Ir para conteúdo

Categoriacontos

8 homenagens aos 208 anos de Edgar Allan Poe

Esta foi uma homenagem que a Amanda Leonardi escreveu para o site Notaterapia aos 208 anos do Edgar Allan Poe no dia 19 de janeiro. Para isso, ela sugeriu que eu e outros autores escrevêssemos contos ou poemas de 100 palavras em homenagem ao universo do escritor, e ainda pude ilustrar três contos!

*********

poe-denis-pinheiro

Arte de Denis Pinheiro

No dia 19 de janeiro de 2017, celebramos 208 anos desde o nascimento do escritor norte-americano Edgar Allan Poe, um dos mais influentes autores de todos os tempos. Apesar de ser mais famoso pelo gênero do horror, Poe percorreu diversos caminhos da literatura e deixou sua marca em muitos deles: os primeiros contos policiais de que temos registro na literatura ocidental a marcar o cenário internacional foram escritos por Poe, e seu detetive, Dupin, presente nos contos A Carta Roubada, O Mistério de Marie Roget e Os Crimes da Rua Morgue inspirou a criação de ícones como Sherlock Holmes de Conan Doyle e o detetive Poirot de Agatha Christie.

Além de horror e contos policiais, Poe também inovou na teoria literária, ao expor seu processo criativo no ensaio A Filosofia da Composição, em que ele explica o processo quase matemático pelo qual compôs seu mais famoso poema O Corvo. Poe também foi um prolífico crítico literário, e dentre as muitas resenhas que escreveu, uma foi de um romance de Charles Dickens chamado Barnaby Rudge, o qual, vejam só, inclui entre seus personagens um corvo falante!

Poe também escreveu contos de humor negro, um longo ensaio chamado Eureka que ele prefere que chamem de poema em prosa, no qual ele defende teorias sobre ciência, filosofia e física quântica, além de ter também escrito uma obra que pode ser considerada uma novela, ou um breve romance até, chamado A Narrativa de A Gordon Pym. Enfim, Poe produziu muito em sua breve vida nesta terra, e sua influência é imensurável. Muito do que se conhece por conto, por literatura policial e de terror nos dias de hoje se deve a Poe.

Enfim, para prestar uma homenagem a esse marcante escritor em seu aniversário de 208 anos, preparamos uma seleção de poemas e mini contos inspirados em obras do Poe, escritos por jovens poetas e escritoras nacionais influenciados por Poe, além disso, todos os textos foram ilustrados por talentosos artistas também admiradores de Poe.

A jovem no retrato oval – Luciana Minuzzi

 Arte por Denis Pinheiro

 O rapaz retirou um tanto da poeira que me cobria. Era o primeiro em muito tempo a observar as linhas que formavam o meu retrato e a minha prisão. Ele sacou um objeto do bolso e o posicionou à minha frente. Dele, saiu uma luz, sem ao menos haver um candelabro por perto, e senti minha imagem ser capturada. Desta vez, pude alongar meus braços até que saísse da moldura. Ouvi um berro e o homem saiu da sala de forma abrupta, o que me fez perceber a minha nova forma. Caminhei até a porta da casa. Agora, eu sou livre.

O olho malignoMarina Franconeti

 

Arte por Marina Franconeti, edição de Denis Pinheiro

 

Foi em uma terça-feira em que sonhei com um olho. Bem redondo, pupila dilatada, uma massa olhando para mim. Era um mero olho que parecia vir de alguma parte do mundo, e no sonho eu o desenhava. No dia seguinte, concentrei-me por um tempo infinito para marcá-lo no papel. A cada risco, sentia humanidade nas minhas mãos. Circulei a pupila enegrecida na íris, dei-lhe brilho, perdi-me nos riscos, acrescentei cinzas caindo dos olhos. Ao fim, ao contemplar aquele olho, notei o brilho se intensificar. E com lentidão, mexeu-se, como piscando. Mas sem pálpebras. E deixou um rastro de cinzas negras na minha mão.

Delirium Tremens – Fernanda Oz

 

Arte por Denis Pinheiro

Se aos dez já podia sentir os calos estourando em agonia, aos vinte havia conquistado as dores e aos quarenta tornei-me elas. Não existem palavras capazes de acalmar o coração de quem se afoga em um mar de tristezas inexplicáveis. Os círculos giram na água, o choro ecoa para quem quiser ouvir… Nunca mais estaremos aqui e, ainda assim, nunca acabaremos as obras que começamos. A despeito dos corvos que meus olhos comerão, guardo meus dentes embaixo da cama, ao lado das lembranças daqueles que amei. Das dores que colecionei. Dos vícios que não abandonei. Despeço-me como o gato que não calcula a distância entre os muros ou distância até o túmulo. Sem entender muito sobre a morte, mas entendendo demais sobre morrer, deixo um rastro negro de poeira e poesia para minha alma procurar, mesmo sabendo que nunca, nunca mais voltaremos a nos encontrar.

Viva – Mariana Rio

 

Arte por Marina Franconeti, edição de Denis Pinheiro

 Está quente. O silêncio é ensurdecedor. Pouco a pouco o ar vai se acabando. Estou sufocada! Essa certamente é a pior experiência que já tive. No começo estava desesperada, mas ao longo do tempo todo sentimento de raiva diluiu, agora só sinto melancolia .Quem poderia imaginar que a mais bela moça da cidade teria tão cruel destino. Só queria que alguém ouvisse minhas palavras antes que meus pensamentos se confundam entre si. Choro! Mas imediatamente paro, lágrimas não abrem caixões – eu penso. Agora não penso mais nada…é meu fim, meu triste fim chegou.

Corvo – Yoman Malaquias

 

Arte por Marina Franconeti, edição de Denis Pinheiro

 

 Pelo fúnebre âmago e mortiço, exalo pela língua bifurcada de um enfermo, resmungos amargos de um moribundo idiota… Apenas flagelos de uma mente turva de angústia e um olhar agourento, desprovido do alento que se diluiu em desalento, gotas mornas transbordam os umbrais de minhas janelas… deixando minha pálpebras orvalhadas, apenas um momento, mórbido e melancólico… o que foi embora… e o olhar nefasto do corvo, tão sagaz e lúgubre, já me espreita sem demora, na ânsia de me libertar e no pesar me devora.

As sombras de corvos assombram – Amanda Leonardi

Arte por Denis Pinheiro

 

Minha mente é como a Casa de Usher,

repleta de fantasmas e sombras sepulcrais,

incompleta, a depedaçar-se

em lagos inundados de Nunca Mais,

a afogar-se em reflexos de quem fui,

reflexos desconexos, sem olhos nem sorrisos,

nem rimas ancestrais;

Doentemente, minha mente persegue

aves agourentas que bebem o céu soturno

a atravessar noites ébrias,

mas ébrias apenas de melancolia

onde vinho nem poesia já não se bebia nunca, Nunca Mais.

 

O canto do pássaro negro – Luis C. S. Batista

Arte por Denis Pinheiro

 

Aquele ávido estirão

Para a coerção de que em um único ato

Converter-me-ia naquele

Cujo feito tornar-se-ia venerado por deuses e mortais.

Emoções sazonais

Avinharam-me a acuidade passional e aspirações pela glória.

Ébrio, andejei pelas sonatas tenebrosas de outrora.

E no romper da aurora,

Ressurgi com uma figura venusta e eremítica.

Minha aparência é sombria,

Todavia, minha alegria resplandece como o fulgor

Da pouco antes alvorada

E enobrece o meu adejo aos astros,

Dispondo o meu rastro

Em vívidos dilúvios de condolência e poesia.

E, pousarei nos vales do amanhã,

Onde a façanha

De conservar o status quo não estarrece ou incita.

Degrada(somos) – Laís Fernandes

 

Arte por Denis Pinheiro

Estou partido, meu velho amigo

E partindo, para sempre, estou

O chão que range neste hostil abrigo

É tudo o que me restou

As horas esvoaçam como meus cabelos

Fissuras abrem sem nelas tocar

Ah! Se de mim tirassem estes desmazelos!

Juraria pelos céus nunca mais chorar

Murmuram, funestas, paredes e portas

A poeira engole nossos corações

Se Ele escreve certo por linhas tortas

Aguardo, enfermo, vossas orações

Amada minha, sangue de meu sangue

Foi-se embora sem se despedir

Se de loucura ouço teu compasso exangue,

Penso: de teu ataúde ainda irás sair

E logo vens, cambaleante e vil

Irmã de prosas e desesperos mil!

Desmoronamos no viés da memória

O rio traga nosso peito em glória:

Paira no ar o silêncio senil.

Imagem de capa: arte de Denis Pinheiro

Major Tom, uma homenagem a David Bowie

space oddity

A respiração pesada dentro do capacete podia ser a pior parte de todo o trajeto entre a superfície do planeta. Era a acompanhante ruidosa de todas as noites que viravam dia onde não era mais a sua casa. Ela ocupava pesadamente o capacete tanto quanto seus pensamentos, que variavam entre as tarefas de montar mais uma sonda e a impressão de que qualquer vida havia acabado na terra que, antes, povoara. A respiração era vida e morte em mesmo discurso.

Por isso cada passo denso que dava nesta superfície era o mesmo que carregar consigo todos os humanos já mortos. O próprio tempo, agora, era outro. Esvaziado, morto, desnudo. O relógio não fazia a menor diferença, e o tempo humano soava longínquo. A Terra vivia sua quarentena mais obscura e, ele, tivera a sorte por possuir os conhecimentos científicos necessários para tal expedição, o sonho de desbravar outro mundo e curar a Terra da mortalha que carrega há séculos, de lugar que ansia pelo progresso cego. Ele era, agora, o guia nesta cegueira.

A angústia de se sentir digno de pisar em outro planeta vinha de vez em quando, em forma de pesadelos. Vinham sempre entoados pela respiração ruidosa. Se um dia Tom voltasse para a Terra, o som que escutara da própria respiração iria acompanhá-lo como mais uma trilha sonora irritante de filmes sci-fi. Era como a criança que já havia assistido o mesmo filme centenas de vezes. Esgotamento profundo era o que ele tinha no sonho, como se o corpo cedesse ao desespero e a respiração tomasse conta de tudo. “Mas ao menos estou respirando”, pensou ele. Isso poderia servir de consolo, mas por vezes, ele só queria que o som cessasse.

Mas houve o dia em que todos morreram na superfície do planeta inóspito. Por uma tempestade intensa de poeira, ele viu amigos desaparecerem na cortina avermelhada, e ficou sozinho. Tentou contato, muitas e muitas vezes. Mas, no fim, assumiu para si o personagem das histórias de ficção científica, o sobrevivente abandonado no espaço.

