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A crítica genial às redes sociais no novo clipe animado de Stromae

Publicado no site Literatortura

stromae clipe 2Esta é a ironia de estar conectado às redes sociais e ver justamente o novo clipe do cantor belga Stromae criticando esta permanente conexão em que vivemos. Divulgado ontem pelo site Buzzfeed, o clipe Carmen é embalado pelo estilo já consagrado de Stromae no cenário do hip hop francês, em um rap com letra crítica e irônica, mas desta vez seguindo o ritmo da clássica criação feito para a ópera Carmen, de Bizet.

Dirigido pelo aclamado diretor Sylvain Chomet (de As bicicletas de Belleville, O mágico), o clipe expõe o primeiro contato de uma criança – Stromae, no caso – com uma inocente selfie feita ao lado do passarinho azul símbolo do Twitter.

“Em 1875, Georges Bizet comparou o amor a um pássaro rebelde. 140 anos depois (e em 140 caracteres), o amor é um pássaro azul”, disse Stromae ao Buzzfeed, afirmando a proposta do clipe em apresentar a ilusão que temos do amor como expresso inteiramente nas redes pelo número de seguidores.

Após o primeiro contato com o passarinho que emite um assobio – o tweet, ele e o celular se tornam cada vez mais presentes na vida do personagem. O passarinho destrói o prato de macarrão na mesa, simbolizando o isolamento do rapaz que permanece conectado no celular diante da família. O difícil contato com as pessoas. A ilusão de que há uma clara popularidade, pelo número de seguidores que aumenta, e o consumo incessante. A selfie na festa parece alegre pelas hashtags, enquanto o passarinho destrói o bolo e a sala está vazia.

A atmosfera do clipe encaminha para uma realidade em que todos – incluindo as autoridades – acabam sendo levados ao fim iminente, na boca de um grande pássaro azul que se alimenta destes que vivem em torno apenas das redes sociais. E, mesmo diante deste caos apocalíptico, ainda resta tempo para tirar mais uma foto e expor o horror de estar ao fim com o celular sempre à mão.

O curioso é constatar que Stromae liberou o clipe pelas redes sociais, no instagram, com uma foto sua tal qual a versão do desenho, além de outras dele no mesmo estilo (veja aqui). Já estamos inseridos em uma vida que se define pela presença no facebook, o contato pelo twitter, o significado das fotos publicadas. Contudo, como se pode ver, ainda resta espaço para a crítica a esse grande pássaro azul que nos consome.

Fonte: Buzzfeed

O ano mudou e o blog também (um pouquinho)

Quando alguém fala “ah, tenho uma novidade”, sempre fico com medo e penso “ai meu deus meu mundo vai cair e agora vão cancelar minha série não vão lançar aquele filme antes do Oscar vão matar alguém em Doctor Who/Sherlock/Game of Thrones (nesse aí é mais comum)”, mas acabei descobrindo com os anos que mudança é algo positivo. Então mudança aqui é boa e é só para dizer que o blog precisa crescer em 2015!

Há cinco anos eu criei este blog e fui seguindo com ele encarando-o como uma grande caixa onde eu iria simplesmente arquivar meus contos, poemas, o meu treino na vontade de ser escritora. Com sorte, alguns poucos amigos acompanhavam, vieram vocês, muitos leitores desconhecidos que passaram a seguir este blog.

Ele surgiu em 2009, quando eu tinha só 16 anos, e o primeiro post foi um conto muito querido que enviei na ingenuidade para um concurso da Companhia das Letras do Vinicius de Moraes, representando meu colégio. Acabou que ele foi parar entre os cinco finalistas de São Paulo. Não ganhou, mas a experiência deu o empurrão para que eu usasse esse espacinho como a minha tentativa de arriscar a criar histórias, até porque esse negócio de escrever vicia.

Para resumir tudo, eu cresci e iniciei minha graduação de Filosofia, onde estou agora (não exatamente agora, quer dizer, quase, tem os trabalhos para fazer nas férias, então eu fico na dúvida sobre onde estou agora. São férias no meio das linhas de Kant e Hannah Arendt, o que é meio conturbado). No ano de 2014 este blog foi alimentado com 72 artigos que consegui publicar por aí, já que sou colaboradora dos sites Literatortura, Zona Crítica e Indique um livro. Visitem esses sites, são lindos. Tive também uma coluna que durou seis meses no Fashionatto, mas a correria da graduação me levou a focar nas matérias para os outros sites.

No fim, este blog foi recebendo o que produzi por aí. Mas acho que não é o suficiente. Então, este post é a iniciativa de dizer que haverá mais conteúdo neste blog aqui, sim. Mais contos, poemas, crônicas, posts indefinidos, e mais de vocês. Não dá para torná-lo apenas um arquivo.

Foi por isso que se você entrar agora no blog verá que ele foi repaginado. Antes era um visual mais lúdico, com aquela charmosa lua com um foguete nos olhos, do início do Cinema, daquele curta Viagem à Lua, de George Méliès. Eu a tinha escolhido porque aquela lua, em si mesma, já resume o que é ler e escrever: sempre um ato inaugural.

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A questão é que agora, depois de mais um tempinho escrevendo, eu percebi que o blog precisava ter mais de mim neste momento. Então, lá na imagem de capa está Dance at the Moulin Rouge, de Lautrec. Por quê? Só porque minha pesquisa na iniciação científica é sobre arte impressionista? Não apenas isso. Se você observar o quadro, parece que ele se encontra estático. O tempo parou, os homenzinhos de cartola e a mulher bem arrumada de rosa não olham para a protagonista do quadro. Mas ela dança, ela é o movimento. E quando a gente escreve é assim: o mundo parece ganhar movimento e a nossa característica mais singular é reger essa dança por si mesmo. Com suas meias vermelhas ou não.

Também tirei a frase que era o subtítulo, um verso de Alberto Caeiro, “sinto-me nascido a cada momento/ para a eterna novidade do mundo”. E coloquei uma frase minha. Arrisquei. Ela é uma junção deste conto aqui que escrevi, “Olha lá, tem uma janela acesa no caos” e “Galhos a dançar”, que escrevi em 2014. Aproveitei também para inserir na barra lateral os últimos livros que li e os filmes que assisti. Dá para curtir agora cada post, divulgar no twitter, no Google+, e pode me seguir no Twitter, @mafranconeti, espalhe!

Sendo assim, eu convido você, que está aí, que segue o blog pelo wordpress, que recebe as atualizações por e-mail (sério, obrigada, envio carinho, doces e nuvens felpudas rosas para você), amigo ou desconhecido que acabou caindo por aqui: seja bem-vindo. Pegue uma bolachinha, o café, senta aí e leia. Porque ser leitor é ser herói também.

Mickey Mouse e um zumbi no curta-metragem para o Dia das Bruxas

mickey

Matéria publicada no Zona Crítica

Na sexta-feira, dia 31, é comemorado o Halloween, o dia das bruxas. O costume é norte-americano, mas quando o mês de outubro se inicia, é quase inevitável a vontade de procurar por enredos sombrios. No caso, não é bem sombrio. O Halloween também pode ser comemorado ao aliar o humor das animações infantis às surpresas de uma criatura assustadora.

Mickey Mouse, o rato mais conhecido na história do cinema, ganhou um curta-metragem que retoma a atmosfera de suas histórias clássicas. O rato magrelo de calças vermelhas – que se tornavam pretas nas películas P&B – desta vez se vê face a face a uma versão zumbi do Pateta.

O curta-metragem “Amigo Zumbi” foi escrito e dirigido por Aaron Springer, para o especial anual de curtas para o Halloween. Mickey não encontra uma ferramenta para consertar o motor de seu carro, mas se depara com um zumbi despedaçado, com os ossos à mostra e incrivelmente lento. Os detalhes da animação, a sincronia entre a trilha e a corrida desesperada de Mickey dão o tom de humor já conhecido dos estúdios Walt Disney em seus curtas ao breve enredo. Uma boa forma de entrar no clima do Halloween!

Você pode assistir AQUI 

A Morte, objetos inanimados e eleições: o clima de outubro pelas listas!

Outubro foi um mês cheio de muitas novidades – Mostra Internacional de Cinema, algumas estreias de terror e os debates das Eleições 2014. Por isso o Zona Crítica não podia ficar de fora. Toda semana a gente pega um tempinho e faz uma lista bem bonita com duas indicações de filmes por colaborador. Este mês foi particularmente divertido, principalmente resgatar na memória os filmes onde a Morte era personagem! Dá uma olhada abaixo, você pode conferir as minhas indicações mas também pode clicar em cada título para ver a lista completa.

