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Categorialiteratura

Águas

Bacia hidrográfica,
Drenada por afluentes e subafluentes,
Tal qual letras entrelaçadas com outras
Originando frases, as vírgulas as interrompem.
O mar de Aral suplica por água.
Aquela que lhe foi tirada,
Que desviara os olhos do lago salgado,
Agora é como um mar no deserto,
Solitário.
Grandiosos pluviais,
Rios que encharcam a terra e trazem fertilidade,
Águas tão aguardadas no sertão.
Puramente águas que secam no período da estiagem
E fica na lembrança o momento em que foram abundantes.
A água que banhara outrora população
Não é mais a mesma que a banha hoje
São águas históricas que se renovam
Em eternos moinhos.

Certezas?

São das dúvidas que eu vivo.
Crio, recrio, descarto modelos.
Há mais no mundo para se (tentar) descobrir
Mas é o desconhecido, a assimetria que deve prevalecer.
É a loucura que faz do homem alguém sensato,
Que vê o firmamento sempre de uma nova maneira.
Pode parecer uma contradição:
O homem precisa de algo em que se sustentar
Porém,
Debruçar-se apenas nas verdades fornecidas,
Viver com receio de agir por si mesmo,
É uma forma de só desvalorizar a razão humana.
O pensar, o agir
Perdem-se no meio das ideias que acobertam o homem
E este se aprisiona em si mesmo.
Como?
Exatamente aquilo que ele procura como certeza,
Uma busca incessante e desvairada,
É só a tentativa de trazer ordem para si mesmo.
E o círculo das certezas o pressiona e se transforma num monstro.

Tristeza

O que fazer com a dor
que se sente repentinamente?
Inexplicável,
Indizível,
Indefinida, simplesmente.
O que fazer?
Deixá-la ilustrar
uma folha em branco,
enfeitá-la com versos livres.
Só assim a tristeza,
sem explicação,
ganha sentido.
Agrega a dor
ao lirismo e assim
a desmancha em letras.

Arte poética

Estou numa alfabetização poética
Sim, eterna!
Eterno aprendizado das letras
Parece que foi ontem que comecei a escrever
Poemas? E foi mesmo!
Comecei com uma rima atrevida… sem propósito
Apenas o de ver as palavras se casar
Em rimas e amores!
Ainda há muita métrica pela frente,
Rimas para descobrir e adorar o verso livre
O poeta é como o ourives,
Já dizia Olavo Bilac,
Cria jóias a partir da pena.
Para mim, as palavras nunca serão perfeitas
Como o mais belo cristal
Sim, serão belas!
Mas se fossem perfeitas,
Qual seria o encanto de escrever mais e mais?
Só escrevo com ímpeto:
O de tornar as palavras humanas no papel
É um atrevimento?
Ah, tal qual é o de escrever uma poesia!

Parvos e o riso

Após um longo mas excelente debate sobre o riso, o autor Gil Vicente e o parvo (o bobo da corte ou atualmente o Chaves, do seriado, que nos faz rir de maneira debochada sobre tudo), minha professora de Literatura ofereceu uma carona até o metrô, a mim e a mais dois amigos. Ela é assim, busca fazer de tudo pelos alunos, desde dar uma carona até ficar horas explicando uma pergunta feita. Ela é única.

Bom, já estava em cima da hora, era rodízio. Minha amiga falava de psicologia, meu amigo cantarolava uma música de Glee, dentro do carro era uma verdadeira representação do teatro vicentino: alegre, profano, uma forma de promover uma “válvula de escape” – claro, todos se sentiam bem por ser finalmente sexta-feira.

Eis que no meio da bagunça, cada um comentando um fato, um livro que leu ou o quanto determinada aula foi cansativa, minha professora diz, repentinamente:

-Cadê os “marronzinhos”?

Rimos demais. Para alguns isso pode realmente não ter humor algum. Ela repetiu a pergunta. Precisávamos ver se havia algum “marronzinho”, um fiscal da CET que poderia multá-la por ter passado dez minutos do limite estipulado do rodízio. Claro, estava chovendo e com grande trânsito, óbvio que é comum se atrasar em São Paulo.

Muitas vezes determinada frase, palavra dita não é engraçada. Mas se alguém do seu lado ri, o riso torna-se contagiante. É a Catarse, segundo Aristóteles. Sem ser teórica demais, a Catarse é o riso coletivo – ou choro – que é causado quando o indivíduo se identifica com o que vê num teatro grego. Rir traz prazer, mas contar a piada não tem só a intenção de ver o outro apreciá-la, e sim sentir o mérito por ter contado, o que gera o prazer. Assim, o riso precisa ter limites.  Não dá para rir descontroladamente num jantar ou reunião. O riso é uma arte que precisa ser usada nos momentos certos para causar impacto, o de desestabilizar quem ouve a piada ou até mesmo numa causa social, como ser irônico com o governo atual.

