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Os grandes nomes no café Les deux magots

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O Les deux Magots é um encanto à parte. Visitar um café frequentado por figuras emblemáticas é pensar sobre o tempo de maneira estranha. Entre pratos, expectativas turísticas de abrandar a fome tirânica para o próximo passeio, ou o mero descanso na leitura de um jornal e outro, Les deux Magots tem a sua urgência oculta nos gestos e vontades cotidianas, porque é preciso ver que lá estiveram grandes nomes.

O olhar se demora nas paredes erguidas, nos lustres dourados e na janela que mostra a calçada apinhada de outras pessoas almoçando nas mesas. O seu esforço em pronunciar direito o pedido para o almoço traz às urgências da fome e da programação. Mas logo o perder-se entre as paredes é, finalmente, feito. Fotos de Hemingway, Sartre, Simone de Beauvoir, o sentido do café se intensifica ao imaginar que aquelas mesmas cadeiras foram ocupadas por pessoas que, hoje, são ilustres, mas que antes só queriam um café. E que fosse barato.

O escritor não tinha muitos ganhos, e Paris grita para que se saia dos apartamentos obscuros e da comodidade. Assim, escrever ganhava o repouso do café. Preço justo, horas sentado na mesa, observando a rua. O café é o lugar da pausa, enquanto o escritor se situa e produz nesta pausa. Ele vive a história do outro que passa pela calçada, e a subverte em ficção. E acaba que ser escritor não é apenas profissão, para pagar a conta do café, mas estar sempre em um café figurativo para ver e falar sobre o outro, seu igual.

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A criação já não se torna apenas momento da pausa. Ela existe já na experimentação do escritor, dentro e fora do café. Na maneira com que anda e olha Paris como se fosse a primeira vez. O respeito – sempre bem-vindo e, às vezes, esquecido – pelo estrangeiro que está descobrindo também Paris. O café era, para esses autores, e o que precisa ser para os novos, um estado de recomposição do que viu. O trabalho não pára e existe na cadeira e na mesa, na calçada, no gesto do passante, no metrô, no último sabor amargo do café. A escrita perpassa todos os cantos vividos e concede o descanso e humanidade diante da pressão rotineira e os limites do corpo. E o sentar-se na cadeira força a perceber a existência passante.

Esses nomes tão enaltecidos hoje não sabiam que naquele mesmo café, décadas depois, alguns sentariam com a esperança de comer no mesmo lugar em que vinham com seus cadernos rabiscados, largando as moedas para pagar essa ambrosia do escritor. A foto na parede mostra o encontro dos tempos. Sentar-se ao lado de Simone de Beauvoir, em tempos distintos. Mas estar lá, imaginar que poderia ser uma sexta-feira para ela, que saíra do metrô e também olhou para a Igreja de Saint-Germain, que a fome se espalhava entre o pensamento. Com o café, vinha uma fome pela escrita. Simone de Beauvoir ontem, e eu hoje sentada ao seu lado. Com esta sensação, o nó na garganta divide um espaço apertado com a comida que passa e a emoção é contida ao imaginar a autora ao lado.

No fim das contas, estar em um lugar marcado pelo passado dilui as questões pequenas do cotidiano e reúne o tempo em mesma linha temporal. Escritores do passado que escreviam pelo ato de escrever – e não pelo suposto sucesso após a morte – e novos escritores que estão começando a experimentar a escrita como a novidade de sentar-se em um café e tomar para si aqueles do passado. Uma comunhão, pela cafeína e o caderno, que esquece as distinções das décadas.

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Turma da Mônica: O Pequeno Príncipe

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Publicado no site Indique um livro 

“Por favor…desenhe para mim um carneiro!”, disse o principezinho de cabelos dourados em meio a um deserto ao incrédulo aviador, narrador e voz do autor Antoine de Saint-Exupéry. Foi com essa singela pergunta e diversas outras frases memoráveis que o menino se tornou um marco na literatura mundial.

Por sua vez, com uma menina de vestido vermelho segurando um coelho azul, um garoto que troca o R pelo L e o criador desses e de outros personagens, surgiu no imaginário brasileiro a Turma da Mônica. Agora, juntando personagens tão fortes para inúmeras gerações de leitores o resultado é a nova tradução de O Pequeno Príncipe ilustrada pelos personagens de a Turma da Mônica, pela editora Girassol.

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O peso da adaptação é enorme. Agrupar esses dois mundos soa natural e a rosa vira Mônica, o principezinho é o Cebolinha e Maurício de Sousa representa Saint-Exupéry como o aviador. A tradução é de Leila Villas, a edição prateada em capa acolchoada e o título em vermelho dão imponência e força ao volume. O abrir das páginas é o que garante o encanto imediato. O trabalho do ilustrador José Márcio Nicolosi é o responsável por elevar a adaptação a algo singular. As cores fortes e limpas dão poeticidade às formas dos personagens. O contorno mantém as características de Cebolinha e Mônica aliados à vestimenta imortalizada pelo traço conhecido e simples de Saint-Exupéry. O elefante dentro da jiboia é Jotalhão, Cebolinha tem agora seus poucos fios de cabelo em cor de trigo, Maurício é Exupéry que tenta desenhar um carneiro, e os tão temidos baobás se tornam ainda mais assustadores e gigantes pela adaptação.

Não é difícil se emocionar com as ilustrações de José Márcio Nicolosi. O grande diálogo entre o principezinho e a raposa é o grande destaque, a qual diz que o menino deve primeiro cativar e deixar-se cativar para, assim, ter de fato uma amizade e tornar uma pessoa única entre tantas rosas. A raposa de Nicolosi tem uma presença forte e a delicadeza no tocar das mãos do principezinho e a pata transformam a releitura da obra. O Pequeno príncipe se torna doce e poética como tantas outras novas adaptações que a Turma da Mônica tem criado.

O Pequeno Príncipe pelo olhar de Maurício de Sousa é revisitado com maestria. Os novos traços se somam às imagens criadas por Saint-Exupéry em texto e papel. E, assim, a leitura é duplamente emocionante, pois retrata duas histórias que mudaram vidas. Personagens que levaram crianças ao mundo da leitura, e adultos a reviverem sempre a infância nunca perdida. Pois é bem melhor seguir o conselho do próprio principezinho e não ser como os adultos que se preocupam apenas com números. Lembrar que só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos. E que, no fim, quem seguir este conselho terá a infância sempre como estrelas que riem no céu.

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Meus contos no concurso Brasil em Prosa da Amazon

Pessoal, este post é para avisar que agora eu tenho dois contos publicados lá na Amazon!

Eu estou participando do concurso literário federal Brasil em Prosa, da Amazon e O Globo, com os meus contos ‘Na terra de abismos há outros’ e ‘Dos olhos ao mundo’. Eles estão sendo vendidos na Amazon por 3,32 reais. E o melhor, as capas são exclusivas e foram feitas pelo talentoso e lindo do Denis Pinheiro, ele tem a página Diderot e faz camisetas maravilhosas (aqui).

Comprem meus contos e divulguem! E se vocês gostarem, deixem uma avaliação com estrelinhas lá no site, pensem na alegria que eu vou sentir haha

Sinopse de Dos olhos ao mundo: O olhar do pequeno Luis fundava mundos. Com o amor do avô, o menino via a natureza se revelar pelo brilho de todas as coisas. Mas a vida deu respostas cruéis a ele e o olhar de Luis foi testado para a grande complexidade do mundo. A percepção viria para dar suas respostas.

Compre aqui: http://www.amazon.com.br/Dos-olhos-mundo-Marina-Franconeti-ebook/dp/B012Z2576M/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1438347566&sr=8-1&keywords=dos+olhos+ao+mundo

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Sinopse de Na terra de abismos há outros: Na rotina em que a melancolia, o tédio e o medo estão presentes, Eduardo nota que está vivendo em um abismo do qual levanta todo dia de manhã. Foram dois dias que mudaram a sua vida. E a salvação veio pela mão do Outro.

Compre aqui: http://www.amazon.com.br/gp/product/B012Z1OU02?keywords=na%20terra%20de%20abismos%20h%C3%A1%20outros&qid=1438347326&ref_=sr_1_1&sr=8-1

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Olhos abertos a Plutão

Publicada no site Literatortura

A escuridão destaca a figura acobreada do planeta anão, o momento histórico em que a sonda, New Horizons, obteve aproximação máxima de Plutão. O olhar voltado ao avanço científico é, por vezes, um despertar sobre o óbvio: há mais do que a existência rotineira terrestre.

Não chega a ser um conforto pensar que há mais do que o caos e a vida admirável na Terra. Estas duas faces da nossa existência, com os mesmos dois pesos, às vezes parece pender mais para um lado. O caos, a morte, o descaso, o conflito com o outro faz pensar que a existência do homem tem como finalidade a morte, e a natureza, a maldade. Contudo, isso seria nos naturalizar, nos ver de maneira reducionista. A parte admirável da Terra não chega a ser um conto otimista sobre a vida humana. Mas sim a poesia que sobrevive entre o caos.

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Sendo uma poesia que sobrevive no caos, ela é menor, e portanto, insignificante diante da massa caótica e cruel da Terra? Não. Quer dizer que, talvez, a poesia opere de forma distinta. A poesia busca justamente não simplificar a existência em absoluta crueldade. Em ideias e respostas absolutas. Porque, como já se viu, o homem, na Terra, permeia todos os campos possíveis da existência. É esta massa indizível e confusa. O que a poesia faz é pulsar como modo de indicar que a vida tem seu infinito.

A foto de Plutão faz lembrar o doce curta Viagem à lua, de George Méliès. Visto como inauguração do cinema, gosto de pensar que Méliès, a todo instante em que pensamos e vemos esta viagem, inaugura mais uma vez o olhar. Obviamente, não quer dizer que só ele saiba fazer isso. É o que a arte e a poesia são capazes de fazer. Descer na superfície desconhecida da lua, com a promessa da conquista, não deveria reduzir a lua à mera terra desbravada. Ou seja, criar não é ter como exclusiva finalidade um resultado perfeito e considerado obra de arte. No fim das contas, os homenzinhos que nela descem, no curta, somos nós em todos os tempos tentando entender como supor os caminhos da vida humana. A questão é que não se trata de suposições, como se a história já estivesse registrada em algum lugar. Trata-se mais do caminho.