A Morte é protagonista no Cinema

O Sétimo selo: A morte está em todos os cantos do enredo de O sétimo selo, de Bergman. Após retornar das Cruzadas, o cavaleiro Antonius se depara com uma população desolada, que aos poucos se esvai pelo horror da peste negra. O questionamento sobre o sentido da vida, a existência de Deus e do Diabo e a impossibilidade de uma vida além da morte permeia todo o filme pela resistência do protagonista, que encontra a Morte na praia e a desafia para um jogo de xadrez. Está posto aqui, então, a tentativa do cavaleiro em barganhar e descobrir a resposta pela boca daquela que está permanente na guerra e na peste. A Morte é irônica e carrega um meio sorriso que tende ao obscuro, ela quase nos seduz por ser instigante. Pelo jogo de xadrez, ela acaba se mostrando implacável: a Morte tem seus passos premeditados, sabendo quando deve convidar cada humano a dançar com ela.

Volver: No filme de Pedro Almodóvar a morte se mistura ao renascimento da vida. Raimunda sempre retorna à La Mancha para limpar o túmulo da mãe no Dia dos Mortos. E este início do filme dá o tom para todo o enredo que apresenta a família de Raimunda lidando com a morte como um dado de sua existência. Raimunda, precisando ocultar o segredo de ter matado o marido para proteger a própria filha, a irmã de Raimunda que teme os mortos, e Irene, mãe de Raimunda, que retorna dos mortos para tentar se reconciliar com a filha. No fim, se o filme contém apenas figuras femininas, a morte acaba sendo mais uma personagem inserida por Almodóvar, já que é ela quem sustenta, define, fragiliza e fortifica essas mulheres que sobrevivem numa melancolia que tem seus momentos sublimes de alegria entre a família. A morte acaba sendo o tom agridoce de suas vidas.

Harry Potter e as relíquias da morte – parte 1: O livro Contos de Beedle, o Bardo, deixado por Dumbledore à Hermione Granger, (livro esse que até J.K.Rowling publicou depois) é peça chave para a trama do filme. Há uma cena em que a garota lê para Harry e Rony o Conto dos três Irmãos, em que cada um deles pede um presente à Morte: a Varinha das Varinhas, a Capa da invisibilidade e a Pedra da Ressurreição. Destes presentes, o único que se mostrou simples, sem qualquer desejo de ambição, foi a Capa. Por causa dela, o irmão pôde viver até a velhice às escondidas da Morte, que demonstra respeito pelo irmão que a enganou para viver uma vida cheia de virtudes.

Objetos (in)animados no cinema

Frankenweenie: Desafiando os pais, os projetos comuns de ciência da escola e o processo natural da existência, um garotinho resolve trazer o seu cachorro de volta à vida. Esta é a história de Frankenweenie, uma animação em preto e branco de Tim Burton. Nela, presenciamos esse retorno à vida de uma criatura pelas mãos de um pequeno menino cientista – uma clara referência à Frankenstein – e até que ponto é possível dar vida a um animal de modo que o passado possa ser recuperado. Victor é fã de cinema e gosta de criar curtas e na companhia de seu cãozinho Sparky. Após um acidente, o garoto se vê perdido sem seu amigo. Então, num dia chuvoso, o cãozinho retorna pela eletricidade, na mesa de operação do garoto. Mas as consequências vêm logo em seguida. O filme de Burton é uma amostra poética do quanto todos gostariam de ter o poder de trazer os momentos e as pessoas de volta à vida, mas Sparky vem abanando o rabo e trazendo à tona também o peso que existiria nessas escolhas.

Casa Monstro: Bem lá no fundo você já passou em frente a uma casa abandonada, viu um movimento suspeito e cogitou que poderia ser mal-assombrada. O filme Casa Monstro trata disso literalmente. A casa ganha vida, engole triciclos, crianças, brinquedos e transeuntes da calçada. Na véspera do dia das bruxas, o menino DJ e seu amigo resolvem investigar, ao que veem a bola de basquete sumindo no terreno da casa. Assim, o filme nos leva a conhecer essa casa que possui uma alma e fome por tudo aquilo que passar pela sua frente.

Filmes e eleições

Milk – A voz da igualdade: Entre os debates políticos, a pauta LGBT tem se mostrado merecidamente urgente. Vimos o discurso homofóbico de Levy Fidélix e a voz dele soa, infelizmente, em outras mentes que ainda creem não ser justo aprovar a união homoafetiva. Nada como dar voz, então, a quem realmente merece. O filme Milk – A Voz da igualdade, traz a trajetória de Harvey Milk, considerado o primeiro gay assumido a alcançar um cargo público de importância nos Estados Unidos. Em 1977, após um intenso eleitorado, Milk consegue assumir um cargo no Quadro de Supervisor da cidade de San Francisco. Assim, o filme apresenta os seus dilemas e o preconceito que nega os direitos de exercer o uso de sua voz publicamente e ser integrado à sociedade.

Dama de Ferro: O grande mérito do filme é trazer a complexidade de Margaret Thatcher pela atuação de Meryl Streep. Em Dama de Ferro, conhecemos por flashbacks, a trajetória de uma das poucas mulheres que ganhou destaque no cenário político mundial. O filme busca se abster de um posicionamento forte e algumas vezes acaba por optar pela dicotomia esquerda-direita e focar no drama humano da personagem. Contudo, a atuação de Meryl Streep abre o campo para tentar entender quem foi Thatcher. Ela foi apelidada como dama de ferro em razão de seu conservadorismo, pulso firme ao governar a Inglaterra como Primeira-Ministra. Ela proibiu manifestações sindicais, houve um gasto excessivo com uma guerra ambígua e complicada como a Guerra das Malvinas, ainda teve seu governo marcado pela priva tização e a recessão econômica após a Crise do Petróleo de 1979. Ou seja, falar de Thatcher é complexo. Mas o filme é um bom começo para visualizar o cenário e o destaque dado à personagem.

 

Cenas mais engraçadas, pôsteres e as cidades no cinema: mais listas! The show must go on!

Já falei lá embaixo que neste semestre passei a escrever também para o site Zona Crítica, e toda semana a gente para tudo o que está fazendo – larga a louça, deixa o ponto do ônibus passar ou fala para o texto da graduação esperar – e faz duas indicações de filmes para a lista da semana. Abaixo você pode conferir as minhas indicações mas também pode clicar em cada título para ver a lista completa. Tem de tudo, tá lindo demais!

Célebres cartazes de cinema

Cisne Negro: Na época de divulgação de Cisne Negro, o que me despertou interesse pelo filme foram justamente as várias versões de pôsteres. Os minimalistas em preto e vermelho, o rosto de Natalie Portman rachado (colocando em questão a personalidade frágil da personagem), e finalmente o pôster que revela a caracterização de Portman como o Cisne Negro. O pôster funciona porque expõe a grande mudança pela qual a personagem passa ao alcançar a perfeição da criatura. Os olhos vermelhos ganham destaque na maquiagem que recria as asas negras, o rosto meio cadavérico não hesita e encara o observador. Num misto de mistério e sensualidade desconcertante, a personagem no pôster causa o estranhamento despertado ao longo do filme. É aí que o pôster já mostra como a transformação de Portman para o papel dá vida ao enredo.

Batman – O Cavaleiro das Trevas: Só de imaginar que o Coringa está do outro lado e que só há uma separação tênue de um tecido fosco afastando-o do observador já dá um arrepio. O pôster em que ele se encontra escrevendo “Why so serious?” foi muito bem executado porque cria uma sobreposição de cada ato do Coringa. Primeiro, ele não se revela tão cruel. O homem adornado por uma maquiagem branca, cabelos verdes e um sorriso rasgado nos cantos da boca que vemos ganhar forma no filme de Christopher Nolan inicia o seu ato teatral perguntando – quase com simpatia – por que estamos tão sérios. O desenho em sangue do pôster deixa suspenso o que acontece a seguir, como se congelasse a primeira pergunta para a grande resposta, na qual o Coringa já está diante dos nossos olhos e afirma “vamos colocar um sorriso neste rosto”. Tudo o que vemos é a expressão de Coringa enfraquecida pelo pano, mas a intenção quase revelada no sangue, na pergunta, no sorriso e no olhar assustador.

Lugares famosos e marcantes do cinema

Casablanca, em Casablanca: O casal Rick e Ilsa afirmam, numa das frases mais icônicas, “nós sempre teremos Paris”. Essa cidade acaba sendo o santuário dos protagonistas, eterna por guardar as lembranças que os faziam resistir. E Casablanca? A cidade marroquina é o presente permanente na vida de Rick e Ilsa, em que cada passo pode ser perigoso para quem revelar a sua ideologia abertamente diante da presença nazista. E é nela que Rick e Ilsa se reencontram, numa realidade onde não dá mais para recuperar o passado. Casablanca é o conflito permanente. Rick deve ajudar Ilsa a escapar dela com o marido. E, ao mesmo tempo, os dois desejam escapar desse presente para retornar ao tempo em que tinham Paris. O filme lança essas sobreposições do significado da cidade, em que Casablanca é o destino do qual não dá para fugir e Paris, um sonho utópico que talvez já não possa voltar mais. Casablanca é uma cidade dolorosa porque está em meio aos tiros e ao caos, vivendo apenas para isso, e guarda nela um bar e um piano com a música Time Goes By, que é capaz de trazer de volta toda a dor do passado impossível de retornar. Casablanca e Paris acabam sendo a grande representação dos tempos de guerra, onde é impossível saber se o horror irá acabar e se é possível retomar os tempos ingênuos dos sonhos.