Na vida real, contudo, isso era mais desesperador. Havia pouca comida, e o pouco que havia gostava de lembrá-lo da decadência que era estar em outro planeta, sem nada de útil a fazer como a NASA, pelo contrário, gostava de glorificar, e imaginando os amigos mortos. Tentou por dia procurá-los, queimou no sol e achou que morreria na poeira por conta da sede. Só havia a respiração para acompanhá-lo. Sempre ela.

Nos dias que retornava para a sua recente casa, encontrava as comidas imprestáveis e o tempo de vida que escorria rapidamente. Irônico para quem queria tanto se livrar do som da respiração. Contava a comida e tentava contato. Mas houve o dia em que ele veio.

– Aqui é Major Tom em mensagem ao Controle do Solo, eu não sei mais o que fazer. Tento enviar relatório e não obtenho nenhuma resposta. Eu estou sozinho em A-457, e a cada instante a comida se esgota, eu estou com…

O medo foi interrompido pelo ruído de uma fala. Desta vez a respiração quase cessou. E depois ganhou impulso, e se intensificou.

-Eu posso ouvir, Major! Por favor, responda, preciso de um relatório sobre a sua situação – houve uma pausa longa – Para que possamos tirá-lo daí.

-Ah, me tirar do espaço não é lá uma tarefa fácil – sorriu ele tristemente, olhando para a sala de controle vazia.

Foram dias tentando contato que eram cortados e, mais uma vez, seguidos pelo silêncio e o desespero. Mas houve um dia, em que a resposta definitiva veio. “Sim, eles sentem muito”, Tom tentou se convencer, mas a raiva e o choro eram descontrolados. Ele comeu por dias com um sabor amargo na boca, e tentava imaginar como seria morrer. A família que ficara na Terra, em meio a toda a fome e sede, repetiria por décadas, entre sussurros, para aqueles que sobraram, a tristeza de ter os restos de um parente em um planeta distante, onde morreu sem ao menos ser visto. Mas Tom sabia que sua família poderia assegurar que ele tentou.

Muito foi pensado naqueles intervalos. Os dedos de Tom tocavam o vidro gelado de onde via a Terra. Não sabia mais distinguir o que era menor ou maior, se sua latinha tecnológica cheia de luzes azuis e vermelhas, na qual estivera abandonado até mesmo pela Morte, ou se a esfera azul no seu horizonte feito de vazio negro e explosões brancas. Lata e Terra eram o mesmo mundo, em uníssono respiravam, dentro do pequeno astronauta.

Neste olhar que ligava as duas realidades, Tom sabia sentir o passado vivo. O perfume da camisola da esposa, os cabelos desgrenhados dos filhos em sua mão, o domingo arrastado de toda semana com cheiro de frango e batatas, os sabres de luz e heróis que adotou nas mãos e na mente quando criança, as noites estendidas em estudo e contas, o amor e vício pela ciência, que vinha misteriosamente da criança que foi, a contagem regressiva e a vontade de vomitar ao entrar no foguete, as mãos trêmulas da equipe, as partidas de poker, e a primeira vez que chorou ao ver a Terra.

O reservatório de souvenirs se enchia e respirava mais alto que a sua própria respiração ruidosa, porque agora chorava. A Terra soava nova a cada lembrança. Sabia não poder voltar. Era a criatura mais sozinha, que olhava do alto a solidão em sua pureza, de um silêncio incurável. Não era visto por ninguém, era ignorado pelas estrelas, e nos planetas não havia os vestígios das palavras e nem das poesias que se pregam a todas as coisas na Terra.

Parecia, porém, que se estava sozinho com sua respiração, havia um pouco da Terra em seu pesar, souvenirs e existência. Como se fosse um hospedeiro do espaço, propagando pelo seu próprio corpo a poesia perdida e deixada na Terra. Crescera olhando os céus, mas agora eram dos céus que ele olhava. Não negava que em vida soubera ver o encanto de sua própria existência. Mas agora ela era como a primeira gota d’água descoberta, a origem de tudo o mais que queremos segurar nas mãos. Ele alcançara o máximo. E, mesmo com tempestades, sobrevivera. Era um espécime sobrevivente, humano, hospedeiro no espaço. Em suas contas, ele era o impossível.

Tom, então, olhou para as luzes da nave, que piscavam inutilmente em cada botão. Apertou um deles, e com um sorriso, viu a porta se abrindo lentamente. Desnudo, apenas em suas roupas brancas e estupidamente frágeis, desceu as escadas, tocou a poeira e sentiu os últimos instantes de sua mais pura existência.

– Eu nunca quis que você parasse. Mas acho que chegamos ao fim – a voz embargada era mais forte que a falta de ar – Foi bom viajar com você, querida.

Diante da Terra mais azul, espectadora em sua melancolia silenciosa, a respiração deu mais um suspiro, respondeu com um sorriso, e cessou.

*******

Este conto é uma homenagem a David Bowie (1947-2016), pela genialidade e beleza de suas letras, como Space Oddity, a maior referência para este conto.

Imagem de capa: ilustração de Andrew Kolb para o livro infantil inspirado na música

Meus contos no concurso Brasil em Prosa da Amazon

Pessoal, este post é para avisar que agora eu tenho dois contos publicados lá na Amazon!

Eu estou participando do concurso literário federal Brasil em Prosa, da Amazon e O Globo, com os meus contos ‘Na terra de abismos há outros’ e ‘Dos olhos ao mundo’. Eles estão sendo vendidos na Amazon por 3,32 reais. E o melhor, as capas são exclusivas e foram feitas pelo talentoso e lindo do Denis Pinheiro, ele tem a página Diderot e faz camisetas maravilhosas (aqui).

Comprem meus contos e divulguem! E se vocês gostarem, deixem uma avaliação com estrelinhas lá no site, pensem na alegria que eu vou sentir haha

Sinopse de Dos olhos ao mundo: O olhar do pequeno Luis fundava mundos. Com o amor do avô, o menino via a natureza se revelar pelo brilho de todas as coisas. Mas a vida deu respostas cruéis a ele e o olhar de Luis foi testado para a grande complexidade do mundo. A percepção viria para dar suas respostas.

Compre aqui: http://www.amazon.com.br/Dos-olhos-mundo-Marina-Franconeti-ebook/dp/B012Z2576M/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1438347566&sr=8-1&keywords=dos+olhos+ao+mundo

Segunda capa

Sinopse de Na terra de abismos há outros: Na rotina em que a melancolia, o tédio e o medo estão presentes, Eduardo nota que está vivendo em um abismo do qual levanta todo dia de manhã. Foram dois dias que mudaram a sua vida. E a salvação veio pela mão do Outro.

Compre aqui: http://www.amazon.com.br/gp/product/B012Z1OU02?keywords=na%20terra%20de%20abismos%20h%C3%A1%20outros&qid=1438347326&ref_=sr_1_1&sr=8-1

capa

O chão das dores seculares

Le trajet or dead woman, de Romaine Brooks (1911)

As criaturas que vivem enfiadas nas terras são desconhecidas. Passam despercebidas, nem meras sobreviventes são vistas pelos outros. Respiram por entre a poeira e os restos da existência que parece ter sido mais relevante na superfície da qual vemos apenas o vislumbre. Eu tinha uma grande afeição pelos insetos que ninguém via, pela vida pulsante da terra, porque, desde cedo, eram minha companhia invisível. Eu pedia licença para cair ao lado deles.

-Bang Bang! – ecoava toda manhã na voz dele, que corria atrás de mim com um graveto qualquer que encontrava sempre no caminho para a minha casa – Clara, bang bang! Você tem que cair no chão!

E eu caía toda vez e esperava quietinha, fingindo que havia morrido. Minha mãe reclamava sempre que meu vestidinho vivia cheio de poeira. A correria dele, imitando os filmes de faroeste que via na televisão, era aguardada sempre pela minha casa. Ele passava pelo meu pai, era um menino com um chapéu simpático, pequenino, segurando um graveto e gritando “bang bang”. Não era ameaçador. Os adultos achavam-no adorável. O piso de madeira, a varanda e as janelas abertas, com as cortinas tremeluzindo entre o sol de cada manhã já recebiam o garoto com a mesma expectativa que se tem para o costumeiro café-da-manhã.

A brincadeira persistiu na adolescência e ele caía ao meu lado, afastando a poeira do meu rosto. Certa vez, deixou na minha mão uma pedrinha que encontrara emaranhada nos fios, em mais uma queda, e pousou um beijo nos meus lábios. Eu gostava do instante em que ele me admirava antes de me deixar levantar. As conversas não evoluíam muito, mas as quedas eram os momentos em que eu parecia exercer o poder de segurar sua atenção.

Eu acreditei que as quedas eram um jogo distinto em que ele me cortejava. Acreditei porque começaram os comentários entre a família, os jantares em que as alianças eram feitas e soava promissor aqueles dois de cinco e seis anos de idade, finalmente, constituírem algo além das brincadeiras.

Casei-me com aquele garoto que conheci, ele de negro, eu de branco. O rosto dele exercia um fascínio inegável. Um olhar sedento por correr entre as casas impondo seus desejos. Um olhar que poderia conquistar terras, domar cavalos e controlar a poeira de lugares inóspitos.

Foi o mesmo olhar que passou a dominar os meus gestos. Passei a cair no chão com mais frequência, porém, desta vez, ele não tirava a poeira. Tocava o ferimento, como se o deixasse lá por sua vontade. E eu, se antes segurava o riso diante daquele garoto enquanto fingia que estava morta, agora abafa os soluços de um choro contido por meses.

O som do corpo caindo na madeira é uma batida que ecoa outras quedas. Meu corpo inerte era o corpo de inúmeras representações de corpos tensionados, admirados em sua nudez desesperada e disposta para o espectador ver. Ofélia, Salomé, Alice James, santas como St. Cecilia, St. Elizabeth, St. Catherine de Siena. Esses nomes, antes desconhecidos, me soavam agora como os corpos aos quais eu me colocava ao lado. No chão, eu não estava sozinha. Mulheres invalidadas, mulheres que parecem belas enquanto feridas para o voyeur, quando dão o último suspiro àqueles que as observam. E esta sobrevida não parece evidenciar o horror de seu sofrimento, mas sim, a imagem de sua beleza distorcida. Lançada ao chão e feita para admirar. Mesmo que a carne esteja ferida.

Saint Eulalia, de John William Waterhouse (1885)
Saint Eulalia, de John William Waterhouse (1885)

Passei a notar que o garoto que conheci apreciava essa visão. No quartinho em que ele não me deixava entrar de jeito nenhum, certa vez, encontrei fotos de outras meninas caídas como eu. E quadros e mais quadros de um fetiche que envolvia mulheres dormindo, mulheres nuas mitológicas. As meninas que eu via não sabia ao certo se estavam mortas, se estavam posando para a câmera dele.

