Concorrente. Tal qual os anúncios pregados pela empresa, o chefe de João era falsamente animado, parecia ser o modelo perfeito de chefe por conta de sua agradabilidade. Mas, no fim, ele era um tipo de líder descartável, não agregava nada à equipe. Tão falso quanto o sorriso branco prometido pelo anúncio, nunca conquistado, o oposto do que dizia na propaganda.

E João o incomodava. Ele tinha um espírito empreendedor, seja lá o que for isso. Ele não almejava ser apenas um desenhista de anúncios efêmeros. Em seu íntimo, ele queria ser um artista! Chegava tarde à noite e ia pintar as suas aquarelas, finalizar quadros à óleo, mundos retratados por ele que, apesar dos tons fortes e meio surrealistas, pareciam mais reais do que aquilo que ele pintava nos anúncios. Seus quadros não possuíam a promessa fútil que a sociedade atual tanto adora perseguir. Não, seus quadros carregavam na tinta colorida para que essa se fizesse presente até o último ponto branco da tela; que chamasse a atenção do observador por trazer lembranças adoráveis da infância, talvez dos doces coloridos que João comia após o jantar, com a mãe. Ah, ele ainda não sabia definir qual era a sua arte, mas sabia muito bem que ansiava mais por um legado na parede de um museu do que um anúncio lançado à infinitude das ruas e dos outdoors.

Certo dia, ele passou em frente à sala do chefe e o ouviu falando ao telefone.

-Esses empregados tem me decepcionado e muito – disse o chefe – Em alguns vejo a facilidade de convencer a produzir tal anúncio do jeito que eu quero…aí fica fácil transformar o que eles têm de bruto naquilo que eu quero e com o qual eu vou lucrar muito, né? Mas tem um em particular que me incomoda…o João, que faz os desenhos, sabe? Ele me parece disperso. Vem com ideias novas demais, não gosto muito disso. Essa história de ser visionário é modinha depois que se falou tanto em Steve Jobs. Ser inovador, criativo…aff, não me importo com isso, quero conquistar o mercado e só. E esse garoto…parece que não tá aqui na empresa. Quando discorda de alguma coisa, logo fala e vem com projetos novos. E os outros ficam entusiasmados…perco o meu posto de chefe. Eu sou um líder, é a mim que eles devem seguir!

Houve uma pausa, o chefe ouvia o seu interlocutor. E então respondeu:

-Hum, não acho que esse garoto seja um grande perigo…ah, vai, ele não desenha muito bem. OK, ele desenha. Mas vai passar a vida indo de agência em agência, fazendo aqueles sorrisos tolos de pasta de dente, já tá condicionado a isso. Duvido que vai conseguir alguma coisa além desses anúncios. Essa é a verdade, há gente que nasceu pra ser mandada porque tem talento limitado – acrescentou o chefe – Bom, agora preciso ir, meu caro. Depois nos falamos!

Não deve ser muito agradável ouvir isso de alguém que lhe parecia legal, pelo menos. Quer dizer, será que tenho talento o suficiente para pintar obras de verdade? E então foi essa a hora em que sentimentos romperam. De respeito à raiva foi-se num instante. João se questionava: quem esse cara pensa que é? Ele, João, até simpatizava com o seu chefe, mas e aquele sentimento colérico que estava agora despontando em seu interior? Mesmo que tenha despontado abruptamente, parece que tal sentimento já existia antes de tão intenso e certeiro. Mas não existia. De tanto formular uma imagem da pessoa que perfeitamente conquista a quem está ao seu redor pela retórica, João foi se emaranhando pela palavra sedutora de alguém que se mostra num espetáculo em que é o personagem heroico. Contudo, agora, por um simples telefonema, mostrara-se ardiloso e terrivelmente objetivo.  “João, você pode ser quem quiser, meu garoto”, ele disse, certa vez. “Você tem um futuro promissor aqui na agência, eu irei te dar só chances de crescer!”. Ah, controlar-se é difícil. João não poderia dizer que essa foi uma decepção trágica digna de um mito grego. O respeito fora embora, esmaeceu diante dessa pintura. Imagem que antes se mostrara colorida, agora se distorcia num horror expressionista.

Não, João deveria provar que merecia algo melhor. A sua arte merecia isso. Não era justo que ele passasse noites tentando pintar uma nova realidade na tela em branco e se deixar, ao acordar, corroer-se por aquela que lhe era imposta.