O riso tem um forte poder. Desde usar uma linguagem debochada para apontar os erros da sociedade tal qual José Simão faz nos textos da Folha de São Paulo até unir pessoas, sentir que há algo em comum entre elas. Após uma grande discussão sobre o riso, percebe-se que “A vida é uma tragédia quando vista de perto, mas uma comédia quando vista de longe”, como Charles Chaplin disse. É necessário ter um pouco de parvo em si mesmo.

O Gustavo Saito fez uma crônica sobre o tema. É interessante ver uma outra forma de narrativa!

O poder pelo poder

1984, de George Orwell

George Orwell, autor inglês conhecido pela obra A revolução dos bichos, também se tornou marcante pelo livro 1984. Este foi publicado em meados da década de 40 e retrata uma sociedade do futuro (para quem o escreveu em 1949!) extremamente distópica, coletivista, totalitária. Mesmo que o título refira-se a uma data específica, o romance é atual e traz questões que sempre devem ser levantadas pelo ser humano: o desejo de poder, o sentido de liberdade, democracia, a relação com o passado, a valorização das novas gerações, o controle do Estado.

O enredo narra a história de Winston Smith, um funcionário do Ministério da Verdade que não concorda com os ideais do Estado (nomeado Partido), “Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força”. Então começa a escrever num diário todo o descontentamento pela sociedade totalitária em que vive, apaixona-se por Júlia (isso era contra o Partido, que prezava mais a admiração pelo líder totalitário Grande Irmão do que o amor entre os indivíduos), tem acesso ao livro, secretamente escrito por Emmanuel Goldstein e que compõe a Confraria, organização contrária ao Partido.

1984 possui uma escrita simples, direta, bem explicativa e envolvente. Especialmente para o enredo o autor criou a Novafala, o idioma oficial da Oceânia, lugar onde se passa a história. É uma maneira criada pelo Estado para reduzir as chances de se expressar um pensamento. Além disso, há o termo duplipensamento, que Orwell criou: “é a capacidade de guardar simultaneamente na cabeça duas crenças contraditórias, e aceitá-las ambas”. Por exemplo, saber que a ideia do Partido é errada, mas se convencer de que é a certa.

A Novafala, os personagens, os departamentos que constituem o Ministério (do Amor, da Paz, da Verdade) trazem tamanha verossimilhança ao enredo que, ao final da leitura, o leitor preocupa-se com o perigoso poder totalitário concentrado na figura de o Grande Irmão, que é apenas um símbolo. A estrutura do Partido é semelhante ao comunismo da extinta União Soviética e ao poder exercido por Hitler durante a Segunda Guerra Mundial. Porém, há algo novo nesse Partido do Grande Irmão. O nazismo e o comunismo soviético possuíam métodos semelhantes ao do Partido fictício, porém não confessavam o que de fato os motivavam: o poder. Para o Partido, o poder é um fim em si mesmo; “nem riqueza, nem luxo, nem vida longa, nem felicidade: só o poder pelo poder, poder puro”.

Ao longo da História, para se obter uma sociedade totalitária, é como se o ditador dissesse que assume o poder temporariamente a fim de dominá-la para o próprio bem do ser humano, que não é capaz de governar-se sozinho. No caso, o ditador é uma espécie de tutor que “cuida” da sociedade. Mas, no enredo do livro, a figura do Grande Irmão é fictícia; o líder não é de carne e osso, ele veste apenas uma ideologia, a do Partido.

O passado, no livro, mostra-se mutável. Tudo pode ser modificado, desde as obras de Shakespeare até os documentos que comprovam promessas não cumpridas pelo Partido. Nessa sociedade distópica a memória é destruída, o que o Partido diz é uma verdade absoluta. Mesmo que “ontem” tenha dito que dois mais dois é quatro, no dia seguinte todos devem acreditar que dois mais dois é cinco, se for a versão contada pelo Partido.

Portanto, 1984 não pode ser lido como um relato das sociedades totalitárias. George Orwell foi mais ambicioso. Ele quis deixar o livro como um legado para a futura geração de 1984 ou para qualquer outra época. A sociedade distópica onde o personagem Winston vive pode estar mais perto de nós do que pensamos. A obra serve como um alerta para o que pode ser feito no futuro. Na História já existiram homens como o Grande Irmão. E a vontade de poder existe de fato. Sempre pode haver um Grande Irmão à espreita, “de olho em você”.

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