Pensar no curta do cineasta também é um indicativo do que o ser humano é capaz de fazer com a linguagem. Ver a lua de Méliès no Plutão registrado é a prova de que pensamos de maneira alusiva. Encontramos a totalidade do mundo nas partes dele. E é assim que construímos nossa existência. A lua ganha vida e rebate seu olhar, por Méliès. Ela é acertada pelo foguete humano. Mas gosto de pensar que o seu mistério se resguarda e, aquilo que a ciência não consegue registrar, a poesia e a arte, em forma de curta-metragem, falam pelo silêncio. O abrir os olhos – seja para a fotografia cotidiana, seja para a foto de um planeta anão – é mais do que absorver a informação dada em uma timeline: é entender mais do próprio corpo que vê e se situa. Entender que a Terra guarda possibilidades infinitas como o sistema guarda seus planetas.

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A foto de Plutão nada mais é do que uma prova das perspectivas distintas. Era o menor planeta do sistema solar, e agora posto em foto como grandioso acobreado e imponente. Em face da nossa existência e corpo, ele realmente é tudo isso. Mas comparado aos outros, é o planeta banido do sistema, difícil de visualizar e raro de ser registrado pelo satélite humano.

Os nossos olhos chegaram a ele. Mas será que, de fato, chegam ao que Plutão realmente é? Tal qual a poesia, Plutão se desvela aos nossos olhos sem deixar de preservar seus mistérios de planeta. Olhar a foto de Plutão pode, também, revelar mais da complexidade à qual devem se abrir os olhos humanos, mais do que apenas uma conquista formal pela ciência. Até porque a base para a ciência não deixa de ser artística: olhar a natureza sempre por um olhar que inaugura, interpreta e aceita o inaugurado.

Veja aqui, pela Revista Galileu, as fotos anteriores de Plutão, e aqui sobre a missão da Nasa à Plutão, pela BBC.

Convalescência

Evaning reading George Pauli 1884

Ouça os sinos que clamam –

Repetem a liberdade em um suspiro

E em breve gesto a dor espantam

Qual recriação do corpo doentio!

Após uma vida em breve fastio

O corpo encontrou o descanso

Com as faces enrubescidas

E o movimento o mais manso.

Aos olhos, agora, o mundo se recupera,

Corpo e mundo em comunhão,

A existência se regenera

No caminho que aguarda a mais bela salvação.

Absorve mais a existência em pranto,

Que nas águas se converte no mais santo

Destino do herói sobrevivente,

Do que nas águas mansas

Longe da febre intermitente

Que toma o corpo para si.

Na febre e na dor vi meu corpo ser carne

E este toma vida em total frenesi

Quando exigida a vida que arde

E que a coloca em mundo para deste usufruir.

Corpo se faz existência e gesto

No mais sobrevivente ato confesso

A resistência de uma vida que procura, em gesto,

Não cair e não ruir.

*** Imagem de capa: Evening reading, George Pauli (1884)

O chão das dores seculares

Le trajet or dead woman, de Romaine Brooks (1911)

As criaturas que vivem enfiadas nas terras são desconhecidas. Passam despercebidas, nem meras sobreviventes são vistas pelos outros. Respiram por entre a poeira e os restos da existência que parece ter sido mais relevante na superfície da qual vemos apenas o vislumbre. Eu tinha uma grande afeição pelos insetos que ninguém via, pela vida pulsante da terra, porque, desde cedo, eram minha companhia invisível. Eu pedia licença para cair ao lado deles.

-Bang Bang! – ecoava toda manhã na voz dele, que corria atrás de mim com um graveto qualquer que encontrava sempre no caminho para a minha casa – Clara, bang bang! Você tem que cair no chão!

E eu caía toda vez e esperava quietinha, fingindo que havia morrido. Minha mãe reclamava sempre que meu vestidinho vivia cheio de poeira. A correria dele, imitando os filmes de faroeste que via na televisão, era aguardada sempre pela minha casa. Ele passava pelo meu pai, era um menino com um chapéu simpático, pequenino, segurando um graveto e gritando “bang bang”. Não era ameaçador. Os adultos achavam-no adorável. O piso de madeira, a varanda e as janelas abertas, com as cortinas tremeluzindo entre o sol de cada manhã já recebiam o garoto com a mesma expectativa que se tem para o costumeiro café-da-manhã.

A brincadeira persistiu na adolescência e ele caía ao meu lado, afastando a poeira do meu rosto. Certa vez, deixou na minha mão uma pedrinha que encontrara emaranhada nos fios, em mais uma queda, e pousou um beijo nos meus lábios. Eu gostava do instante em que ele me admirava antes de me deixar levantar. As conversas não evoluíam muito, mas as quedas eram os momentos em que eu parecia exercer o poder de segurar sua atenção.

Eu acreditei que as quedas eram um jogo distinto em que ele me cortejava. Acreditei porque começaram os comentários entre a família, os jantares em que as alianças eram feitas e soava promissor aqueles dois de cinco e seis anos de idade, finalmente, constituírem algo além das brincadeiras.

Casei-me com aquele garoto que conheci, ele de negro, eu de branco. O rosto dele exercia um fascínio inegável. Um olhar sedento por correr entre as casas impondo seus desejos. Um olhar que poderia conquistar terras, domar cavalos e controlar a poeira de lugares inóspitos.

Foi o mesmo olhar que passou a dominar os meus gestos. Passei a cair no chão com mais frequência, porém, desta vez, ele não tirava a poeira. Tocava o ferimento, como se o deixasse lá por sua vontade. E eu, se antes segurava o riso diante daquele garoto enquanto fingia que estava morta, agora abafa os soluços de um choro contido por meses.

O som do corpo caindo na madeira é uma batida que ecoa outras quedas. Meu corpo inerte era o corpo de inúmeras representações de corpos tensionados, admirados em sua nudez desesperada e disposta para o espectador ver. Ofélia, Salomé, Alice James, santas como St. Cecilia, St. Elizabeth, St. Catherine de Siena. Esses nomes, antes desconhecidos, me soavam agora como os corpos aos quais eu me colocava ao lado. No chão, eu não estava sozinha. Mulheres invalidadas, mulheres que parecem belas enquanto feridas para o voyeur, quando dão o último suspiro àqueles que as observam. E esta sobrevida não parece evidenciar o horror de seu sofrimento, mas sim, a imagem de sua beleza distorcida. Lançada ao chão e feita para admirar. Mesmo que a carne esteja ferida.

Saint Eulalia, de John William Waterhouse (1885)
Saint Eulalia, de John William Waterhouse (1885)

Passei a notar que o garoto que conheci apreciava essa visão. No quartinho em que ele não me deixava entrar de jeito nenhum, certa vez, encontrei fotos de outras meninas caídas como eu. E quadros e mais quadros de um fetiche que envolvia mulheres dormindo, mulheres nuas mitológicas. As meninas que eu via não sabia ao certo se estavam mortas, se estavam posando para a câmera dele.

Eu as mostrei para a minha amiga, Alessandra, em um misto de culpa, raiva e esperança em achar inocência naquelas imagens. Mas ela não as viu desta forma. Pesquisou e pesquisou, acabou por encontrar a coincidência entre aqueles rostos e as faces rosadas e inocentes de meninas que sumiram pela região.

– A única vez em que uma delas foi encontrada, o corpo estava nu e repousando em um mar de flores colhidas com muito cuidado – disse Alê para mim, enquanto eu tentava controlar minhas mãos trêmulas que serviam o café.

Minha mãe e minha avó sussurravam, aflitas, dizendo que se o marido as deixava no chão, era lá o lugar em que ficariam. Havia a minha confusão, de ver ilusões sendo agredidas, para depois eu ter que me levantar e entender em que momento a brincadeira se tornara séria.

Os livros que eu lia como um refúgio à realidade não me davam respostas acolhedoras. Encontrava mulheres adúlteras que possuíam a liberdade que não era minha. Via homens heroicos que recebiam a permissão da História e de toda a humanidade para desbravar os mares, enquanto eu tinha que sangrar em minha própria casa. Eu encontrava apoio nas crianças que conheciam lugares fantásticos, onde a realidade, no mínimo decepcionante, ficavam atrás das terras mágicas, atrás de guarda-roupas que me levavam à neve fresca e ao lampião que brilha com doçura.

Porém, eu tinha que ler escondida, quando ele não estava em casa. Ler seria um desafio. Demonstrar que possuo um pensamento vivo e inacessível a ele. Provavelmente isso fazia parte de suas fantasias, imaginar o que aquele ser aparentemente débil – que ele definia como “mulher” – podia pensar sem ele, nem pensar nele. Seria o mesmo que deixar a liberdade entrar pela porta da frente, desta casa que era a grande posse do provedor.

The Death of Albine, de John Collier (1895)
The Death of Albine, de John Collier (1895)

No fim de um ano de casamento, ele entrou na cozinha e gritou “bang bang”. Eu não virava mais com a breve esperança de vê-lo próximo de mim. Aquela interjeição me alarmou, a mão que cortava os legumes tremeu. Era o fantasma de um garoto que conheci gritando, mas o tom não era convidativo. O grito ressoou mais uma vez e ele me acertou.

O olhar era passivo e ele estava sentado na mesa, com um copo a sua frente. Não era mais graveto, a arma me olhava repousada na mesa, enquanto aquele garoto de antes me olhava triunfante, por ter realizado a sua desprezível fantasia de destruir a sua vítima desde a infância.

O sangue na minha roupa, porém, me avisava que não era assim que deveria terminar.  Perdi a conta das vezes em que caí no chão quando criança. No casamento eu havia contado vinte. Aquela era a vigésima primeira, o número de minha idade. Vinte e uma vezes de uma vida morta no chão.

Os nomes e as imagens das mulheres em mesma situação vinham à mente como se quisessem me fazer respirar. A perspectiva de um corpo inerte, ferido, belo por estar destruído não era o que eu queria dar a ele. Foi esse mesmo corpo, sangrando, que arrastei por aquele chão onde caí vinte e uma vezes, agarrei a camisa dele e me lancei para o seu colo, olhando para aqueles olhos agora serenos por ter me destruído. A minha mão direita balançava enquanto a outra se apoiava pelo cotovelo na perna dele. Ele olhava, apenas assistindo o espetáculo que acreditava ter sido arquitetado apenas por ele. E que essa era só uma última cena adicional, sem sentido em seu roteiro. Que seria logo cortada.