Então ele voltou à sua mesa, já vazia de trabalhos, estava naquele momento definido por ele como “limbo”, aguardando um novo projeto ou o que o chefe iria mandar que ele fizesse. Já havia recebido o salário do mês, estava tudo certinho. Parece que o dia havia lhe dado uma pausa apenas para decidir. Pegou o pouco que tinha nas gavetas, pôs numa caixinha de papelão.

Com passos decididos, João entrou na sala do chefe. Disse que estava cansado do seu trabalho e que procuraria por outro mais criativo. Estava exausto, após anos, em lidar com sorrisos de pasta de dente que se esmaeciam assim que ele lhes dava o último retoque. E também não acreditava naqueles lápis de cor que vendia. Eram tão fracos, não tinham o direito de se auto-titularem a solução para os artistas que querem uma obra feita às pressas. É isso. Agora, livrando-se desses signos vazios, das promessas tolas que ele era obrigado a vender por seus traços, buscaria um modo mais sincero de pincelar a realidade.

Entre molduras

Olhadelas superficiais, rápidas, fugidias. Devo ser entediante. Minhas cores e formas parecem pálidas diante da vivacidade de outras mais chamativas e conhecidas. Não consigo competir com a popularidade de um Modigliani ou Caravaggio. Um quadro como eu não encontra um olhar demorado desses passantes que se arrastam pelo museu, nem sei pelo que eles procuram. Será que estou empoeirado, velho?

Não, até ontem eu era vanguardista! Era ousado carregar essas formas difusas, a força do pincel colocada sob a tela com o ímpeto de provocar o movimento, eu desafiava até mesmo o olhar do observador. Quem me pintou adorava Monet, vivia contemplando os livros de Arte e suspirava, desejando me criar. Não sou um daqueles vários quadros retratando a beleza da ponte em explosões distintas de cores. Acho que brinco com a imaginação do observador…mas se ele se permitir ser atingido por mim.

Usar molduras é de praxe. É como se fossem uma vestimenta para apresentar os quadros. Mas, ultimamente, estou em crise e tenho achado essa moldura, que antes era convidativa, uma verdadeira prisão. Esse enlace dourado, antes um adorno, hoje um grilhão. Esses fios dourados vão se ocupando de minhas beiradas, como redes, eu tento respirar, mas me sinto sufocado. Só preciso de uma olhadela para voltar ao que era antes.

Sabe, gosto da ideia, em tese, de estar em um museu. Sinceramente, é melhor do que estar numa sala de jantar, fazendo parte de uma coleção particular, observando as pessoas rindo bêbadas à mesa, contando de como gastaram dinheiro em viagens, tentando posar de cultas e eruditas, que conheceram o Orsay, o Louvre. Mas nem sequer olham para o quadro ao lado, poxa, sou Arte!

Ou não sou? Nem sei mais. A verdade é que meus dias se resumem a aguardar por aquelas visitas de escola. Gosto de ver aqueles olhinhos saltando de curiosidade buscando tragar, ao mesmo tempo, todos os quadros do andar. São nesses momentos que percebo chamar a atenção de uma criança aqui, outra ali. Apontam, perguntam, falam de meu criador.

No fim eu vejo que é difícil a minha relação com o museu. Ao mesmo tempo em que me abriga e possibilita esses olhares, por outro lado há os dias melancólicos, em que ninguém se esforça para me ver. O prédio que me abriga, muitas vezes, chama mais atenção que os meus traços. E com essa arquitetura não posso competir.

A cada dia que lanço meu olhar para essa sala cheia de quadros que, provavelmente, sentem o mesmo que eu, busco por um olhar brilhante daquelas criancinhas que me definem com tanta simplicidade.

Conto que surgiu após um semestre convivendo com museus-espetáculo, artistas modernos e pós-modernos. E ainda inspirado na música All the rowboats, da Regina Spektor.

Noite estrelada

Um café iluminava a rua, convidativo aos devaneios da jovem. Precisava escrever, mas faltavam-lhe ideias. O salto alto tocava charmosamente, ao andar, a rua irregular em que ela se encontrava. Sentou-se em uma das mesinhas, pediu um café e croissants. A noite era estrelada, o café parecia agradável para fluir alguns pensamentos. O estabelecimento era simples, com mesinhas no lado exterior, uma cobertura oblíqua cobrindo-as delicadamente. Acima, algumas janelas abertas, indicando que a moradia pertencia ao dono do café. A figura do estabelecimento era semelhante ao Terraço do Café em Arles à noite, de Van Gogh. Realmente encantador.