Tóquio, em Encontros e Desencontros: Dois estranhos em uma cidade incógnita. Esta é a história de Encontros e Desencontros, em que Bob Harris, um ator de meia-idade casado se hospeda em um hotel para mais um de seus trabalhos, enquanto Charlotte, esposa de um fotógrafo, se encontra sozinha e melancólica na espera pelo marido que trabalha em outras cidades do Japão. Tudo soa ficcional e ilusório demais na Tóquio high-tech para o estrangeiro que se vê sozinho nela. O filme mostra uma sensação universal, de se sentir perdido e sozinho mesmo numa cidade cheia de pessoas. Como no título original Lost in translation, Charlotte e Bob estão perdidos até mesmo na tradução dos próprios sentimentos e ideias. Não apenas por conta do idioma tão diferente do inglês, mas também porque Tóquio se faz como uma redoma em que não encontram nada real em que se segurar. A ironia muito inteligente do filme é mostrar que o único lugar em que ambos encontram para viver é num hotel e entre dois amigos que encontram a mesma solidão no outro. Numa relação que dura poucos dias, mas que soa mais verdadeira do que as promessas ficcionais da cidade.

Cenas mais engraçadas do cinema

Make’em laugh, de Cantando na Chuva: A cena é quase metalinguística. O personagem de Donald O’Conner, Cosmo, quer fazer o amigo Don (Gene Kelly) rir e entender que a risada é importante em todo momento da vida. E então começa a cantar. O mundo é esquisito, com várias contradições como pessoas altas com rostos pequenos (‘Short people have long faces and long people have short faces’), e se o mundo é assim, cheio de tantas coisas, deveríamos ser tão felizes quanto esse grande número de acontecimentos. Mas não é o que acontece. Por isso mesmo, tanto a função que Cosmo está mostrando da figura do ator quanto dele mesmo, enquanto personagem de O’Conner, é fazer o público rir, perpetuar o riso para fazer a vida ser suportável. Pronto, ele começa um número musical de dimensão épica, jogando-se no chão, subindo nas paredes, dançando com uma boneca de pano, sem parecer ter dor alguma. Tudo por uma causa: fazer a gente rir. And the show must go on!

assista AQUI 

Dory, em Procurando Nemo: A animação Procurando Nemo conta a história de um peixe-palhaço que procura pelo seu filho raptado por um mergulhador. Mas o filme não seria o mesmo se não tivesse a peixinha Dory. As frases dela se tornaram tão marcantes que fica difícil escolher apenas uma. Da frase conhecida “Continue a nadar” e a tentativa de falar baleiês (sim, você já tentou imitá-la), Dory é uma das poucas personagens femininas nas animações da Pixar que ganha um destaque cômico que supera o protagonista da história. Ela sofre de perda de memória recente, o humor é ingênuo e a personagem se mostra complexa quando notamos que a amizade com Marlin é a única história da qual ela consegue se lembrar de verdade. A aventura pelo mar não seria a mesma sem a Dory e a doçura com que ela busca incentivar o amigo na sua procura.

assista AQUI

Listas de cinema no Zona Crítica!

Neste semestre passei a escrever também para o site Zona Crítica, em que toda semana cada um indica dois filmes para uma lista temática. Estas aqui foram as primeiras das quais participei, é só clicar no título para ver o restante da lista!

Os filmes de Robin Williams

Jumanji: Os tambores de Jumanji arrepiam, seja em 1969, 1995 ou por aqui em 2014. O tempo pode passar, mas tudo o que acontece com quem encontra o tabuleiro de jogo Jumanji ainda me assusta. Eu costumava sonhar com as cenas todas as vezes que eu revia o filme. E hoje resolvi assistir mais uma vez e fiquei surpresa por notar que eu me lembro da maioria das cenas em detalhes. Tudo ganha vida a cada lance de dados no tabuleiro de Jumanji. E é o personagem de Robin Williams, o Alan Parrish, que sabe mais sobre os horrores que se escondem dentro do jogo de tabuleiro. O que se mostra mais tocante na atuação de Robin é a expressão infantil que ele concede a Alan. Até porque este é um garoto esquecido por 26 anos dentro do jogo, ele ainda era uma criança. Por isso, é incrível ver como Robin consegue demonstrar muito em poucos minutos, quando surge todo barbado no filme e enfrenta um leão, para depois descobrir que está sozinho no mundo. Até hoje o filme dá aquele arrepio que eu sentia quando era pequena. Se a luz da geladeira pisca e o som falha por aqui, você já acha que está na mesma atmosfera do filme. Cuidado ao aventureiro que resolver iniciar o jogo.

Patch Adams – O amor é contagioso: Robin Williams dá vida ao médico Hunter “Patch” Adams que resolve aplicar um método de cura bem diferente do comum. Com um nariz de palhaço e muito humor, ele propõe curar os pacientes por meio da leveza e da brincadeira, por um método que hoje respeitamos muito pelo trabalho dos doutores da alegria. Ele chegou a ser desacreditado pelos colegas de que isso seria capaz de mudar a vida de um paciente. Além da beleza da história, o filme cria vida mesmo pela presença de Robin. Não dá para esquecer a doçura ingênua do seu olhar a cada paciente, as várias cenas engraçadas em que ele rompia com todas as regras. Eu assisti a esse filme pela primeira vez quando tinha uns oito anos e a cena em que ele incentiva uma paciente a se jogar numa piscina de spaghetti foi o ápice. Eu fiquei eufórica, eu queria fazer o mesmo e parecia que o Robin convidava a gente a ser livre, com uma simples cena. A atuação dele e o nariz de palhaço eram os sinais de que a vida podia ser leve por um simples ato, a começar por um filme.

Melhores aberturas de séries de TV

Game of Thrones: Quando se espera por um seriado durante um ano, a abertura acaba se tornando um acontecimento quase catártico. Se a música ainda tiver um tom épico, colabora ainda mais para o coração palpitar com as primeiras notas. É isso o que acontece quando a abertura de Game of Thrones se inicia. É quase inevitável cantarolar junto com os instrumentos. Porém, o mais interessante da composição dela é notar as localizações dos Sete Reinos de Westeros surgindo da terra e se formando em castelos, torres, pirâmides. A cada temporada, como ocorreu na quarta (exibida este ano), a abertura se tornou mais cheia, sendo preenchida aos poucos até o episódio 8, conforme as novas cidades apareciam. Já são conhecidos King’s Landing, Winterfell e a Muralha. Agora, é possível ver também a engenhosa construção de Braavos – com a moedinha passando no ritmo do tema e o Titã que convida os barcos a ingressaram na cidade – e as cidades pelas quais a personagem Daenerys passou, fechando com a pirâmide em Meereen. A abertura também costuma variar a ordem das citações dos atores e, se algum ator novo surge por entre o elenco, é quase uma comemoração ver o seu nome entre os primeiros, como ocorreu com Pedro Pascal e seu personagem Oberyn Martell.

Friends: A abertura de Friends pode ser aleatória. Um sofá no meio da grama, acompanhado por um abajur, com amigos se divertindo dentro de um chafariz, aparentemente resolveram fazer isso no meio da madrugada – como o sofá foi parar lá? – e no fim a Monica apaga o abajur. Certo, parece não ter sentido. Mas por que está entre uma das melhores aberturas? Ela já se tornou um clássico. Esse cenário quase ingênuo e non-sense acaba dando o tom do enredo, uma comédia que consegue fazer rir pela simplicidade de um roteiro sobre cinco amigos vivendo em Nova York: Monica, Rachel, Phoebe, Ross, Chandler e Joey. A série é quase como a abertura da série: traz combinações que, à primeira vista podem ser estranhas, mas quando postas numa mesma cena acabam funcionando com naturalidade. A cada temporada a abertura muda com algumas das cenas dos personagens. É divertido ver como a edição combina o som das três palmas com algum momento sincronizado da série. E aí o espectador quase faz o mesmo ao assisti-la. Faz sim. Ao som de I’ll be there for you, a abertura apresenta a evolução tanto dos personagens quanto da amizade entre eles, pela versão mais jovem, nos 10 anos de série.

Saiu o trailer de Into the Woods, musical da Disney com Meryl Streep

Notícia publicada no site Literatortura

meryl streep into the woodsEm 2013 começou a produção do filme Into the Woods. Quase dois anos de espera para saber o que seria dele. Agora um trailer foi divulgado só para aguçar a curiosidade. Into the Woods é uma adaptação da obra de Stephen Sondheim e do roteiro para a Broadway de James Lapine, vencedor do Tony Awards.

E a imprensa norte-americana já adianta: a Disney não será fiel ao musical. Conhecido por propor uma releitura dos contos de fada com linguagem adulta, o musical da Broadway teve algumas de suas cenas com mortes e sexo implícito cortadas para a versão da Disney.