O espetáculo, porém, mudou como uma cena acrescentada aos cortes do diretor. Naquele dia eu o deixei cair no chão uma única vez, com meus próprios cortes domados pela faca. Foi um baque surdo, definitivo. Ele ecoou pela madeira, uma resposta aos outros sons de corpos que caíram, derrotados pelos séculos.

Eu saí pela porta da frente e tomei a estrada rumo à casa de minha amiga. Mas lembro de olhar uma última vez para a cena na cozinha. Por cima do corpo do garoto que conheci, havia um inocente grilo que ergueu as patas por aquela montanha de carne humana. Como se aquela carne fosse um mero obstáculo para o seu caminho invisível traçado no chão. Eu assenti ao grilo, como uma despedida pelos dias neste chão secular.

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O meu conto foi inspirado na música Bang Bang! My baby shot me down, as versões da Nancy Sinatra e da Lady Gaga (aqui e aqui). E no filme Kill Bill, é claro. Vale indicar também um dos contos mais marcantes para o feminismo no século XIX, The Yellow Wallpaper, de Charlotte Perkins Stetson, que tratou da loucura e a vida enclausurada do casamento.

Imagem de capa: Le trajet or Dead woman, de Romaine Brooks (1911)

Um mundo inteiro em um abraço

Maternal Carres, de Mary CassattAcordei numa sensação de convalescência. Depois de alguns dias de cama (nada sério), pensei que não iria escrever algo sobre minha mãe. De início sempre parece difícil acertar. “Para mim só meia dúzia de palavras está bom”, ela disse. A questão é que nem meia dúzia, nem centenas de palavras acertam em cheio para falar da minha mãe.

Ontem vi um pouco de Tom e Jerry e, quando vejo o desenho na TV, recordo, no mesmo instante, dos dias em que sentávamos à mesa da sala, eu desenhando os personagens do desenho, enquanto minha mãe escrevia a história que eu contava. Ainda em início de alfabetização, eu não sabia escrever. Mas não deixava de registrar a história. No fim, a gente juntava as páginas e fazia uma brochura usando durex colorido (tinha que ser colorido, para apresentar um trabalho estético sério). E aqui surgiam pequenas HQs de uma menina de seis anos e sua mãe sobre gatos e ratos e, creio, o início do meu gosto por contar histórias e escrever.

Sempre acho curioso quando eu e minha mãe lembramos de pequenos instantes em que a surpreendia, junto ao meu pai, quando eu dizia que um prédio estava machucado ao vê-lo em reforma. No hospital, eu dizia para ela que ficaria tudo bem após o exame de sangue, que não iria doer (como contei aqui), usando as mesmas palavras que ela disse para mim. O registro da minha história é feito junto com a minha mãe e, nisso, a companhia vai além do que essa relação pré-estabelecida nomeada família. Já é um vínculo que criamos a cada instante vivido.

Os finais de semana em que eu saía para mostrar imóvel com meus pais se tornavam pequenas aventuras porque, além de fazer parte do trabalho deles, aprendi a gostar de ver prédios vazios, antigos, imaginar quem havia morado naquele apartamento. A cada vez que os acompanhava, minha mãe sempre dava um jeitinho de comprar gibis da turma da Mônica – melhor ainda quando era o Almanacão, com inúmeros desenhos para pintar – e a gente inventava pequenos jogos quando precisava esperar no carro por algum cliente que estava para chegar. Escolhia uma palavra e dava pistas sobre ela. Eram jogos infinitos que, de certa forma, me levaram a gostar das palavras. E o melhor, na ingenuidade do brincar infantil e da descoberta.

No fim das contas, é muito simples lembrar do que vivo com a minha mãe. Porque a memória é tão infinita quanto aqueles jogos de palavras. E essas, que eu escrevo hoje, não só se iniciaram por aquelas páginas desenhadas e registradas pela minha mãe, mas estavam em potência no silêncio vivido e encontrado em seus abraços, nas fotos em que eu sorria com ela quando ainda era pequena. No amor mútuo construído em cada segundo, engrandecido pela memória que destaca o momento em que percebo, mais e mais, o quanto vale um mundo inteiro estar ao seu lado.

***** Imagem de capa: Maternal Carres, de Mary Cassatt (1896)

Leia também: As vésperas de uma ceia 

Reinvenção do abandonado

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Uma peça se sobrepõe à outra e compõe um engenhoso sistema que indivíduos por aí levam nos bolsos. Uma máquina que, nas mãos humanas, traz à tona as mais insanas ideias que, postas no papel, se concretizam como um grande mundo fundado. Um mundo que se reinstala no mundo onde este pequeno dispositivo está apenas guardado nos bolsos e estojos de alunos.

A verdade é que, se elas somem por entre o cotidiano, são porque precisaram de restauro. Uma nova peça interna para esta grande e massiva nave que, vista por fora, é apenas um objeto diário. É preciso, primeiro, abri-la para recolocar a peça. Homenzinhos passam um ao outro a peça, isolam a área com cones, tais como parados numa estrada. Perambulam pelos corredores desta potencial nave para chegar, enfim, ao grande ponto: os canos levam a uma ponta externa. A tinta é reposta e aguarda ser usada e ser libertada.

Elas não são vistas propriamente como instrumentos de criação. São mais vistas como objetos necessários nos momentos em que se precisa anotar alguma coisa. É sempre em vista de algo que se torna importante do nada. Logo é esquecida no fundo da bolsa. Se ela mancha o papel, irrita. Mas não é bem sua culpa. Às vezes vaza tinta pelo pedido de escrever mais.

Desenhistas fazem delas o essencial. E escritores também. Como uma boa amiga à disposição destes mesmos instantes efêmeros. O que eles fazem é recolocar este objeto em sua devida importância. Veio uma ideia? Ela é quem socorre.

É por isso que os pequenos instantes guardam novos mundos. E a escrita é o eterno reconstruir. E tudo pode começar por esta pequena forma comprida e com tampa. Ela se ergue imponente no papel e encara a ponta como se esperasse o que pode sair. Mas a mão que a incorpora é o grande segredo. O gesto no papel é inaugurador e projeta, incessante, a tinta. A caneta guia-se pelo artista, a escrita nasce e está no ínterim do processo também, na hesitação, no colocar a caneta sobre o papel. Na ideia, no desenvolvimento, na recriação, na releitura, na ponderação. Um grande empreendimento sobrevivente é a escrita.

****A imagem de capa é da página no facebook Sketchy Stories, de Kerby Rosanes (veja seus trabalhos aqui)

Os 217 anos de Delacroix e seus diários

Publicado nos sites Indique um livro e Literatortura

delacroixjournalTer nas mãos o diário de alguém é uma experiência, no mínimo, curiosa. Como se fosse necessário embrenhar-se pelas confissões de um desconhecido durante a madrugada, com a lanterna acesa e escondido de olhares à espreita. Esta é a primeira impressão que temos ao imaginar-se lendo um diário. Agora, pense como é ter em mãos o volume de um diário acalentado por um pintor excepcional. A atmosfera é tão misteriosa quanto a que foi narrada. Encontrar na biblioteca o primeiro dos três volumes dos Diários do pintor romântico Eugène Delacroix, no idioma original, é o mesmo que acessar e respirar, por uma janela, o século XIX. E é em vista do aniversário do pintor, comemorado no dia 26 de abril, que aqui você poderá conhecer alguns trechos traduzidos, por mim, do primeiro volume. Breves comentários sobre pintores, sobre sua criação, e o que significa ser artista.

Em 26 de abril de 1798, nascia Eugène Delacroix, em Charenton-Saint-Maurice. Como parte de uma família tipicamente burguesa, recebeu sua educação artística, após perder o pai aos sete anos, no Lycée Impérial. Em março de 1816, iniciou, então, os estudos na Beaux Arts. Curiosamente, no mesmo ano, Delacroix ingressou na Cabinet des Estampes da Biblioteca Nacional, onde copiava, por muitos anos, manuscritos do período medieval.

Com uma educação admirável em música, Delacroix também era um grande leitor de latim e grego, além de contemplar as obras de Dante Alighieri, Virgílio, Shakespeare, Racine, Voltaire e Lorde Byron. Não é à toa que o artista transferiu às telas cenas literárias, como A barca de Dante (1822), Hamlet e Horácio no cemitério (1835).

A obra mais conhecida de Delacroix

O quadro A Liberdade guiando o povo às barricadas (1831) se inscreve em um ideário de heroísmo, personificado na forma de uma mulher, no caso pertencente à classe operária e que comanda uma multidão. Engana-se quem crê que Delacroix decidiu fazer da Liberdade e sua obra a grande e única representação da República. Em meio a tantas definições da Liberdade como alegoria nas artes, o momento que fervilhava na História acabou por dar à figura da Liberdade a representação que o povo via nela.

Após uma desilusão política, de uma expectativa por um liberalismo que não veio, Liberdade guiando o povo foi exposta mais uma vez em 1848 (depois de ser ocultado em exposições várias vezes) e ganhou uma nova conotação. Este período também pode ser encontrado em Os Miseráveis, de Victor Hugo, e não é aleatório o fato de que algumas edições trazem a obra de Delacroix na capa. A Liberdade acabou erguendo a bandeira que muitos que a seguiam desejavam segurar nas mãos. Por isso, quando pensamos em heroísmo que caminha entre corpos desfalecidos, mas sem temor, não é incomum lembrar desta Liberdade.

O grande representante do Romantismo

Falar de Delacroix é trazer à tona, obviamente, a densidade de um século que começava a lidar de forma distinta com o tema proposto pela Academia, a nudez feminina e, por consequência, a presença constante e quase fantasmagórica dos grandes nomes da pintura, evocados nos Salões e entre os críticos, como Rafael, Leonardo, Rubens, Caravaggio.

Diante disso, é ilusão, em primeiro lugar, crer que uma obra artística encontrou recepção calorosa desde sempre. Estudando não apenas o trabalho de Delacroix, mas o de Ingres, de Manet, e outros pintores do século XIX  – para não ir tão longe-, é possível encontrar uma linha tênue entre o breve reconhecimento na época e o processo de criação que avançava baseado na intenção do próprio pintor.