A jovem procurou observar à sua volta e escrever sobre o café, as pessoas jogando bilhar no interior e conversando animadamente. Enfim, era uma cronista tentando mostrar o encanto da simplicidade da noite estrelada. “Ah, noite estrelada, nome do quadro de Van Gogh”, suspirou. Sentia-se, de fato, no quadro do pintor. A madrugada emanava o perfume do café, envolvendo-a. Assim, adormeceu.

Mais tarde, foi difícil abrir os olhos com tanta claridade. “Já amanheceu?”, questionou-se. A jovem abre os olhos e percebe que não está mais no café. Usava um vestido amarelo clarinho, rodado, acima do joelho. A saia era de tule, abaixo do tecido leve e delicado do vestido.

Repousava num campo de girassóis. O amarelo vibrante a cegava de tão intenso. O vento penteava as pétalas do campo. Parecia um baile em homenagem a ela, que também estava apropriada para a festa, com um vestido igualmente amarelo. A jovem misturava-se ao cenário. Ou o cenário a compunha. A reciprocidade entre ser humano e sujeito nunca fora tão intensa. Ousaria dizer que se encontrava em um estado de natureza, com apenas a necessidade de respirar o ar puro daquele campo. Um sentimento paradoxal para o momento, já que o encanto da cena estava no casamento entre a vestimenta que usava e a cor natural das flores.

Repentinamente, ouve-se o voar dos pássaros. Eram corvos. A sensação de melancolia toma conta da moça. Era hora de acordar.

Fora tudo um sonho. Digno dos filmes de Akira Kurosawa. A jovem sentia-se como o humilde pintor de um dos curtas do diretor, personagem que envolve-se com as obras de Van Gogh. Ela adormecera sobre os livros adornados com as pinturas do artista. Tudo terminara com a melancolia, o voo dos corvos. Agora, só restara a inspiração que o seu inconsciente pedia para ser retratado. As palavras surgiram rapidamente sob a caneta orientada pelas mãos e pela mente da jovem.

**Para quem quiser ver, no texto há os links das obras do Van Gogh em que os cenários descritos foram baseados (:

Audrey

Esguia, delicada, olhos de gazela profundos, elegante. É assim que podemos definir a atriz Audrey Hepburn, conhecida por filmes de 50-60 como Bonequinha de Luxo, My Fair Lady, Sabrina, etc. Abaixo o desenho que fiz da Audrey, ela foi um luxo mesmo =)

Cats

Peça musical Cats
Brasil/2010
Com Saulo Vasconcelos, Paula Lima, Sara Sarres
 

As silhuetas de gatos iluminadas pelo luar, olhos felinos reluzentes no escuro. Assim que os gatos aparecem entre a plateia, a peça Cats, musical oriundo da Broadway em cartaz no Teatro Abril, cativa com músicas belíssimas e uma excelente construção metafórica de cada gato-personagem.

Os gatos do enredo são da tribo Jellicle que esperam ter uma chance de renascer, uma oportunidade que, a cada ano, o líder Old Deutoronomy dá àquele que a merece. Já que todos os gatos têm sete vidas, o líder escolhe um que poderá renascer.

A protagonista é a gata Grizabella, um tanto velha e maltrapilha que retorna à tribo depois de ter saído explorando o mundo. A personagem pode ser comparada ao indivíduo que sai da caverna, encontra o conhecimento e retorna a sua origem a fim de falar aos demais o quanto é vasto o mundo fora da caverna, narrado na Alegoria da Caverna, de Platão. Mas quando Grizabella retorna, tal qual o indivíduo na Alegoria, é incompreendida por aqueles que optaram em viver eternamente junto à tribo. Para os gatos Jellicle, a vida baseia-se em andar entre os becos à espera da decisão do líder de enviá-los a outro destino. Já a gata foi mais ousada e sonhou pela sua emancipação, em conhecer o mundo “pós-beco”.

A história não se concentra apenas em Grizabella. As músicas apresentam cada tipo felino Jellicle que não foge nada dos estereótipos humanos. Há o gato malandro, a dupla que vive de roubos, o ator que vive das recordações de sua era de ouro. São tipos com características humanas, personificam a malandragem, o mistério e a tristeza em recordar do passado que podem muito bem ser encontradas no ser humano.

A condição enfrentada por Grizabella e pelos demais gatos encena a marginalização humana. Ao ficarem à margem da sociedade, os gatos tentam viver da melhor maneira possível, sonhando com o dia em que poderão viver uma vida diferente da atual. É a ideologia humana por um lugar mais justo, igualitário.