Eu as mostrei para a minha amiga, Alessandra, em um misto de culpa, raiva e esperança em achar inocência naquelas imagens. Mas ela não as viu desta forma. Pesquisou e pesquisou, acabou por encontrar a coincidência entre aqueles rostos e as faces rosadas e inocentes de meninas que sumiram pela região.

– A única vez em que uma delas foi encontrada, o corpo estava nu e repousando em um mar de flores colhidas com muito cuidado – disse Alê para mim, enquanto eu tentava controlar minhas mãos trêmulas que serviam o café.

Minha mãe e minha avó sussurravam, aflitas, dizendo que se o marido as deixava no chão, era lá o lugar em que ficariam. Havia a minha confusão, de ver ilusões sendo agredidas, para depois eu ter que me levantar e entender em que momento a brincadeira se tornara séria.

Os livros que eu lia como um refúgio à realidade não me davam respostas acolhedoras. Encontrava mulheres adúlteras que possuíam a liberdade que não era minha. Via homens heroicos que recebiam a permissão da História e de toda a humanidade para desbravar os mares, enquanto eu tinha que sangrar em minha própria casa. Eu encontrava apoio nas crianças que conheciam lugares fantásticos, onde a realidade, no mínimo decepcionante, ficavam atrás das terras mágicas, atrás de guarda-roupas que me levavam à neve fresca e ao lampião que brilha com doçura.

Porém, eu tinha que ler escondida, quando ele não estava em casa. Ler seria um desafio. Demonstrar que possuo um pensamento vivo e inacessível a ele. Provavelmente isso fazia parte de suas fantasias, imaginar o que aquele ser aparentemente débil – que ele definia como “mulher” – podia pensar sem ele, nem pensar nele. Seria o mesmo que deixar a liberdade entrar pela porta da frente, desta casa que era a grande posse do provedor.

The Death of Albine, de John Collier (1895)
The Death of Albine, de John Collier (1895)

No fim de um ano de casamento, ele entrou na cozinha e gritou “bang bang”. Eu não virava mais com a breve esperança de vê-lo próximo de mim. Aquela interjeição me alarmou, a mão que cortava os legumes tremeu. Era o fantasma de um garoto que conheci gritando, mas o tom não era convidativo. O grito ressoou mais uma vez e ele me acertou.

O olhar era passivo e ele estava sentado na mesa, com um copo a sua frente. Não era mais graveto, a arma me olhava repousada na mesa, enquanto aquele garoto de antes me olhava triunfante, por ter realizado a sua desprezível fantasia de destruir a sua vítima desde a infância.

O sangue na minha roupa, porém, me avisava que não era assim que deveria terminar.  Perdi a conta das vezes em que caí no chão quando criança. No casamento eu havia contado vinte. Aquela era a vigésima primeira, o número de minha idade. Vinte e uma vezes de uma vida morta no chão.

Os nomes e as imagens das mulheres em mesma situação vinham à mente como se quisessem me fazer respirar. A perspectiva de um corpo inerte, ferido, belo por estar destruído não era o que eu queria dar a ele. Foi esse mesmo corpo, sangrando, que arrastei por aquele chão onde caí vinte e uma vezes, agarrei a camisa dele e me lancei para o seu colo, olhando para aqueles olhos agora serenos por ter me destruído. A minha mão direita balançava enquanto a outra se apoiava pelo cotovelo na perna dele. Ele olhava, apenas assistindo o espetáculo que acreditava ter sido arquitetado apenas por ele. E que essa era só uma última cena adicional, sem sentido em seu roteiro. Que seria logo cortada.

O espetáculo, porém, mudou como uma cena acrescentada aos cortes do diretor. Naquele dia eu o deixei cair no chão uma única vez, com meus próprios cortes domados pela faca. Foi um baque surdo, definitivo. Ele ecoou pela madeira, uma resposta aos outros sons de corpos que caíram, derrotados pelos séculos.

Eu saí pela porta da frente e tomei a estrada rumo à casa de minha amiga. Mas lembro de olhar uma última vez para a cena na cozinha. Por cima do corpo do garoto que conheci, havia um inocente grilo que ergueu as patas por aquela montanha de carne humana. Como se aquela carne fosse um mero obstáculo para o seu caminho invisível traçado no chão. Eu assenti ao grilo, como uma despedida pelos dias neste chão secular.

**********************

O meu conto foi inspirado na música Bang Bang! My baby shot me down, as versões da Nancy Sinatra e da Lady Gaga (aqui e aqui). E no filme Kill Bill, é claro. Vale indicar também um dos contos mais marcantes para o feminismo no século XIX, The Yellow Wallpaper, de Charlotte Perkins Stetson, que tratou da loucura e a vida enclausurada do casamento.

Imagem de capa: Le trajet or Dead woman, de Romaine Brooks (1911)

A totalidade entre as teias e o vazio

teias

Do quarto vazio vieram as sombrias. Não sei dizer quando elas começaram. Certa vez ela estava grudada na cortina, como se sugasse o tecido. O azul claro de um lado e o outro pedaço, enegrecido, do outro. O toque naquela sombra parece ter se impregnado em minhas células até que o café-da-manhã não era mais o mesmo, o almoço e o jantar também não. Um enjoo contínuo, comia pouco, para depois ficar com mais fome e precisar comer de novo.

As idas e vindas de transporte público e as aulas eram invadidas por um sono ou um torpor que me envolvia nas palavras escritas no caderno ou no livro que tentava ler. Aquelas sombras pareciam se comunicar comigo de alguma forma inexplicável, como que ocultas por trás da palavra. Com elas veio o esgotamento.

Não sei se você já sentiu que há teias envolvendo seus suspiros, puxando o movimento do ar a ser tragado e alimentar seus pulmões. Mas eu sinto. Foi com esse peso que me encaminhei à livraria mais próxima para terminar de ler um livro que havia iniciado no almoço. Chama-se Sono, do Haruki Murakami. Uma mulher que não dorme há dezessete dias. Sabemos que isso é impossível, que a insônia tem como cenário um sono bem instável, mas não é uma ausência completa de sono, pois ele surge mais tarde, repentinamente. Não é o caso da protagonista. Ela passa a ter acesso a uma realidade diferenciada: não dormir é apreender algo inédito do mundo.

sono 1Funciona na literatura e eu não conseguiria me imaginar sem dormir. Mesmo que fosse um tempo para ler e escrever mais do que eu sou capaz, não dormir também seria uma negação das limitações comuns ao ser humano. É tão problemático assim ter limitações? Não é incomum notar que hoje se está mais conectado do que nunca e dormir é visto apenas como uma pausa ou uma fuga temporária do caos diário. E, mesmo sendo uma fuga, não dá para abrir mão dela. O curioso é que os sonhos se constituem como uma fuga da própria fuga, um desvio da suposta paz do mero sono. O sonho pode evidenciar o que foi oculto boa parte do dia, tirar o pó daquilo que está guardado.

No fim das contas, eu me deparei com uma personagem que, apesar de viver uma vida sem sono e com a promessa de alcançar um mundo nunca antes vivido nestas horas extras, estava relatando uma sensação próxima da minha. Eu li o livro Sono com o sono que tem se presentificado há duas semanas, e não sei afirmar se meu esgotamento vem do fato de me sentir surpresa por estar esgotada no início do semestre. É quase a mesma ideia insana do bêbado do Pequeno príncipe, que bebe para esquecer que tem vergonha de beber.

A questão é que, mesmo eu não tendo estas horas extras que supostamente significariam liberdade em um mundo impossível de ser vivenciado pelos outros que dormem, e o fato da personagem não esboçar nenhuma emoção acerca da sua rotina mecânica, eu encontrei alguma similaridade com ela, mesmo aqui nesta angústia, emoção expressada pelo esgotamento. E ainda não sei qual é a similaridade. Ela vive naquelas páginas do livro que visitei. Que resolvi pegar misteriosamente para ler, sem qualquer referência, e encontrei justamente uma espécie de mundo onde habitar nas poucas horas em que eu queria me retirar desta rotina. Será, então, que ler e ingressar neste mundo feito pelo Murakami foi o mesmo que dormir (repousando) ou ficar acordada quando ninguém mais estava? Será que há alguém acordado lendo este livro nas mesmas condições?

A pergunta ficou ressoando até que dormi. A noite foi perturbada pela imagem onírica de um ser em negro agarrando meus dedos, queimando-os como se houvessem águas-vivas sedentas por me envolver em um estado de paralisia, uma morte permanente e consciente. Um frio impossível de se aproximar às correntes que eu já enfrentara, afundada nesta espécie de mar sem água, meu corpo se debatia em si mesmo. Uma luta pela sobrevivência na própria pele, era isso, afinal. Foi na palavra ‘sonho’ que consegui encontrar o resgate daquela sensação e as águas-vivas se desgrudaram do meu corpo, o contato com o sombrio cessou.

sono 2Ao acordar, a pergunta sobre a procura por alguém que estivesse nas mesmas condições que a personagem surgiu nas frases dispostas aqui. O mistério é que a personagem encontra em Anna Karenina o mesmo conforto que encontrei na narradora. Um conforto estranho, sobre uma ficção que falava sobre o esgotamento. E isso dá a entender que a personagem não nomeada por Murakami está existindo em algum lugar que eu não sei onde é.

Já me perguntei se ela é a sombra que se alojou no pedaço de cortina. Ela não está mais lá. Porém, lembro-me que senti que a sombra ingressou nas minhas células. Antes de encontrar este livro. O esgotamento pode sair do estado de torpor e se converter em um despertar diante da rotina, para que haja algum alerta de que esta vida fragmentada precisa ser revista. No fim, ela precisa ser vista como fragmentada, e não em um bloco completado a cada dia. O esgotamento grita que a rotina é apenas os objetos entre as teias. Há algo mais amplo e misterioso fora delas.

A sombra que surge também faz o alerta. Se vivemos nas teias, o que será que deixamos de ver que existe do lado de fora? Acho que o esgotamento conseguiu me mostrar um vislumbre disso, por meio de um livro que, por sua vez, apresentava um vislumbre desta possibilidade exterior. Uma personagem que é sombra das nossas vivências. Talvez tudo o que esteja por aqui seja uma história dentro de uma história, com fronteiras invisíveis entre o real e o ilusório. O campo aberto do ficcional pode ser a liberdade experimentada pelo ser que fica acordado. Mas estar acordado tem um preço: aguentar a tensão de estar na totalidade onde é tudo ao mesmo tempo. A sombra já é moradora do tecido da cortina e da minha pele, uma ida ao campo aberto.

*Imagem de capa: instalação chamada Silêncio, de Chiharu Shiota

*Outras imagens: ilustrações de Kat Menschick para o livro Sono, de Haruki Murakami.