No musical que estreou nos anos 80, dá-se a entender que a Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Mau tiveram um envolvimento e que a Rapunzel morria, mas isso não deverá acontecer no filme da Disney devido ao público-alvo.

Em entrevista ao The New Yorker, o autor do musical disse que “se fosse um executivo da Disney provavelmente faria a mesma coisa”. O que faz sentido, claro, já que não é o propósito dos estúdios de animação direcionado às crianças e adolescentes.

Porém, dá um pouquinho de receio ao pensar que, no fim das contas, o filme pode ser mais uma adaptação de contos de fadas. Nos últimos anos, o cinema foi povoado por eles, de Branca de Neve e o caçador à recente Malévola, da Disney. Ou por Cinderela que deve estrear em março de 2015. Ou a versão francesa de A Bela e a Fera, prevista para setembro de 2014. O gênero chama a atenção e não deixa de ser interessante ver novas propostas para os enredos clássicos.

Vale lembrar que Into the Woods, por conta da demora, acaba por surgir em um cenário que já se estabeleceu bastante entre os espectadores. Talvez até tenha se estabelecido tanto que o formato já se tornou meio óbvio. Ainda mais quando os cinemas os lançam um atrás do outro. Pode arrastar multidões para a sala e ser um grande sucesso, mas também pode deixar de apresentar algo novo ou ainda perder a chance de mostrar o enredo quase desconhecido de Into The Woods, que em si é inovador. E foi inovador nos anos 80 para o teatro.

O que deixa o espectador esperançoso é poder ver um musical voltar às telas e com um elenco respeitável. Dirigido por Rob Marshall, de Chicago, e do produtor de Wicked, o filme traz Meryl Streep, Anna Kendrick, Emily Blunt, Chris Pine, James Corden e…Johnny Depp. Que só mostra a sua mãozinha de lobo no trailer.

E Meryl Streep, vale ressaltar. Que, se quisesse, poderia fazer uma árvore muda durante todo o filme e se sairia bem. Mas está aqui como a bruxa que conduz e procura testar os personagens dos contos de fada. Nos bastidores teve até a brincadeira de que a atriz recebeu umas aulas de rap com o 50 Cent, porque foram vistos assistindo a um jogo de basquete.

Como diz o trailer, cuidado com o que você deseja. Eu, no momento, espero que o filme honre a espera. Pelo menos ele parece ser uma grande promessa. O filme está previso para 25 de dezembro de 2014 e 1º de janeiro de 2015 nos cinemas nacionais.

Veja o trailer AQUI 

Fontes: MSN Cinema  e C7nema

Buraco negro|Cientistas criam um preto impossível de ser visto

calvin sky

Minha coluna semanal no Fashionatto

Após ter um sonho em que eu quase era engolida por um buraco negro, um dos quais eu descobri no sonho ter sido criado por mim mesma em laboratório, ler a notícia no The Independent sobre um novo tom de preto me causou espanto. E a sensação de que existe alguma realidade alternativa em que os sonhos possuem uma relação com a vida por aqui. Mas antes de crer nessa possibilidade, eu resolvi ler o anúncio do site.

Se você admira o pretinho básico na moda, pelo vestido de Audrey Hepburn, se idolatra o tom pelas peças de Coco Chanel ou crê que ele seja uma das representações mais belas e simples ao gótico e ao bizarro, chegou a hora de saber da verdade. O tom preto conseguiu se tornar ainda mais misterioso. De acordo com uma notícia divulgada no dia 13 de julho pelo site The Independent (aqui), uma companhia britânica produziu um material “estranho, alien” tão preto que isso absorve 0,035% da luz visual, alcançado um recorde mundial. Para contemplar esse preto tão misterioso deve-se saber que ele é feito de nanotubos de carbono – cada um 10.000 vezes mais fino que o cabelo humano – e é uma experiência realmente estranha. É tão, tão preto que o olho humano não pode entender o que está vendo. Contorno e formas estão perdidos, deixando nada, apenas uma sensação de terror e insegurança diante dos olhos.

Obviamente, não seria possível um vestido Chanel corporificar esse preto. Ficaria algo indefinível flutuando em torno da modelo, além de possuir um custo muito elevado que se recusam a divulgar. Portanto, tem sido considerado para uso militar, mas que o produtor Surrey NanoSystems não está permitido a falar sobre isso.

“Você espera ver os contornos e tudo o que você pode ver…é preto, como um buraco, como se não houvesse nada lá. Isso é muito estranho”, disse Bem Jensen, oficial técnico da empresa.

Certo, mas em que se pode utilizar essa tecnologia? Usos práticos do Vantablack incluem câmeras de calibração utilizadas para tirar fotografias dos objetos mais antigos do Universo. Para isso, aponta-se a câmera para algo tão preto quanto o material. Stephen Westland, professor da ciência da cor e tecnologia em Leeds University, disse que tradicionalmente o preto foi, na verdade, uma “cor da luz” e os cientistas estão transformando isso em algo além desse mundo.

“Muitas pessoas pensam que o preto é a ausência de luz. Eu discordo totalmente com isso. A menos que você esteja olhando para um buraco negro, ninguém tem visto na verdade algo sem luz”, ele diz. “Estes novos materiais são pretos como conseguimos captar, o mais próximo de um buraco negro que nós somos capazes de imaginar”.

Ler essa notícia, não apenas como uma confirmação estranha do meu sonho que ocorreu por coincidência no mesmo dia em que saiu a notícia, foi imaginar um mundo em que humanos entrariam em guerra para ver a cor-que-ninguém-vê. Esse preto tão intenso possui uma poeticidade imensa e amedrontadora. Chefes de estados se enfileirando para contemplar uma massa negra. O terror se instaurando no mundo por uma cor que passa como manto pelas cabeças humanas, retirando todos os tons das coisas. Discutir Arte perderia o sentido, se o preto tomasse todos os quadros. Cairíamos no relativismo nunca vivenciado, em que os contornos das formas não existiriam mais. Deixaríamos de discutir se a percepção no engana. Agora é tudo parte desse buraco negro! O cogito cartesiano, a suspensão do juízo pela dúvida, que Descartes propõe as suas Meditações Metafísicas, a existência pela capacidade de pensar a si mesmo, iria por água abaixo. Como suspender o juízo colocando a dúvida sobre o que se vê, se todas as formas que antes causavam a confusão humana agora são parte de um buraco negro?

Nações fariam de tudo para comprar a cor preta e eu não sei por quê. O olhar seria treinado para ver e buscar o encanto tão escondido, tão intrinsecamente oculto de nós, que seria logo convertido numa cegueira que deseja talvez aquilo que não existe. Multidões de poetas iriam enlouquecer diante do inenarrável. Há séculos o poeta fala sobre a essência da palavra. A questão é que desta vez o nada se anunciaria com tanta força que a palavra estaria morta de todas as formas. Não haveria um mundo oculto por trás da palavra. Só haveria mesmo esse buraco negro que ninguém vê. Os poetas se lançariam no buraco negro, buscando a morte como redenção. Mas nem isso eles iriam encontrar: a morte seria concluída pelo nada mais poderoso do que a palavra. Tanto que conseguiria negar até o gesto do artista. A comunicação se perderia. Nada no dicionário, nenhuma expressão corriqueira poderia anunciar a tentativa de encontrar a verdade sobre a cor.

O mundo faleceria num buraco negro. Justamente o buraco negro que eu vi no sonho e me surpreendera tê-lo produzido em laboratório. A surpresa desta vez, porém, é imaginar um mundo que não permitiria nem o caos. Estaria tudo mergulhado na escuridão permanente. Seria quase o mesmo que vivenciar o terror existente na obra O sonho da razão produz monstros, do Goya. Estaríamos condenados a dormir nessa escuridão enquanto a razão vestida de preto tão-incrível-porque-ninguém-vê se anunciaria como um avanço racional à ciência. Os cientistas criaram uma cor que ninguém vê. O propósito talvez não termine no mundo narrado logo acima. Mas o mistério que envolve esse preto é tão nebuloso que apenas o conhecimento que temos dele é que nunca conseguiríamos ver a sua plenitude. Isso é assustador.

Para tentar animar um pouco, mas nem tanto, olha aí o clipe Supermassive black hole, do Muse. Seríamos as pessoas com roupinhas estranhas virando buraco negro.

“(You set my soul) – Você acendeu minha alma
Glaciers melting in the dead of night – Geleiras derretendo na morte da noite
And the superstars sucked into the ‘supermassive’ – E as super-estrelas sugadas para o supermassivo”

A animação do poema O pássaro de azul, de Bukowski

Matéria publicada no site Literatortura

bluebird3O poema de Charles Bukowski, O Pássaro Azul, originalmente publicado na sua antologia de 1992 The Last Night of the Earth Poems, é uma meditação sutilmente profunda sobre uma faceta da condição humana que conhecemos muito bem. A compulsão, os vícios, o resultado de uma solidão que corrói diariamente, é a isso tudo que Bukowski consegue se referir – ou melhor, trazer à tona – com o seu poema.

