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“Liberdade moderada”

 

A Duquesa, de Saul Dibb

Inglaterra/França/Itália, 2008

Com Keira Knightley, Ralph Fiennes, Charlotte Rampling, Dominic Cooper

O filme A Duquesa narra a história real de Georgiana Spencer que, prestes a completar dezessete anos, casa-se com o inglês duque de Devonshire. Torna-se a duquesa de Devonshire. Porém, o casamento de ambos está longe de ser feliz e apaixonado. Georgiana, como todas as mulheres da época, em meados do século XVIII, devia conceber um filho a fim de ser o herdeiro do trono. Após alguns abortos, meninos que nasceram mortos, Georgiana teve apenas duas meninas e cuidou de uma que era filha do duque com uma criada que falecera. A vida de Georgiana era apenas cheia de luxos, roupas belíssimas, mas total infelicidade. O casamento piora quando Georgiana descobre que sua melhor amiga era amante do duque e, assim, percebe que nunca teria o final feliz que encenara para si mesma.

O cenário e o figurino do filme são belíssimos, traz à tela o Ancien Regime, período que antecedia a Revolução Francesa. A atuação de Ralph Fiennes é excelente, de tal forma que consegue transmitir a arrogância e o egocentrismo do duque, enquanto Keira Knightley incorpora a duquesa e lhe traz elegância e beleza.

Logo no início, percebe-se que a duquesa era engajada em questões políticas, diferentemente das mulheres da época. No primeiro jantar que Georgiana tem com o duque, após o casamento, convidados de um partido da época fazem um discurso sobre a ideia de liberdade regado a um bom vinho e jantar suntuoso exclusivamente ao duque. Quando questionada sobre o que achara do discurso dito no jantar, Georgiana diz diante de todos que a liberdade deve ser absoluta, direcionada a todos. Nessa questão, há apenas “sim” ou “não”. Georgiana não acreditava numa liberdade “moderada”, que fosse apenas para alguns; não se pode ser moderadamente morto, moderadamente livre. Desta forma, a duquesa logo mostra que sua intelectualidade se destacava além das roupas impecáveis que usava.

Mas, durante o filme, percebemos que é possível ser “moderadamente” livre, pois é o que acontece com ela. Georgiana não poderia separar-se do marido após saber de suas traições; não poderia casar-se com quem verdadeiramente amava e, muito menos, cuidar de suas filhas por conta própria. Sempre deveria ser a sombra do marido e aceitar as suas vontades. Aos poucos, a sua liberdade diminui;  a única “liberdade” que possuía era vestir o que quisesse, permanecer em casa com as crianças e encenar o casamento que toda a Inglaterra desejava ver. Nem ao menos ficar com a filha que tivera Georgiana pôde. Mas, claro, como boa esposa que deveria ser, aceitou as traições do marido.

Chega um momento em que o duque suspira e diz “como é bom ser livre”. O mesmo não se aplica a Georgiana, que vê sua liberdade e os sonhos serem meramente deixados de lado; a duquesa nem consegue conquistar a sua total liberdade (uma proeza que é impossível de se conseguir) e nem ter a tal liberdade moderada, que seria na medida certa. Georgiana renuncia todos os seus sonhos e ideais, tornando-se presa em si mesma.  A liberdade nunca será para todos, já que assim todos poderiam agir da maneira que quisesse, sem pensar na liberdade do próximo. Portanto, a liberdade precisa ter limite. Mas no caso da duquesa, a liberdade foi diminuíndo aos poucos até chegar o momento em que tudo com o qual sonhara fora renunciado.  Então, a pergunta que resta é como ser livre? Quanto vale renunciar alguns sonhos e ideais para ser feliz?

“Desenha-me um carneiro?”

 

Exposição O Pequeno Príncipe na Oca, Ibirapuera

Baseada na obra de Antoine de Saint-Exupéry, O pequeno príncipe

Um garotinho de cabelos louros como o trigo, vindo do asteroide B 612, que pede para um aviador perdido no deserto desenhar-lhe um carneiro e que ama uma rosa muito orgulhosa. Esse é o principezinho. Ou melhor, o pequeno príncipe, criado por Antoine de Saint-Exupéry.

Há décadas, o livro O pequeno príncipe encanta gerações através de sua inocência e valorização da infância. Agora é o momento de o personagem ser apresentado de uma forma diferente na exposição O Pequeno Príncipe na Oca, no Ibirapuera. A orientação é “para os viajantes, as estrelas são guias”. E são as estrelas que nos guiam durante a exposição; de trecho a trecho do livro, relembramos as frases sobre os baobás, a rosa, a raposa e os seus ensinamentos.

A obra deve ser lida durante toda a vida, sempre haverá novas interpretações do livro e retrata momentos da vida que se encaixam, particularmente, às experiências do leitor. Se for lido por um adulto, há a nostalgia em relembrar os sonhos da infância, uma espécie de resgate ao olhar metafórico essencial para se compreender o mundo. Por exemplo, no livro, o aviador apresenta aos adultos o desenho que fizera e todos acham que é um chapéu quando, na verdade, é uma jiboia digerindo um elefante. Ou seja, a ideia implícita, a imaginação é algo que muitos adultos esquecem ao crescer. Eles veem apenas o que querem ver: um chapéu. Os olhos deixam de ver o mundo metaforicamente.