A peça é bem amarrada e com cenas surpreendentes. As músicas traduzidas por Toquinho ficaram devidamente abrasileiradas e emocionantes. A cena em que Paula Lima, como Grizabella, canta a versão de “Memory” é de levar o espectador às lágrimas. Mais uma vez o ator Saulo Vasconcelos traz um personagem encantador ao palco, atuando como o líder sábio e cativante Old Deutoronomy.  Os atores que assumem os demais gatos conseguem representar muito bem os trejeitos felinos, como a agilidade e o andar sinuoso. É uma verdadeira obra-prima, grandiosa e inesquecível.

Parvos e o riso

Após um longo mas excelente debate sobre o riso, o autor Gil Vicente e o parvo (o bobo da corte ou atualmente o Chaves, do seriado, que nos faz rir de maneira debochada sobre tudo), minha professora de Literatura ofereceu uma carona até o metrô, a mim e a mais dois amigos. Ela é assim, busca fazer de tudo pelos alunos, desde dar uma carona até ficar horas explicando uma pergunta feita. Ela é única.

Bom, já estava em cima da hora, era rodízio. Minha amiga falava de psicologia, meu amigo cantarolava uma música de Glee, dentro do carro era uma verdadeira representação do teatro vicentino: alegre, profano, uma forma de promover uma “válvula de escape” – claro, todos se sentiam bem por ser finalmente sexta-feira.

Eis que no meio da bagunça, cada um comentando um fato, um livro que leu ou o quanto determinada aula foi cansativa, minha professora diz, repentinamente:

-Cadê os “marronzinhos”?

Rimos demais. Para alguns isso pode realmente não ter humor algum. Ela repetiu a pergunta. Precisávamos ver se havia algum “marronzinho”, um fiscal da CET que poderia multá-la por ter passado dez minutos do limite estipulado do rodízio. Claro, estava chovendo e com grande trânsito, óbvio que é comum se atrasar em São Paulo.

Muitas vezes determinada frase, palavra dita não é engraçada. Mas se alguém do seu lado ri, o riso torna-se contagiante. É a Catarse, segundo Aristóteles. Sem ser teórica demais, a Catarse é o riso coletivo – ou choro – que é causado quando o indivíduo se identifica com o que vê num teatro grego. Rir traz prazer, mas contar a piada não tem só a intenção de ver o outro apreciá-la, e sim sentir o mérito por ter contado, o que gera o prazer. Assim, o riso precisa ter limites.  Não dá para rir descontroladamente num jantar ou reunião. O riso é uma arte que precisa ser usada nos momentos certos para causar impacto, o de desestabilizar quem ouve a piada ou até mesmo numa causa social, como ser irônico com o governo atual.

O riso tem um forte poder. Desde usar uma linguagem debochada para apontar os erros da sociedade tal qual José Simão faz nos textos da Folha de São Paulo até unir pessoas, sentir que há algo em comum entre elas. Após uma grande discussão sobre o riso, percebe-se que “A vida é uma tragédia quando vista de perto, mas uma comédia quando vista de longe”, como Charles Chaplin disse. É necessário ter um pouco de parvo em si mesmo.

O Gustavo Saito fez uma crônica sobre o tema. É interessante ver uma outra forma de narrativa!

Sob a perspectiva de um rasgo

“Um dia terá que ser admitido oficialmente que o que batizamos de realidade é uma ilusão até maior do que o mundo dos sonhos” Salvador Dalí
"Dream Provoked by the Flight of a Bumble Bee", Salvador Dalí

Um elefante em tamanho descomunal anda sobre o mar. Tigres saltam da boca de um peixe. Assim descreve-se a obra surrealista de Salvador Dalí. Pelo ponto de vista pragmático, nada do que foi narrado é possível. Mas como um verdadeiro artista, Dalí coloca em questão o que se conhece como real. Para ele, há um mundo surrealista, em que são possíveis tigres irromperem de peixes.

Deleuze e Guattari, ambos filósofos, disseram que os artistas e pensadores em geral buscam promover “rasgos” no guarda-sol. Obviamente é uma metáfora, tal qual a pintura de Dalí. O guarda-sol representa a realidade, tudo aquilo em que o sujeito se apóia, se debruça para que seja possível organizar o pensamento.

Por exemplo, quando tentamos entender um problema matemático ou até mesmo um acontecimento do cotidiano. Antes se organiza os fatos, tudo o que ocorreu para que seja possível chegar a uma conclusão e o assunto fica “resolvido”; é um processo empírico. Porém, permitir que tudo seja visto como concluído, determinado, leva o sujeito a se estabilizar totalmente em face da realidade que o guarda-sol abriga e passa a não questionar o mundo a sua volta.