Para tratar rapidamente de Romantismo, é só mencionar a referência à obra Sardanapalus – a tragédia, do autor-símbolo do Romantismo Lorde Byron, no quadro A morte de Sardanapalo (1827). A história é a do rei assírio que precisa por fim a todos os seus bens – o que incluía o harém de escravas e seu ouro – e se suicida por entre o fogo a fim de não se entregar. Na obra literária, o personagem soa mais heróico e se entrega ao fogo junto com sua amante Myrrha. Porém, com três cores, o cenário é outro pelas tintas de Delacroix. O vermelho que tinge a cena, a pele perolada das jovens entregues à morte e o dourado que ostenta a riqueza do personagem se somam em uma espécie de vórtice atormentado, que converge para o espanto diante do olhar complacente de Sardanapalo. A obra provoca, assim, o horror diante da morte e placidez do personagem, e engrandece as figuras femininas, que lutam em um último instante de vida. O heroísmo, aqui, ganha novas faces.

Diálogos com o passado

Delacroix via em Rubens e Géricault a realização do que ele queria alcançar com suas obras. Nos Diários, Delacroix enaltece Géricault, “que sublime modelo e que precioso presente deste homem extraordinário” (DELACROIX, p. 66). Mas Delacroix não expunha o claro e o escuro de Géricault que, por sua vez, se seguia de Caravaggio. A cor era o grande princípio do pintor romântico e uma característica que advinha, em certa medida, de Rubens.

Oposição ao neoclassicismo

Não tem jeito, quando falamos sobre a biografia de alguém, os conflitos sempre retornam. Só que, neste caso, havia uma grande oposição entre Delacroix e simplesmente o pintor neoclassicista Ingres. Por parte de Delacroix, a relação era de admiração, tanto que coloca Ingres, nos seus Diários (p.74) entre os artistas em que encontra um trabalho de grande mérito, assim como em Velasquez, Leonardo, Bertin. Por outro lado, Delacroix incomodava Ingres, que chegou a afirmar que ele e Géricault eram “apóstolos do feio”. O grande ponto que se apresenta como a distinção entre ambos é que Delacroix era um colorista, algo que Ingres abominava e defendia a sua submissão total à linha. Este era o seu princípio, em um trabalho que poderia chegar a durar décadas, para alcançar, enfim, o Ideal que ele defendia pela execução da linha.

Por isso que, ao observar suas obras, o destaque dado à linha fica claro nas formas de A Grande Odalisca, O banho turco. A questão é que não dá para afirmar que os dois estão tão distantes assim. A cor em Ingres é também participativa da obra e a linha se apresenta em Delacroix, com um arabesco unido à cor. Em A morte de Sardanapalo (acima), é bem interessante constatar como a linha e a cor formam, juntas, um vórtice que converge ao personagem, porém é a cor, ainda, que tem a grande função de destacar a morte. Por isso, é muito mais complicado colocar os dois tão distantes assim, já que compartilhavam o mesmo século.

A viagem ao Marrocos

Em 1832, Delacroix fez uma viagem ao Marrocos. O quadro Mulheres da Argélia (1834) apresenta como o pintor visualizou o Oriente pelo exotismo idealizado nas paredes adornadas por azulejos, a porta em vermelho vibrante, os tons complementares das vestimentas femininas em grande contraste. Toda a atmosfera se torna pulsante e viva, e é ela que foge, em certa medida, do imaginário do século XIX de um Oriente feito apenas por odaliscas sedutoras.

Nos Diários, vol.1, Delacroix relata sobre as colunas de mármore brancas que encontra, os locais visitados, almoços com o cônsul, é um mundo se descortinando ao pintor que vivia em torno da vida parisiense.

Os Diários de Delacroix

Em três volumes, cada um tendo por volta de 700 páginas, Delacroix relata a sua vida. É um diário que tem comentários sobre música, pintura, e não escapa aos devaneios do artista sobre alguma mulher que conhece em seu meio. Fala dos pintores que o inspiram, das cópias de obras em que trabalha indo ao Museu do Louvre. E o curioso é encontrar até mesmo algumas breves tabelas de gastos com o almoço, o jantar, as tintas.

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Infelizmente, não há tradução destes Diários (chamado de Journal), há apenas a versão original, em francês, em poucas bibliotecas. É por isso que resolvi traduzir alguns trechos do volume 1, disponível na biblioteca Florestan Fernandes, da USP (tem os outros volumes também). É uma forma  de conhecer um pouquinho das palavras de Delacroix no dia de seu aniversário.

Sobre o processo de criação: “Fazemos sempre coisas as quais não estavam nos planos, e por conseqüência são (escolhas) ruins. Mais as fazemos, mais as encontramos. A cada instante, me vêm excelentes ideias, e no lugar de colocá-las em execução, no momento onde elas são sonhadas do charme que emprestam da imaginação na disposição onde ela se encontra no momento, nós prometemos em fazer mais tarde, porém, quando? Nós esquecemos, nós não encontramos mais nenhum interesse àquele que surgiu próprio à inspiração (…) Elas estarão lá, então, postas em reserva para esperar friamente o retorno, e jamais a inspiração do momento irá animá-las com o sopro de Prometeu: será necessário tirá-las da gaveta, quando for preciso fazer um quadro! Esta é a morte do gênio. O que se passa essa noite? Eu estou, há uma hora, ponderando entre (as ideias de quadros) Mazeppa, Don Juan, le Tasse, e cem outras ideias” (DELACROIX, p.73).

Este trecho é muito, muito importante pelo simples fato de Delacroix demonstrar, claramente, que o pintor, sobretudo o artista romântico, não é um gênio. Suas ideias não são postas no quadro depois de rompantes apaixonados e delirantes que a inspiração os deu, como se tende a crer quando definimos o romantismo. É um trabalho de ponderação, escolha, execução, e mesmo o de descartar ideias.

Sobre pintura: “A primeira coisa e mais importante na pintura são os contornos. O resto será extremamente negligenciado que, se eles estão lá, a pintura é fechada e terminada” (DELACROIX, p. 69). Isso faz pensar com mais profundidade a questão de nomear Delacroix apenas como um colorista, como se o trabalho da linha, responsável pelo contorno, fosse só mérito e escolha de Ingres.

“Quando você descobrir uma falha em você, em vez de dissimulá-la, suprima uma parte do papel e seus erros, corrija-se. Se a alma combate somente com o corpo! Mas ela tem também más inclinações, e é necessário que uma parte, a mais reduzida, mas a mais divina, combata a outra sem descanso. (…) Quando eu faço um belo quadro, eu não escrevo um pensamento. É isso o que eles dizem. Que eles são simples! Eles suprimem da pintura todas suas vantagens. O escritor diz quase tudo para ser compreendido. Na pintura, ele se estabelece como um ponto misterioso entre a alma dos personagens e a do espectador. Ele vê as figuras, da natureza exterior, mas ele pensa interiormente, da verdade pensada que é comum a todos os homens: àquelas que dão um corpo ao escritor, mas alterando sua essência delineada. Também os espíritos grosseiros são mais mudos os dos escritores do que dos músicos ou dos pintores. A arte do pintor é tão íntima do coração dos homens que ela parece mais material, porque nele, como na natureza exterior, a parte é feita vastamente à qual é terminada e à qual é infinita, isso quer dizer que a alma encontra o que mexe interiormente nos objetos e que afetam os sentidos”. (DELACROIX, p.17-18)

“Cada homem se inquieta muito mais com a menor de suas misérias do que com as incomparáveis calamidades de uma nação inteira” (DELACROIX, p. 18).

Referência bibliográfica: DELACROIX, Eugène. Journal. Tome premier, 1822-1852. Nouvelle édition, publiée d’après le manuscrit original avec une introduction et des notes par André Joubin. Paris: Librairie Plon, 1932.

Um resgate pelos livros não-lidos

Publicado no site Literatortura

books tumblrEm pleno Dia internacional do livro – fato esse que soube ao abrir o facebook – constato que sonhei algo bem estranho esta noite. Eu residia em algum lugar bem diferente da cidade de São Paulo e havia sido uma exigência do governador esvaziar inúmeras casas. Por isso, milhares de moradores foram obrigados a por seus pertences para vender na garagem. Isso gerou um caos entre as pessoas, uma correria e um desejo por proteger, corporalmente, os objetos que haviam ganhado do pai, da mãe, que tinham comprado com desconto na feirinha, no site. Tudo.

E, claro, eu briguei por causa dos meus livros. Até em meus sonhos eu acabo rindo da minha situação, minha vida à disposição dos livros, como se fossem autoridades. Achei engraçado e na hora eu constatei que estava sonhando, mas creio que eu quis continuar lá para ver a cena, até onde eu poderia chegar.

Eu agarrava os meus livros enquanto os outros tentavam barganhar. “Ei, quanto sai este livro grandão aqui?”. E eu olhava entristecida para o Outono da Idade Média e resmungava, “não está à venda”. Depois vinham as outras obras de estética, e meu sangue começava a fervilhar. Não era justo abrir mão de todos.

No sonho, me ocorreu a pergunta – já no estado em que eu compreendia que era um sonho: vale a pena salvar e proteger o livro não-lido ou aquele que já li e tenho boas memórias dele? Comecei a projetar uma nova cena naquela que eu observava no sonho, eu descartando facilmente os que eu não havia gostado. Mas era justo isso? Tentava também salvar, ao mesmo tempo, os livros que eu havia lido e me marcaram por toda a adolescência. Colocá-los em malas era fácil. O problema estava no fato de que eu queria salvar os que eu não havia lido.

O mistério de existir muitas, muitas páginas guardando segredos e mundos prontos para serem habitados, era o que me corroia enquanto eu via pessoas se adiantarem aos meus exemplares esfomeadas por livros de graça, como se fosse um bota-fora. Há alguns anos eu escrevi uma crônica colocando os meus livros não-lidos como ‘livros-promessa’ e que eles tinham um grande valor nesta questão que já me inquietava, se houvesse um incêndio, quais livros deveria salvar. Receio ainda não ter respostas.

Ocorre-me, também, que há algumas semanas eu sonhei também que vivíamos numa era apocalíptica – que, olha só a surpresa, tinha gigantes, dragões e estacionamentos destruídos, vai entender – e a urgência era escolher quais livros eu levaria comigo numa viagem sem volta. As livrarias estavam apinhadas de gente correndo para lá e para cá, e o exemplar do qual eu não queria desgrudar era O vermelho e o negro, de Stendhal. Mas eu não o li ainda! Nem tenho o livro, para dizer a verdade. Por que ele estava lá? Claro, porque na mesma semana eu vi o exemplar na livraria e pensei que eu queria lê-lo em breve.