A exposição possui um diferencial interessante: cada criança que a visita deve deixar uma mensagem para alertar os adultos de que algo deve ser feito para o planeta, cuidar do meio ambiente e preocupar-se com a sustentabilidade. Mas não são apenas as crianças que devem encenar o futuro que os adultos sonham; esses também precisam participar ativamente, se desejam que o mundo melhore.

O Pequeno Príncipe na Oca é excelente, possui boas ideias para recriar o personagem e apresentá-lo a uma nova geração; os cenários são feitos caprichosamente e passam, de forma simples, o enredo do livro e a história do autor.  A obra de Exupéry sempre será como uma viagem guiada pelas estrelas para o planeta do pequeno príncipe, um mundo dos sonhos. O mundo com o qual sonhamos através das utopias. E a essência do ser humano estaria em cativar, criar laços e saber que “a gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixa cativar”.

Bon appétit!

Julie & Julia, de Nora Ephron

Estados Unidos, 2009

Com Meryl Streep, Amy Adams, Stanley Tucci

O filme Julie & Julia mistura as histórias reais de Julia Child e Julie Powell. Em meados da década de 40 acompanhamos a história de Julia Child, uma mulher que se muda para Paris com o marido e, em busca de uma ocupação, resolve ingressar num curso de culinária frequentado apenas por homens. Com o seu jeito debochado, voz esganiçada e divertida, Julia Child aprende a cozinhar maravilhosas receitas francesas e resolve escrever um livro a fim de orientar mulheres americanas, “sem-empregadas” (como Child as nomeia), a aprender a culinária francesa. As vidas de Julia Child e de Julie Powell se cruzam, mesmo que o tempo e o espaço as separem.

Julie Powell, prestes a completar trinta anos, percebe que leva uma vida monótona, sem objetivos; tudo o que sonhara deixara incompleto, como o sonho de ser escritora. Então resolve criar um blog, Julie/Julia Project, em que aceitaria o desafio de cozinhar as 524 receitas do livro de Julia Child em apenas 365 dias.

O interessante do filme é constatar o quanto a vida de ambas são interligadas, já que Julie e Julia buscavam objetivos concretos, realizar os seus sonhos da melhor forma possível, mesmo que falhassem. A ideia de realizar os sonhos, em muitos filmes, pode ser absolutamente clichê. Porém, em Julie & Julia, é fácil identificar-se com as personagens e envolver-se com elas. É totalmente compreensível a tentativa de Julie em finalmente concentrar-se em seguir o caminho que sonhara, a de ser escritora. Para alguns pode soar como loucura fazer todas as receitas do livro de Child. Mas é desta forma que Julie aprende a salvar a si mesma, a retomar os sonhos supostamente perdidos. Cada receita é um obstáculo superado e uma forma de Julie ver que possui o próprio valor.

Além do enredo leve, a atuação de Meryl Streep como Julia Child é de nos encantar tanto quanto as deliciosas receitas francesas. Comparando a personagem com a Julia real, são muito parecidas. Meryl Streep mostra que a sua intenção é nos apresentar essencialmente a mulher Julia Child, e não fazer apenas uma imitação.

Em suma, Julie Powell e Julia Child se completam. Para uma geração de mulheres que consumia apenas produtos enlatados, Julia Child significou muito para a gastronomia, mostrou que esta pode ser acessível e que possui o seu valor. Cada ingrediente, cada detalhe de uma receita poderia fazer a diferença para criar uma verdadeira obra-prima. E Julie Powell, ao criar o desafio para si mesma de testar as 524 receitas, viu que é capaz de arriscar-se pelos próprios sonhos, mesmo não tendo a certeza se conseguiria, de fato, realizá-los. Assim, Julie & Julia é tão sublime que consegue convencer que qualquer um é capaz de seguir as receitas de Julia Child e escolher os ingredientes essenciais para construir a própria vida. Bon appétit!

Os “garotos perdidos”

 

Trabalho de Filosofia “O fim da infância” (adaptado) – Setembro de 2009

No livro de J.M.Barrie, Peter Pan, há os garotos perdidos. No enredo, eles são aqueles que, por descuido da babá ou da mãe, caíram do carrinho durante passeios no parque e foram levados à Terra do Nunca. Lá, como não possuem mães, estão isentos de obrigações, obedecem apenas ao Peter Pan. Baseando-se nesses personagens, hoje se vê exatamente “garotos perdidos” em sociedade, crianças que são abandonadas a si mesmas e que não possuem a proteção de tutores que os guiam à luz do esclarecimento. Os garotos perdidos na sociedade buscam algum caminho para seguir e estão crescendo rapidamente, até de forma precoce. Ou seja, a infância está acabando.

Com a ideia de fim da infância, analisa-se a crise na educação e a sua influência na concepção de infância a partir de Hannah Arendt, que criticou três pressupostos básicos. O primeiro demonstra a existência de um mundo da criança e uma sociedade formada entre crianças. O adulto, ao não assumir a responsabilidade pela criança, deixa esta a mercê da tirania da maioria.  É um engano acreditar que a criança possui a liberdade de agir e ser independente a partir do momento que o adulto livra-se da obrigação de zelar por ela; pelo contrário, quando é abandonada pelo tutor diante de outras crianças, ela precisará fazer a escolha de rebelar-se e sofrer as consequências por ser a única a agir de tal maneira, ou aceitar a tirania da maioria, isto é, “solidarizar-se” com as demais de sua classe.