O público fervilhante no Salão de 1868

HonoreDaumier

Coluna semanal no Fashionatto

Salon estava lotado naquele domingo. Vestidos feitos dos melhores tecidos, ou os melhores tecidos que as mulheres poderiam comprar dentro de suas possibilidades para seus vestidos, se encontravam farfalhando entre os passos demorados em mais uma edição do Salon, agora fervilhado de pessoas e olhares curiosos, críticos mal-humorados, artistas receosos querendo ver seus trabalhos nas paredes. Mais um Salon estava aberto, no ano de 1868. A cada ano as paredes eram alimentadas de obras e mais obras acadêmicas de artistas que iam construindo os seus nomes pela exposição, como Delacroix, Courbet, e a abertura do Salon era o evento que emanava a curiosidade e o gosto de comentar aos burburinhos as obras submetidas à Academia.

    “Este ano ainda Vênus….sempre Vênus…como se tivessem mulheres desse jeito!”

“Mais uma vez esse tema?”, “esse aí não sabe pintar”, “ele insiste em fazer mulheres sem ao menos saber pintar uma pele humana!”, “que vestido horrível, eu nunca o usaria, querido” eram algumas das possíveis frases que surgiam por entre a multidão. Os quadros, um acima do outro na parede, formavam um ambiente claustrofóbico de críticas, de desprezo, às vezes de encanto por mais uma execução excepcional naquele ano que tomavam os jornais exaltados diante do feito. Aquele espaço era muito pouco para a proposta e a vontade própria que emanava dos inúmeros quadros submetidos, deixados sozinhos para a mão em riste e a frase dura que poderia condená-los a um suposto fracasso em um ano.

Costurando as críticas proferidas aos cantos ou abertamente, desviando dos vestidos irritantes que insistiam em prender-se ao chão e ao caminho livre, estava um rapaz de terno simples, um tanto desgastado, com as mãos nos bolsos, olhando a sua volta com um meio sorriso divertido nos lábios. Todo ano ele insistia em visitar o Salon. Gostava de ver os tipos humanos, como muitos vestiam, juntamente às suas roupas feitas para impressionar, as melhores frases que tinham em mente para demonstrar que possuíam conhecimento sobre arte, sobre composição. Sem dúvida era um ótimo espaço para que a arte pudesse ser vista pelo público, e não morar apenas em um ateliê ou nas rodas intelectuais. Mas o jovem se surpreendia com a recusa categórica com que público e críticos viam as obras.

O jovem imaginava-os num julgamento, no qual cada integrante desse público admirador das normas que a Academia adorava presenteá-los com temas já estabelecidos, subia ao púlpito e defendia a sua tese em cinco linhas, concluindo com o som do martelo condenando o quadro exposto. Em 1865, provavelmente a obra mais julgada, que deve ter feito as massas xingarem, subirem raivosamente nesse púlpito que o jovem imaginava, dizendo que a obra era um atentado à moral parisiense, à nudez pura de Vênus, quem sabe até um ataque ao objetivo com que se fez um mero pincel – para criar o Belo!, deve ter sido Olympia, de Manet.  Chamada de mulher-gorila, corpo em putrefação disposto na cama (em um lençol que indicava a sua profissão de cortesã), Olympia foi atacada e esse ataque não foi esquecido pela posteridade.

Diante do quadro de Manet: “Por que diabos essa mulher robusta e negra numa camisa se chama Olympia?” “Mas meu amigo, talvez não seja a gata preta que se chama Olympia?”

Olympia, de Manet (1863)

Agora, em 1868, esse jovem rapaz achava curioso o silêncio daquele público fervoroso pela crítica, diante de Jeune Dame, também de Manet. Ele parava diante da obra, sozinho, via os olhares fugidios, as poucas críticas dos outros que, provavelmente, divertiram-se criticando Olympia. Não poderia ser apenas desinteresse. O jovem vira que, para aquele público, a jovem moça de camisola ao lado de um papagaio parecia não dizer nada. Quando ele se postava diante do quadro, o jovem que pouco sabia de arte, poderia afirmar que a moça ganhava vida, em um olhar hesitante para ele, e que a posição demarcada para o papagaio possuía um motivo a ser desvendado. Ele e a jovem se olhavam como se houvesse uma vitrine, e ela não parecia estar distante dele como as Vênus de peles alvas estavam no restante do salão.

Jeune Dame en 1866, Manet

O jovem ainda voltaria algumas vezes para ver Jeune Dame no Salon e para flanar por entre as obras à espera do desvelamento de alguns dos mistérios que o assombrava. E ainda reencontraria um artista simples, que se divertia esboçando croquis dos tipos humanos entre o público, olhando para Jeune Dame com a mesma curiosidade que ele tivera e a qual durava dias. Naquele momento, o mesmo jovem que ia ao Salon todos os anos, sentia que o espaço claustrofóbico parecia se esvaziar somente para o pequeno instante em que uma obra saía da delimitação da sua moldura e ganhava quase um brilho, que destacava o mistério que era a sua essência, pedindo para ser vista e voltando a se ocultar.

E ver o encanto de outro indivíduo pela mesma obra que seus olhos não queriam deixar de contemplar formava uma ligação invisível entre esse público antes virtual e a obra. Era por esse olhar que a jovem dama no quadro se aproximava, hesitava olhando nos olhos do seu observador. Parecia ser por esse olhar que todos os quadros se alimentavam, clamando por uma participação genuína do outro na recriação da obra de arte.

Resolvi transformar a minha pesquisa sobre Olympia e Jeune Dame em um conto. Lendo as críticas da época às obras, fiquei imaginando como seria estar entre o público do Salon observando as obras que, hoje, encontram um espaço aberto para o seu estudo. Por isso a existência do artista e do jovem curioso sobre arte (um flâneur, andarilho), no conto: para demarcar os possíveis tipos humanos que poderiam existir na multidão que enchia o Salon.

*imagens: croquis feitos por Honoré Daumier, nas suas visitas ao Salon de 1868.

As palavras mandam lutar neste semestre

imagem de capa lannister

Coluna semanal para o Fashionatto

Uma dor nas têmporas voltava a acometer aquele jovem de armadura. A dor voltara para visitá-lo, como se o simples bater da porta, o toque repentino nas têmporas, já denunciasse que a última tarefa de cada fim de semestre finalmente chegara. Eram seis meses no escuro, sem ter ideia do que poderia acontecer ao seu corpo e a sua alma, até que a proposta vinha – esperada, mas capaz de fazer o corpo tremer: havia o trabalho decisivo de fim de semestre.

Ele, como os demais jovens de sua idade, juntavam na pequena bolsa o pouco que lhe pertencia. A cada movimento em que ajustava a fivela das alças, o mesmo tremor passava pelas mãos feridas nas batalhas anteriores, a tendinite voltava a mostrar que apenas aguardava o momento certo para agir. Ele suspirava, o mesmo suspiro de resignação. Gostava da pequena ansiedade, gostava de ter escolhido aquele caminho. As tarefas moviam seu semestre. Mas não poderia deixar de afirmar que temia um pouco, a cada seis meses, para ver o que conquistara nos meses que se entrelaçavam um a um até o último nó.

A floresta de conhecimentos o aguardava ressonando. O jovem sempre preservava na memória o instante em que as árvores suspiravam em uníssono, tranquilas. Essas árvores viviam de promessas feitas por jovens estudantes. Aos poucos ela ganharia a vida que a fazia ser famigerada entre os reinos. Poderia assombrar seus alunos a cada fim de semestre com suas folhas riscadas de frases inesperadas capazes de conduzi-los à glória ou ao desfecho melancólico de um sucesso próximo a ser obtido escapando de suas mãos.

Com o esmagar do galho a sua frente pelo pé hesitante, era assim que cada jovem poderia despertar a floresta. Quase um olá tímido, que queria ser bem-vindo, mas que sabia o perigo de adentrar pelo labirinto de troncos. O tempo sugava o ar e sem neblina, sem vida ficava a floresta. Isso durava o segundo mais longo. A ação seguinte era a surpresa que a floresta de conhecimentos poderia causar no jovem. Ela já fizera chover a morte diante dos olhos inexperientes desses garotos e garotas que se preparavam para lutar apenas com uma espada. A morte vinha em forma de questões sussurradas que os humanos buscam esconder nos seus dias comuns. “Quem você espera ser?”, “Você salvaria o seu amigo se ele estivesse diante da glória que seria sua?”, “Vejo que você treme com a espada da mesma forma que treme com as palavras”, poderia sussurrar a árvore mais próxima. A morte não era literal. Porém, ela se fazia presente pela forma da dúvida, um alimento que provocava e estranhamente deixava com fome a alma desses estudantes.

A prova desse semestre seria algo ainda mais desafiador. Correndo, os jovens precisavam se desvencilhar das folhas escritas que caiam das árvores. Nelas, as frases que encapsulavam as grandes dúvidas, os grandes medos dos literatos cortavam quem encarava aquele trabalho somente como uma atividade passageira, que só deveriam sobreviver a ela. A floresta queria uma alma envolvida, que planejava e sentia cada trecho daquela prova. Ela desejava o acúmulo de experiências.

Ao segurar a espada com as duas mãos, o jovem mais destemido afastava as folhas. Dava uma espiada nas frases que continham. Engolia o choro, o medo. Diferente de alguns de seus colegas, ele sentia que precisava ver aquelas frases. Assim, ele as repetia dia após dia durante o semestre, até a próxima batalha. Ele era jovem, ainda estava aprendendo. A batalha era o único momento em que ele sentia estar no mundo exterior, era a sua única lembrança em vida. Ao ler aquelas frases, ele sentia que, apesar de produzir pequenos cortes em si mesmo a cada momento em que repetia uma frase, a palavra o recompensava. Por ela, o jovem alcançava a eternidade da floresta que ele, mesmo vivendo décadas, nunca teria.

Em um golpe final, escorrendo sangue e tinta negra da espada, ele feria as palavras que o feriam. Ele murmurava baixinho as respostas para aquelas perguntas, sabendo que nunca obteria a verdade. Ele passara pela prova daquele semestre. Enfrentar as folhas e golpeá-las não era o teste proposto pela floresta para que aqueles jovens destruíssem o conhecimento que os atingia. Era um confronto com a palavra e o discurso. Necessário a todo instante. Cansados, manchados de tinta, os estudantes descansavam na grama, encostavam-se nos troncos também cansados. A literatura havia acontecido. No alvorecer que espalhava o sol pelo labirinto de raízes e troncos, as folhas de perguntas davam trégua ao jovem. A batalha poderia recomeçar no despertar de uma próxima estação.

O conto é inspirado em Game of Thrones, mas uma forma de tornar épico os trabalhos de fim de semestre que devemos entregar na graduação. Não perdemos, literalmente, a cabeça com eles. Mesmo assim, às vezes chega a ser doloroso lidar com a soma de textos, as dúvidas e os prazos.