O pássaro azul se mostra como a pureza que buscamos preservar na gaiola, proteger um dos sentimentos mais nobres diante de um mundo corrompido. Essa beleza pura, talvez o ímpeto que move o escritor a criar, pede para se mostrar, mas não é revelado pelo poeta, o qual se encontra à mercê das ofertas ambíguas do mundo. Na hora em que se deita e está sozinho, é na companhia desse pássaro guardado em si mesmo, que o poeta parece se recompor. Pelo menos um pouco, para suportar a dor e o desespero que existe sempre no dia seguinte.

A bela animação adapta o poema de Bukowski e foi criada por Monika Umba, estudante de Cambrigde School of Art. Com uma perfeição visual muito bem desenvolvida pela artista, a trilha de poucas notas dá o toque melancólico que soa na leitura. Os personagens possuem um corpo meio rígido, parecem feitos de recortes de jornal. Por isso, tem algo de cotidiano neles. O pássaro e o azul, os grandes protagonistas da animação, dão o tom aos eventos e brilham pela imagem, trazendo à vida a magia do poema.

Abaixo você pode conferir o poema de Bukowski e a animação:

O pássaro azul

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí, não deixarei
que ninguém o veja.

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares
e das mercearias
nunca saberão que
ele está
lá dentro.

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo,
fique aí, quer acabar
comigo?
quer foder com minha
escrita?
quer arruinar a venda dos meus livros na
Europa?

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
eu digo, sei que você está aí,
então não fique
triste.

depois o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lá dentro, não deixo que morra
completamente
e nós dormimos juntos
assim
com nosso pacto secreto
e isto é bom o suficiente para
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, e
você?

in Textos autobiográficos, de Charles Bukowski, páginas 478/9. Tradução de Pedro Gonzaga. Porto Alegre, L&PM Editores, 2009.

Aqui o poema em inglês

Fonte

Você já viu a única entrevista em vídeo de Sir Arthur Conan Doyle, autor de Sherlock Holmes?

Matéria publicada no site Literatortura

conan doyleEste vídeo é uma das melhores surpresas que a internet pode dar. O que você vai ver em seguida, nesse Sábado do Vídeo, é um registro histórico –e único!-  em vídeo de simplesmente o criador do maior detetive da Literatura. Sir Arthur Conan Doyle, numa entrevista gravada em 1927, fala sobre seu personagem Sherlock Holmes, o motivo que o levou a criar esse personagem tão fascinante.

Com um bigode e cabelos brancos, um sotaque arrastado, um ar bonachão e um humor simpático nos olhos pequeninos, Sir Arthur Conan Doyle se apresenta a nós em vídeo numa aparência e postura incrivelmente fortes. É como se realmente estivesse conversando conosco. O autor nunca iria imaginar que sua entrevista chegaria a um enorme público com a facilidade da internet. Parecia ser somente um pequeno vídeo, no auge do mistério que o cinema falado ainda causava na época.

O diálogo que ele propõe, enquanto entra em cena com o cachorrinho aos pés saltitando no que parece ser um chalé retirado onde ele reside, é muito próximo, aconchegante e desmistifica a aura que naturalmente criamos em torno dos escritores. É com simplicidade que Doyle explica que decidiu criar Holmes porque ele não aceitava o fato de que a maioria dos detetives, até então na literatura, deixavam de explicar o caminho que percorreram até a solução do caso. Parecia que o detetive era um sujeito à parte que descobria o segredo com naturalidade e nós só poderíamos ouvi-lo passivamente. Foi por isso que o autor resolveu criar um detetive que nos trouxesse ao enredo. No fim, participamos com Sherlock Holmes da descoberta do crime, caminhando na mesma linha de pensamento dele.

Essa ousadia de Conan Doyle em inserir o leitor na história explica a comoção que o detetive causou em Londres. É com humor que o escritor diz, no vídeo, que recebia cartas e mais cartas de pessoas que acreditavam na existência de Holmes, a ponto de enviar propostas de emprego. Muitas mulheres enviavam pedidos para ser governantas de Sherlock Holmes. Esse boato que atravessou os séculos e que hoje os fãs repetem está lá, registrado na voz de Doyle.

Além disso, o autor ainda expõe no vídeo a crença e a pesquisa que ele desenvolveu – e poucos conhecem – sobre o espiritismo. Nesse mês (18), o Estadão divulgou aqui a notícia de que uma carta exclusiva onde Doyle expõe a crença na religião se encontra hoje para ser consultada na biblioteca nacional do Reino Unido. Nela, Doyle se dirige à mãe, falando sobre a preocupação pelo filho dele ser soldado na Primeira Guerra Mundial. “Não tenho medo de sua morte. Desde que me converti em um espiritualista convencido, a morte se tornou algo desnecessário, porém temo enormemente pela dor e pela mutilação”.

Anúncio da época de uma das palestras do Doyle sobre Espiritualismo

 Após as mortes de sua esposa Louisa, do seu filho Kingsley, do seu irmão Innes, de seus dois cunhados e de seus dois netos logo após a Primeira Guerra Mundial, Conan Doyle mergulhou em profundo estado de depressão. Desafiando os críticos, em 1918 o autor passou a publicar suas primeiras obras sobre espiritismo, como A Nova Revelação, A Chegada das Fadas, História do Espiritismo. Longe de afirmar que o espiritismo seria apenas um conforto para o autor devastado. Foi um estudo muito cuidadoso de Doyle e, principalmente, que precisou sobreviver aos ataques de charlatanismo que a mídia impressa gostava de espalhar na época, como se Doyle fosse capaz de ter contato com os mortos por um misterioso artifício que, no fim, seria uma mentira e uma enganação. Isso gerou até caricaturas, como logo abaixo, de Doyle nas nuvens em sua crença insensata e Holmes ao lado, imponente no seu semblante concentrado, lógico e ao lado da verdade.

Soma-se à fama de Conan Doyle a defesa que ele fez da existência das fadas por meio de uma foto que, décadas depois, foi comprovado que eram simples fadas desenhadas no papel e coladas na grama. Elsie Wright (16 anos) e sua prima Frances Griffiths (10 anos) usaram uma simples câmera, e afirmaram que não possuíam qualquer conhecimento de fotografia ou truques fotográficos. O caso é interessante e até engraçado, pois houve uma comoção entre as pessoas diante da ilusão dessa foto já icônica, incluindo Doyle que não apenas aceitou estas fotos como genuínas, como até escreveu dois panfletos e um livro que atesta a autenticidade destas fotografias, incluindo um apêndice sobre o folclore das fadas. O que não pode acontecer é que o olhar crédulo e até ingênuo de Conan Doyle para as fadas destrua o seu comprometimento e estudo em relação ao espiritismo. Aqui não cabe delegar, com os olhos contemporâneos, que o autor foi tolo e, portanto, não vale ser lido. Cada época tem seus simulacros nos quais as pessoas acreditam. E sim, a leitura d’A Chegada das fadas deve ser, no mínimo, incomum!

Desta forma, o registro em vídeo de 10 minutos traz um Conan Doyle livre para defender a sua crença e contar diretamente ao leitor o processo de criação de Sherlock Holmes. A entrevista encapsula um contraste curioso de um autor que não foi somente criador de um detetive que seguia fervorosamente a lógica. Mas também um sujeito que, em sua vida, ia além das deduções e diagnósticos médicos do seu personagem, que acreditava na vida após a morte, no sobrenatural, incluindo fadas e magia. E isso, de forma alguma, o diminui. Só o engrandece, afinal, ninguém se faz somente por um tipo de ideal, crença ou personalidade.

Sir Arthur Conan Doyle, por vezes, acaba sendo ofuscado pelo personagem que criou. Por isso, assisti-lo nesse vídeo raro é dar uma chance para ver o autor como ele, de fato, era. Ouvir o seu discurso, suas propostas e como se divertia diante dos erros dos fãs com o possível Sherlock Holmes real. E ainda a crença que defendeu durante a sua vida, em um momento no qual o espiritismo não possuía o espaço e o respeito que recebe hoje. Venha conhecer Sir Arthur Conan Doyle, tão fascinante quanto Sherlock Holmes.

Clique AQUI para ver a entrevista!

Veja AQUI como comprar a Revista Literatortura com a minha matéria sobre os 160 anos de Sherlock Holmes e a figura do herói moderno.

Mesmo que hoje a gente afirme que não há fadas, Doyle acreditou na existência delas pela história de duas irmãs que supostamente haviam fotografado as fadas. Leia aqui (em português)

aqui  outra matéria, em inglês, sobre o caso das fadas.