Para exemplificar, é possível imaginar uma rua em movimento. Há um grupo de crianças prestes a atravessar a rua e uma delas segura a mão de seu tutor. Este solta-lhe a mão e simplesmente a deixa diante do movimento dos carros. A criança terá que escolher se seguirá em frente com as demais, se continuará parada ou se sairá correndo em outra direção, sem destino. Assim, a criança é abandonada a si mesma, pois não possui a “direção estranha” que possa guiá-la, ou submete-se a tirania do grupo. Ela não consegue retornar ao mundo adulto – foi banida deste – e nem argumentar com as outras crianças.

O segundo pressuposto relaciona-se com o ensino. Antes se acreditava que o professor era aquele que poderia ensinar qualquer coisa, detinha um grande conhecimento. Entretanto, agora o professor se forma baseando-se mais na metodologia de ensino, isto é, como irá encaminhar os alunos, do que na matéria em si. Ao prezar demais o método, em vez de preocupar-se mais com o conteúdo, o professor procura saber apenas um pouco mais que o aluno, e este é abandonado aos próprios recursos, tendo que aprender sozinho. Esse papel dos professores só se tornou possível com a ideia do terceiro pressuposto, o da aprendizagem.  Nesse, o pragmatismo é uma grande característica; é substituir o aprender pelo fazer, pela experiência. A criança aprende sozinha como se brincasse, característica “natural” dela. Assim, a instituição escolar busca satisfazer o desejo lúdico e narcísico de brincar, levando a criança a aprender apenas através do entretenimento.

É exatamente a partir dos três pressupostos que se entende o porquê do autor Kincheloe afirmar que as crianças vão aprender sozinhas e sem pedirem permissão aos adultos, em matéria publicada pela revista Superinteressante. A partir do momento que o professor e os tutores deixaram de legitimar a sua autoridade, a criança foi abandonada a si mesma. Com isso, ela precisou recorrer a outros meios de aprendizagem como a mídia (TV, internet); o fácil acesso a esses meios permite, através do entretenimento, do fazer, que a criança absorva informação rapidamente.

Desta forma, pergunta-se: afinal, o que é o conhecimento? As crianças que recorrem às mídias não aprendem como agir perante a sociedade, os preceitos que constituem o mundo público. Elas não têm contato com as ideias do passado a fim de reconstruir o futuro; têm apenas contato a informação, esta totalmente imediata, ao alcance da maioria. Como os adultos podem sonhar com um futuro nas mãos das crianças se preferem livrar-se da responsabilidade de cuidar delas? A construção efetiva de um futuro bom apenas ocorrerá se a criança receber uma base para isso.  E essa base é o conhecimento, algo que se conquista aos poucos, com a dúplice proteção, protegendo a criança do mundo e vice-versa. Se a criança é abandonada, mesmo que represente ainda o mito da infância, não terá a capacidade de construir a própria geração. As crianças estão simplesmente a mercê do narcisismo adulto. É um paradoxo e tanto: o adulto idealiza a criança como perfeita e única esperança para as frustrações humanas, mas é abandonada pelos tutores, pois estes não querem assumir a responsabilidade pelo curso do mundo.  

Essas crianças podem ser comparadas ao personagem criado por Antoine de Saint-Exupéry em O pequeno príncipe. O principezinho, como as crianças atuais, é um andarilho, percorre o mundo em busca de uma orientação. Na história, o pequeno príncipe encontra diversos adultos como o empresário, o vaidoso, o bêbado, o rei, o geógrafo. Nenhum deles espanta-se com o fato de uma criança vagar pelos “planetas” ou pelo mundo a fim de descobrir por conta própria alguns dos mistérios da vida; eles estão apenas preocupados com a própria vida dentro de uma redoma de vidro que os isola do restante.

Portanto, é isso que se sonha para o tão esperado futuro? Que crianças, como o pequeno príncipe, vaguem sozinhas pelo mundo em busca de alguma direção, sem possuírem uma base para constituir-se como sujeito? Os mesmos que idealizaram o mito da infância deveriam perceber que ela está acabando e que o seu fim realmente irá repercutir no futuro. Incentivar o isolamento dos indivíduos, seja criança ou adulto, levará a sociedade à deterioração. Devemos preocupar-nos em reassumir a autoridade, garantir a transmissão do conhecimento e preceitos às próximas gerações a fim de preservarmos um “livro” de História. Um povo com um livro em branco não tem por que existir. Possuir uma História que possa ser passada ao longo do tempo permite a permanência do homem na Terra, de ser lembrado por sua relevância. E, assim, prossegue a Humanidade, em que “ninguém banha-se duas vezes no mesmo rio”.

Do outro lado da cerca

 

O menino do pijama listrado, de John Boyne

O livro de John Boyne é mais um que opta em abordar o Holocausto, este sob o ponto de vista de uma criança. Narra a história de Bruno, um garoto que morava com a família em Berlim. A família precisou se mudar, pois o pai havia sido nomeado comandante e respondia às ordens diretas de Hitler. Assim, foram morar numa casa em frente ao campo de concentração de Auschwitz. Num dos dias que arrisca fazer uma “expedição” pelo local, Bruno descobre um menino de pijama listrado do outro lado da cerca, que dividia o campo de concentração da casa do comandante. “E então, conforme Bruno chegava perto, ele viu que não era nem ponto nem mancha nem forma nem vulto, e sim uma pessoa. Na verdade era um menino.” É assim que começa a amizade entre o menino Shmuel e Bruno.