As imagens são do projeto Beautiful Death, trabalho excelente de ilustração do artista Robert M. Ball, com passagens de As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R.R.Martin, adaptadas para a série Game of Thrones.

A fúria da loja de departamento

pas les magasins

Coluna semanal no Fashionatto

O furor alimentava a calçada cinza, apinhada de botas, casacos e olhares curiosos. Na pequena cidade, a obra que durava alguns meses, isolada por tapumes, se revelou como uma loja de departamento de quatro andares. As pessoas sussurravam olhando para cima. As portas se abriram e a curiosidade alimentava as pessoas por entre os corredores, os manequins sentados em poses elegantes, portando uma combinação de jaqueta de couro, meia calça, bota, short e lenço, davam as boas-vindas aos compradores.

Os sorrisinhos, a postura de comprador buscando a melhor peça passeava junto aos desconhecidos. O desejo de compra, a sedução da mercadoria sussurrava eloquente, as placas de promoção sorriam maldosamente, tentando conquistar o olhar mais próximo. Les Magasins da virada do século XIX se preservava nesses espaços brilhantes, as galerias se converteram em corredores de uma loja só. Havia uma expectativa tácita de que todos precisavam sair de lá com alguma coisa da tal loja da esquina. A música pop tocando na loja construía o cenário adequado para se comprar o que havia à frente. Como se o tempo tivesse cessado seu movimento e o mundo existisse no ato de investigar as peças nos cabides.

Não quero mais estar aqui, as araras começam a sufocar a jovem que observava as sacolas, as placas, os tecidos se amontoando na loja. O grande ato começa. A onda de pés, peças, pares de meias, pescavam as pessoas quase devorando o grupo. O sorriso sumira, as araras começavam a ranger loucamente, tomando o pouco ar entre a euforia e o desejo dos consumidores em impressionar o mundo lá fora. Os manequins ganham vida, agora no ímpeto de envolver os corpos quentes com seu material de plástico envernizado, a forma perfeita posta em espera pela peça perfeita.

O desejo era de massacrar, tornar o público em meros reféns.  Um mundo de simulacros, com as luzes artificiais, as peças artificiais, os preços enganadores, tudo consumia o pouco espaço que havia de escolha. A loja comportava nos seus andares a promessa de bons preços, mas os passos desesperados entre uma arara e outra, buscando qualquer peça que se mostrasse consumível, isso destruía o olhar, ele se detinha entre a etiqueta e a peça, repetidamente. O indivíduo que estava lá fora se diluía aqui dentro.

Agora, a loja aglutinava os compradores num mar de casaquinhos e botas da estação. O mundo lá fora nem notava o movimento interior, o desespero, um sorriso nervoso duvidando diante da reviravolta da loja. Com a expectativa de se alimentar depois de semanas em obras, sendo cultivada, a loja agora estava sedenta pelo que deveria percorrer suas veias: a mercadoria. Queria aqueles sonhos ingênuos, expectativas, mãos esperançosas passeando pelo tecido, queria consumo. Agora, agora, em cada pedacinho do piso branco, a loja sentia pulsar a sua vida na epiderme. Uma vida de passos que fingiam estar só dando uma olhadinha nas peças, para ver se algo valia a pena, compravam para satisfazer o olhar próximo, o mesmo olhar que comprava pelo olhar mais próximo. E assim o consumo prosseguia em cadeia.

A primeira refeição matutina da loja havia sido feita. Nunca estaria satisfeita. Ela lambeu os beiços, um casaquinho de lã caiu em um canto, o público saía com suas sacolas orgulhosas. O segredo da loja só era revelado nos poucos segundos em que o público duvidava das promessas feitas por ela. Mas não passavam de segundos. A loja voltava a seduzir. A nova fila do lado de fora faria a loja pulsar novamente. E suas veias iriam inchar com o consumismo.

A imagem de capa é dessa campanha aqui “faça amor, não às lojas”, numa tradução livre, ironizando a necessidade de se provar o amor no dia dos namorados pelo presente comprado e o mercado aquecido nessa época.

O meu conto também foi inspirado nas críticas de Walter Benjamin e do poeta Charles Baudelaire ao novo tipo de flâneur que surgia em Paris do XIX, o basbaque, aquele que entra na loja com o desejo de apenas consumir, se tornando um refém da mercadoria, além da multidão que se torna massa.

A biblioteca de promessas

libro-liniers

Coluna semanal no Fashionatto

A biblioteca Camille era um castelo de histórias em promessa. Pelos corredores dela, jovens desesperados digitando seus trabalhos, procuravam livros para trabalhos finais na faculdade, senhores aposentados liam cotidianamente mais um clássico deixado para trás. Ela, Camila, ia pela curiosidade de uma menina de 13 anos que ainda estava começando a descobrir o que significava segurar um exemplar encadernado nas mãos. A avó da menina costuma ir nessa biblioteca com a mesma idade e o fato de Camila ter um nome próximo à Camille da biblioteca foi culpa de sua vó.

Ela gostava de ficar imaginando quem fora Camille e quem ela era, Camila, nesse exato momento, se havia algo em comum entre elas e quem ela poderia ser. Ninguém nunca pôde explicar a ela por que esse nome da biblioteca em sua pequena cidade. Mas encantava o mistério. Havia algo naquela biblioteca que exalava esse mistério.

Camila gostava de imaginar como seria entrar nas histórias dos livros que ela lia. Resolver um caso junto a Sherlock Holmes e John Watson. Ou conhecer o País das Maravilhas. Mas não seria muito agradável estar no lugar de Harry Potter e ter que enfrentar Voldemort todo ano ou sair por aí procurando por horcruxes. Ou ver das páginas dos livros grandes tentáculos puxando-a para um enredo de Lovecraft. Ela conseguia fazer tudo isso só por aqueles pontinhos pequenos que se tornaram palavras, contornadas por um preto ostensivo e plácido nas tantas páginas que gostava.

Passou a tarde envolvida nesses pensamentos e enquanto lia mais um exemplar que pegara na biblioteca. O cheiro do mogno da mesa de madeira, a luminária que iluminava as páginas e agora cansavam os olhos da menina, tudo era um cenário perfeito para sua leitura. E assim ela se esforçava por horas a fio a ler, com a mesma coragem das personagens que gostava. Foi se sentindo sonolenta, e mais sonolenta, em um torpor no qual as palavras se embaralhavam, em que parágrafo estou? Mas eu já não li isso?

O livro estranho que havia encontrado na estante tinha veias roxas por debaixo da capa aveludada, parecia envelhecido, silencioso, mofado e molhado. Estava seco, claro, mas Camila tinha a sensação de que o livro parecia levar a praias cinzentas e mares violentos. Ela abriu o livro e as palavras que se embaralhavam diziam “a biblioteca é um castelo de promessas. Você está em uma das mais raras. Ela guarda em si um poder que ninguém, de rei a presidente, poderia sequer imaginar. Venha, desafie-nos”. Camila leu aquelas frases e…desafiar como? Ela virou a outra página e havia um belo desenho feito em traços negros e tons azuis preenchendo ondas. Camila sentiu a cadeira tremer, as veias da capa se romperem, seus olhos foram tomados pela escuridão.

Ondas abraçavam o seu corpo, uma água gelada sacudia-a bruscamente. Demorou apenas um segundo para ver que estava no desenho das águas. Eram as mesmas cores, só que bem mais reais! E geladas. Livros passeavam pelas ondas, Camila não conseguia pegar nenhum. Uma voz ressoou aos seus ouvidos, preenchendo aquele mar de livros.

-A curiosidade pode levá-la a todo canto, garota.

-Quem está falando?

-Não importa quem. Importa que você não é todo mundo. Não é todo mundo que pega esse livro caindo aos pedaços. Já pensou se ele libertasse uma gripe do século passado, o perigo que seria? E está aqui há muito tempo. Ninguém ousa pegar esse livro. Mas eu me pergunto: por que ele pegou você?

-Como…? Fui eu que peguei o livro da estante, eu lembro disso!

-Ah, é? Bom, parece que ele te pegou de alguma forma – as ondas circundavam o espaço a sua volta, como se falassem e apontassem para si mesmas.

“É, acho que fui alugada mesmo”, pensou a menina.

-Como eu saio daqui? – perguntou tentando controlar o nervosismo.

-Você pode até sair dessas águas, mas nunca mais sua realidade será igual. Vão ter dias em que as cinzas vão preencher as nuvens e a melancolia corroer seus dias num azul igual ao dessas águas. Por isso, que fique claro: quando isso acontecer, nos seus 13 ou nos seus 80 anos, lembre-se dessas águas. Aqui você pode encontrar mais do que você pensa desejar.

-Você diz…só nesse livro?

-Digamos que esse livro aqui é mais literal – risinhos vindos das ondas ecoaram pelo mar. Parece que elas acharam ter feito alguma piada com literatura e literal. Claro.

-Tá, eu entendi. Mas tudo isso pode acontecer de novo?

-Esse livro existe para quem vem a essa biblioteca e está além da própria vida. Você herdou o nome dela por sua vó, que conhecia bem essas páginas. Mas ah, não, você não tem nada a ver com Camille. Seria clichê, não é? Uma menininha de 2014 como reencarnação de uma garota dos anos 20.

Riam novamente. Não importava se fosse clichê, Camila só queria saber quem ela era naquele exato momento, as risadas começavam a se tornar irritantes e obscuras.

-Então, se eu abrir essas páginas mais de uma vez, eu posso estar num lugar novo?

-Aí que está, você pode, sim. Mas um conselho que nunca pode ser esquecido: adolescentes costumam ter a ideia de que nada os atinge – sussurram as ondas – e aqui tudo pode acontecer. Tome cuidado com o que deseja ser nessas páginas.

-E isso só aqui?

-Claro que não, você não pode sair pelo mundo fazendo só o que quer. Mas entendi sua pergunta. Todos os livros do mundo inteiro foram cultivados com a magia dessas páginas. Mas eles fazem algo que pode parecer mais mágico ainda: em vez de te levar literalmente para qualquer cenário, eles os fazem somente brincando com a sua imaginação. Parece inocente, mas não é. No momento seguinte, você nem se dá conta de que está no seu mundo. E eles fazem isso só por palavras. Escritores podem ser persuasivos e traiçoeiros quando querem.

Camila gostava dessa ousadia dos escritores.

-Tudo isso pode acontecer novamente com qualquer livro – murmurou a si mesma – Mas eu já sabia disso. Eu leio bastante, sabe?