Fonte 

10 livros infantis escritos por gênios “adultos” da literatura

Matéria publicada no site Literatortura

O que um carro de corrida mágico e engenhoso tem a ver com justiça social, corvos, a maior flor do mundo, um gato, uma andorinha e a história do jazz? Todas essas histórias viraram livros infantis para os pequeninos. Um tanto peculiares e, por vezes, obscuros ou de temáticas complexas, pelas mãos de grandes escritores. Adultos. Mas grandes também, com um peso enorme quase mágico que emana dos seus nomes quando proferidos.

Poucos imaginam que Aldous Huxley, Gertrude Stein, James Thurber, Carl Sandburg, Salman Rushdie, Ian Fleming, Langston Hughes, Jorge Amado, Clarice Lispector, José Saramago e até o diretor Tim Burton (não tem como deixar o seu livro de fora) lideram também mundos fantásticos direcionados às crianças.

Eu tenho para mim que um dos maiores desafios de se criar enredos infantis é que o autor não deve subestimar a capacidade da criança de enxergar aquilo que ele pode e deve por nas entrelinhas. O livro existe para a criança desafiar o autor, o mundo adulto com questões curiosas sobre esse próprio mundo que está começando a conhecer. Um livro infantil pode ter diversas camadas que, no decorrer do crescimento da criança, se encontram em estado de ebulição aguardando para ser reveladas. Assim, novas perspectivas e histórias podem ser encontradas em um pequenino e inocente exemplar revirado lá atrás, quando se era criança. Foi assim com O Pequeno Príncipe, por exemplo. Eu não compreendia muito bem a grandiosidade das palavras do garotinho. Foi necessário dar dois anos de intervalo para que o livro me espantasse, fazendo-me perguntar “por que eu não vi isso antes, por aqui?”.

É com essa pergunta que a lista se encaminha para entender o quão obscuro um livro infantil também pode ser. Não necessariamente esquisito por conter figuras diferentes. Mas obscuro porque traz à tona temas dos quais nem mesmo, quando adultos, tentamos falar. Não é porque foram escritos por nomes que hoje consideramos de grande reputação, mas pela ousadia desses autores em desafiar a mente da criança. A fase da infância também tem seus lados obscuros. A fragilidade dessa vida que está se formando para a criança, a qual começa a observar que está inserida num mundo cheio de gente estranha a ela  é o suficiente para puxá-la ao fantástico e recriar o seu olhar. Venha conhecê-los!

Aldous Huxley

Aldous Huxley é conhecido pela sua obra icônica de 1932, Admirável Mundo Novo, uma das mais importantes reflexões já publicadas sobre o futuro e como a tecnologia está modificando a sociedade. Mas ele também era profundamente fascinado por ficção infantil. Em 1967, três anos após a morte de Huxley, Random House publicou uma edição póstuma do único livro infantil que ele escreveu. The Crows of Pearblossom (Os corvos de Pearblossom, traduzido pela editora Record) conta a história do Sr. e da Sra. Crow e o drama dos seus ovos nunca terem vingado porque eram devorados por uma serpente que vivia na base da árvore dos Crow. Após o 297º ovo devorado, os pais esperançosos decidiram matar a cobra, para isso pediram a ajuda de um amigo, Sr.Owl, quem criou dois ovos de pedra e os pintou igualmente aos ovos dos Crow. Após comê-los, a serpente sentia tanta dor que se debatia enrolando-se nos galhos, ao que Sra. Crow acrescentou alegremente “quatro famílias de 17 crianças devoradas”, usando agora a serpente como “o varal onde iriam pendurar as fraldas dos pequenos corvinhos”. Obscuro, não? Difícil não se sentir dividido entre a dor dos Crow e a vingança contra a serpente.

O volume original foi ilustrado por Barbara Cooney, mas a nova edição publicada traz o trabalho artístico de Sophie Blackall, que criou essas imagens adoráveis captando a atmosfera do enredo.

Clarice Lispector

Escritora e jornalista com uma obra vasta que permeia os dramas humanos com uma profundidade não só perspicaz, mas com uma conexão quase íntima com o leitor, Clarice Lispector também escreveu cinco livros infantisO mistério do coelho pensante, A mulher que matou os peixes, A vida íntima de Laura, Como nasceram as estrelas e Quase de verdade.Neles, a importância da natureza e os animais como protagonista ganham vozes para incitar a relação da criança com o mundo, num olhar mais atento e respeitoso pela natureza. Quase de verdade, escrito em 1978, conta com Ulisses, cachorrinho de Clarice, como protagonista, dialogando com a autora, que se posiciona como sua ouvinte. Como nasceram as estrelas apresenta lendas brasileiras e, de forma poética, mostra o histórico cultural, que muitas vezes esquecemos, à criança que está nesse processo encantador de descoberta.

José Saramago

Ele não poderia faltar numa lista de livros infantis. Conhecido por inúmeras obras como Ensaio sobre a Cegueira, Memorial do Convento e O Evangelho segundo Jesus Cristo, José Saramago uma vez teve uma ideia para um livro infantil que desejava ser “a mais linda de todas as que se escreveram desde o tempo dos contos de fadas e princesas encantadas”. Foi assim que surgiu A maior flor do mundo, que conta a história sobre um menino que faz nascer a maior flor do mundo. “Ele passava pelas ruas, as pessoas diziam que ele saíra da aldeia para ir fazer uma coisa que era muito maior do que o seu tamanho e do que todos os tamanhos”. Essa é vista como a moral da história, para o autor, e não é difícil tomá-la para si sendo adulto ou criança. A saída de casa, a autonomia, acaba por ser essa flor que a gente carrega, maior do que nossos limites e importante justamente por essa carga que ela tem.

Jorge Amado

O gato malhado e a andorinha sinhá, obra do querido Jorge Amado (Capitães da Areia; Gabriela, Cravo e Canela) já foi adaptada ao teatro e ao ballet inúmeras vezes, mas o livro ilustrado pelos traços memoráveis do Carybé é um daqueles exemplares que eu guardo com muito carinho, numa edição velhinha de sebo que comprei quando tinha uns 11 anos de idade depois de ficar fascinada pela peça que fui assistir com a escola. Jorge Amado tem esse talento, de nos fazer rememorar fatos adormecidos. Gato Malhado não tinha uma boa fama entre os animais. Até que ele notou que só a Andorinha Sinhá não tinha receio de se aproximar dele. Assim, nasce um dos amores mais adoráveis e impossíveis da literatura infantil, entre personagens tão diferentes quanto Romeu e Julieta, tirando o fato de que deveriam ser o predador e a presa. Jorge Amado certa vez escutou essa história numa trova do poeta Estêvão da Escuna, que costumava recitar no Mercado das Sete Portas, em Salvador. E ela virou esse presente em forma de prosa poética para o filho do autor, João Jorge, e para inúmeras crianças que aprenderam a gostar de ler por meio dessa obra memorável.

Gertrude Stein

Escritora, poetisa e colecionadora de arte, Gertrude Stein é uma das mais admiradas e citadas no começo do século XX. A autora criou o livro The World is Round, publicado em 1938 à convite da Young Scott Books. Stein pediu que as páginas fossem rosa, a letra fosse azul e que o trabalho de arte ficasse para Francis Rose. Só esse único pedido a editora não conseguiu cumprir, solicitando que a autora escolhesse entre os ilustradores já contratados. Relutantemente, ela escolheu Clement Hurd, ilustrador que havia surgido somente naquele ano. The World is Round foi eventualmente publicado, apresentando uma mistura de prosa e poesia, com uma ilustração em cada capítulo. A personagem do livro, Rose, se questiona quem ela é, se ela ainda poderia ser Rose se não carregasse o seu nome próprio. Com essa dúvida, ela sai pelo mundo numa busca por si mesma. Toda criança já se questionou onde ela cabia no próprio nome. Por isso, a história é tão próxima. O tema se mescla aos dramas de qualquer adulto também e a obra infantil traz um pouco da carga modernista de Stein.

Ian Fleming

Ian Fleming é reconhecido como o criador de uma das obras mais populares: a série de livros sobre James Bond. Alguns anos antes do aniversário de seu filho Caspar em 1952, Fleming decidiu escrever um livro infantil a ele, mas Chitty Chitty Bang Bang não viu a luz do dia até 1964, quando Fleming morreu. A obra conta a história da família Potts e da figura paterna de Caractacus, quem usa o dinheiro da invenção de um doce especial para comprar e consertar um único e mágico carro de corrida, que a família apelidou afetuosamente de Chitty Chitty Bang Bang. A inspiração de Fleming veio de uma série de motores aeronáuticos feitos para a corrida do piloto e engenheiro britânico Louis Zborowski nos anos 1920, o qual o primeiro motor de seis cilindros da Maybach foi nomeado Chitty Chitty Bang Bang.

O livro original foi ilustrado em preto e branco por John Burningham e foi adaptado pela Disney em 1968 para um filme homônimo com o ator Dick Van Dyke.