O livro encanta por colocar em questão a inocência da criança na Segunda Guerra Mundial. É interessante ver Bruno chamando Hitler (o Führer) de O Fúria, já que era uma criança e era isso que a palavra lhe parecia quando pronunciada. O mesmo ocorre com o nome do campo de concentração, que lhe parecia ser Haja-Vista.

Mas gostaria que o livro fosse um pouco mais fiel ao contexto histórico. O livro mais parece uma fábula, porque não retrata exatamente o horror pelo qual o menino Shmuel passara. O menino do pijama listrado é o grande personagem da obra, porque o orgulho que Bruno tem do pai chega a irritar, às vezes. Obviamente, toda criança exalta a figura paterna, como se fosse um herói. Mas fiquei na expectativa de que Bruno visse com mais clareza que tudo o que ocorria com o seu amigo era culpa de O Fúria.  Mesmo assim vemos que, aos poucos, o mundo de Bruno se abre com a amizade de Shmuel. E a aparente diferença entre ambos se dissolve com o carinho que adquirem com a convivência.

A obra em si vale muito a pena, mesmo que poderia ser mais fiel a História. Porém, isso pode ser considerado até mesmo um diferencial: ao invés de deixar claro o que ocorria na Segunda Guerra Mundial, o livro enfatiza mais a relação social, no caso a amizade “impossível” para a época, entre um alemão e um polonês. E, mais uma vez, no final surpreendente, é possível se emocionar com a amizade sublime entre Bruno e Shmuel. 

Ao vovô

Hoje, como é dia 9 de dezembro, faz cinco meses que meu avô faleceu. Esta homenagem escrevi no momento que soube que ele havia morrido. E, como forma de homenageá-lo, resolvi contar a sua história, a verdadeira herança que me deixou.

Malba Tahan, pseudônimo do autor de “O Homem que Calculava”, afirmava haver algumas características fundamentais que um contador de histórias deve ter como sentir, viver a história de modo que nos desperte o interesse pelo enredo. Sendo assim, tenho uma bela história para contar. Não é nenhuma história de contos de fadas, obviamente; e sim, de alguém anônimo e que, aqui, se tornará o protagonista. Estou falando de meu avô, Flávio Mastrangelo.  

O pai dele, Júlio Mastrangelo, veio com a esposa da Itália e aqui no Brasil teve quatro filhos: Hermínia, Maria, José e Joana. Ficou viúvo, mas depois casou-se novamente, com Achilina Serpa, também imigrante italiana. Achilina assumiu os filhos do marido com a falecida esposa, cuidando deles como se fosse fruto de sua união com Júlio, dedicando todo o seu amor. Tiveram, mais tarde, quatro filhos: Norma, Assumpta, Maria e Flávio.

Flávio Mastrangelo, meu avô, nasceu em 1928, no bairro da Penha. Aos doze anos, Júlio pôs o filho para trabalhar em uma oficina de charrete, em frente ao cemitério da Penha. Na mesma época, ingressou numa escola de música. Aprendeu a divisão de músicas, a posição de notas, a ler partituras. O pai de Flávio o orientou a aprender a tocar piston, pois era um instrumento musical fundamental em uma orquestra. Então, se encantou pela música, arte presente em boa parte de sua vida.

Aos dezessete anos, começou a trabalhar na Estação da Luz. Ficou na Estação da Luz até os quarenta e nove anos de idade, ou seja, trinta e dois anos na mesma empresa, quando se aposentou.

Também aos dezessete anos de idade, iniciou-se na música, tocando em uma banda uma vez por semana, apresentando-se em circos, bailes de formatura, quermesses. Ganhava-se pouco e era um complemento para o sustento da família. Tocou com uma orquestra, de quinta a domingo, durante oito anos. Fez parte também da orquestra de Francisco Petrônio, viajando para o Nordeste e várias cidades do interior de São Paulo. Tocava também em bailes de carnaval, durante as matinês e as noites. Ganhou prêmios, homenagem da Ordem dos Músicos do Brasil, pelo seu trabalho musical.

Mais tarde, Flávio conheceu a esposa Izilda Nunes, casaram e tiveram quatro filhos: Rosemaria, Rosana, Renata e Flávio, os dois últimos, gêmeos. Nas datas especiais como natal, ano-novo, aniversários, Flávio nunca esteve presente com sua família, pois sempre estava trabalhando, era necessário para o sustento da família.

Em dezembro de 2007, foi submetido a uma cirurgia no estômago, obtendo sucesso, em que os médicos disseram que houve um milagre em sua ligeira recuperação, por estar mais ativo e saudável. Durante um ano e meio, não teve nenhuma complicação. No entanto, desde abril de 2009, sua saúde ficou um tanto debilitada, pois já passara por diversos tratamentos anteriormente. Foi internado na UTI, onde permaneceu por 10 dias. O organismo de Flávio não aguentou e ele veio a falecer no dia 9 de julho de 2009, deixando a família Mastrangelo incompleta.