No meu sonho de hoje, eu até cogitava se não valia a pena entrar em combate com os outros, de bradar ‘vou arrancar suas tripas se tu roubar esse livro agora’. Eu quero crer que a vontade mesmo era a de salvar livros que são mais importantes aos outros, mais do que para mim. De preservar a possibilidade de existir outras alternativas, em um pós-apocalipse onde o estado total seria muito incerto. O livro, muitas vezes, é isso. Não é apenas a chance de viver a experiência do outro, mas ver o outro, reconhecê-lo. Assumir que a realidade – sendo apocalíptica ou não – precisa ser superada. E ela é, quando um livro é aberto.

Por isso, aproveite não apenas o Dia internacional do livro. Aproveite todos os dias com este objeto mais misterioso que as tecnologias disponíveis. Eu, pelo menos, acho ainda muito estranho o que pode acontecer quando a gente abre esse bloquinho feito de papéis anotados por outra pessoa, as dúvidas ressurgem e as sensações se aproximam para serem vividas. Não dá para ser o mesmo depois que você o abre. Mas é bom correr o risco e depois ver o que aconteceu do outro lado.

O Hotel Biblioteca: ‘por favor, me deixe ler’

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Publicada no site Literatortura 

Livros se proliferam pela casa, surgem entre guarda-roupas, móveis esquecidos, mesas de cabeceira, estantes, e encontram, na casa, uma forma de se enraizar vivamente entre nós. Pensando nestes livros que respiram pela casa, eu me deparei com a curiosa matéria no G1 sobre o Library Hotel (Hotel Biblioteca). Imagine como seria se hospedar em um hotel que possui livros por toda parte. Como um grande achado entre os acervos dos hotéis pelo mundo afora, o Library Hotel (Hotel Biblioteca) possui livros a todo canto, pois são mais de 6 mil exemplares, espalhados nos quartos, no lobby e em outras áreas comuns.

Além disso, o hotel é organizado como uma grande biblioteca, com cada um dos dez andares separados em áreas (arte, filosofia, linguagem, entre outros). Os quartos têm nomes como Quarto das Biografias, Quarto do Design de Moda, Quarto do Amor e Quarto da Astronomia – esse último tinha como hóspede frequente o astronauta Neil Armstrong.

Mais ainda, a título de curiosidade, no hotel, os típicos avisos pedindo para não incomodar ou para limpar o quarto foram renomeados para ‘Por favor, me deixe ler’ e ‘Por favor, tire o pó dos meus livros’.

Algumas hipóteses vieram à tona enquanto eu lia a matéria. E se, de alguma forma, os gêneros dos quartos modificassem o comportamento de cada hóspede? Um leitor de Poe ouviria batidas no assoalho, e insistiria com o concièrge que havia algo de errado com o hóspede do andar inferior.

-Ele deve estar batendo alguma coisa no teto, isso porque nem fico andando pelo quarto, sou tranquilo! Por favor, faça algo a respeito, reclama lá.

O concièrge checaria na lista de hóspedes e veria que o quarto abaixo do rapaz exasperado à sua frente estava vago, e em reforma, destruído por um bêbado aborrecido por uma crise existencial que deixara cacos de vidro por todo o carpete, e pequenas manchas de sangue ao pisar em alguns deles. Realmente difíceis de remover, vale dizer.

A noite viria novamente, e os sobressaltos com o assoalho pulsando em desespero deixariam o rapaz sem dormir, mais uma vez. Até começar a achar suspeito o olhar que o Poe emoldurado dirigia a ele do outro lado do quarto temático. O livro do autor deixado de cortesia pelo hotel, na cabeceira, daria a resposta que o assoalho vinha gritando há três noites. A história do rapaz ficaria lembrada como mais um surto de um hóspede que, no caso, arrancou a unhadas os velhos assoalhos do quarto para descobrir que não havia coração algum por lá. Apenas o seu, descontrolado, ainda no corpo.

Um hotel biblioteca precisaria lidar com esses rompantes de desespero, ira ou euforia dos leitores. Por exemplo, dirigir a crítica ao balcão, de que o livro deixado na cabeceira, do único quarto vago, não havia sido uma leitura prazerosa. O dinheiro seria devolvido? Haveria uma caixinha de sugestões ao canto pedindo que Clarice fosse menos ‘hermética’, seja lá o que a pessoa queira dizer com isso? Ou que Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe, trouxe profunda melancolia e, por isso, o hóspede precisa de atendimento psicológico? Está aqui instaurado o caos. O personagem morreu no enredo, isso quer dizer que o leitor entristecido receberia, pela manhã, bolinhos de chuva para consolá-lo no café-da-manhã?

Talvez até uma nova noção de crítica surgisse neste hotel, e ele acabaria por aliar gosto às exigências dos hóspedes que sempre exigem o entretenimento imediato.

-Olá, cheguei agora de um voo de 12 horas. Que quarto você me recomenda para repousar?

-Bem, sobrou apenas um andar, os dos ultrarromânticos.

-Hã, não é algo muito tranquilo, né? Essa história de ‘ultra’ deve ser exagerado, não gosto. É todo pomposo?

-Não exatamente – diria o concièrge, tentando defender o autor e ao mesmo tempo garantir o seu lado – Bem, as paredes trazem alguns questionamentos muito importantes sobre a efemeridade da vida e…

-Não, não quero saber de efêmero coisa nenhuma, passei 12 horas apertado naquele avião e aquilo não foi nada efêmero. Não tem nada mais tranquilo, alegre?

-Tem a sessão infantil, mas restou apenas o quarto de Alice no País das Maravilhas.

-Não ajuda muito um quarto vibrante demais, já fiquei uma vez nele e me deu muita dor de cabeça aquelas cores todas. Só queria uma luz ambiente mesmo, sem questionamentos daquela lagarta pedante.

O concièrge tentaria respirar fundo para não demonstrar o desgosto de ouvir tais ofensas.

-Lamento, senhor, mas é o que temos.

-Estou farto desses eruditos mesmo, viu? Deixa para lá, vou procurar outros serviços.

No fim das contas, as exigências não seriam tão distintas assim do que se ouve daqueles que pedem toalhas a mais. Seria mais peculiar, talvez pela expectativa bem falsa de que a literatura precisa satisfazer diretamente o leitor. Ser confortável tanto quanto o edredom disposto na cama, ter um final feliz como o serviço de quarto impecável. Ou com personagens adoráveis como aquelas toalhas em forma de cisne posto na cama para dar boas-vindas.

Hóspedes exigentes e críticos de obras que se baseiam em poucas linhas dispostas pelo hotel em sua superficial representação da narrativa podem se irritar facilmente. E até sem ter lido um livro sequer. Poderia haver leitores enfadonhos também, criticando cada parede do quarto, afirmando que o abstrato não cabia no conceito do design escolhido, que era “um disparate! Um ultraje à Academia”. Muitas, muitas possibilidades de incômodo para o dono do hotel.

Enquanto também poderia haver um hóspede curioso, o melhor de todos. Ele descobriria uma obra nunca vista, convidativa na mesa de cabeceira, pedindo pelo olhar daquele viajante que chegava exausto, um tanto receoso pela realidade que encontraria em outro país. E havia lá, em um quarto aconchegante, um livro ainda mais promissor que o deitar na cama e dormir: abrigar-se nas páginas tão novas quanto as ruas ainda não visitadas pelo turista.

Sendo assim, um hotel biblioteca teria toda a sua complexidade digna do universo literário que abarca os mais diferentes tipos de gêneros. Críticas que engrandecem a obra, livros vendidos com a promessa de ser o mais novo best-seller, o autor esquecido por décadas e recuperado pelos acadêmicos. A literatura é aberta aos mais variados gestos artísticos. E o melhor: sendo obra, está em reforma constante. Acrescenta-se aqui uma observação perspicaz sobre o que o autor pretendeu com determinada cena, um leitor novo que ingressa na literatura e descobre que também quer fazer parte dela escrevendo. A literatura passa a ser um hotel com todas as portas dos quartos abertas.

Por isso, este hotel precisaria ser tão espaçoso e inclinar ao novo quanto é uma biblioteca ao autor contemporâneo. Assim como a biblioteca se faz como o lugar intermediário entre leitor e autor, o hotel também está entre a vivência com o mundo público – o local escolhido a ser desbravado – e a promessa de dar espaço a um novo hóspede que deseja se preservar deste mundo novo que se faz diante de seus olhos. Tanto biblioteca quanto hotel são o solo para o avanço em uma nova realidade, o resgate constante para o inesperado do mundo. E sem deixar de incorporar o inesperado, a batida no assoalho, a surpresa de se reconhecer entre hóspedes desconhecidos.

A totalidade entre as teias e o vazio

teias

Do quarto vazio vieram as sombrias. Não sei dizer quando elas começaram. Certa vez ela estava grudada na cortina, como se sugasse o tecido. O azul claro de um lado e o outro pedaço, enegrecido, do outro. O toque naquela sombra parece ter se impregnado em minhas células até que o café-da-manhã não era mais o mesmo, o almoço e o jantar também não. Um enjoo contínuo, comia pouco, para depois ficar com mais fome e precisar comer de novo.

As idas e vindas de transporte público e as aulas eram invadidas por um sono ou um torpor que me envolvia nas palavras escritas no caderno ou no livro que tentava ler. Aquelas sombras pareciam se comunicar comigo de alguma forma inexplicável, como que ocultas por trás da palavra. Com elas veio o esgotamento.

Não sei se você já sentiu que há teias envolvendo seus suspiros, puxando o movimento do ar a ser tragado e alimentar seus pulmões. Mas eu sinto. Foi com esse peso que me encaminhei à livraria mais próxima para terminar de ler um livro que havia iniciado no almoço. Chama-se Sono, do Haruki Murakami. Uma mulher que não dorme há dezessete dias. Sabemos que isso é impossível, que a insônia tem como cenário um sono bem instável, mas não é uma ausência completa de sono, pois ele surge mais tarde, repentinamente. Não é o caso da protagonista. Ela passa a ter acesso a uma realidade diferenciada: não dormir é apreender algo inédito do mundo.

sono 1Funciona na literatura e eu não conseguiria me imaginar sem dormir. Mesmo que fosse um tempo para ler e escrever mais do que eu sou capaz, não dormir também seria uma negação das limitações comuns ao ser humano. É tão problemático assim ter limitações? Não é incomum notar que hoje se está mais conectado do que nunca e dormir é visto apenas como uma pausa ou uma fuga temporária do caos diário. E, mesmo sendo uma fuga, não dá para abrir mão dela. O curioso é que os sonhos se constituem como uma fuga da própria fuga, um desvio da suposta paz do mero sono. O sonho pode evidenciar o que foi oculto boa parte do dia, tirar o pó daquilo que está guardado.