-Ah, querida, não é isso. Aos 13 anos você está começando. Nosso recado é para que você não se esqueça das páginas que encontrou quando pequena ou das páginas que ainda pode encontrar. Talvez você só possa sobreviver no seu mundo se apoiando nesse aqui feito de papel. A imaginação pode salvar seus olhos com a lucidez necessária para entender o que, de fato, você vê quase na ponta do seu nariz, todo dia.

As vozes das ondas foram diminuindo o seu volume e seu entusiasmo. Camila parecia se distanciar delas, mas as últimas frases continuavam como um feixe de luz guiando-a. Aos poucos essa luz foi se tornando mais tímida e a menina notou que elas vinham das palavras à sua frente no livro de capa com veias roxas. A garota acordou na biblioteca. O livro disposto à sua frente parecia comunicar silenciosamente que ela, Camila, era agora mais uma entre os outros seres chamados leitores no castelo de promessas, em que livros de mundos infinitos dormiam aguardando pelos seus olhos ávidos e a curiosidade que a guiaria pelas páginas feitas de ondas azuladas.

Escrevi esse conto enquanto ouvia a soundtrack de Harry Potter e a Pedra Filosofal, vem experimentar também aqui. E as tirinhas são de Macanudo, de Liniers.

Olhá lá, tem uma janela acesa no caos

noite janela

Coluna no Fashionatto

-Aquele suéter caramelo combina com a calça marrom lá de baixo. Fica bem com uma botinha – disse Gabi.

-É, fica bom. Queria ver usar a calça vermelha do 65 com o moletom verde limão lá no varal de cima, sabe?

-Mas ficaria meio estranho, né? Bom, depende, vai que fica diferente.

-Em você ficaria bem, Gabi.

-Uma vez meu amigo disse que eu era a própria arte pop, acho que é porque eu uso muita peça colorida. Espero que seja por isso, e não que eu seja uma refém do consumismo – riu Gabriela equilibrando a xícara de chá no parapeito da sacada.

Marcelo e Gabriela gostavam de se encontrar às 2h para conversar um pouco. Ele chegava de mais uma noite cobrindo plantão na redação de um jornal importante. Ela estudava dia e noite para prestar concurso público. O tema da conversa de hoje era uma brincadeira que Gabriela adorava fazer com a avó e propunha ao Marcelo quase toda semana: observar as roupas dispostas no varal de cada andar do prédio e pensar como ficaria a combinação entre elas.

Gabriela morava no quarto andar e Marcelo, no quinto. A porta de cada apartamento dava para uma sacada que circundava cada andar. Desta forma, havia um abismo que terminava num adorável pátio com banquinhos e vasos de maria-sem-vergonha, lírios, pequenas rosas. Era um prédio antigo que parecia ser um sobrevivente por entre os prédios arrojados de São Paulo. Esses vizinhos dividiam uma curiosidade pela fotografia e pela arquitetura que acabava se tornando um refúgio diário. Marcelo prestara atenção em Gabriela quando a moça resolvia fotografar as crianças brincando no pátio de domingo. Ela olhava para as cenas com o encanto genuíno que ele adorava preservar na profissão.

Apesar das notícias horripilantes que abalavam a estrutura do jovem jornalista e serviam como matéria prima de seu trabalho, o prédio era o refúgio onde Marcelo sentia que ocorriam as cenas mais mágicas que o cotidiano nos faz esquecer. Ele sabia, porém, que essas pequenas cenas ocorriam mundo afora. E gostava de investigá-las todo dia, entre um ônibus e outro, entre uma pauta e outra. Tornar a vida paulistana a sua pauta era o que o fascinava.

clique na imagem para achar o Wally

Os dois eram genuinamente amigos, um carinho e uma amizade que surgiu misteriosamente no horário em que as luzes se apagam e o silêncio predomina.

-Você não acha que deixar a luz acesa do quarto não seja um jeito de criar um farol numa cidade? – perguntou Marcelo com a voz rouca e preguiçosa, sentado ao lado de Gabi no espaço abandonado que havia no topo do prédio.

-Nossa, verdade…é como se a gente deixasse a nossa casa aberta para quem tá sozinho do outro lado…é, pode ser um farol, Ma. Ficar a essa hora sozinho pode ser libertador e triste ao mesmo tempo. Como se o tempo tivesse congelado, as pessoas estivessem dormindo e ninguém pensando em você. Ou sonhando.

-Uhum, gosto de ficar pensando em quem mais está acordado agora. Parece que tem uma rede invisível na cidade, que une as pessoas e às vezes elas nem percebem.

-Como os varais de cada andar…

-Os varais? – questionou Marcelo.

-Sim. Sabe por que eu gosto dessa brincadeira? As pessoas nem imaginam como podem se conectar aos outros. Nem precisam de motivos muito fortes, sabe? Assim como uma peça pode criar looks incríveis, as pessoas são capazes de criar relações únicas, às vezes só falta um primeiro passo…

Marcelo ficou pensando no que Gabi havia dito e resolveu propor uma intervenção meio insana. Ana, uma mocinha tímida do 42, que vivia relendo uma edição já toda desgastada do Guia do Mochileiro das Galáxias havia terminado um namoro há mais de um ano e Gabi sempre conversava com ela, notando a melancolia no olhar da garota. Marcelo, por sua vez, sempre pegava dvds emprestados com Júlio do oitavo andar, um fã fervoroso de cinema e história em quadrinhos. Numa conversa corriqueira, Marcelo e Gabi citaram os dois, notando o quanto os dois vizinhos possuíam a mesma paixão e quase esperança de saírem desse mundo, viajando no tempo para viver qualquer aventura fora dessa dimensão parecia ser idolatrado com fervor ou uma nostalgia de algo que nunca viveriam, só na imaginação.

No dia seguinte, Gabi e Marcelo colocaram em prática uma ideia quase infantil do rapaz, motivado pela presença da amiga, que o fazia olhar para os varais como pequenas coleções de história. Sorrateiramente, de madrugada, trocaram a camiseta de Doctor Who que Júlio adorava ostentar no varal, preso agora no de Ana. Por sua vez, colocaram a doce blusa da mocinha que tinha a imagem do Yoda no varal do rapaz. Em ambos, inseriram um cartãozinho com o nome, o número do apartamento e a frase “você viajaria comigo até o fim do universo?”.

Assim, as ficções que permeavam os varais dos desconhecidos acabaram ganhando contornos mais reais do que se poderia esperar. A luz da janela dos quatro apartamentos fora acesa e acenava para o estranho do outro lado, convidando-o para tomar um café na madrugada acolhedora.

Fiz esse conto inspirado no filme argentino Medianeras . E acabei descobrindo uma música linda que tem a vibe da minha história! Aproveite para ouvir aqui a música Apartamento 26, da banda Call me Lolla

Catarse vermelha

Paulo e Ana acreditavam no fim do mundo. Eram supersticiosos, tinham fascínio pela possível profecia dos maias. Adoravam assistir aos documentários na TV que misturavam Nostradamus com os maias, acreditavam nisso porque, afinal, era um canal de História, até com simulações! Por que não seria assim? Mas a verdade é que adotavam uma crença e um estímulo para o marasmo da vida de casal. Era o mesmo que criar uma ficção e se fazer personagens dessa peça até o fim, planejando cada passo ou fala.

Cogitaram, primeiro, ir para essas cidades que lucravam com hotéis em lugares supostamente seguros para o fim do mundo. Mas era tão sem graça! Eles queriam vivenciar o fim. Se não acabasse…bem, eles não ousavam cogitar. Mas, se acabasse, eles teriam ido ao limite de suas loucuras. Não se ocupavam em pensar se haveria algo além desse mundo, porque já era místico demais e, para eles, a ideia de que um povo antigo havia previsto o fim era mais emocionante ou menos clichê para as suas ficções do que seguir uma religião.

Os dois pensavam que se o fim do mundo estava próximo, deveriam fazer o que nem ousavam pensar. Resolveram, então, convidar a mãe de Paulo e o pai de Ana para jantarem, a única família que tinham. Mas havia alguns detalhes nessa relação. Abandono, retorno da mãe à casa de Paulo depois que ele perdeu o pai, o seu grande herói, o único que soube sustentar a vida do jovem. Inúmeras traições e humilhação à mãe de Ana, a heroína dela. Era esse rancor pelo próprio sangue que unia a ambos.

A campainha tocou. A mãe de Paulo esperava à porta, fingindo que 12 anos não existiram na separação dos dois.  Passou a mão no rosto do filho, um sorriso doce, mas os olhos opacos. Meia hora depois, de desconforto entre os três sentados no sofá, chegou o pai de Ana. Sempre espaçoso, sentou-se em frente à TV, vendo um canal de esporte, com uma taça de vinho na mão, que mandara a filha buscar na cozinha.

O jantar estava servido, coisa simples. Macarrão com molho ao sugo, frango e vinho. Todos se sentaram na mesa apertada de apenas quatro lugares, feita somente para aqueles convidados, deixando-os constrangidos com o contato. A conversa não evoluía muito entre eles.

-Então você está desempregado, não acha sequer um trabalho? Pode ser qualquer coisa!

-Está difícil de achar, mãe. Já fiz algumas entrevistas, mandei currículo, e tô esperando ligarem, né?

-Hm, isso aí não é desculpa. E ainda me serve um almoço desse? Em casa é só botar molho no miojo que fica igual a esse macarrão.

-Ana, minha filha, você realmente acha que casou com o cara certo? Ele nem te sustenta.

-Não casei pra alguém me sustentar…e é só uma fase. Tá puxado pra dar conta da pós, do trabalho, mas tá ótimo.

-Na minha época mulher não fazia pós-graduação. E acho que é inútil, de qualquer forma. Seu marido tinha que pagar esse frango aqui…e um frango melhor – olhava, com desprezo, para o genro.

-Não, eu fico tranquila que casei com alguém que não me trai e nem me humilha – respondeu Ana, com a voz rouca.

A raiva borbulhava, acumulada. Ana cobiçava aquele vermelho do molho e do vinho, como uma catarse do seu sentimento por aqueles da mesa. Paulo e Ana se entreolhavam, ansiosos. A moça apanhou as taças dos convidados e, com um sorriso, levou-as para a cozinha com a desculpa de ter deixado a garrafa lá.

Voltou com as taças novamente cheias, segurando-as com as mãos trêmulas. Os dois perceberam e questionaram.

-É a ansiedade! É bom vê-los aqui. O fim do mundo está aí e seria bom acertarmos o passado numa mesa de jantar – Paulo se adiantou, respondendo gentilmente – Que tal um brinde?

Os dois convidados assentiram logo com a cabeça e beberam o vinho, à vontade, aliviados pelo entusiasmo de Paulo.  Ele e a esposa encaravam seus pratos. O som da mastigação e o bebericar do vinho soavam alto demais por aquela sala.