Enfim, meu avô Flávio foi uma pessoa generosa e muitíssimo esforçada, durante toda a vida. Trabalhava para o sustento da família, transmitia amor e valores éticos aos filhos e netos. Com ele, é como se eu possuísse um elo ao passado. Contava-me sobre a época que vivera, as mudanças que presenciara na antiga São Paulo. Os jovens deveriam visualizar os mais velhos dessa forma, alguém que transmite a cultura do passado para que seja possível, hoje, construir uma nova geração.  Como disse, certa vez, o músico Louis Armstrong, de quem meu avô era muito fã, “Os músicos não se aposentam, param quando não há mais música em seu interior”. Meu avô faleceu, mas deixou como herança uma história belíssima.

Erros e acertos

  

Cansativos 2 dias para aplicar 

Conceitos de álgebra, história

Mas afinal, o Enem vai avaliar 

Tudo que tenho na minha memória? 

  

De um teste a outro tento mostrar 

Tudo aquilo que adquiri 

Acerto questões no vestibular 

Mas em algumas vejo que esqueci! 

  

E entre erros e acertos, 

não são apenas testes que irão avaliar  

tudo aquilo que o aluno for conquistar

P.S. Isso é para incentivar algumas pessoas depois da prova do Enem de 180 questões!

Razão, dialética…a filosofia

 

Levava uma vida um tanto comum  

Mas veio algo que me mudaria 

Razão, dialética, o uno é um 

Enfim, surgiu a filosofia! 

 

Kant e o imperativo categórico 

Platão e o mundo das ideias 

Persuadia-me o discurso retórico 

Os gregos ensinando a paideia

 

Ser ou não ser 

Mito ou razão 

É difícil escolher

 

Assim vou me esclarecendo

Entre um filósofo e outro, 

vejo que a História vou reescrevendo 

(Re)escrever

Escrever é também   

reescrever infinitas linhas, 

mal em face do bem,

os fatos mudam como caminhas!

Assim o mundo é recriado  

Rumo a um futuro sonhado

♥♥♥

Dístico:

Quero maravilhar as pessoas com lindas histórias,  muitas para escolher

Mas escrevo, apago, risco;  não sei o que escrever!

 

O fim do mundo em 2012?

2012 de Roland Emmerich

Estados Unidos, 2009

Com John Cusack, Danny Glover

Cristo Redentor sendo destruído em segundos, ondas gigantes engolindo cidades, vulcões entrando em erupção. Esse é o cenário do fim do mundo retratado no filme 2012.

O diretor Roland Emmerich, consagrado por filmes como Independence Day, O Patriota, O Dia Depois de Amanhã, 10.000 a.C, e por aí vai, mais uma vez destrói o mundo. Se tsunamis e um navio no meio de Nova York como em O Dia Depois de Amanhã nos choca, em 2012 ficamos ainda mais perplexos. Os efeitos especiais são responsáveis por isso, proporciona cenas bem realistas como a de o Cristo Redentor sendo destruído e de uma onda engolindo um cruzeiro. Mas, ao assistir 2012, é importante vê-lo apenas como um filme, e não uma forma de confirmar o futuro fim do mundo.

Um dos personagens, no início do filme, explica que neutrinos sofreram mutações. Mas, de acordo com uma matéria de Marcelo Gleiser, publicada na Folha de São Paulo, é impossível neutrinos sofrerem tais mutações. Basicamente, o Sol passa por ciclos, em que no máximo deles há um aumento das manchas solares e emissão de matéria. Como isso acontece entre períodos, esse tal aumento estaria previsto para 2011. Haverá tempestades solares, algumas maiores e outras não, mas nada que não seja normal do ciclo.

Por sermos seres humanos e supostamente finitos, é óbvio que pensemos num fim do mundo. Deixarmos de existir é um medo coletivo. E não é algo único de nossa época, século XXI. Povos anteriores já temeram o mesmo.

A base que apóia o filme é o calendário Maia que prevê o fim do mundo no dia 21 de dezembro de 2012. Eles acreditam que nesse dia o mundo entrará em um novo ciclo. Mas como o povo Maia poderia já prever o fim do mundo em uma data tão distante do momento em que viviam? E ainda, como teria uma grande noção de tempo como essa?

Tudo isso que eu citei faz-me lembrar de algo ainda maior: a fascinação do homem pelo mito. Na Grécia Antiga, um mito era a história de deuses que possuía a finalidade de explicar a vida como ela era. Quando havia seca ou doenças, o mito era a forma de se explicar os acontecimentos. Assim, quando surgiram os primeiros filósofos, esses tentaram desmentir os mitos, tentando encontrar explicações menos fantasiosas. Então, será que a ideia de fim de mundo relacionada a 2012 não poderia ser mais um mito?

Enfim, o filme 2012 é bom como entretenimento, é possível apreciá-lo sem entrar em pânico. É claro que eu e você podemos temer que tudo acabe, é totalmente compreensível, ainda mais com os acontecimentos naturais que têm acontecido e a condição humana que precisa ser mudada. Mas não vá ao cinema com uma sensação de fim de mundo, que você deve sair por aí fazendo o que quer, como se estivesse aproveitando a vida intensamente. Quem sabe a tal data não pode ser o início de uma nova era, mesmo que utópica? Não podemos saber ainda. Talvez o problema de 2012 seja que ele se leva a sério demais, como se o fim já estivesse extremamente próximo e confirmado. Viva sua vida, mas não em função de uma data. E veja o cinema como uma obra ficcional, pois nunca será igual à realidade.