No fim das contas, eu me deparei com uma personagem que, apesar de viver uma vida sem sono e com a promessa de alcançar um mundo nunca antes vivido nestas horas extras, estava relatando uma sensação próxima da minha. Eu li o livro Sono com o sono que tem se presentificado há duas semanas, e não sei afirmar se meu esgotamento vem do fato de me sentir surpresa por estar esgotada no início do semestre. É quase a mesma ideia insana do bêbado do Pequeno príncipe, que bebe para esquecer que tem vergonha de beber.

A questão é que, mesmo eu não tendo estas horas extras que supostamente significariam liberdade em um mundo impossível de ser vivenciado pelos outros que dormem, e o fato da personagem não esboçar nenhuma emoção acerca da sua rotina mecânica, eu encontrei alguma similaridade com ela, mesmo aqui nesta angústia, emoção expressada pelo esgotamento. E ainda não sei qual é a similaridade. Ela vive naquelas páginas do livro que visitei. Que resolvi pegar misteriosamente para ler, sem qualquer referência, e encontrei justamente uma espécie de mundo onde habitar nas poucas horas em que eu queria me retirar desta rotina. Será, então, que ler e ingressar neste mundo feito pelo Murakami foi o mesmo que dormir (repousando) ou ficar acordada quando ninguém mais estava? Será que há alguém acordado lendo este livro nas mesmas condições?

A pergunta ficou ressoando até que dormi. A noite foi perturbada pela imagem onírica de um ser em negro agarrando meus dedos, queimando-os como se houvessem águas-vivas sedentas por me envolver em um estado de paralisia, uma morte permanente e consciente. Um frio impossível de se aproximar às correntes que eu já enfrentara, afundada nesta espécie de mar sem água, meu corpo se debatia em si mesmo. Uma luta pela sobrevivência na própria pele, era isso, afinal. Foi na palavra ‘sonho’ que consegui encontrar o resgate daquela sensação e as águas-vivas se desgrudaram do meu corpo, o contato com o sombrio cessou.

sono 2Ao acordar, a pergunta sobre a procura por alguém que estivesse nas mesmas condições que a personagem surgiu nas frases dispostas aqui. O mistério é que a personagem encontra em Anna Karenina o mesmo conforto que encontrei na narradora. Um conforto estranho, sobre uma ficção que falava sobre o esgotamento. E isso dá a entender que a personagem não nomeada por Murakami está existindo em algum lugar que eu não sei onde é.

Já me perguntei se ela é a sombra que se alojou no pedaço de cortina. Ela não está mais lá. Porém, lembro-me que senti que a sombra ingressou nas minhas células. Antes de encontrar este livro. O esgotamento pode sair do estado de torpor e se converter em um despertar diante da rotina, para que haja algum alerta de que esta vida fragmentada precisa ser revista. No fim, ela precisa ser vista como fragmentada, e não em um bloco completado a cada dia. O esgotamento grita que a rotina é apenas os objetos entre as teias. Há algo mais amplo e misterioso fora delas.

A sombra que surge também faz o alerta. Se vivemos nas teias, o que será que deixamos de ver que existe do lado de fora? Acho que o esgotamento conseguiu me mostrar um vislumbre disso, por meio de um livro que, por sua vez, apresentava um vislumbre desta possibilidade exterior. Uma personagem que é sombra das nossas vivências. Talvez tudo o que esteja por aqui seja uma história dentro de uma história, com fronteiras invisíveis entre o real e o ilusório. O campo aberto do ficcional pode ser a liberdade experimentada pelo ser que fica acordado. Mas estar acordado tem um preço: aguentar a tensão de estar na totalidade onde é tudo ao mesmo tempo. A sombra já é moradora do tecido da cortina e da minha pele, uma ida ao campo aberto.

*Imagem de capa: instalação chamada Silêncio, de Chiharu Shiota

*Outras imagens: ilustrações de Kat Menschick para o livro Sono, de Haruki Murakami.

Mary Poppins, de P.L.Travers

Resenha publicada no site Indique um livro

Mary Poppins
Mary Poppins

Do céu de Londres, segurando uma maleta feita de tapete e um guarda-chuva, Mary Poppins desceu, finalmente, para presenciar a primeira tradução em português da obra de P.L.Travers. Em 2014, com pré-venda e uma expectativa que durou 10 anos, eu posso dizer que realizei o sonho que eu tinha quando era criança de ler a primeira das várias histórias de Mary Poppins em português pela Cosac Naify. O filme me conduziu ao gosto pelo cinema, por meio dos filmes musicais, e ler o livro de Travers é descobrir que Mary Poppins é muito, muito mais do que a película da Disney de 1964 nos revela.

Como se pode ver, a famigerada babá tem um histórico de gerações conquistadas na literatura. Publicado em 1934, Mary Poppins é o primeiro livro da série de oito escritos por Travers. Cada capítulo revela uma aventura em que o impossível acontece com Jane e Michael, crianças que acompanham a babá. São histórias que possuem uma singularidade encantadora. Na leitura é possível encontrar animais falantes, uma vaca dançarina, o tio de Mary Poppins que ri até alcançar o teto, o espírito natalino descendo dos céus para fazê-lo acontecer em uma loja de departamento, entrar em um desenho junto com Bert, entre outras.

De início, é possível ver as semelhanças com o filme da Disney e, portanto, o leitor espera encontrar comparações e uma fidelidade ao livro que pode acabar por reduzir a surpresa do enredo. Porém, isso só ocorre nos primeiros capítulos. Depois disso, o livro ganha ares mais fantásticos e a participação do leitor se mostra mais engajada, sentindo vivenciar aquelas aventuras com um gostinho de surpresa infantil. Foram muitas as vezes que ler Mary Poppins antes de dormir levou à sensação de que aqueles pequenos acontecimentos podiam ter lá a sua veracidade. Que talvez a vaca dançarina continue por aí feliz com o que obteve em sua vida.

Conhecer a história de Mary Poppins também é dar uma chance à versão da autora. Vimos aquela interpretada por Julie Andrews, uma personagem que expõe uma delicadeza e doçura que condizia com o ideal hollywoodiano. A Mary Poppins de Travers é muito mais complexa. Tem um tom firme e rígido, sempre dá respostas atravessadas e é bem narcisista. E, pode sim, em um primeiro momento, gerar desconforto por ser tão distinta daquela que imaginamos. Contudo, ela se faz como uma autoridade que conduz as crianças a uma explosão de impossibilidades no cotidiano, apresentando vislumbres de um mundo desconhecido. E mais, ela está lá para ocupar o lugar vago deixado por pais tão ausentes. Por isso, é gradativamente que Mary Poppins conquista o leitor. Ela é o contraste perfeito, de uma figura que não permite que as crianças fiquem abandonadas na realidade, que saibam como se comportar nela, e fornece a maior experiência para que esta criança sonhe.

Ademais, a edição da Cosac Naify já recria a magia da narrativa por sua capa rosa bem forte, os desenhos delicados bordados e fotografados em estúdio, com o detalhe de terem seus pontos soltos para representar a fluidez e liberdade de Mary Poppins. Uma edição que valeu a espera por uma tradução. E uma edição que trata a história com o carinho devido.

Desta forma, o enredo de Travers é muito maduro e revela várias camadas que um adulto pode descobrir em sua narrativa, até mesmo uma melancolia e uma crítica pelo abandono à criança. Esses sentimentos são muito bem misturados com o humor leve e simples da autora, a linguagem própria para uma criança acompanhar o enredo e a criação de uma personagem fascinante pela liberdade que traz às vidas a cada mudança dos ventos.

Se quiser ler, eu comento aqui sobre o filme Walt nos Bastidores de Mary Poppins e aqui a história de Travers, os conflitos com a adaptação da Disney.

Confissões de um jovem romancista, de Umberto Eco

Resenha publicada no site Indique um livro

Editora Cosac Naify (2013), 190 páginas.

Confissões de um jovem romancista

Confissões de um jovem romancista é um pequeno relato que Umberto Eco dirige ao leitor. Com uma fluidez e simplicidade que encaminham a obra tal qual uma conversa, ele conta, inicialmente, a proposta deste livro como sendo um “jovem” autor confessando as experiências após o sucesso do seu primeiro romance O nome da rosa, publicado em 1980. É um “jovem” romancista porque iniciou sua carreira na escrita literária há pouco mais de vinte e oito anos.

Após o sucesso que tornou o livro um best-seller, adaptado ao cinema em 1986, Eco nos conta, nos dois primeiros capítulos, o processo de criação de O nome da rosa, O pêndulo de Foucault, A ilha do dia anterior. Aqui, em vários momentos, ao comentar com um amigo que você está lendo este livro, irá se ver dizendo “ah, o Umberto me disse que…”. Isso foi realmente inevitável, pois a primeira parte da obra é uma grande conversa, tão agradável quanto estar tomando café com Eco confortavelmente sentado numa poltrona. Ele nos deixa seguro, diz que não há problema no seu romance ter elementos semelhantes a outros. Partimos de “topos literários”, há arquétipos na escrita e o que está em jogo é o escritor criar a sua própria voz. E isso Umberto Eco faz muito bem. Ele conta que desenhava o projeto arquitetônico dos prédios que cita em O nome da rosa, que passeou várias vezes de madrugada por Paris contando em um gravador de voz o que via, criava esboços de personagens e lugares.

É com um certo gostinho de triunfo e uma alegria juvenil que Eco nos relata os elementos e suas referências que se propôs a inserir nas entrelinhas de sua obra. E nós ficamos maravilhados. Eco fala em escrita criativa, como se valoriza ou não um texto filosófico e uma obra literária, os autores que leu com tanto carinho e como ele guardou, quase inconscientemente, a ideia do livro com páginas que envenenam o padre que depois virou a premissa de O nome da rosa.

O terceiro capítulo já traz uma temática um pouco mais árida. Contudo, quando conduzido por Eco, ele se torna compreensível e uma grande introdução à semiótica. Com a pergunta (que todos nós nos fazemos) sobre como nos emocionamos com personagens de ficção e por que conseguimos chorar e levar a sério a morte de Anna Karenina, Eco faz uma análise profunda sobre a concepção de personagens, significante/significado, como personagens se tornam tão importantes para o imaginário virando “indivíduos flutuantes em partituras flutuantes”.