Ouviu-se um engasgar aflito. Com um baque, os convidados deixaram a taça cair, o vinho escorreu sem dó pela toalha de linho branca. Ana e Paulo pararam de mastigar o macarrão e olharam para o outro lado da mesa, hesitantes. Os dois repousavam a cabeça no prato, com o molho respingado na mesa. O vermelho manchava a toalha com a mesma presença do vermelho natalino que Paulo insistira em usar para enfeitar a casa, apesar do fim do mundo. Se antes, nessa cor, Paulo e Ana repousavam, com a leve esperança de realmente chegar o Natal e continuar vivos, agora o vermelho adiantara o desfecho que eles sempre quiseram mais profundamente. Era uma cor que rasgava qualquer ficção e os trazia para a realidade mais crua.

Agora restava a eles esperar, na sacada, o mundo acabar, como um camarote para a segunda peça que viria a seguir. Já haviam decidido deixar esse mundo despejando o raivoso passado por entre as taças e os pratos. E Paulo e Ana fizeram isso retrucando à tênue esperança do vermelho, na qual repousaram a vida inteira. Aquele mundo das ficções, da raiva engolida, acabou na peça que montaram. E, ironicamente, acabou por meio de mais uma ficção, com todo aquele molho fingindo ser o sangue que desejavam.

O vermelho espalhado na mesa era a resposta final de que esperança alguma existia. O mal guardado se revelara no jantar acabado. Um mundo hostil se desfazia na toalha de linho, destruindo a esperança de haver uma sobremesa.

Tempo, dono dos ritmos

Ouço o velhinho bradar o perigo dos próximos meses, enquanto as pessoas andam na rua, revirando os olhos ao humilde senhor que pedia dinheiro. “O tempo está se esgotando, está sim…corre pelos dedos”, murmura o velhinho, em devaneios ao encarar a fonte de água à sua frente, na praça. Com a água escorrendo tal qual a sua vida, o velhinho vê o tempo terminar como se fosse a gota ao tocar o frio mármore da fonte, após deslizar por todo o corpo da jovem retratada na escultura. A frase, ignorada pelos passantes, deixa-me desolado. O abandono do velhinho, a fonte e o acelerado cotidiano. O esgotamento e tudo não passa de uma incógnita. Sempre foi, mas desta vez…não visualizo nada para esse futuro. Às vezes surge a dúvida se é uma melancolia que logo será anestesiada pela TV ou pela ocupação com algum objeto inútil. Ou uma melancolia simplesmente esmagada por esse mesmo tempo que me consome. Jovem, mas com o sentimento de que já estou atrasado. Com o corpo intacto de rugas, mas com um casaco de moletom puído envolvendo-me tal qual uma nostalgia por um tempo que nem sequer vivenciei.

Vejo pessoas realizando sonhos que gostaria que fossem meus. Parece-me que ouço dos outros “ah, lá vai o Daniel, as costas curvadas, o casaco puído, a alma sem sonhos”. Hm, creio que seja minha consciência, só isso. Tem pessoas que  bradam por aí o que consideram ser uma conquista satisfatória ao que se espera deles como vivência. Um emprego com um excelente salário, o envolvimento com inúmeras pessoas, as viagens. Eu gosto de ser um ato falho, de dizer que estou em crise. Sou ser humano, e isso já está raro de se ver por aí.

Eu sei que tenho ideias povoando a minha mente, um mundo em que misturo ficções, conversas, acontecimentos corriqueiros que se transformam em histórias, refrões de músicas, poemas. Mas quando penso o que eu imortalizaria nas palavras e nos atos, sou tomado por um esgotamento. O signo, a palavra, tudo já parece ter sido dito. Surge uma palavra interessante para um poema, corro, escrevo e aí vejo que outro, melhor do que eu, já o fez há alguns séculos. E, olha aí, será que já estou clichê fazendo desse texto metalinguístico? Falo e falo sobre a dificuldade de escrever por meio da escrita e…o que eu estou contando? Talvez não seja nada de significativo.

Eu não quero a novidade. Eu quero o novo. Podem ser histórias semelhantes ao passado, afinal o homem é uma repetição. Mas quero mudar a estrutura, quero soar fresco a essa geração de pastiche. O que penso me parece ser real. As ficções se grudam em mim, não consigo mais sair desse vício.

Eu sei agora que, com o Tempo, é melhor fazer um acordo. Vou ficar onde estou. Não quer dizer sucumbir a ele e viver correndo atrás de não sei o quê, como eu faço. Voltar ao passado é bom, mas chega de me hospedar nele. Tempo, esse dono de ritmos, vou recriá-lo. Não mais o do relógio, mas o da minha experiência e o dos meus passos. Assim, talvez eu veja que a minha necessidade não é a de ter um casaco novo, mas de fazer do meu moletom puído o invólucro do qual um olhar voltado ao presente se descortine.

Balanço

Era noite. O céu parecia um manto escuro incrustado por delineadas estrelas. A escuridão do céu juntava-se a escuridão da rua. Cachorros latiam, buzinas soavam distantes. Apenas havia uma casa acesa, a luz tímida de uma varanda.

A casa possuía um aspecto antigo, encantador, em estilo vitoriano. Pintada na cor branca, tinha dois andares e uma varanda com pilastres adornados por pequeninas flores e folhas.

Nesta varanda havia um homem sentado numa cadeira de balanço. Aparentava estar abatido, com um olhar perdido. O pescoço estava fraco, pendendo a um lado, os olhos cheios de areia. Era jovem, porém o sofrimento que sentia o envelhecia. A gravata estava sem nó, a meia, caída, a barba comprida. Naquele retirar de peças de roupa, pretendia também se desvencilhar da dor. Não entendia como aquilo ocorrera repentinamente; num instante, o sorriso esboçava-lhe o rosto e, numa fração de segundos, o mundo perdera o sentido, o rosto desconhecia o sorriso, como se fosse um estranho.

Pensava na esposa, em silêncio, na sala. O pranto frágil da mulher descia-lhe pela face de encontro à mesa em que se debruçava. As flores estavam murchas, não havia vida na casa. O silêncio mórbido permeava os cômodos, os cantos, a pele, os órgãos.

Em determinado momento, o homem ouviu uma voz. Na verdade, era um riso infantil. Olhando-o estava um menino com a pele branca como leite, o rosto corado, cachos louros emoldurando o rosto.

A voz delicada do menino, semelhante a um canto, exclamou “Papai!”. O homem ergueu o filho, o abraçou ardentemente. “Meu menino voltou!” pensou o homem. Pobre pai.

Jogou o menino para o alto, aquela imagem pura, a fim de pegá-lo e vê-lo sorrir. Mas no espaço não havia cachos esvoaçando no vento da noite; havia apenas um espaço vazio, cinzas que desciam e asfixiavam o pai. O menino não voltara, estava morto. A imagem pura se desfizera como pó.

Fora tudo um sonho ou fruto de uma memória abalada pelo sofrimento, que possuía um tênue fio de esperança em segurar novamente o corpo pequeno do filho.

O homem voltou a sentar na cadeira de balanço. Sentia-se como um pêndulo, aquele vai-e-vem, o balanço que constatava a morte do filho. O sofrimento ia e vinha como o balanço da cadeira, a amargura amordaçava a boca.

Entretanto, um sentimento aflorara no homem. Uma voz severa penetrou em sua mente. Queria despertar o homem de todo o sofrimento. A voz misteriosa dizia:

– Eu que moro no abismo, que liberto as auroras do meu peito, digo: Seu filho não morreu! Os sentimentos que ele aflorou em você sempre o acompanharão, a fé irá te salvar. Seu filho tornou-se uma pequenina estrela, uma árvore em suas mãos, que fora cultivada com grande amor. Sempre permanecerá com você, ele não morreu! Crianças, eternamente, irão nascer, e são todos seus filhos, que sonham com um mundo de liberdade. Portanto, enxugue as lágrimas, suspire, faça a barba, tire a gravata, console sua mulher que chora.

O balanço parara. Até parecia que o seu próprio respirar se suspendera apenas para ouvir aquela voz que, até então, encontrava-se perdida em tanta lama, areia e lágrima. Esse homem, derrotado pelo drama, parecia encontrar uma ínfima esperança. Ah, que alívio brotava-lhe na face! Um pouco de cor retomava o seu lugar, anistiava a palidez que tomara sua face por meses. Ou anos?

A morte poderia ser terna. No instante em que ela se acomoda, na mais repentina epifania, o homem constata que se encontra inerte diante de sua magnitude. O filho se fora, mas o pai ainda estava lá. Sempre seria pai. Mesmo que rasgado por dentro, o balanço cessara.

Não era mais necessário sentar-se naquela cadeira para tentar retomar aquele segundo que estivera em sua mão no passado. Mão que segurava o filho, para não cair. Levantando-se da areia na qual estivera preso por tanto tempo, o homem encontrou seus olhos límpidos, não possuíam mais a areia e a dor do filho morto. A cadeira de balanço continuou com o seu vai-e-vem, mas agora viva e sozinha, leve, como um lembrete da decisão que tomara. Era o balanço final do filho morto, o sofrimento que, aos poucos, deixaria de ir e vir.

Há quase 3 anos eu escrevi esse conto e guardei. É uma releitura do poema Balanço do filho morto, de Vinicius de Moraes (leia aqui). Como hoje seria o aniversário de Vinicius, nada mais justo do que publicar esse conto, que revisitei hoje, acrescentei frases, mas relembrei a mesma intensidade que senti ao escrevê-lo. Isso só cresce!

Do anúncio à arte

João trabalhava numa agência publicitária. Ele projetava desenhos para pequenos anúncios publicitários. Pasta de dente que prometia um sorriso branco, um lápis de cor que possibilitava o melhor desenho, o desodorante que atrairia todas as mulheres quando usado. Vivia imerso num mundo de sorrisos imediatistas, anúncios que serviam para o hoje e, amanhã, já estavam no lixo. Desenhos feitos por ele meramente produzidos e dispensados após terem feito o seu trabalho de persuasão.

O chefe de João não era lá muito agradável. Na verdade, ele era bem populista. Como os anúncios, ele se desmanchava em sorrisos pelos corredores, mas sala adentro falava o quanto a Maria havia engordado, se ela estava com problemas em casa. Falava também do rapaz da copiadora, “aquele lá tem um olhar soturno, parece prestes a dar um golpe na empresa. Ou será terrorista?”. Imaginação fértil e maldosa. É, ele vivia num mundo paralelo em que todos poderiam trai-lo, indo trabalhar para o concorrente. Ah, palavra que soava terrível. Concorrente. Tal qual os anúncios pregados pela empresa, o chefe de João era falsamente animado, parecia ser o modelo perfeito de chefe por conta de sua agradabilidade. Mas, no fim, ele era um tipo de líder descartável, não agregava nada à equipe. Tão falso quanto o sorriso branco prometido pelo anúncio, nunca conquistado, o oposto do que dizia na propaganda.