Chopin e um sobrevivente

O pianista de Roman Polanski

França, 2002

Com Adrien Brody, Thomas Kretschmann , Frank Finlay , Maureen Lipman , Emilia Fox

Varsóvia, 1939. Um pianista tocando delicadamente Chopin, numa rádio. Repentinamente, o local começa a ser bombardeado, mas o pianista não deixa de tocar a sua música, mesmo que todos já tenham ido. É como se estivesse imerso num sonho; continua a tocar enquanto estilhaços de vidro e segmentos de pedra caem sobre sua cabeça. Ele vê o que ocorre à sua volta, mas prefere não desistir. Esse é Wladyslam Szpilman, personagem do filme O pianista. E é assim que somos apresentados a ele.

Roman Polanski, diretor do filme, ou melhor, da obra-prima, consegue chocar-nos com o filme. Retrata os horrores da Segunda Guerra Mundial. Hoje esse tema pode já estar um tanto repetitivo, porém depende do diretor que o aborda. E Roman Polanski, sem dúvida, conseguiu colocar O pianista como um dos melhores filmes atuais, vencedor de 3 Oscar (diretor, ator e roteiro adaptado).

Revendo filmes acerca do Holocausto e Segunda Guerra Mundial, O pianista se difere em um ponto importante: a proeza do herói é sobreviver. Parece que a morte lhe acompanha por todo o caminho, mas é como se ela desviasse de Szpilman. Ou ele desvia dela.

Acompanhamos Szpilman na sua tentativa de sobreviver. De um esconderijo a outro, ele consegue fugir. E assim, a cada tentativa de sobrevivência até o final da guerra, é que nos surpreendemos. O mais interessante é que não se trata de ficção, Szpilman realmente existiu. E o seu livro, hoje nomeado de O pianista, foi a base do roteiro. Após ter passado pela Segunda Guerra Mundial, ele relatou o que ocorrera, mas a sua perspectiva da guerra incomodara as autoridades (grande novidade). Assim, teve a tiragem de livros reduzida.

Para quem quiser ver o filme (o que aconselho, vale a pena), devo destacar que preste atenção nas músicas do filme. São do pianista polaco Chopin e são elas que direcionam o filme às melhores cenas. É surpreendente “sentir” a emoção da música, como se estivéssemos com Szpilman na mesma jornada. A cena em que ele toca Ballade nº1 diante de um soldado é incrivelmente emocionante e é o clímax do filme. Depois dela, não se sabe o que vai ocorrer com o personagem. É o primeiro momento que ele pôde tocar, deixar-se ouvir. A música, representando a alma de Szpilman, precisou manter-se reprimida para sobreviver. O toque do piano existia apenas na memória dele. Quando se depara com um futuro extremamente incerto, se sobreviverá ou não, Szpilman expõe sua alma e a infelicidade pela qual passara. E é Chopin que silencia-nos a fim de ouvirmos o sentimento do personagem. A música invade o filme e nos emociona.

O pianista do início do filme, aquele que continuou a tocar mesmo com a cidade sendo bombardeada, sempre esteve em Szpilman. A guerra apenas tratou de colocar o sobrevivente num palco principal. Apenas ele e o piano.

Compaixão

Uma bela borboleta passou pela majestosa janela de vidro. As asas possuíam uma mistura fascinante de rosa e lilás. Tinham algumas pintas amarelas e pretas. A forma de voar era leve, suave, lembrava uma delicada e tímida bailarina que não tinha conhecimento de quanto era bela. A borboleta parou abruptamente ao ver a menina por trás da janela de vidro.

Essa fração de segundo parece que durou uma eternidade. Houve uma compaixão por parte da pequena menina pela borboleta e vice-versa. A garota tocou o vidro com sua mãozinha, buscando um toque, uma aproximação. Os grandes olhos castanhos da menina observavam a delicadeza e a presença de belas cores na borboleta, num misto de curiosidade e fascinação. É raro hoje em dia ver algo tão natural e belo. O clima preto, branco e acinzentado da cidade, essa rigidez não é exatamente um bom plano de fundo para a fragilidade da borboleta. Nada mais é percebido, notado. Os olhos do ser humano possuem apenas função prática, assim deixam de metaforizar ao contemplar o mundo. O cotidiano não permite que se pare para admirar o que ocorre a sua volta. E ver uma pequena e delicada borboleta faz pensar que algo tão ingênuo se contradiz a severidade da cidade. A borboleta incorporara uma antítese. Comumente a beleza não é notada, porém, naquele momento, a borboleta tornara-se a bailarina principal de um grande espetáculo. 

Para a borboleta, era incrível ver algo, alguém, tão grande. Tão diferente de si. Mas ao mesmo tempo em que aquela figura por trás do vidro lhe encarava, também via fascinação por parte dela. Um carinho, respeito. Tão diferente de muitos dos sentimentos que ela presenciara em outros momentos.

O chamado ser humano devastando florestas, devastando ao mesmo tempo habitat de diversas espécies. Os animais se sentiam aterrorizados. Pássaros viam seus ninhos destruídos e a perspectiva de continuar a espécie também.