O último capítulo aborda um ponto que, normalmente, deixamos passar em branco: as listas na literatura. É um capítulo com certa dificuldade de compreensão para acompanhar, logo de início, mas logo o leitor se acostuma com ele. Por quê? Normalmente, não lemos sobre o assunto e se listas aparecem em um conto ou romance, é apenas em um pequeno momento. Aqui é um capítulo inteiro falando do interesse em colecionar palavras com uma bela sonoridade, elementos que expandem o cenário narrado e como autores (Proust, Poe, Homero) a usaram como um instrumento importante. O capítulo traz vários exemplos da literatura e outras compostas pelo próprio Eco. Ao fim do livro, você terá vontade também de brincar com as palavras em listas.

Desta forma, a obra de Umberto Eco foge do lugar comum quando tratamos de um relato. Em vez de alimentar o livro com frases de efeito ou apenas histórias muito particulares, Eco ajuda novos escritores contando um pouco de seu estudo e como ele aprendeu a se relacionar e a gostar da língua. Confissões para um jovem romancista é um livro feito para todos aqueles que são escritores em formação. E isso nunca cessa.

As vésperas de uma ceia

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-Claras em neve, onde vou achar neve agora, mãe? – eu perguntei rindo.

A ceia natalina começava a se esboçar na cozinha. Os ingredientes separados aguardavam a clara chegar ao ponto certo, as raspas de limão reservadas esperando ansiosas para se lançarem à superfície afofada e branca. Leite condensado, leite, ricota, mais ricota, manteiga, leite, gemas dançavam agitadas no liquidificador, sustentando a surpresa do sabor final da massa. Foi despejada, essa massa animada, no pote junto às claras. O líquido amarelado cresceu, suspendeu magicamente as claras e esperou para ser misturado. Na assadeira a torta recebeu as frutinhas e foi para o forno, satisfeita por chegar ao fim.

O segundo a receber atenção foi o lombo, que se alegrou com o tempo em que marinou, se banhou no tempero composto por orégano, pimenta, páprica (que tem um nome engraçado), manjericão, louro. O azeite veio para dar o toque bem vindo e dourado à peça que contava as horas para se revelar bem assado no forno.

Vendo todo esse espetáculo, minha mãe controlando o que precisava dar certo pelas minhas mãos, e o cachorro. Ah, ele se alegra tanto quanto a massa e o lombo, ora com a cabeça erguida olhando para o alto, ora de pé nas patas traseiras, pedindo pela cenoura que está sendo cortada. A batata logo se desintegra no prato, uma maionese em potência, e a cenoura, o ovo, a azeitona, o bacon na panela misturados à farofa que se torna crocante. Mais uma vez, o cachorro rodeando o forno, torcendo para cair um pedacinho ou um restinho da gordura do bacon que fica pulando na panela, contente.

A ceia se esboça nos detalhes, nos segundos, nestes vestígios deixados agora nas palavras, compostas por letras que são ingredientes da grande receita que é a frase. A prosa é o sabor final, a lembrança. A mesa espera a grande cena. La fête va enfin commencer*.

*Clique aqui para ouvir a música Le festin, do filme Ratatouille.

As influências literárias em O Rei de Amarelo e o seu legado

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Matéria publicada no site Literatortura

O Rei de Amarelo, de Robert W. Chambers, teve sua primeira tradução para o português publicada este ano pela editora Intrínseca. Ela surge como uma “nova-velha” obra: foi publicada em 1895, influenciou diversos autores posteriores, como nós veremos a seguir, mas recebeu influência de outras obras e correntes literárias no próprio século XIX em que foi escrito. E está sendo redescoberta agora.

Chambers trouxe à tona nesta coletânea de contos um gênero literário que, posteriormente, passou-se a nomear weird fiction, um terror cósmico. Nos contos interligados do autor encontramos uma mistura de enredo futurista com a atmosfera decadentista do final do século XIX. Os quatro primeiros contos têm em comum, no enredo, uma peça de teatro que enlouquece aqueles que a lêem, e ela se chama também O rei de amarelo.

Ler a obra de Chambers é quase o mesmo trabalho que o de um detetive, mas decifrar o discurso presente no livro dentro da chamada Mitologia amarela é um desafio distante de ser concluído. Por isso, a ideia desta lista ainda não é identificar somente o que seria essa Mitologia Amarela – que, mais tarde, surgiu como o chamado Mito de Hastur, Carcosa ou de Cthulhu, o conjunto de deuses “antigos” e lendas criadas por Lovecraft – mas mostrar quais foram as influências que Chambers pode ter recebido e quais ele originou. Além disso, a ideia é trazer obras que não são muito populares e ir recriando o cenário amarelo.

Durante a leitura da obra, o que ocorre é que podemos entender o conteúdo da peça O Rei de amarelo como transgressora: ela inaugura uma nova realidade na vida do personagem, na qual vemos que a existência humana é mais complexa e frágil do que o cenário social poderia indicar. Nem por isso a peça será uma benfeitora na vida do personagem. Ela transgride suas certezas e noções da vida mundana para mostrar a ele que a vida não é constituída por fases a ser superadas ou meras reputações. Ela pode ser mais turbulenta porque se mistura a inúmeras vidas e passados, são realidades paralelas. Assim, é quase um sonho ininterrupto, com humanos passando por desesperos que são uma constante. Por isso, creio que a própria mente humana pode ser a Carcosa do Rei, constituída por fatos e sonhos. E o terror existe ao se constatar que estariam encarcerados numa vida que já carrega o sonho e a realidade sem divisões.

Assim, foi por meio das indicações das notas de rodapé feitas por Carlos Orsi na tradução para o português que passei a procurar as obras citadas por ele para entender o que seria Carcosa, Hastur, o rei, o verdadeiro terror que encontramos na narrativa. E acabei encontrando contos e livros que revelam quase uma tradição ao mencionar esses nomes. É o que você verá a seguir,  com os comentários da minha leitura das obras.

O conto A Máscara da Morte Vermelha, de Edgar Allan Poe (1842)

Este conto foi publicado em 1842 e, definitivamente, influenciou Chambers na composição da figura do Rei quando ele surge no poema que inaugura a edição, pois no poema o Rei possui um manto em retalhos. Além disso, Chambers usa no primeiro conto o termo “Máscara Pálida” que foi incorporado na Mitologia Amarela, pelos autores que vieram depois, como uma máscara que o rei ou um emissário dele usava. E esta máscara teria semelhanças com o enredo do conto de Poe. Neste, o Príncipe Prospero resolve se fechar em um castelo com alguns dos nobres da corte para evitar ser contaminado por uma espécie de peste que vinha se alastrando, a Morte Vermelha (ou Rúbra). Mas, quando Prospero concede uma festa em que todos devem usar uma máscara, há um ser desconhecido que surge entre os convidados, portando uma máscara da qual escorre sangue e mancha as vestes em retalho. A criatura parece ser o terror e a Morte Rúbra personificados, por isso se parece com a ideia do Rei que espalha a loucura como uma peste.

Para ler o conto clique aqui  

O conto Le Roi au Masque d’Or (The King in the Golden Mask), de Marcel Schwob (1892)

O Rei na Máscara de Ouro é o primeiro conto que dá nome à coletânea de Marcel Schwob e foi publicado em 1892. Ele tem grande semelhança com o conto de Poe e, novamente, a atmosfera sombria da figura que desconhecemos do Rei, na peça que os personagens leem no enredo de Chambers. A história é bem curiosa e mostra um rei que segue uma regra de seus antepassados: ele deve usar sempre uma máscara de ouro e os seus súditos as máscaras com as expressões que lhes convêm. O rei entra em crise, porém, quando um mendigo passa pelo castelo e insinua que o rei era enganado pelo mundo por nunca ter visto o rosto dos outros, e nem conhecer a própria face.

Para ler o conto em francês clique aqui 

O conto The Yellow Wallpaper (O Papel de parede amarelo), de Charlotte Perkins Gilman (1892)

Este conto é um marco na literatura feminista americana e está na lista porque foi publicado três anos antes de O Rei de Amarelo. Nele, a temática se assemelha ao enredo de Chambers e é possível que ele tenha lido ou conhecido a sua polêmica. A cor amarela é predominante pela forma de um papel de parede que Jane, a protagonista que narra a história, passa a notar que muda de aparência. Ela vê sombras, novos rostos e formas ganhando vida. O conto foi criticado na época por um médico dizendo que a sua leitura era perigosa para pessoas com “distúrbios mentais”. A questão é que a autora fez o conto justamente para retratar o terror pelo qual ela passou, como é ser reprimida pelo marido ao apresentar sintomas de depressão após começar a vida de casada e ter um filho.

Para ler o conto em inglês, clique aqui 

O conto Haïta The Shepherd (Haïta O pastor), de Ambrose Bierce (1891)

Neste conto publicado por Bierce em 1891, é inserido pela primeira vez o nome Hastur, que terá inspirado Chambers a usá-lo em sua obra. Em Bierce, Hastur teria sido derivado da província espanhola Asturias e lembra a sonoridade de “pasture”, e justamente o personagem deste conto é um pastor. Chambers usa Hastur como o nome da cidade onde Cassilda e Camilla residem. Elas são personagens que existem apenas na peça O rei de amarelo que os personagens leem, e nós só recebemos as referências sobre elas por meio de alguns versos no início dos contos, que indicam serem os trechos do ato II que provocaria a loucura em quem os lê. E ainda, no conto A Demoiselle d’Y’s, Hastur é o nome de uma moça que parece exercer um controle no protagonista. Ela é mais do que uma forma humana, quase uma viajante do tempo. Da mesma forma a personagem feminina nesse conto de Bierce. Nele, Haïta se depara com uma jovem que depois será nomeada Felicidade, aquela que ele nunca poderá ter ao seu lado como esposa.

Para ler em inglês, clique aqui e também está disponível na antologia Hastur Cycle, para download no 4shared aqui 

O conto An Inhabitant of Carcosa, de Ambrose Bierce (1891)

O conto de Bierce, publicado em 1891, foi a introdução do nome Carcosa, uma cidade que o personagem busca como salvação, mas logo descobre que a morte o levou e que essa não basta para que um homem deixe de existir. Por isso esse habitante perambula pelas terras em busca de Carcosa, o lugar ideal para usufruir da imortalidade. Carcosa derivaria de Carcassonne, cidade que se situa na França, cheia de muralhas, castelos com uma arquitetura medieval. Bierce também usa Hali como o nome de um profeta, que será citado por Chambers. Mas na obra desse, será o nome do lago em que a cidade de Hastur foi construída e onde Cassilda mora, na peça fictícia O rei de amarelo. Além disso, Hali é o nome árabe para a constelação de Touro, na qual existe Híades e Aldebarã, mencionadas no poema e no conto de Chambers como sendo estrelas negras que ficariam acima de Carcosa, onde o Rei habita.