Langston Hughes

Poeta, ativista social, novelista, dramaturgo e colunista. Todas essas qualificações se dirigem a Langston Hughes, considerado um dos pais da “jazz poetry”, uma forma literária que emergiu nos anos 20 e eventualmente se tornou a fundação do hip-hop moderno. Em 1954, com 42 anos, Hughes decidiu colocar todo o seu amor pelo jazz na forma de um livro infantil que introduzia as crianças às várias expressões musicais que ele tanto admirava. The First Book of Jazz nasceu, se tornando o primeiro livro infantil sobre música americana, e até hoje é considerado o melhor. Hughes colocou cada aspecto notável do jazz, da evolução até a era mais celebrada e icônica, para também os sub-gêneros geográficos espalhados pelos EUA, e destacou a participação essencial dos músicos afro-americanos na consolidação do gênero. Hughes até escreveu sobre a técnica do jazz – ritmo, percussão, improvisação, blue notes, harmonia – com uma eloquência tão notável que em vez de sobrecarregar a criança, leva a ela a vontade de jogar e brincar com a música.

James Thurber

Entre 1940 e 1950, o celebrado escritor e cartunista Americano James Thurber, mais conhecido pelas suas contribuições ao The New Yorker, criou livros que reuniam contos de fadas, alguns ilustrados pelo aclamado artista e cartunista político franco-americano Marc Simont. O mais famoso deles foi The 13 Clocks, um conto fantástico escrito por Thurber em Bermuda em 1950. Conta a história de um misterioso príncipe que precisa completar um desafio impossível para libertar a Princesa Saralinda, das garras do terrível Duque do Castelo Coffin. O livro excêntrico é constituído pelo jogo de palavras poderoso de Thurber e escrito num estilo unicamente encadeado, criando um fascinante objeto de apreciação linguística e tratamento estrutural dos amantes da língua de todas as idades.

Veja aqui! uma animação do livro narrada por Neil Gaiman.

Carl Sandburg

Em 1922, duas décadas antes do primeiro dos três prêmios Pulitzer, o poeta Carl Sandburg escreveu um livro infantil chamado Rootabaga Stories para suas três filhas, Margaret, Janet e Helga, apelidadas de Spink, Skabootch e Swipes, respectivamente. Os apelidos ocupam repetidamente alguns dos volumes humorados de pequenas histórias. O livro surgiu pelo desejo de Sandburg em criar até então os inexistentes contos de fada americanos, o que ele viu como chance de substituir o imaginário dos contos europeus pelo Meio-Oeste americano, que ele chamou de “o país Rootabaga”, substituindo fazendas e trens por castelos e cavaleiros. Fantásticas e cheias de ideias criativas, as histórias capturam a visão romântica de Sandburg e também a sua perspectiva esperançosa sobre a infância.

Salman Rushdie

O novelista índio-britânico Salman Rushdie esteve envolvido em polêmicas pela obra The Satanic Verses, acusada de blasfêmia e humor inadequado à religião pelos críticos, o autor é ainda constantemente lembrado pelo seu talento na escrita. Em 1990, ele direcionou seu talento à literatura infantil com a publicação de Haroun and the Sea of Stories, uma alegoria fantasmagórica sobre justiça e diversas marcas sociais, particularmente na Índia, explorada pelo jovem protagonista Haroun, e o pai dele, um contador de histórias. O livro recebeu o prêmio Writer’s Guild Award for Best Children’s Book naquele ano. Um dos tratamentos inesperados da obra é a quebra de significados e o simbolismo de uma ampla lista de nomes de personagens, o que destaca a linguística e semântica intrigantes presentes na cultura indiana.

Vinte anos depois, o autor publicou seu segundo livro infantil, Luka and the fire of life: a novel.

BÔNUS: Tim Burton

Não poderia deixá-lo de fora dessa lista sendo que Tim Burton criou uma obra espirituosa, delicada e muito criativa para crianças. O diretor de filmes como Edward Mãos-de-Tesoura, A Noiva Cadáver e Alice no País das Maravilhas e o ótimo curta Vincent pontua a sua estética com excelência na obra O Triste Fim do Pequeno Menino Ostra (traduzida pela editora Girafinha).A edição conta com ilustrações de próprio punho do autor e escrito em forma de versos. Seus poemas curtos encapsulam personagens – menino e menina – que possuem alguma característica considerada bizarra aos olhos dos outros. Juntos, povoam um mesmo mundo, provavelmente o mesmo campo burtoniano que já se criou com autonomia no nosso imaginário. Os poemas são curtos e deixam claro o humor negro característico do diretor, com uma leveza que dificilmente se consegue obter com tão poucas palavras.

Fonte

Apartamento em Paris é reaberto após ficar 70 anos intacto

Matéria publicada no site Causas Perdidas

Normalmente, algumas pessoas tiram férias e deixam suas residências por poucas semanas ou até meses. Houve, porém, um apartamento em Paris que foi deixado isolado por 70 anos. A primeira coisa que me vem à mente é: o pó. Mas, felizmente, o pó desse período extenso repousava docemente por mobílias belíssimas, inesperadamente bem conservadas, nesse apartamento que teve sua história conservada por entre as paredes. Inimaginável o mundo que ele parece simbolizar por trás da porta principal.

O belo espaço preservado, o qual pertenceu à neta da atriz e última socialite parisiense Marthe de Florian, foi pago, mês após mês, durante muitas décadas, mas sem ter sua porta aberta pelo proprietário por todo esse tempo, deixando-o não apenas abandonado, mas também intacto. Isso ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial.

A proprietária inicialmente abandonou o seu rico apartamento a fim de escapar do ataque nazista. Ela nunca retornou à sua casa, a qual agora foi nomeada como uma espécie de “cápsula do tempo”, mas em forma de um apartamento parisiense estilo rococó. Os herdeiros da luxuosa proprietária decidiram fazer um inventário do apartamento quando eles descobriram que o interior foi preservado e que lá havia muitos tesouros.

Um deles, por exemplo, inclui um quadro pintado pelo famoso artista italiano do século XIX, Giovanni Boldini. A obra traz uma mulher que foi retratada para se assemelhar a Marthe de Florian aos 24 anos de idade. O lar encapsulado pelo tempo também revelou o romance com o artista por meio de uma pilha de cartas de amor trocadas entre eles. O apartamento, que provou ser tão rico de posses quanto de segredos, é fechado ao público, apesar de existirem algumas especulações que fazem isso mudar.

O curioso contraste entre a figura americana de Mickey Mouse e o imponente e esquisito avestruz empalhado, os livros e manuscritos empilhados nos móveis de madeira muito sofisticada, o estofamento das poltronas elegantes, a cortina densa que ocultou o sol por todo esse tempo, o espelho que via à espreita o tempo congelado no apartamento. Esse é o cenário com que a família de Marthe se deparou e o qual pode ser visto nas fotos abaixo.

 

Não é à toa que encontrar esse apartamento intacto traga à tona a sensação de que o tempo parou. Os móveis carregam consigo parte da história de seus moradores, mas, também, do contexto social a sua volta. Em um episódio do documentário Mundo Museu, exibido pelo canal Globosat, é possível conhecer as mais variadas mobílias no Museu da Casa Brasileira, em São Paulo. Os proprietários Fábio Prado e Renata Crespe, casal muito influente no início do século XX, colecionavam utensílios raros e mobílias dos últimos quatro séculos, hoje expostos no museu.

A concepção dos vidros, da madeira entalhada, dos compartimentos secretos nas escrivaninhas, são elementos que fazem de tais objetos uma manifestação cultural. Com efeito, espera-se que as mobílias se adequem às necessidades de seus proprietários. Ademais, a conservação do material se mostrava importante em razão do significado que tal objeto tem enquanto status: uma coleção de talheres de prata dizia muito sobre a família em suas recepções sociais; a porcelana e utensílios considerados de preço elevado, quando comprados e exibidos, pareciam dizer tacitamente que o proprietário tinha bom gosto e riqueza.

Nota-se, portanto, que as mobílias possuem segredos históricos e mantê-las em casa revela que o sujeito não as compra somente por necessidade, mas pelo valor cultural agregado a ela. A redescoberta desse apartamento parisiense acaba por remeter ao significado do gabinete de curiosidades, na História. Durante os séculos XVI e XVII, era comum ver tais gabinetes, locais em que se guardavam objetos raros ou incomuns aos olhos de quem os descobriram, sendo formados por utensílios exóticos, fósseis, animais empalhados, instrumentos técnicos avançados. Posteriormente, eles viraram a instituição que constitui o museu, por volta do século XIX.

Gabinete Worm Ole, do Museu Wormianum, 1655

O gabinete de curiosidades foi de suma importância durante o Renascimento, tanto como um local físico onde armazenar os mais distintos objetos, quanto uma representação cultural da interpretação dos sujeitos que estavam começando a se ver como descobridores. Veja só, não era difícil encontrar objetos de cunho religioso ou até mesmo frascos com substâncias misturadas prometendo curas e amores eternos. Isso é uma amostra de que tais gabinetes não possuíam um método rígido na escolha dos objetos a serem guardados.

Os gabinetes acabavam por ser um lugar onde o poder místico da ciência era reafirmado como uma área que começava a se ver como detentora do conhecimento acerca da Natureza. Não deixamos de reparar nisso na reunião desses objetos: o sujeito que os guardou é um pesquisador, das mais diferentes formas (sendo supersticioso ou lógico), propondo uma interpretação sobre o que encontra. Contudo, nesse momento a Natureza ainda encerra em si mesma o misticismo que fascina esses pesquisadores. Como ela parece ser harmônica e superior à mente humana, resta ao pesquisador guardar o que lhe interessa: os objetos que parecem falar sobre a Natureza.

O curioso está no ato de guardar. Ele nos dá o poder da interpretação, da teoria sobre o objeto. Mas esse ainda tem o mistério na sua essência, portando a riqueza infinita do mundo nos produtos mais bizarros. Interessamo-nos pelos pontos de passagem entre um reino e outro, o abismo em que o conhecimento humano parece não chegar; e pelo acidente efêmero do encontro com um fóssil, uma peça da toilette, um vaso.

O gabinete de curiosidades se interessa pelo exótico de outras culturas, como objetos antigos, um registro em um papiro, múmias egípcias, sapatos indianos. As coleções dos séculos XVI e XVII passam a manifestar, portanto, a curiosidade do homem que vê nas Navegações, a possibilidade de conhecer o mundo e conquistá-lo. Os gabinetes de curiosidades não deixaram de ser uma representação também do interesse sobre a anatomia que, posteriormente, nota-se nos chamados “teatros de anatomia”, onde eram guardados esqueletos a fim de auxiliarem nos estudos de escolas de medicina. Os órgãos humanos incitavam, nos pesquisadores, a mesma necessidade de conhecer os mistérios da Natureza presentes na composição de si mesmos.

Evidentemente, não apenas podemos dizer que objetos têm as marcas físicas que a História deixa neles, como o desgaste e o pó, mas também algo que vai além de sua determinação espacial: a memória encapsulada, deixada em suspensa, aguardando o olhar de qualquer indivíduo para ser reavivado.

O apartamento parisiense redescoberto lembra, pois, o gabinete de curiosidades devido à junção de objetos incomuns às mobílias bem conservadas. Porém, mesmo que vejamos a semelhança entre ambos, é importante destacar que o gabinete pressupõe que os objetos armazenados nele tenham sido descobertos pelo homem, carregando em si o caráter de objeto a ser pesquisado por alguma razão. O pesquisador tem o poder de afirmar se esse objeto tem alguma peculiaridade para ser guardado, até mesmo um valor financeiro inestimável para a sociedade. É verdade que o quadro de Boldini foi redescoberto e entraria no gabinete como objeto admirável por seu preço e singularidade. Mas esse valor dado à obra de arte iniciou-se com o museu estabelecido como instituição, portanto, o sucessor do gabinete de curiosidades. Assim, permanece a dúvida se é possível que uma obra de arte tenha espaço no gabinete.

Os demais objetos do apartamento, por sua vez, teriam sido mais do que relíquias com as quais a pessoa sortuda que abriu a porta se deparou. Certamente, para quem está fazendo o inventário do que encontrou, deve ser uma fonte de renda. Mas um boneco do Mickey, um avestruz ou até a pilha de cartas podem ter um valor simbólico. E esse ocorre pelo que foi afirmado antes: o objeto tem em si uma história oculta. Pode não ter significado para quem o encontra, mas ele o teve no passado da proprietária. Chegamos ao ponto mais fascinante, pensar em tudo o que fora abandonado. O que ela sentira ao se desvencilhar daqueles objetos, das cartas trocadas com o artista, fugindo do ataque nazista a sua cidade?

Podem ser utensílios cotidianos, mas carregam a história do dono, a sensação ao comprá-los, o que foi vivenciado ao lado de tais objetos, a estranheza na sua escolha em ter um avestruz empalhado. A disposição dos móveis e a escolha dos objetos do apartamento, como parte da identidade do proprietário, falam, pelas entrelinhas, com o pó sutilmente repousando nessa história deixada para trás. Desta forma, o apartamento parisiense aguça nossa curiosidade não só como pesquisadores, mas, no revela, também, a possibilidade de nos enxergarmos enquanto sujeitos que lamentariam, por tanto significado e história, em deixar seu lar para trás.

Gravuras dos gabinetes de curiosidades:Link

Fonte das informações históricas sobre os gabinetes: Link

Arquivo online disponibilizado pelo Museu da Casa Brasileira sobre os equipamentos, usos e costumes: Link

Revisado por Karol Vieira

Ensaio fotográfico transforma desenhos infantis em realidade

Matéria publicada no site Literatortura 

Toda criança já sonhou com seus desenhos se tornando cenas reais de sua vida. Não exatamente desenhos de monstros ou pesadelos que ela possa ter tido, mas sim de mundos imaginários, criaturas fantásticas, o sonho de voar como Peter Pan. O desenho se torna uma das primeiras expressões dos desejos infantis, uma forma de começar a colocar os seus sonhos e intenções, enquanto se está crescendo, no papel.

É comum ver crianças fazendo desenhos de sua família, como elas a compreende, de casas com um sol no céu sorrindo ao canto da folha. É a maneira de canalizar a imaginação que está se formando num período em que ficção e realidade se confundem. Aos poucos elas vão se tornando lembranças e aprendemos a discernir um pouco o que pode ter sido imaginado. Mas a verdade é que a memória é um campo dúbio no qual a linha que divide o imaginário e o real é bem tênue.

 E se esses desenhos se tornassem realidade? O artista plástico coreano Yeondoo Jung decidiu fazer algo meio insano: um ensaio fotográfico recriando cenários irreais de desenhos infantis, como se estivessem num mundo imaginário. Por isso, um de seus maiores trabalhos é conhecido como “Wonderland”, o País das Maravilhas, de Alice.  Ele selecionou desenhos de crianças entre 5 a 7 anos, levando quatro meses para o artista selecionar 1.200 croquis nos jardins de infância de Seul. Assim, em 15 de julho de 2010, após ter convencido cinco estilistas a criar as roupas para os ensaios, a Emmanuel Perrotin Gallery, em Paris, dedicou uma exposição com os desenhos e as fotos de Jung.

 É fascinante ver até onde vai a imaginação das crianças, desinibida e longe de censuras. As fotos podem soar estranhas quando as vemos, mas é justamente porque hoje se tornou incomum imaginar o mundo dessa forma. A sensação que temos ao olhar as fotos é que realmente fizemos desenhos desse tipo quando éramos crianças e agora finalmente vemos como poderiam ser na realidade, mas com uma releitura livre, deixando para a gente a chance de imaginar, novamente, outras possibilidades para esse desenho. Desta forma, a foto não limita seu significado, apenas proporciona uma leitura divertida e sem compromisso da real grandiosidade do desenho infantil.

O resultado pode ser conferido abaixo! Os desenhos lembram algum que você tenha feito quando criança?

fonte.

Revisado por Amanda Prates.

Uma pílula

Há certos dias que são cinzentos demais.
Aguarda-se por um fio de luz tímido por entre as nuvens
Pronto para se expandir e mudar a própria existência.
E nesses dias o que peço é um poema!
Um poema-pílula, que cure as desavenças,
Decepções e tristezas.
Mas no mercado e na farmácia já o procurei.
O vendedor encarou-me duvidando de minha sanidade.
O médico não soube o que receitar para tal pedido.
Indicou apenas uma novalgina,
Como se meu mal fosse uma mera dor de cabeça!
Resta-me produzir essa pílula,
Com palavras e frases entrelaçadas
Unidas a ponto de se enrolarem ao meu coração
E fortificá-lo a cada segundo que fraquejar.

 

Para este poema me inspirei numa matéria curtinha do blog Não me culpem pelo aspecto sinistro, da Revista Bravo. Ela fala sobre a ideia do artista Morten Sondergaard em criar caixinhas de remédios simulando substantivos, adjetivos, pronomes, cada uma com sua bula poética, como se a gente pudesse encontrar na farmácia a solução para a falta de inspiração! Aqui está o link: http://www.almirdefreitas.com.br/blog/?p=10500

Um agradecimento…

Eu mantenho esse blog desde novembro de 2009, faz pouco tempo. Tento escrever com frequência só para treinar ainda mais a escrita e porque eu realmente amo escrever.
Fui assistir a peça musical Cats, escrevi uma resenha – tenho muitas aqui no blog – e mandei um e-mail ao ator Saulo Vasconcelos, muito reconhecido pelas peças O Fantasma da Ópera, A Noviça Rebelde, A Bela e a Fera, inclusive Cats. Disse a ele que havia escrito uma resenha crítica sobre a peça e que adoraria um comentário aqui no blog. Ele fez mais que isso: postou a resenha na íntegra no blog dele! Só posso agradecer porque assim é uma forma de divulgar mais o meu blog e, saber que o meu texto foi lido por alguém que admiro muito, faz com que eu continue a escrever.
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