Então, surge a função dos artistas: abrir fendas no guarda-sol, desafiar a suposta realidade que a maioria aceita, e mostrar que há uma escuridão além desse rasgo, no firmamento. A escuridão é tudo aquilo que desconhecemos. O sentido de vida e morte, Deus, amor. A função do artista não é rasgar e mostrar uma outra realidade, como se a dele estivesse certa. Pelo contrário, a intenção é desmascarar aquilo que se diz real e promover o caos, a tentativa de refletir sobre o que está “lá fora”. Certas questões sempre irão precisar de “rasgos”, reflexões. Mas é preciso fazer um adendo: o fato de desconhecer grande parte do mundo não pode trazer ao ser humano a necessidade de ser supersticioso, pois isso causa sofrimento e medo, que não permitem a reflexão.

Sendo assim, o artista ensina que nunca saberemos tudo, tal qual o filósofo Sócrates pensava, “Só sei que nada sei”. Melhor ainda, em vez de pensar na frase do pré-socrático, a ensolarada música do Kid Abelha diz o mesmo. “Nada sei dessa vida. Vivo sem saber. Nunca soube, nada saberei. Sigo sem saber”. É possível ter em comum com Salvador Dalí muito mais do que se imagina. A loucura é aceitar a realidade exatamente como ela se mostra. O bom senso é permitir que tigres irrompam de peixes.

Ética e ciência

Redação de Filosofia – 2010

“Neste mundo há muitas misérias que não são ignorâncias; e não há ignorância que não seja miséria”. Padre Antônio Vieira

Heráclito e Demócrito

De acordo com a obra do artista Bramante, os filósofos Heráclito, o “pai da Dialética”, e Demócrito, que estudou o átomo como indivisível, observam o mundo sob aspectos distintos. Heráclito chora, enquanto Demócrito ri. Dessa forma, Padre Antônio Vieira, conhecido pelos sermões que escreveu, analisa o valor de ambas as reações.

Ao chorar, Heráclito demonstra insatisfação com as “misérias” do mundo, isto é, com os acontecimentos que não se modificam. Dentro da filosofia criada por Heráclito, “ninguém banha-se duas vezes no mesmo rio”, o mundo está em frenética mudança. O choro do filósofo parece indicar certa falha na filosofia que ele mesmo criou. A vontade de poder, o totalitarismo, a ética perdida são fatos que não se modificam por si mesmos, como as águas de um rio. Saber que existem “misérias” é apenas um passo para a mudança, todavia ter consciência delas não costuma modificá-las naturalmente. Essas mudanças, portanto, não podem constituir uma “origem”; elas são invenções do ser humano.

No quadro, tendo uma reação oposta, Demócrito ri. Não possui uma conotação arrogante e nem se posiciona como um “velhaco” que detém todo o conhecimento. Mas, ao creditar a ideia do átomo, Demócrito sente que possui um trunfo. A ciência é capaz de alimentar milhões de pessoas, de criar armas para defendê-las (em certo sentido). Mas a ciência não se apropria da segregação ou pobreza na África. Ambas as idéias, de Heráclito e Demócrito, são válidas, auxiliam na constituição da sociedade. Entretanto, debater a ética é fundamental para que facilite um pouco a convivência humana e estabeleça um limite na ciência. 

Patinação artística

O riscar do gelo, brilho, um vestido esvoaçante. É assim que a patinação artística, nos Jogos de Inverno de Vancouver 2010, apresentou-se. A dupla canadense Tessa Virtue e Scott Moir ganhou a medalha de ouro, a quinta nas Olimpíadas, mas a primeira na categoria de patinação artística. A apresentação foi belíssima, ovacionada por longos minutos, e emocionou ao retratar de forma tão sublime a 5ª Sinfonia do compositor Gustav Mahler.

A dupla que ficou em segundo lugar fez também uma excelente apresentação, ao som da trilha sonora de O Fantasma da Ópera, The Music of the Night. O figurino era semelhante ao do filme e a dupla conseguiu mostrar a leveza que a obra do compositor Andrew Lloyd-Webber imortalizou no teatro.

Oksana Domnina e Maxim Shabalin, a dupla russa que venceu ano passado, ficou com o bronze. Apresentou sensualidade e uma boa técnica, mas não chamou a atenção do público tanto quanto a dos canadenses.

Às vezes é tão difícil manter-se em pé numa superfície plana! Imagina patinar no gelo? Uma proeza difícil, sem dúvida! Depois de assistir à patinação artística, fiquei fascinada com a técnica, a beleza e a arte de apresentar uma história no gelo.

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