Para ler em inglês cliquei aqui e também está disponível na antologia Hastur Cycle, para download no 4shared aqui 

O poema Carcassonne, de Gustave Nadaud

O poema teria inspirado também Chambers a escrever o seu poema introdutório à coletânea. No poema de Nadaud, o eu lírico espera encontrar Carcosa, esta cidade perdida e existente no imaginário daquele que sonha com quase uma utopia. Carcassonne se apresenta como uma Babilônia, onde se encontra o descanso de uma vida cheia de erros. O eu lírico relata que seus parentes conheceram cidades, mas ele não viu Carcassone, apenas depois da morte. A questão é que ele termina o poema dizendo que “Cada mortal tem sua Carcassonne”, e isso faz pensar se ela existe na própria palavra ou na mente humana como artifício.

Para ler a tradução em inglês e o original em francês, clique aqui 

Rubaiyat, de Omar Khayyam

A versão em inglês da seleção de poemas de Khayyam (1048-1131), originalmente em persa, foi feita por Fitzgerald, em 1859, o que deu a chance ao Ocidente de conhecer a obra do poeta. A palavra rubaiyat, derivado do árabe, significa “quatro”, um poema com uma estrofe de duas linhas, com duas partes cada. Na obra, Khayyam exalta a beleza da vida e a possibilidade do homem em transcendê-la pelo vinho ou até por um livro de poesia, gozar a vida antes de se tornar pó, e acrescenta ter ouvido as razões sobre o universo de um Doutor e de um Santo, para sair da porta tão crente quanto ao entrar. O eu lírico diz ter passado pelos Sete Céus – as sete artes liberais – e não conseguiu resolver os enigmas do universo, nunca conseguiu desatar “o nó do Humano Fado”. Duas estrofes aparecem no início dos contos O paraíso do profeta e O Pátio do Dragão, e introduzem a impossibilidade dos protagonistas de Chambers em entender o significado do tempo e deste mundo alternativo que aparece em sonhos ou em pesadelos coletivos.

Para ler a tradução em português de Alfredo Braga, clique aqui. A edição que consultei é bilíngue, traduzida por Jamil Almansur Haddad.

A peça Salomé, de Oscar Wilde (1891)

A referência à cor amarela no título da obra de Chambers e nas vestes do Rei é por causa do significado dela no século: era o símbolo da loucura, da boemia, do amor misturado à luxúria. Livros proibidos tinham a capa com esse tom. E o frisson causado pela obra de Chambers foi tão grande, no momento de sua publicação e mais ainda entre os autores seguintes, que se passou a atribuir a algumas obras o mesmo teor de loucura que há na peça do enredo – Salomé, de Oscar Wilde, é um exemplo. Nela, Salomé exige ao rei ter a cabeça de São João Baptista na bandeja por um capricho, já que ele havia se recusado a beijá-la. Mas Salomé só consegue que seu desejo seja atendido após executar a Dança dos Sete Véus. A obra de Wilde e o perigo na forma da dança de Salomé teriam inspirado Chambers a inserir uma peça insana e um rei com vestes amarelas na sua obra. E mais ainda, em O Retrato de Dorian Gray, de Wilde, há um livro amarelo que fascinou o personagem, que por sua vez, pode ter sido Às Avessas, de Huysmans. Há toda uma literatura “amarela” no século XIX, apresentando esses livros dentro de narrativas quase como transgressões na vida dos personagens.

Para ler o livro Salomé, clique aqui 

Poema Os sete velhos, de Charles Baudelaire (1857)

Não sabemos se Chambers, de fato, leu o poema Os sete velhos, de Baudelaire, em As Flores do Mal, mas a semelhança com a atmosfera dos contos Emblema Amarelo e O Pátio do Dragão é surpreendente. Em ambos os contos encontramos a única forma daquele que pode ser o emissário do Rei ou uma de suas formas, já que a criatura não veste amarelo, mas anda com trapos, parece ter uma pele de cera branca e os persegue, seja tocando órgão numa igreja e nas ruas, seja nos sonhos do protagonista. O poema revela versos que poderiam muito bem estar no enredo de Chambers e, ao final, parece revelar que o eu lírico se encontra em um mundo perturbado, com sua alma dançando “sem mastros, sobre um mar fantástico e sem bordas!” e que este ser que o incomoda vai “não se sabe para que outro mundo”. A razão se perde a partir do encontro na rua enevoada com um velho de trapos que “pareciam reproduzir a cor do tempestuoso céu” e que tem a silhueta “quebrada” e leva um bastão que lhe dá um ar mais nefasto.

Para ler o poema traduzido para o português, cliqueaqui e a versão original em francês aqui. A tradução que consultei foi a da Editora Nova Fronteira, 2006.

H.P. Lovecraft (20/08/1890 – 15/03/1937)

São algumas as referências que Lovecraft teria feito ao universo amarelo de Chambers. Sabe-se que o autor teria lido a obra por volta de 1927, quando seu estilo já estava bem definido e já havia criado Necronomicon, este livro também perigoso como a peça. Na introdução, Carlos Orsi diz que em apenas Um sussurro das Trevas (1931) Lovecraft citou Hastur, mas que a Mitologia de Cthulhu acabou incorporando Chambers por meio de August Derleth, quem os relaciona no conto O retorno de Hastur e passa a instigar o interesse de outros autores (e leitores também) a compor uma Mitologia Amarela próxima a de Lovecraft. Mas nas minhas leituras dá para encontrar certas semelhanças entre os contosDagon, Ar frio e O modelo de Pickman, de Lovecraft, e O Pátio do Dragão, Emblema Amarelo e A Máscara, de Chambers. Há o protagonista que é um pintor desejando encontrar no grotesco a beleza em sua forma pura, mesmo que precise compactuar com os submundos dúbios da ciência como sinônimo de encontro com a imortalidade ou o registro de criaturas estranhas. Além disso, tem a existência de uma atmosfera de terror por conta de um emissário do rei, ou uma criatura de tentáculos, que se faz como uma ameaça permanente.

O conto More Light, de James Blish (1970)

Este conto de James Blish, publicado em 1970, é a tentativa mais fiel de criar a famosa peça O rei de amarelo. Blish foi leitor de Chambers e tentou compor a peça, na qual Hastur é a cidade em outro planeta em que a rainha Cassilda e sua filha Camila residem. No início do conto A máscara, temos um dos únicos trechos que Chambers deixou registrado na sua coletânea como se fosse a tão temida peça:

“Camilla: O senhor deveria tirar sua máscara.
Estranho: É mesmo?
Cassilda: É mesmo, está na hora. Todos tiramos nossos disfarces, menos o senhor.
Estranho: Eu não estou de máscara.
Camila: (Horrorizada, em particular para Cassilda) Não é máscara? Não é máscara!”

H.P.Lovecraft enviou cartas a Blish e o autor William Miller, em que ele diz ser uma tarefa complicada e insuficiente tentar criar um Necronomicon, essa obra que assustaria por revelar as verdades mais sombrias da existência. Mas Blish aceita a tarefa de tentar constituir a peça de Chambers e o resultado é satisfatório para quem tem curiosidade de vivenciar a leitura como se fosse um personagem de Chambers entrando em contato com a tão perigosa peça.

Tanto os contos de Ambrose Bierce quanto o conto More Light, de Blish, estão na coletânea Hastur Cycle, que está disponível para download aqui.

O livro A Maldição do Cigano, de Stephen King (1984)

A obra de Stephen King conta a história de Billy Halleck um advogado que vê sua vida amaldiçoada quando atropela uma velha cigana. O enredo não tem relação direta com Chambers, apenas pelo fato de haver um bar chamado Hastur que é destruído em um incêndio e, em seu lugar, é construída uma loja de produtos alternativos chamada O Rei de Amarelo.

O conto A study in emerald (Um estudo em esmeralda), de Neil Gaiman (2003)

O conto Um estudo em esmeralda coloca o detetive Sherlock Holmes e seu amigo Dr. Watson numa atmosfera inspirada no Mito de Cthullu, de Lovecraft. Gaiman cita Carcosa na passagem em que Watson relata ter assistido uma peça. O conto traz o assassinato do príncipe da Boêmia, Franz Drago, sobrinho dileto da Rainha Vitória, na Londres do século 19, em circunstâncias muito estranhas, indicando a presença de possíveis monstros que existiriam à espreita, atacando desde o princípio dos tempos.Este tipo de terror permanente, de uma criatura desconhecida, existe também no fato de não sabermos a origem de Carcosa e os poderes do rei, que os exerce por uma simples peça teatral. Além disso, Hastur é o nome de um anjo caído no livro Belas maldições, de Gaiman e Terry Pratchett.

Para ler o conto em inglês, clique aqui. E para ler em português, aqui 

A série True Detective (1ª temporada – 2014), de Nic Pizzolatto

O seriado True Detective foi uma das grandes surpresas deste ano, vencedor de quatro Emmys e conquistou muitos fãs para a próxima temporada, com elenco e enredo independentes. A 1ª temporada contou a história de dois detetives, Rust Cohle e Marty Hart, que precisam encontrar um assassino em série em Louisiana. Os oito episódios mostram diversas linhas do tempo, com os 17 anos em que os dois estiveram envolvidos na investigação. O crime parece estar relacionado a uma seita religiosa que promete um encontro com o Yellow King (O Rei de Amarelo), por folhetos distribuídos entre as cidades. Uma das vítimas o tem em um caderno e sua morte apresenta um teor simbolista, quase um sacrifício às entidades. Aqui, o curioso é ver como alguns elementos da obra de Chambers são apropriados de forma inteligente. Encontrar Carcosa é quase o mesmo que olhar para o universo puro. A condição humana é explorada na série nas várias falas céticas de Rust e nos atos dos próprios personagens. Louisiana, tão inóspita quanto o deserto que vemos no conto As Demoiselles d’Ys, é opressora e cheia de camadas como Carcosa.

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