Tráfico de animais silvestres, crueldade a que animais eram submetidos. Fatos assim não ocorriam perto apenas da borboleta. Focas lá no Ártico são friamente mortas apenas para satisfazer um tolo capricho de alguém que acha interessante ostentar uma pele ou uma bolsa de crocodilo. Fêmeas de ursos polares chegam a ficar um bom tempo sem se alimentar, esperando seus filhotes nascerem. Quando estes nascem, ela vai em busca de alimento para ela e para a cria. Porém, com o derretimento das calotas polares, não há um solo seguro para ela procurar alimento e muitas vezes nada por quilômetros em busca de um gelo rígido sob suas patas.

A borboleta, ao ver a expressão da garota lhe admirando, começou a acreditar que em algum lugar poderia haver um ser humano que saiba admirar o animal sem querer tê-lo. O quanto pode ser diferente amar sem possuir, o quanto apenas um gesto, apenas um olhar, poderia significar para a Humanidade.

"A borboleta parou abruptamente ao ver a menina por trás da janela de vidro"

O telefonema

Esse foi o meu primeiro conto publicado no jornal! Ele é meio velho já, mas tá valendo…

O telefonema pegou-a de surpresa. Atendeu com impaciência, os olhos presos a um livro que tinha nas mãos, uma história policial que não conseguia parar de ler. Era bom estar sozinha, lendo um livro de suspense numa noite de ventania. O sábado já estava quase no fim e ela ali, presa aquelas páginas. A personagem parecia estar vivenciando o mesmo que ela vivenciara. Seus olhos se encheram de lágrimas. Não queria mais lembrar do passado. Seus pensamentos voaram para aquele dia fatídico, enquanto segurava o livro. O lugar onde estava era para ela uma espécie de redoma, onde se isolava do que acontecia lá fora, preferindo ficar naquela sala. Era um lugar especial. No meio, dois sofás vermelho-berrantes confortáveis, apinhados de velhas almofadas. Um tapete comprado num brechó, o pó encobrindo os pequenos detalhes daquela raridade, as frágeis mesinhas, com estátuas de anjos. As estantes de velhos livros, de capas duras e de couro, as poltronas de veludo antigas, confortáveis, a escrivaninha quase vazia, os belos quadros nas paredes mostravam diversos cavalos, correndo em campos de trigo. Queria experimentar aquela liberdade dos encantadores cavalos. Porém, lembrou-se do telefone em sua mão. E sim, o som do telefone era uma intromissão, um estorvo. Atendeu a contragosto.

– Alô

– É a… Clarice?

– É, sou eu. Quem está falando? – Clarice disse num tom de voz já um tanto exasperado. Quem será àquela hora?

– Bom, talvez não se lembre de mim, sabe, o Eduardo, da faculdade de…História.

A menção sobre a faculdade de História fez Clarice mudar seu tom de voz. Empertigou-se na velha poltrona que estava sentada.

-Eu…ahñ…não me recordo…de você, quero dizer…você estava lá? – disse insegura, fechando bruscamente o velho livro de suas mãos.

-Bem, estava. Sabe, eu me encontrava na biblioteca, fazendo pesquisas, aí ouvi vozes bem elevadas, parecia uma discussão. Mas achei que não fosse algo realmente grave a ponto de… – sua voz foi sumindo. O fato ocorrido, Clarice já tinha conhecimento e sentir alguém falar daquilo despertou tudo o que relutara a dizer em voz alta. As lágrimas escorriam por seu delicado rosto, o coração parecia querer irromper, ardia tanto, parecia sangrar de tamanha dor. A terrível dor da perda. Mas então um lampejo; se lembrou, o Eduardo, aquele com quem estava naquele momento ao telefone, a tirou rapidamente da cena terrível para que não visse mais aquilo. Agora se recordava, as mãos desconhecidas puxando com firmeza os punhos de Clarice, como se aquele estranho quisesse tirá-la daquele mundo agora difuso, sem sentido, que parecia não pertencer a ela.

-Eu…me lembrei de você…hum…obrigada por me tirar dali. Sabe, depois daquilo tudo, resolvi sair da faculdade, não…tinha mais sentido seguir sem ele. Planejávamos tantas coisas…e ele se foi – sua voz estava trêmula. A idéia de falar sobre o que sentira naquele dia com um desconhecido, era ao mesmo tempo, estranho, porém reconfortante. Pelo menos, não teria que agüentar seu olhar penalizado, pois afinal, estavam se falando por um telefone.

-Eu…sinto muito, Clarice, eu não pude fazer nada! Eu sei que não a conheço de verdade, mas…se eu pudesse adivinhar que o seu irmão…bem, morreria num corredor perto ao da biblioteca, onde eu estava, eu faria alguma coisa. Sabe, o Felipe tinha um bom coração. Ele era o único que não me ignorava. Por isso, eu devia ter feito algo…

-Vamos, não se culpe – interrompeu Clarice. Uma repentina compaixão por Eduardo se aflorara. Ninguém tivera culpa, só…tinha que acontecer. E os mistérios da morte ninguém, algum dia, irá explicar. Por que Felipe a deixara? Esse pensamento a perturbava. Então, desabafou:

-Ele me faz uma enorme falta, ele se preocupava muito comigo – disse com a voz fraquinha, as lágrimas lhe molhando o rosto. Respirou fundo, tentando se acalmar – o Felipe era meu único irmão. Éramos muito ligados. A faculdade era um sonho para nós. E, após nos esforçarmos tanto para entrar na faculdade, o Felipe, que antes vivia em um mundo pequeno, onde suas amizades eram as mesmas durante anos, começou a entrar em conflito. As pessoas eram diferentes dele. E aí começaram as confusões, principalmente com alunos mais populares. E bem, eles não tinham lá um bom caráter e resultou…neste trágico desentendimento e ele…me deixou, com uma vida sem sentido nas mãos. Falar tudo aquilo, explicar o que aconteceu, aliviava um pouquinho o sofrimento em seu coração – Mas, e se eu não tivesse insistido em entrar naquela faculdade, esta desventura teria ocorrido?

– Clarice, esta dúvida irá nos perturbar sempre. Às vezes, a vida é incerta, mas acredite, somos nós que a construímos até o momento que vivenciamos hoje. Por que você não se dá uma nova chance, recomece tudo. Já faz um ano que aconteceu e você precisa retomar tudo o que deixou – sua voz deixava claro de que a apoiaria, mesmo ambos sendo desconhecidos um para o outro, sentiam a mesma tristeza.

Então, Clarice viu naquele momento que a própria vida estava lhe dando um recomeço. E ela, Clarice, deveria fazer as próprias escolhas. Eduardo ligara para ela justamente naquela noite que, no início, atendera ao telefone com impaciência; e agora, após combinar de se encontrarem, vira que deveria sim, mudar. E seria a partir daquele momento.

Abriu novamente o suspense policial na parte em que parara e reparou, então, que a personagem se dera conta de que nunca há um fim e sim, um recomeço.

O dia da Criação

Nada como começar esse blog com a crônica que escrevi, O dia da criação, uma releitura do poema de Vinicius de Moraes. A crônica ficou entre as cinco finalistas do concurso estadual promovido pela Companhia das Letras em homenagem ao poeta.

O sábado é o tempo presente, o aqui e agora. É impossível escapar da realidade de que o domingo é imprevisível e que possuímos apenas o sábado para valorizar a nossa existência. “Hoje é sábado, amanhã é domingo. Não há nada como o tempo para passar”. Se Deus tivesse descansado no Sexto Dia, não haveria o ser humano. Como seria o mundo sem a nossa presença?

 É no presente, sábado, que observamos a ação humana no mundo. Ao ler o jornal, deparo-me com os absurdos cometidos pelo Homem: a mulher que apanha e cala; as criancinhas que não comem; o piquenique de políticos; adolescências seminuas; um grande aumento de consumo. Tudo isso foi feito pelo Homem. Se Deus não tivesse nos criado, haveria injustiça e maldade?

Será culpa do Homem, ao olhar para uma criança de rua passando fome, simplesmente desprezá-la e deixá-la à mercê do mundo? As crianças são abandonadas; são como andarilhas, vagam pelo mundo sem orientação de um tutor que possa zelar por elas. Nem os pais, nem o governo procuram mais responsabilizar-se pelas crianças, pois querem ver-se livres de obrigações, o que implica na isenção da transmissão da História da Humanidade às próximas gerações.

A imagem do jovem é construída com grande apelo sexual, que expõe o adolescente de forma precoce ao mundo adulto. Quando passam a integrar, antes do tempo, o mundo público, a criança e o jovem sentem-se perdidos e encontram nos objetos consumíveis uma forma de aproveitar a vida. Estamos nesse mundo narcísico, cada qual na própria “ilha”. Tudo isso é o que presenciamos no “sábado”, é preciso apenas olhar em volta.

Então, como seria se não houvesse seres humanos? Deus teria descansado no sábado após a divisão das luzes e trevas, a separação das águas, a fecundação da terra e a gênese dos animais. Não haveria a maldade, o egoísmo e a vontade do poder. Entretanto, Deus perderia a oportunidade de construir o homem à sua imagem e semelhança. Com a criação do homem, foi possível a construção da História. O fato de sermos uma substância pensante diferencia-nos dos animais. E foi o uso da razão que trouxe a luz do conhecimento ao mundo. Muito desse conhecimento possibilitou que o Homem prolongasse a própria existência ao contar as conquistas do passado, a História. Porém, em momentos como a Segunda Guerra Mundial, o desejo de poder falou mais alto e a ação humana originou uma barbárie.

Contudo, retorno à pergunta inicial: como seria o mundo sem a nossa presença? Não haveria a História para ser transmitida aos demais povos, não haveria os sentimentos que predominam a existência humana como a felicidade, o amor, a amizade. Imagina não presenciar o milagre da vida, o momento do indivíduo nascer a partir da dor do parto? Talvez seríamos apenas pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas. Não sofreríamos os males do amor, sentimento que engrandece o ser humano; não suaríamos o “pão nosso de cada dia”.  Seria apenas a beleza das terras e das águas, a paz e o poder dos astros, a pureza dos animais.

Em vez de descansar, Deus optou em fazer o Homem à sua imagem e semelhança, que possuísse tanto uma parte material, o corpo, quanto uma parte imaterial, o espírito. Portanto, mesmo que tenha originado a maldade, as desavenças, há também coisas boas construídas a partir do Homem. E, hoje, pode acontecer de tudo nesse mundo paradoxalmente fascinante e imperfeito. Constituir o hoje é garantir um futuro baseado no passado, nos erros e acertos do Homem, porque simplesmente “hoje é sábado, amanhã é domingo e a vida vem em ondas como o mar”.

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