E João o incomodava. Ele tinha um espírito empreendedor, seja lá o que for isso. Ele não almejava ser apenas um desenhista de anúncios efêmeros. Em seu íntimo, ele queria ser um artista! Chegava tarde à noite e ia pintar as suas aquarelas, finalizar quadros à óleo, mundos retratados por ele que, apesar dos tons fortes e meio surrealistas, pareciam mais reais do que aquilo que ele pintava nos anúncios. Seus quadros não possuíam a promessa fútil que a sociedade atual tanto adora perseguir. Não, seus quadros carregavam na tinta colorida para que essa se fizesse presente até o último ponto branco da tela; que chamasse a atenção do observador por trazer lembranças adoráveis da infância, talvez dos doces coloridos que João comia após o jantar, com a mãe. Ah, ele ainda não sabia definir qual era a sua arte, mas sabia muito bem que ansiava mais por um legado na parede de um museu do que um anúncio lançado à infinitude das ruas e dos outdoors.

Certo dia, ele passou em frente à sala do chefe e o ouviu falando ao telefone.

-Esses empregados tem me decepcionado e muito – disse o chefe – Em alguns vejo a facilidade de convencer a produzir tal anúncio do jeito que eu quero…aí fica fácil transformar o que eles têm de bruto naquilo que eu quero e com o qual eu vou lucrar muito, né? Mas tem um em particular que me incomoda…o João, que faz os desenhos, sabe? Ele me parece disperso. Vem com ideias novas demais, não gosto muito disso. Essa história de ser visionário é modinha depois que se falou tanto em Steve Jobs. Ser inovador, criativo…aff, não me importo com isso, quero conquistar o mercado e só. E esse garoto…parece que não tá aqui na empresa. Quando discorda de alguma coisa, logo fala e vem com projetos novos. E os outros ficam entusiasmados…perco o meu posto de chefe. Eu sou um líder, é a mim que eles devem seguir!

Houve uma pausa, o chefe ouvia o seu interlocutor. E então respondeu:

-Hum, não acho que esse garoto seja um grande perigo…ah, vai, ele não desenha muito bem. OK, ele desenha. Mas vai passar a vida indo de agência em agência, fazendo aqueles sorrisos tolos de pasta de dente, já tá condicionado a isso. Duvido que vai conseguir alguma coisa além desses anúncios. Essa é a verdade, há gente que nasceu pra ser mandada porque tem talento limitado – acrescentou o chefe – Bom, agora preciso ir, meu caro. Depois nos falamos!

Não deve ser muito agradável ouvir isso de alguém que lhe parecia legal, pelo menos. Quer dizer, será que tenho talento o suficiente para pintar obras de verdade? E então foi essa a hora em que sentimentos romperam. De respeito à raiva foi-se num instante. João se questionava: quem esse cara pensa que é? Ele, João, até simpatizava com o seu chefe, mas e aquele sentimento colérico que estava agora despontando em seu interior? Mesmo que tenha despontado abruptamente, parece que tal sentimento já existia antes de tão intenso e certeiro. Mas não existia. De tanto formular uma imagem da pessoa que perfeitamente conquista a quem está ao seu redor pela retórica, João foi se emaranhando pela palavra sedutora de alguém que se mostra num espetáculo em que é o personagem heroico. Contudo, agora, por um simples telefonema, mostrara-se ardiloso e terrivelmente objetivo.  “João, você pode ser quem quiser, meu garoto”, ele disse, certa vez. “Você tem um futuro promissor aqui na agência, eu irei te dar só chances de crescer!”. Ah, controlar-se é difícil. João não poderia dizer que essa foi uma decepção trágica digna de um mito grego. O respeito fora embora, esmaeceu diante dessa pintura. Imagem que antes se mostrara colorida, agora se distorcia num horror expressionista.

Não, João deveria provar que merecia algo melhor. A sua arte merecia isso. Não era justo que ele passasse noites tentando pintar uma nova realidade na tela em branco e se deixar, ao acordar, corroer-se por aquela que lhe era imposta.

Então ele voltou à sua mesa, já vazia de trabalhos, estava naquele momento definido por ele como “limbo”, aguardando um novo projeto ou o que o chefe iria mandar que ele fizesse. Já havia recebido o salário do mês, estava tudo certinho. Parece que o dia havia lhe dado uma pausa apenas para decidir. Pegou o pouco que tinha nas gavetas, pôs numa caixinha de papelão.

Com passos decididos, João entrou na sala do chefe. Disse que estava cansado do seu trabalho e que procuraria por outro mais criativo. Estava exausto, após anos, em lidar com sorrisos de pasta de dente que se esmaeciam assim que ele lhes dava o último retoque. E também não acreditava naqueles lápis de cor que vendia. Eram tão fracos, não tinham o direito de se auto-titularem a solução para os artistas que querem uma obra feita às pressas. É isso. Agora, livrando-se desses signos vazios, das promessas tolas que ele era obrigado a vender por seus traços, buscaria um modo mais sincero de pincelar a realidade.

Segredo de um chão

Manhã de sexta-feira. A mãe do garotinho havia saído para a feira, voltaria com apenas algumas sacolas, o estritamente necessário. Ficava sempre a cargo do garotinho e da irmã a faxina da casa. A menina estava nos quartos, varrendo a poeira e tentando vencer o sono, varrê-lo em um ritmo constante e acordando aos pouquinhos.

Os dois adoravam limpar a cozinha. Jogavam baldes de água no azulejo e a viam escorrer com diversão, escovavam-no enquanto jogavam água um no outro. Até que o garotinho, com uma expressão sapeca, jogava um balde de água na irmã. Ah, ela se enfurecia! Mas sua vingança estava num balde também. Os dois, encharcados, enchiam a cozinha de risadas toda semana.

A outra tarefa do garoto era a de encerar o chão. Era uma tarefa difícil, não poderia exagerar muito na cera, para que não ficasse escorregadio. A sua mãe ficaria brava se o fizesse. Essa era a parte mais divertida da faxina, para ele. Encerava o chão pelo imenso corredor e sua imaginação o envolvia como a cera que se apegava ao chão.

Ele sempre assistia no cinema alguns musicais hollywoodianos. Adorava Fred Astaire e Gene Kelly! O sapateado, a dança era de tamanha magia que, por alguns momentos sobre o chão encerado ele coloca sapatinhos de madeira e tentava sapatear. Pulava, ria com o som, imaginava-se com um smoking elegante, dando giros no próprio eixo, agitando as pernas fortes e criando aquele som. O som da arte, o som da dança. Era ele que ecoava no cinema e o maravilhava. E, por minutos, ecoava em sua casa, pelo corredor, com tamanha vivacidade que o fazia acreditar que era Fred Astaire. Magrinho, como ele. Com gel no cabelo. Sorridente. E com o luxo do smoking.

Aquele corredor, com o chão de madeira meio gasto e envelhecido, ganhava vida com a cera tal qual o garotinho se sentia vivo ao incorporar Fred Astaire. Ao terminar a sua tarefa, dava um sorrisinho por guardar o segredo de ter o poder de trazer o musical e sua magia para casa.

O garotinho é o meu pai, que desde a infância, desde esse corredor, traz para casa o fascínio pelos musicais que transmitiu a mim. Ah, o cinema em geral! Charles Chaplin vejo desde pequena. E A Noviça Rebelde foi o primeiro musical que conheci. E hoje sou eu quem insiste para levá-lo nas peças musicais. Ele também tem uma coleção velhinha de gibis da Disney, a qual eu lia com todo o cuidado e com os olhos brilhando por serem de outra geração. E ainda me deixou a Arte como paixão. Os desenhos traçados por ele sempre eram o meu modelo enquanto eu tentava desenhar ainda muito pequena. Essa é a herança diária deixada pelo meu pai. Significa muito ver que grande parte do que sou e gosto é culpa dele!

Entre molduras

Olhadelas superficiais, rápidas, fugidias. Devo ser entediante. Minhas cores e formas parecem pálidas diante da vivacidade de outras mais chamativas e conhecidas. Não consigo competir com a popularidade de um Modigliani ou Caravaggio. Um quadro como eu não encontra um olhar demorado desses passantes que se arrastam pelo museu, nem sei pelo que eles procuram. Será que estou empoeirado, velho?

Não, até ontem eu era vanguardista! Era ousado carregar essas formas difusas, a força do pincel colocada sob a tela com o ímpeto de provocar o movimento, eu desafiava até mesmo o olhar do observador. Quem me pintou adorava Monet, vivia contemplando os livros de Arte e suspirava, desejando me criar. Não sou um daqueles vários quadros retratando a beleza da ponte em explosões distintas de cores. Acho que brinco com a imaginação do observador…mas se ele se permitir ser atingido por mim.

Usar molduras é de praxe. É como se fossem uma vestimenta para apresentar os quadros. Mas, ultimamente, estou em crise e tenho achado essa moldura, que antes era convidativa, uma verdadeira prisão. Esse enlace dourado, antes um adorno, hoje um grilhão. Esses fios dourados vão se ocupando de minhas beiradas, como redes, eu tento respirar, mas me sinto sufocado. Só preciso de uma olhadela para voltar ao que era antes.

Sabe, gosto da ideia, em tese, de estar em um museu. Sinceramente, é melhor do que estar numa sala de jantar, fazendo parte de uma coleção particular, observando as pessoas rindo bêbadas à mesa, contando de como gastaram dinheiro em viagens, tentando posar de cultas e eruditas, que conheceram o Orsay, o Louvre. Mas nem sequer olham para o quadro ao lado, poxa, sou Arte!

Ou não sou? Nem sei mais. A verdade é que meus dias se resumem a aguardar por aquelas visitas de escola. Gosto de ver aqueles olhinhos saltando de curiosidade buscando tragar, ao mesmo tempo, todos os quadros do andar. São nesses momentos que percebo chamar a atenção de uma criança aqui, outra ali. Apontam, perguntam, falam de meu criador.

No fim eu vejo que é difícil a minha relação com o museu. Ao mesmo tempo em que me abriga e possibilita esses olhares, por outro lado há os dias melancólicos, em que ninguém se esforça para me ver. O prédio que me abriga, muitas vezes, chama mais atenção que os meus traços. E com essa arquitetura não posso competir.

A cada dia que lanço meu olhar para essa sala cheia de quadros que, provavelmente, sentem o mesmo que eu, busco por um olhar brilhante daquelas criancinhas que me definem com tanta simplicidade.

Conto que surgiu após um semestre convivendo com museus-espetáculo, artistas modernos e pós-modernos. E ainda inspirado na música All the rowboats, da Regina Spektor.

%d blogueiros gostam disto: