Ir para conteúdo

TagCinema

Crítica | A garota na névoa

a garota na nevoa

A investigação de um crime é iniciada no silêncio da ausência das respostas. A vítima parece desviar do caminho que tomava todo dia, o perigo desconhecido irrompe do inesperado. Com essa tensão, A Garota na Névoa cria uma teia de suposições sobre o sumiço de Anna Lou, uma menina de 15 anos de família religiosa, e as suspeitas caem por entre a quieta e aparentemente pacífica cidade italiana.

As montanhas dessa aldeia alpina, situada no norte da Itália, parecem criar uma redoma onde todo o filme se desenrola por meio de uma maquete. Como um mundo em miniatura, a cidade é simples, cada ponto situado onde deveria estar, e esse fato estranho que interrompe a ordem. Como em um globo de neve, a garota do título se move entre a dúvida se está viva ou morta, se por entre essa redoma há imperfeições que conduzem ao mal e à morte.

É o célebre detetive Vogel (Toni Servillo, A Grande Beleza) quem é chamado para investigar o desaparecimento. Ele alia-se à demanda midiática por pautas e polêmicas e logo o espetáculo sobre a morte é montado. O filme tem a sagacidade de apresentar a banalidade do mal entre as instituições, e a pouca segurança existente em um mundo onde a busca pela verdade é cheia de empecilhos morais.

O filme é uma adaptação de um best-seller homônimo, e é o autor, Donato Carrisi, quem dirige a película. A atmosfera do filme é bem construída, de modo que consegue sustentar as reviravoltas de enredo e entrega uma solução consistente. O enredo aplica os estereótipos das cidades pequenas, do detetive estrangeiro, o sumiço de uma garota, para aqui e ali assinalar questões filosóficas como a banalidade do mal e a ética no mundo contemporâneo. E ainda, de forma sutil, possui instantes metalinguísticos em que se fala na construção literária das reviravoltas em uma ficção.

Os dois pilares do enredo consistem na dúvida sobre o caráter do detetive Vogel e o professor Loris (Alessio Boni). Trata-se sobre os limites aos quais alguém chegaria por fama, pelo sustento da imagem e do espetáculo, enquanto a morte de mais uma vítima é somada às diversas mortes que ocorrem diariamente de garotas pelo mundo.

O final consegue aumentar o grau de suspense, chegando a arrepiar o espectador diante da frieza dos fatos. Por entre uma cena e outra, o roteiro poderia ter contemplado mais a complexidade e o passado de seus personagens, para tornar a busca pelo suspeito um pouco mais sucinta e criar mais dúvidas sobre os moradores da cidade. Ainda assim, A Garota na névoa é um bom filme sobre o ego e a destruição, a impotência diante do crime. Reforça as diversas histórias sobre homens que massacram garotas por motivos que nunca serão inteiramente compreendidos, deixando, ao fim, o espanto e a melancolia em face a um mundo envolto pela mais fria crueldade, que nos engolfa tal qual uma névoa cortante.

Crítica | Gauguin: Viagem ao Taiti

Gauguin-Viagem-ao-Taiti-768x480

Publicado no site A Toupeira

A história de Gauguin – Viagem ao Taiti (Gauguin: Voyage de Tahiti) é baseada no diário de viagem do pintor Paul Gauguin, chamado Noa Noa, de 1893. Largando tudo em Paris, a esposa e os filhos, Gauguin viaja para a Polinesia, com o objetivo de retratar essa cultura na qual ele se sentia parte enquanto se via como “selvagem” e encontrar uma “Eva primitiva” para pintar aquelas que se tornariam as suas mais famosas obras.

Primeiro, é preciso destacar que Tehura e Jotepha não possuem vínculo romântico pelas anotações do diário. Mas, no filme, eles formam com Gauguin um triângulo amoroso e é a premissa do enredo. Essa personificação de Eva se resume em Tehura, uma reunião em uma só personagem das várias amantes de Gauguin. Acompanhamos a relação conturbada dos dois, dessa jovem dada pelos pais para o pintor, o uso dela como modelo a todo instante quando Gauguin deseja, e alguns vislumbres dessa moça em querer algo mais, com o esforço de entender esse complicado contato com o pintor.

A ideia da execução do filme, pelo diretor Édouard Deluc, vem do interesse pessoal em sua leitura de Noa Noa. Pelo livro, ele visualizou um pintor “hedonista, que quer se livrar de todas as convenções para se reconectar com a natureza ‘selvagem’”, por meio de viagens à Bretanha, ao Panamá e à Martinica.

Essa busca do europeu por desbravar culturas de outros países criou algo chamado orientalismo, no século XIX. Delacroix também teve sua viagem ao Marrocos relatada em um diário que misturava esboços em aquarela com seus relatos da vida cultural. Havia também um imaginário de fascínio do europeu, o qual habitava cidades como Paris, Londres, Viena, por esses países longínquos e vistos ora como “selvagens” ora como bucólicos. É muito complexo pensar a leitura do sujeito encerrado nesse século porque havia um quê de superioridade que o viajante, fosse artista ou não, sustentava ao adentrar em outra cultura e explorá-la temática ou politicamente.

Sobre o retrato de Gauguin, o longa consegue ser bem conduzido pela atuação completa de Vincent Cassel. O ator tem a forma da descrição de Gauguin usada pelo jornal Le Figaro em 1890, de “um homem robusto, de olhos brilhantes, que falava francamente”. Cassel, aos poucos, envelhece diante do espectador e logo se descola o nome do ator do personagem. Vemos os efeitos da doença, as manchas de pele de quem viaja sob o sol, a barba mal feita,  um olhar alucinado, toda essa transformação ajuda o espectador a entender, em um primeiro momento, as motivações de uma figura tão difícil de acompanhar quando se sabe sobre sua vida pessoal.

O pintor em questão é, sobretudo, uma pessoa que já não se identifica mais com os ares urbanos de Paris. Lendo Lettres à sa femme et ses amis (“Cartas para a sua esposa e seus amigos”), percebe-se que a fome, a pobreza e principalmente o frio rigoroso para quem era pobre em Paris nessa época se tornam os vilões constantes.

Quando se vê as cartas de Gauguin, há situações bem comuns como ele pedindo dinheiro para a esposa, a distância e a impossibilidade de estar com os outros filhos, e esse sonho que os outros tratam como loucura, enquanto ele via como projeto de uma vida inteira. Portanto, viajar para lugares distantes dessa vida já alucinada de Paris significava, para Gauguin, uma saída de um meio que já não via mais a natureza como fonte de vida.

O filme Gauguin é, em grande parte, uma exaltação do pintor. Por vezes recua e tenta se livrar da responsabilidade de dizer o quão questionáveis eram as escolhas de Gauguin e mesmo o seu caráter. Ainda é muito difícil dar conta, hoje, do fato de que obras de arte foram feitas por pessoas que não precisam ser idealizadas. E isso resvala no material de Gauguin a ponto de não se entender muito bem quais limites ele ultrapassara na sua relação com a jovem Tehura. Fica apenas a qualidade da atuação de Vincent Cassel. Mas, mesmo assim, o filme se equivoca pelo modo com que escolhe contar essa história.

A estrutura da trama chega a amenizar muito essa relação conflituosa de Gauguin com as mulheres do Taiti. Por isso é difícil falar sobre o assunto. Nenhuma época histórica nem artística pode ser posta em um invólucro de perfeição. Isso apaga possibilidades de se entender com vastidão determinado ponto. Ignorar as diversas camadas confusas, complexas e menos belas que existem dessa relação do artista com o meio torna a própria discussão esvaziada. Gauguin não era uma personalidade fácil. Para executar a história desse filme, nota-se que foi preciso colocar uma atriz maior de idade e escolher focar em apenas uma musa para Gauguin. Quando na verdade, Gauguin tinha várias escravas sexuais menores de idade.

Na realidade, ele levou três noivas nativas – com idades entre 13 e 14 anos – infectando-as e inúmeras outras garotas locais com sífilis. Ele sempre sustentou que havia razões ideológicas profundas para sua emigração, que ele estava deixando a Paris decadente por uma vida mais pura. Ainda assim, ele mantinha uma cabana que batizou La Maison du Jouir (“A Casa do Orgasmo”), com essas nativas menores de idade. Eventualmente morreu de complicações sifilíticas aos 54 anos nas remotas ilhas de Marquesas.

É o trabalho de quem estuda história da arte apontar com clareza essa densa balança entre as idealizações feitas dos pintores como geniais, essa busca incessante por criar uma aura em torno do artista como um ser divino e incólume de erros, e a necessidade de se estudar a obra de arte em questão. Quem estuda Estética se vê diante dessa enorme dificuldade em que não é bem-vindo censurar e colocar um artista numa gaveta para esquecê-lo, e muito menos deixar de estudá-lo. Mas sim, a alternativa de dar visibilidade completa às várias camadas desse processo de análise, expondo com clareza esses dados. Cabe apresentar as distinções que podemos fazer sobre a composição da obra (sem colocá-la em patamares de genialidade) e revelar esses retratos culturais que a envolvem.

A professora de história da arte da American University, Norma Broude, estudiosa feminista da arte europeia do século XIX e editora do livro Gauguin’s Challenge: New Perspectives After Postmodernism (Bloomsbury Academic: 2018), descreve as diferentes atitudes em relação a Gauguin como um “vasto abismo”.

De um lado está a “perene popularidade de Gauguin no mundo da arte, alimentada por exposições esteticamente focadas que aparecem com regularidade nos principais museus do mundo”, diz ela, e do outro lado está a “desconfiança e até repugnância com que um segmento do acadêmico o mundo, incapaz de ir além das críticas feministas e pós-colonialistas anteriores, continua a considerá-lo e a sua obra”.

Em outras palavras, falar de Gauguin é se situar em um território, ou mesmo um abismo, com implicações muito delicadas. Por isso equilibrar-se entre falar da relevância pictórica da composição dos seus quadros para artistas posteriores como Matisse, Picasso, acaba necessitando das considerações sobre a vida pessoal de Gauguin e essa dessacralização do artista. O que não é um trabalho nada fácil de se executar.

Como afirma Caroline Vercoe, professora de história da arte e reitora associada da Universidade de Auckland, Nova Zelândia, “muito do modo com que ele [Gauguin] é retratado, tais quais muitas das figuras masculinas de ‘herói’ no cânone, tem mais a ver com o progresso do cânone da arte euro-americana para mantê-lo o mais eurocêntrico possível”.

Portanto, o filme sobre essa jornada de Gauguin em sua viagem ao Taiti precisa ser levado em consideração como uma versão livre e romantizada do pintor. A atuação de Vincent Cassel é, de fato, o grande elo possível para apreciar as horas do filme. Mas, ainda assim, é muito importante destacar que Gauguin não foi esse herói incólume que a trama do filme tenta fortalecer, e muito menos viveu uma relação inocente com uma moça nativa. Falar sobre isso, uma dificuldade que se encontra até mesmo no meio acadêmico quando se estuda arte, é apenas ter no horizonte o fato de que não é mais suficiente reduzir a obra de arte ao conceito de genialidade e a vida pessoal do artista como único viés para entendê-la.

Referências bibliográficas

Material de divulgação exclusivo sobre o filme pela MARES Filmes e A2 Filmes

GAUGUIN, Paul. Lettres à sa femme et à ses amis. Les Cahiers Rouges, Paris : Grasset, 2003

MENDELSOHN, Meredith. Why Is the Art World Divided over Gauguin’s Legacy? (Artsy, 2017 https://www.artsy.net/article/artsy-editorial-art-divided-gauguins-legacy)

SMART, Alastair. Is it wrong to admire Paul Gauguin’s art? (The Telegraph, 2010 https://www.telegraph.co.uk/culture/art/8011066/Is-it-wrong-to-admire-Paul-Gauguins-art.html)

Crítica | Desobediência

disobedience-1287x858

Publicado no site CF Notícias

Por entre os animais e a natureza, só os homens podem ser desobedientes. É com esta premissa que o filme Desobediência, dirigido por Sebastián Lelio, apresenta aos poucos a história de amor da fotógrafa Ronit (Rachel Weisz) e a paixão de sua juventude, Esti (Rachel McAdams) em meio aos dogmas da religião judaica e o preconceito da comunidade.

Ronit retorna a esse bairro onde nasceu em decorrência da morte de seu pai, rabino muito respeitado. O filme resgata, de forma bem sutil, as razões pelas quais Ronit precisou sair da comunidade e como a sua relação com o pai acabou por ser abandonada. Agora ela retorna para ver o pai morto, esse estranho com quem não pôde conviver nas últimas décadas, e revisita também o passado com a angústia de não ter podido amar o pai, de se sentir deslocada no mundo onde vivia. A passagem inicial do filme tem uma exata beleza melancólica na solidão, nos takes silenciosos que nos levam pelos mesmos caminhos de Ronit, desde a notícia dada, até o voo e o bater na porta desta casa que foi sua uma vez. A identificação com a personagem de Rachel Weisz é imediata, e a atriz condensa com excelência o medo, o luto e a solidão apenas nos olhares ou como anda e encara o seu bairro.

As razões para esse rompimento residem no amor entre Ronit e Esti e a condenação da homossexualidade. O trabalho do diretor é ótimo em mostrar a densidade existente nos preceitos que a comunidade precisa incorporar às suas vidas, e o grande embate entre a divindade e o ser humano. A beleza do filme reside no diálogo entre amor e religião, com um clímax que tem desdobramentos inesperados.

https://cdn.narcity.com/u/2018/02/02/d1cac1ef2ae09d3310cb0019515d8c110faa27d6.jpg_1200x630.jpg

Esti, interpretada pela ótima Rachel McAdams, por sua vez, é uma força limada pela cartilha que precisa seguir em casa. Tudo em sua vida consiste em rituais, do vestir-se adequadamente conforme as exigências da comunidade, de comportar-se de forma comedida na classe em que dá aula, na reza e na preparação da mesa, e o esforço em representar, para as garotas às quais leciona, que é preciso ainda preservar uma independência intelectual, mesmo que o contraste seja grande diante do fato de que elas, por serem do sexo feminino, não possam ter o mesmo espaço dentro desta religião.

O amor de Esti e Ronit acaba por ser uma dupla subversão, enquanto mulher e lésbica. O desenrolar do contato das duas leva ao clímax do contato íntimo, de reencontrar-se depois de tanto tempo e também a pressão de desobedecer as normas. A cena é muito mais sobre um reencontro consigo mesmas e com a outra que ama, do que um mero encontro erotizado pelo cinema. Ambas as atrizes participaram da composição da cena, inclusive para que não houvesse tão somente a versão do olhar masculino que torna fetiche o romance lésbico.

https://1645110239.rsc.cdn77.org/image/s900/q80/mm/been/movies18699/photos-movie/0/disobedience.20180608011728.jpg

O filme todo é carregado pela tristeza de dias nublados, cinzentos, dias de tons iguais. E a morte é um grande tema, desde as menções às preces até cenas em cemitérios. O amor acaba servindo não apenas como contraste, mas principalmente como o grande objetivo e o ápice da vida humana no mundo.

Felizmente Desobediência ainda trabalha concebendo seus personagens de forma multidimensional, sendo o marido de Esti, Kuperman (o excelente Alessandro Nivola) uma peça importante entre a história das personagens. Ele também passa pelo embate entre religião e Deus, de forma distinta, e suas cenas contribuem demais para o lirismo do filme. Ao fim, Desobediência é uma história realista sobre a sobrevivência no mundo e como o amor precisa vir junto com a liberdade, mesmo que essa seja subversiva diante das instituições.

 

Crítica | Oito mulheres e um segredo

oito-mulheres-e-um-segredo

Publicado no site CF Notícias

Após sair da prisão, Debbie Ocean (Sandra Bullock) volta a procurar sua parceira de crimes, Lou (Cate Blanchett), com o objetivo de executar um plano que arquitetou nos cinco anos de prisão: roubar um colar Cartier avaliado em 150 milhões de dólares, durante o evento do Met Gala. Para isso, será necessário recrutar várias outras profissionais para realizar o elaborado plano em cada uma de suas etapas.

O primeiro elemento que, obviamente, chama a atenção no filme Oito mulheres e um segredo é o excelente elenco: Sandra Bullock e Cate Blanchett lideram o grupo feminino composto por Rose (Helena Bonham Carter), Tammy (Sarah Paulson), Nine Ball (Rihanna), Amita (Mindy Kaling), Constance (Awkwafina). E a atriz que terá o pescoço adornado pelo histórico e raro colar a ser roubado é interpretada por Anne Hathaway.

https://cnet1.cbsistatic.com/img/ywy8c0GUlHIx_Eccyb2QnURpun0=/1600x900/2017/11/10/f39d2991-ffaf-4431-b94a-ad0edc08bdb5/oceans8.jpg

Neste caso, o filme é uma feliz surpresa por apresentar um elenco cheio de grandes nomes junto a um bom roteiro, não sendo apenas um filme chamativo feito por nomes estelares. Oito mulheres e um segredo é um spin-off da trilogia Ocean’s. O original, de Steven Soderbergh, Onze homens e um segredo, foi feito em 1960. Desde então, houve três filmes, com o primeiro, em 2001, conquistando grande bilheteria com o trio George Clooney, Brad Pitt e Matt Damon.

No atual spin-off, permanecem as reviravoltas no mundo do crime e o grande grupo envolvido no plano, citando Danny (George Clooney) como irmão de Debbie, durante toda a trama. Mas é só isso. Trata-se de outra época, outro contexto. E somos apresentados com excelente timing cômico para este grupo que consegue, de diversas formas, manter as surpresas por meio de suas ações para roubar o colar.

A primeira sequência, de Debbie recuperando a liberdade, voltando a usar suas roupas sofisticadas e os primeiros crimes fora da prisão, anuncia perfeitamente o tom do filme. A direção de Gary Ross consegue tornar o enredo palatável, fluido e até mesmo quase instaura e seduz o espectador a querer fazer parte daquele clã criminoso. O que poderia ser um problema para a trama – um roteiro e direção estritamente masculinos, correndo o risco de estereotipar o dito “universo feminino” – felizmente não acontece, provavelmente pelo ótimo trabalho de Olivia Milch e o diretor Gary Ross na criação do roteiro.

Fica evidente que houve um cuidado muito sensato em compor a comédia não pelo método de apresentar estereótipos, que além de acabar por ofender minorias, é um tipo de humor superficial. Elas são, sim, fundadas em poucas características, são mesmo personagens unidimensionais. Porém, não usam isso como fim cômico, e faz muita diferença. Prevalece, em Oito mulheres e um segredo, um humor por meio da ironia das personagens, que não possuem nenhum tipo de receio em roubar, e pelo absurdo diante do valor inestimável de um colar. Todo o universo enriquecido e exclusivo dessa elite acaba por ser banalizado apenas pela genialidade dessas oito mulheres.

Apesar do filme ser claramente uma celebração do girl power (poder feminino), é bem-vindo o fato de que o filme não menciona a sua intenção inúmeras vezes, o que poderia causar um esvaziamento de sua proposta. O espectador percebe uma sororidade tácita, quando Debbie escolhe só contratar mulheres, e principalmente o respeito mútuo. Não há exatamente uma liderança, muito menos competição: Debbie e Lou propõem o plano do crime, mas todas as demais mulheres têm igual participação em sua execução. Nesse ponto o roteiro é tão bem acertado que o grupo se torna harmônico sem precisar afirmar muitas vezes essa amizade fundada entre elas.

https://sc2.elpais.com.uy/files/article_default_content/uploads/2018/04/13/5ad0c760dee19.jpeg

É verdade que o filme não apresenta emoções e o passado de suas personagens. Isso poderia ter fortalecido a relação central, de Debbie e Lou, possivelmente apresentando flashbacks breves sobre crimes que as duas já cometeram. Pois seria importante apresentar a cumplicidade desse duo. Contudo, não é um problema que enfraquece a proposta geral do filme, que é a de criar um crime com uma linearidade simples, sem furos graves e crível.

Outro fato interessante é que não se tratam de mulheres ricas querendo aumentar o valor que guardam na conta. Debbie não tem mais nada depois de sair da prisão, Lou tem apenas um bar em que busca lucrar um pouco vendendo vodka com água. Talvez apenas Daphne (Anne Hathaway) e Tammy (Sarah Paulson) estejam em uma condição financeira mais confortável. Porém, o que vemos é um único golpe ao qual elas se propõem executar, pois o que conseguiriam arrecadar com este golpe garantiria uma vida inteira.

Sendo assim, Oito mulheres e um segredo é uma ótima comédia, que entretém com tiradas espirituosas, sabendo bem como equilibrar o timing e a agilidade das cenas. Conforme o plano avança, o espectador é facilmente envolvido pela sua articulação. Há também uma apresentação do mundo luxuoso da moda em figurinos muito bem acertados para cada uma das personalidades. Portanto, o spin-off da franquia Ocean’s mantém a curiosidade pelos esquemas e o humor afiado, além de comprovar o óbvio: que o gênero não altera a característica de sua trilogia, oferecendo um roteiro muito bom quanto à representação do feminino nas histórias atuais. Pois inúmeras garotas também já desejaram projetar-se em espiãs, hackers, detetives e criminosas inteligentes.

Crítica | Olhos do deserto

olhos do deserto

Publicado em A Toupeira

Pode-se dizer que Olhos do deserto (Eye on Juliet) é uma releitura livre do clássico Romeu e Julieta de William Shakespeare. Dirigido por Kim Nguyen, em vez da rivalidade clássica das famílias, o que separa o casal protagonista possui implicações diferentes. Gordon (Joe Cole), é um operador de hexapod, uma espécie de robô aranha. Ele trabalha todo dia vigiando um oleoduto através dos olhos do robô, para impedir que roubem o petróleo. Em um dos seus dias de vigília, ele vê Ayusha (Lina El Arabi), uma jovem do Oriente Médio, com seu namorado, e escuta que ambos pretendem fugir para viver um amor impossível.

Projetando-se nesse casal que não quer se separar, enquanto sofre o término abrupto de anos de namoro, Gordon escolhe ajudar o casal. O desafio é que Gordon tem apenas os olhos do robô e vive na América, do outro lado do mundo, afastado de Ayusha.

Há algo de Ela (Her), filme de Spike Jonze, na trama do filme, e é inevitável lembrar de Wall-e quando vemos os robôs. Os três filmes caminham por essa premissa: como estabelecer intimidade quando as tecnologias conseguem tanto unir quanto separar pessoas, pelo mundo? Vemos as relações com a tecnologias postas em dúvida, ao mesmo tempo em que são feitas ressalvas. O filme possui cenas indicando o valor do contato físico e da atração para o início de uma relação, mas também demonstra que não é o essencial para que ela ocorra. Com a promessa de estar com qualquer pessoa de uma cidade inteira, que os aplicativos como Tinder prometem, há também a dificuldade de voltar a se sentir bem ao estar com o outro, após o término de um romance.

Resultado de imagem para olhos do deserto filme

Por meio da tecnologia, Gordon pôde conhecer Ayusha. Mas, para que resolva ajudar outra pessoa do outro lado do mundo, sem interesse algum, apenas usando o robô como instrumento, é preciso muita empatia, humanidade. Algo que só um ser humano poderia ousar fazer pelo outro, pois se reconhece como igual nesse outro. Não precisa fazer parte do mesmo contexto, da mesma cultura ou obter algo útil dessa ajuda. Mas tão somente conceder um gesto e acabar por mudar a vida de outra pessoa.

O filme não tem receio de construir um personagem masculino sensível, que sofre os estágios de melancolia de ter terminado o namoro que tinha desde a adolescência, sem desejar estar em outros encontros para preencher o vazio. Percebemos, com Gordon, também o incômodo em se sentir no lugar voyeur: ver a vida dos outros acontecendo, por meio da tecnologia – seja o celular, seja o robô -, e não poder fazer nada a respeito, nem viver aquela mesma vida.

Resultado de imagem para olhos do deserto filme

Olhos do deserto tem seus momentos românticos, pois é sua proposta. Ainda assim, eles soam, ao final do filme, como parte de um contato delicado que pensávamos ter se perdido em meio às facilidades imediatas da tecnologia. O filme acaba por falar das várias faces desses instrumentos que temos em mão, o poder de controle de uma nação sobre a outra, o esvaziamento entre os contatos, o individualismo, e a sobrevivência do amor e carinho que podem nascer por esse mesmo instrumento, por olhos que estranhamente vigiam, e olhos que podem ser usados apenas pelo intuito de cuidar e libertar.

Crítica | Estrelas de cinema nunca morrem

estrelas-de-cinema-nunca-morrem

Publicado no site A Toupeira

Em frente ao espelho, mais uma noite em um camarim, uma atriz prepara a sua entrada no palco. O dourado das luzes que cercam o espelho, os gestos, vistos pelo espectador, podem ser cotidianos, mas possuem algo de ritualístico no modo com que dispõem a maquiagem em cima da toalha, a fita certa para tocar, o batom e o cuidado milimétrico em botar a cola nos cílios postiços, esticando-os nas pálpebras. Esse processo ganha a dimensão shakespeariana do poético que não é visto no palco. É só um começo para a pressuposta magia da atuação.

Esta atriz, no caso, é Gloria Grahame. Vencedora do Oscar em 1953 por Assim Estava Escrito, ela se torna personagem de Estrelas de cinema nunca morrem (Movie stars don’t die in Liverpool), do diretor Paul McGuigan. Acompanhamos a atriz em uma fase mais madura, com uma vida mais modesta e longe dos holofotes. Em um prédio comum, ela conhece o aspirante a ator Peter Turner e os dois vivem um romance que pontua uma grande amizade e a diferença de quase trinta anos de idade.

A atuação de Annette Bening como a atriz veterana Gloria Grahame é magistral. Ela altera o tom de voz, adota as expressões da atriz e apresenta fragilidade e força na mesma medida. Gloria foi uma atriz envolvida em inúmeros escândalos em Hollywood e encenou, para a época, o ideário das mulheres devoradoras de homens, com inúmeros casos e separações.

O filme pouco menciona essas polêmicas em torno da protagonista, o que já se espera normalmente em cinebiografias, que determinados fatos sejam amenizados. Porém, o roteiro se baseia nos relatos de Peter Turner, na época muito jovem e com quem Gloria teve um romance duradouro. Pesquisando sobre a vida de Gloria, descobre-se inúmeros detalhes dolorosos, incluindo agressões. Isso acaba por revelar uma relação de beleza rara entre os dois. Era o único refúgio onde a atriz recebeu respeito, carinho, alguém que genuinamente cuidou dela sem vê-la por seus fracassos e a aura massacrante de Hollywood.

Esse romance dá certo na tela pelas excelentes cenas entre Bening e Bell. O ator, conhecido pelo seu papel de menino aspirante a bailarino em Billy Elliot, concede uma performance comovente e bem construída, provavelmente a melhor de sua carreira até então. Aos poucos, ele se torna parte crucial da vida de Gloria, e o longa caminha para uma bela apresentação sobre como é envelhecer e ser cuidado por aqueles que se ama.

Peter vai assumindo cada vez mais os cuidados de Gloria. Na maior parte das vezes, vemos o cinema retratar mulheres como aquelas responsáveis pelo cuidar do outro, até mesmo com um tom naturalizante, como se fosse apenas pertencente às mulheres. O que o filme faz, porém, é colocar um homem jovem com essa função, além de apresentar sensibilidade masculina na relação, onde se possa chorar e mostrar medo de fracassar nos sonhos que tem.

Junto a isso, percebemos o cuidado em inverter os papéis que comumente vemos no cinema: são poucas as tramas que valorizam a autoestima da mulher que chega à meia idade, e são muitos os filmes que exaltam como os homens se tornam melhores com o tempo. Esse pensamento é uma armadilha cruel, na indústria cinematográfica, pois exige das jovens atrizes que nunca envelheçam, enquanto Bogart e Cary Grant permanecem intocáveis no posto de homens perfeitos.

Nos últimos anos passou-se a mencionar e a convidar atrizes memoráveis do cinema, como Rita Moreno, Jane Fonda, Lily Tomlin, para novos papéis. Contudo, ainda assim, exige-se que não se aparente a idade que tem, ou que possua um corpo invejável e que esteja atualizada com o mundo contemporâneo. Diante disso, o filme mostra o problema que é alimentar a ideia de que homens sempre podem continuar suas relações amorosas, enquanto as mulheres se tornam indesejáveis a partir dos 40 ou 50 anos.

Sendo assim, o retrato é convincente e emociona com facilidade, trazendo o tom melancólico ideal para representar vários temas. Estrelas de cinema nunca morrem consegue aliar a cinebiografia que homenageia o cinema e o teatro, apresenta as dificuldades de envelhecer, além de dar dignidade e sinceridade às histórias de amor, sem mostrá-las de forma idealizada. Acabamos por nos envolver na mesma magia que abraça os protagonistas e emergimos da produção ainda com aquela neblina nostálgica de quem se deixou seduzir mais uma vez pelos encantos da ficção numa sala de cinema ou entre as cortinas de um teatro.

Crítica | Uma dobra no tempo

Uma-Dobra-no-Tempo

Publicado no site CF Noticias

Uma dobra no tempo propõe uma jornada pelos olhos de uma heroína juvenil. Com o pai sumido, a garota Meg recebe o chamado do pai, por meio de três excêntricas mulheres, para percorrer o universo e descobrir onde ele está. Assim, os irmãos Meg (Storm Reid) e Charles Wallace (Deric McCabe), com o colega Calvin (Levi Miller), enfrentam as etapas de desafio para chegar na fonte de energia maligna do universo.

Dirigido por Ava DuVernay, este é um filme de gênero distinto da cinebiografia Selma, indicado ao Oscar 2015, com a direção de DuVernay. A proposta é dar visibilidade à protagonista juvenil negra ao mesmo tempo em que é dirigido por uma mulher e adaptado da obra homônima de Madeleine L’Engle. Este é um ponto positivo, mas que acaba sendo enfraquecido pela qualidade razoável do filme e por tudo o que ele ainda podia oferecer.

O grande problema de Uma dobra no tempo é que ele não se esforça, de nenhuma forma, em apresentar informações válidas sobre o universo que propõe. Sendo ele uma trama de ficção científica, o filme não concede nada sobre Física. No livro adaptado, há algumas leves explicações sobre o título, sobre como as personagens viajam. O filme, porém, parece crer que qualquer explicação possa ser maçante ou prejudicar a trama e não a entrega ao espectador.

Alguém poderia alegar que, já que o filme é voltado a crianças de 10 a 13 anos, não é necessário dar respostas ou não explicar. Só é preciso aceitar que o fantástico está lá. Contudo, fazer um enredo de ficção científica bem coerente e com uma ótima estrutura é possível. Podemos ir da mais recente trama de Stranger Things ao clássico Doctor Who, que se sustenta falando de pontos complexos de Física para diversas gerações em mais de 50 anos na TV e ainda com baixo orçamento, sendo a prioridade do seriado britânico o público infantil. Ou seja, é possível abarcar diferentes gerações sem deixar de entreter com temáticas complexas.

Uma dobra no tempo pega emprestado os fatos do livro, insistindo demais em frases já muito utilizadas no gênero, como “o amor é a frequência” ou que o amor é um elemento universal, misterioso e capaz de salvar o outro. O que o filme não faz, porém, é demonstrar como isso ocorre na proposta daquele roteiro, em particular. O teor fantástico da trama não possui coerência nenhuma, pois o filme inteiro passa a impressão de que serve dizer que qualquer coisa que ocorrer é fantástico e, por não existir, não precisa de uma explicação sequer.

O gênero fantástico, para se sustentar, precisa oferecer não apenas uma estrutura que fundamente a existência daquelas três excêntricas mulheres, mas também enfatizar a missão do herói ou da heroína, para que o espectador possa entender e se envolver com os seus dilemas. No filme, o bullying ou a dificuldade que se tem na adolescência com a autoestima são mencionados, sem que se apresente, em cenas mais simbólicas, o peso daquele drama para o seu personagem. Quando essas cenas ocorrem, parecem apenas escolhidas como clichês, e não pelo sentimento lá proposto. Acabamos aceitando os sofrimentos da pequena Meg mais pela boa atuação que a atriz oferece do que pelo texto.

A direção também possui cortes abruptos. Esses cortes acabam sendo prejudiciais para a constituição desse mundo fantástico: não se cria tensão alguma quando a primeira das três mulheres aparece na casa de Meg, indo de uma personagem a outra com um corte que dá uma sensação muito forte de ausência de nexo na transição. Isso dificulta demais compreender como pode ser fascinante, para aquelas crianças, se deparar com essas mulheres e o que elas significam para o universo.

O ritmo do filme também acaba sendo incongruente. Pouco é dado ao espectador para entender o porquê daquelas etapas de desafio, para a protagonista, e visualizar um sentido nesse mundo fantástico. Em geral, parece que foram utilizados elementos comuns ao gênero fantástico sem tentar conceder algo original à estrutura clássica. Pouco a pouco somos levados ao fim, que é anticlimático. A qualidade do filme reside mais nos efeitos especiais bem executados e no elenco de crianças, que tem seu encanto e talento.

Sendo assim, fica a dúvida se as crianças irão se encantar com os personagens e seguir, com eles, nessa jornada, pois o filme não consegue ter forças para fascinar o público adulto. Por isso, Uma dobra no tempo possuía o potencial de ser uma ótima trama scifi para o público em geral, mas que ao fim se torna uma aventura morna e inconsistente sobre o universo.

Crítica | Eu, Tonya

eu-tonya

Publicado no site A Toupeira

Indicado a três categorias do Oscar 2018: Melhor atriz, Melhor atriz coadjuvante, Melhor montagem

Estar no centro do mundo por poucos segundos, a partir de um salto triplo axel impecável. Foi assim que Tonya Harding entrou para a história da patinação artística. O filme Eu, Tonya é um misto de cinebiografia, documentário e uma comédia dos erros. Ele dá espaço à protagonista para contar sua própria história. Com bastante ironia, Eu, Tonya é uma comédia dramática que dialoga com vários gêneros e conta a história de uma pessoa real de forma particular e vibrante.

Tonya Harding é uma personalidade e tanto. Começou a patinar com três anos de idade, empurrada pela mãe (Allison Janney) para horas e horas de treinamento. Por influência dessa figura materna ensandecida e cruel, Tonya também se torna alguém combativa. Agressiva, sem qualquer pudor, ela veste essa persona como defesa da própria mãe e do mundo da patinação, que exige toda uma aura cultivada de perfeição e doçura pela imagem feminina. A figura da patinadora beira à divindade.

De fato, o que se faz em um ringue de patinação, muitas vezes, nos parece algo tocado pelos deuses. As oito horas de treinamento diário desde a infância, o condicionamento físico, o ballet, uma dieta restrita, são todas preparações não vistas por nós. É um ato de dedicação exclusiva. E isso, mais o amor pela patinação, Tonya tinha com intensidade. O primeiro tema revelado, pelo filme, é essa exigência de uma vida incólume da patinadora mulher. As músicas escolhidas não podiam apresentar sensualidade e muito menos agressividade, pois é a delicadeza feminina que prevalece naquele universo.

Ela foi a primeira americana a realizar o salto triplo axel numa competição. Imaginar que, naquele instante em que Tonya realiza o salto, mais nenhuma mulher americana havia alcançado esse feito já apresenta um premissa válida para conduzir o filme. Tonya é uma força da natureza. Disputou por duas vezes os Jogos Olímpicos, foi campeã do campeonato nacional americano e conquistou a medalha de prata no Campeonato Mundial de 1991. E ainda foi boxeadora.

Por coincidência, nesta semana de estreia de Eu, Tonya, uma americana, Mirai Nagasu se tornou a primeira americana a realizar o mesmo salto nas Olimpíadas. Tonya Harding não conseguiu nas Olimpíadas, mas sim nas Nacionais, em 1991. O triplo axel é um problema de Física: os braços precisam ficar bem unidos ao corpo para não diminuir a velocidade do giro do corpo, no ar. A força que se adquire, com o salto do gelo, não é o suficiente para isso. É a força do próprio corpo que precisa continuar, no ar, com esse giro. A grande dificuldade, ainda, é diminuir essa velocidade e então pousar em uma só lâmina, com elegância e equilíbrio.

E este foi o salto histórico de Tonya Harding:

O filme que nos expõe essa figura é uma prazerosa experiência. O ótimo timing para comédia, beirando ao humor negro, apresenta o absurdo de diversas situações que, por mais bizarro que possam parecer, aconteceram. Em meio a carreira bem-sucedida de Tonya, ela sofreu acusações de ajudar o marido a estourar o joelho da rival Nancy Kerrigan. O mais curioso é constatar como tudo isso virou uma história alimentada pelos tabloides, com a mídia que anteriormente exaltava Tonya, agora destilando ódio.

Temos essa força indecifrável de Tonya Harding, com a brilhante atuação de Margot Robbie. Entre os seus vários defeitos e a suposta crueldade que ela possui em relação a uma colega de ringue, vemos também uma versão humanizada de Tonya. Presenciamos o que é conquistar algo tão descomunal quanto um recorde, para uma garota que sofre desde criança com relacionamentos abusivos e uma baixa autoestima. O mal que Tonya sofreu foi estar nas mãos de pessoas que não a amavam. Margot, indicada ao Oscar pelo papel, torna Tonya uma garota comum. Entendemos as suas escolhas, as falhas, os altos e baixos de sua carreira, torcendo para que conquiste algo bom, ao final.

Junto a ela, a figura materna, com ares de vilã decadente, ganha forma com a atuação excelente de Allison Janney, indicada como Melhor atriz coadjuvante. Enfiada em uma pele marrom e com um papagaio de estimação, Allison faz dessa mãe uma presença adoravelmente detestável. O espectador comemora em silêncio a cada instante em que ela aparece na tela, pois sua presença cômica é inegável.

Por fim, temos o marido de Tonya, Jeff Gillooly (Sebastian Stan), o clássico caso de um nerd que se vê espantado por namorar uma garota linda e talentosa, tornando-se extremamente agressivo por ciúme e desejo de dominação. O filme tem a proeza de mostrar o quão pesada é a situação de Tonya sem perder, em outros momentos do filme, o tom de comédia. Isso não faz do drama de Tonya amenizado: a película demonstra como é destrutivo, para alguém, estar com uma pessoa que só a coloca para baixo, a usa e a agride. Sair desse círculo exige muita força, mais do que a força exigida no ringue.

Eu, Tonya apresenta as particularidades nada glamourosas do mundo da patinação, semelhante às dificuldades do universo do ballet. A veia cômica do filme tem um tom certeiro e alcança algo difícil em cinebiografias, não exaltar por completo a sua figura exposta. Dá a chance de a própria Tonya Harding participar dessa versão apresentada de si mesma, sem abrir mão da parte complexa e nem tão bela assim.

Diante disso, Eu, Tonya, revela-se um filme que fala muito sobre as relações humanas, o poder irrestrito da mídia, o culto da personalidade. Contudo, expõe, em seu tom hiperbólico, o mais absurdo dos absurdos: como os americanos criaram uma forma destrutiva de idealizar a família e o amor até as últimas consequências, não importando o quão irreal é a sua representação, os reflexos nas relações, e o que significa exigir a perfeição de simples garotas.

Apresentação completa e histórica de Tonya Harding em 1991:

Crítica | Três Anúncios para um Crime

Three-Billboards

Publicado no site CF Notícias

Indicado a seis categorias do Oscar 2018: Melhor filme, Melhor atriz, Melhor ator coadjuvante, Melhor roteiro original, Melhor trilha sonora, Melhor edição

O filme Três Anúncios para um Crime presenteia o espectador com uma anti-heroína cativante e inesquecível. Mildred Hayes (Frances McDormand) é a encarnação de inúmeros personagens que vimos, constantemente, em figuras masculinas em tramas de vingança. Aqui, o que temos é ainda mais denso: a figura de uma mãe que busca justiça pela filha morta.

Mildred Hayes é a essência da vingança. Incansável, ela tem a brilhante ideia de colocar três anúncios em outdoors abandonados numa estrada pouco vista, denunciando a ausência de investigação do delegado Willoughby (Woody Harrelson). Aos poucos, os outdoors se tornam notícia na cidade e motivo de revolta contra ela. Mildred é a transgressão da qual ninguém quer falar. E ela se expõe e representa em três outdoors a falha policial e a falha também de uma cidade que esquece. Por trás do rosto revoltado dela, e pelas expressões ricas de Frances McDormand, há uma fragilidade e exaustão por não saber dar respostas a sua perda. A violência de Mildred é combativa e, em pouco tempo na tela, o espectador adota a sua luta para si.

É verdade que existem inúmeras tramas americanas que sentem prazer em apresentar anti-heróis agressivos, um modo peculiar de responder às coisas tão somente pela violência. O ponto é que Mildred Hayes, com a interpretação de Frances McDormand, é muito convincente. A sua raiva explosiva, com toda a sua complexidade e contradições, é compreensível e mesmo justificável, com o bom desenvolvimento do roteiro do filme.

A direção de Três anúncios possui bom ritmo. O que chama a atenção, no filme, é o elenco e o roteiro, assinado pelo diretor Martin McDonagh. Cheio de diálogos ácidos que soam naturais, a sua originalidade está em fugir do óbvio no qual o filme poderia acabar caindo. Há um quê de jornada em seu tom, mas uma jornada que desvia bastante dos caminhos pré-estabelecidos.

O grande tema de Três Anúncios para um crime é a falta de limites para obter seus fins. Mildred não estabelece limite algum para buscar justiça pela sua filha e acalmar sua consciência. Ao mesmo tempo temos o contraste do delegado Willoughby, que está doente, que deseja fazer algo por essa jovem morta, mas se encontra em um beco sem saída e age em desespero. E há o policial Jason Dixon (Sam Rockwell), aproveitando o poder que o cargo lhe dá para cometer atos vis.

Com a inevitável comparação às tramas dos irmãos Coen (inclusive Frances McDormand é esposa de Joel Coen), Três Anúncios ganha sua própria independência. O roteiro foge do maniqueísmo por meio de seus três personagens principais que possuem inúmeras falhas. E ainda assim, simpatizamos com eles.

A qualidade de Três Anúncios está em Mildred Hayes. Contudo, Sam Rockwell como o policial corrupto Jason Dixon é uma grata surpresa. Encontramos, em sua jornada, uma ascensão inusitada à redenção. Essa redenção dele, em vez de ser por escolhas conscientes do suposto herói, ocorre por situações de choque na vida de Jason. Ele não é nada especial, não é um detetive ideal. E ainda assim, os seus atos da metade para o fim do filme possuem um quê de dignidade.

Três Anúncios para um Crime também acerta em não tornar a violência envolvendo a morte da garota algo gráfico. É com poucas palavras e pelas ações da mãe dela que compreendemos o horror do crime. Entre tantas tramas que já se beneficiaram mostrando estupro apenas como um motivo de pano de fundo, sem adentrar no real drama da vítima, Três anúncios preserva respeito e delicadeza em retratar esse assunto apenas dando seus indícios.

Assim, o filme Três Anúncios para um crime é uma excelente comédia dramática. Com acidez e bom humor, o filme cresce de maneira intensa e entrega um roteiro original, além de nos dar mais uma figura feminina capaz de virar um ícone entre os fãs do cinema.

 

 

Crítica | Mudbound – Lágrimas sobre o Mississippi

imagem mudbound

Publicado no site CF Notícias

Indicado a quatro categorias do Oscar 2018: Melhor atriz coadjuvante, Melhor roteiro adaptado, Melhor direção de fotografia, Melhor canção original

Explicar a trama de Mudbound é uma difícil tarefa. O filme perpassa temas pesados que à primeira vista, quando se sabe sobre a trama, não é possível imaginar que estão presentes. Há uma surpresa no tom de Mudbound, que compensa não saber de antemão, e possui coragem ao aumentar gradativamente a intensidade desses temas expostos, sendo ao fim um filme necessário.

Em Mudbound, acompanhamos de início a relação de Laura (Carey Mulligan) e Henry McAllan (Jason Clarke). O casamento dos dois se faz por ser o melhor que ambos podem conseguir no momento. Há instantes felizes, até que Henry, sem consultar a esposa, resolve que eles e as filhas precisam se mudar para uma fazenda. Vemos, assim, a dificuldade de Laura em sua adaptação à vida rural.

A película não romantiza o bucólico. Pelo contrário: existe um realismo cru em Mudbound que mostra como a perspectiva de seus personagens é modificada pelo meio. Os sonhos viram amarronzados com a visão da lama todo dia, os sapatos atolam sempre nela, e o corpo nunca está livre da sujeira e do pó. A morte também permeia essa lama e, sobretudo, o que sustenta esse contexto todo é a escravidão.

O filme acerta em mostrar as diferentes situações de submissão de uma pessoa a outra. O seu foco é a escravidão negra, com a adorável família dos Jackson e as situações abusivas pelas quais eles passam. Somos apresentados à rotina deles, da saudade que sentem do filho mais velho que está na guerra, e os muros construídos pelo racismo advindo de Henry e de seu pai.

Ao mesmo tempo em que vemos o racismo como tema principal, percebemos a condição feminina também como uma submissão terrível, para Laura. Se na relação dos Jackson a mãe e esposa tem igual espaço de fala, na relação de Laura e Henry ela não possui poder de reclamar, muito menos de interferir nas decisões do marido.

Além desses personagens, encontramos muito bem abordadas as implicações dos traumas do pós-guerra. Voltar para um meio no qual se é desprezado, quando anteriormente outras nações o recebiam com respeito como herói, é a grande dificuldade de Ronsell Jackson (Jason Mitchell). Por sua vez, Jamie McAllan, irmão de Henry, bebe para esquecer quantas mortes ele carrega nas costas enquanto piloto e responsável por bombardeios. Juntos, a amizade entre um negro e um branco, naquele contexto, tem impacto explosivo.

Há um lirismo em Mudbound, apesar da densidade de seus temas. Ele está na ajuda que Florence Jackson dá às filhas de Laura. No cuidado que Jamie tem em construir um espaço para Laura ter sua privacidade ao tomar banho. Na tentativa de se ajudar outras mulheres. Na amizade incomum para aquele contexto entre Jamie e Ronsell. Na permissão de mostrar que homens sofrem e amam, que a guerra não é só feita de força, mas de fragilidade.

Esse conjunto de personagens é a grande beleza de Mudbound. Pois cada um deles tem seus dramas bem desenvolvidos. No decorrer do filme, o espectador se vê envolvido com esse contexto e deseja proteger os Jackson, Jamie e Laura. O enredo concede sensibilidade a temas dolorosos. Ao fim, o contraste entre a sociedade americana e a pobreza do campo, o racismo, a condição feminina, a violência e a submissão, todos se reúnem como um complexo quadro de uma época, de Mississippi e dessas terras cheias de morte e de heroísmo escondido em sua lama.

Crítica | O sacrifício do cervo sagrado

Publicado no site CF Notícias

O sacrifício do cervo sagrado, dirigido por Yórgos Lánthimos, é um filme que se constrói tendo como base os atos de uma tragédia grega. Inspirado em Ifigênia em Áulis, de Eurípides, encontramos no filme os ecos da obra com reconstruções inteligentes, tratando sobre a morte, o sacrifício, o poder da medicina equiparado ao divino, e a dúvida sobre o que é justiça.

A história do filme mostra a vida do eficiente cardiologista Steven (Colin Farrell) casado com Anna (Nicole Kidman), e os dois filhos do casal, Kim (Raffey Cassidy) e Bob (Sunny Suljic). De início, o jantar entre a família parece uma encenação: uma família perfeita, que troca elogios polidos, e que as crianças são tranquilas e têm uma boa relação entre si. Porém, o pai tem um segredo: ele almoça frequentemente com o adolescente Martin (Barry Keoghan), filho de um paciente que morreu numa cirurgia feita por Steven. Se ele tenta compensar a morte com a sua presença na vida de Martin, por remorso ou para evitar possíveis escândalos, pouco sabemos.

O primeiro ponto relevante a se considerar sobre O sacrifício do cervo sagrado é que ele paira entre o terror psicológico e um drama de teor fantástico. Lánthimos opta por não conceder respostas definitivas sobre a sua proposta. Contudo, sem que isso prejudique o desenvolvimento do tema dado. A sua direção é seca, direta, e não deixa de mostrar a violência. A trilha sonora tem importante participação, pois em alguns momentos do filme ela aumenta de volume até se tornar angustiante estar na poltrona assistindo aquela situação.

Os diálogos entre os personagens são desprovidos de emoções. Lánthimos consegue revelar, ao espectador, o quão forçados e mesmo ridículos são os diálogos repetidos entre as pessoas a ponto de serem palavras esvaziadas. Quando Martin, o filho do paciente morto, começa a cobrar mais a presença de Steven, percebemos que o filme vai além, instaurando um caos na vida do médico que inicia um questionamento em cadeia sobre as atitudes de todos os personagens presentes. A trama possui grandes surpresas que merecem ser preservadas, para que assim o espectador adentre realmente nela.

Colin Farrell interpreta bem a inércia e a aceitabilidade com que Steven lida com os fatos. O ponto é que, sem optar por colocar a culpa apenas em uma figura, Lánthimos destrincha o comportamento de cada um, ao mesmo tempo em que recua e deixa dúvidas para nós interpretarmos. A esposa de Steven também manifesta certa dose de frieza em aceitar as coisas como elas estão. Tanto que o casamento dos dois se dá apenas à favor de Steven, numa relação em que Anna vê normalidade em ser apenas uma boneca anestesiada para o marido.

Quando a filha do casal, Kim, tem a sua primeira menstruação, os pais contam aos outros. Mas a garota, logo que passa por isso, parece crer que apenas por estar menstruando ela precisa se comportar como as demais mulheres. O seu amadurecimento não é espontâneo: é com frieza que a garota escolhe começar a agir como os outros sem qualquer tipo de questionamento ou emoção. Ao mesmo tempo, parece que os pais não observam essa mudança de comportamento na filha, nem sequer a orientam, enquanto médicos, sobre educação sexual e o que significa menstruar.

O filho mais novo, Bob, também possui um comportamento peculiar. Apesar de ele soar o mais inocente entre a família. Ele observa Martin com um possível rancor, soa adulto quando fala sobre suas preferências musicais, e não esboça emoções no decorrer do filme diante dos acontecimentos. Em geral, o trabalho de Lánthimos é nos dar uma família que encena o seu papel, mas parece esvaziada de qualquer sentido.

O sangue é um elemento essencial no filme de Lánthimos. Aparece na primeira cena, é citado como menstruação de Kim, está na violência, e mesmo na aparição de um simples ketchup. O sangue remete à Cristo, à inocência do cervo sacrificado, ao mesmo tempo em que está na violência entre os homens.

A ciência, no contexto do filme, serve como contraponto à Natureza: fazendo uso dela, alguém que deveria prezar pela vida destruiu uma por ego e irresponsabilidade. Por isso, o filme inteiro parece ser uma resposta revoltada da Natureza ou de alguma divindade não definida que cobra aqueles que agem em nome do poder ilusório que a Medicina pode dar como controle da vida.

Enfim, o filme revela uma frieza perturbadora nas decisões de seus personagens. Com uma trama que envolve o espectador na dúvida sobre a sequência dos acontecimentos, em O sacrifício do cervo sagrado é possível ser levado pela angústia de buscar entender até onde vai o fantástico da história e permanecer pensando no filme após a sessão.

As referências à peça Ifigênia em Áulis, de Eurípides (CONTÉM SPOILERS)

Em comparação à tragédia grega de Eurípides, o filme demonstra que os atos de Steven não possuem heroísmo. Porém, não são apenas os seus atos: toda a trama do filme retira a dose de heroísmo. O médico é posto na situação de Agamêmnon: desafiando as ordens naturais matando um paciente ou, no caso da peça, matando uma corça e se vangloriando como melhor caçador que a deusa Ártemis. Por ter cometido esse ato vil, a divindade exige uma troca: que haja o sacrifício do cervo, a vida de um dos filhos em troca da vida do paciente.

O filme de Lánthimos não anuncia uma divindade. Fica no ar esse teor fantástico que é, propositalmente, um elemento que destoa de toda a objetividade e rigidez dos personagens e da visão atual da Medicina e da Ciência: a capacidade de dar respostas sobre a Natureza. Nenhum dos personagens vai a fundo pensar sobre o que está acontecendo. Parece ser, assim, só um acerto de contas do universo com uma morte que não era planejada.

Na peça, Ifigênia é a pureza na forma da garota virginal, filha de Agamêmnon, que seria oferecida como sacrifício. Já no filme, isso pende entre Kim, Bob e Anna. Pois os três seriam, à princípio, inocentes diante das escolhas de Steven. Ainda assim, a figura de Kim, por ter passado por um rito de passagem ao menstruar, é importante para entender as diferenças com a peça.

O confronto de Agamêmnon, aquilo que ele teme, é a fúria de Ulisses e do exército grego. No caso do filme seria a revelação da verdade de que Steven teria matado o paciente por erro médico, causado pelo alcoolismo dele, o que o faria perder a posição de cirurgião. A cena em que vemos Steven discursando para a comunidade médica apresenta aqueles à quem Steven deveria uma explicação, é o coletivo que o julgaria por seus atos.

Ainda na peça de Eurípides, Agamêmnon tenta casar a filha Ifigênia com Aquiles, como um plano ardiloso para escapar das exigências da deusa. O ponto é que na peça, a mãe e Aquiles tentarão de todas as formas impedir a morte de Ifigênia. O choque em O sacrifício do cervo sagrado é que pouco fazem pela cura dos filhos. A mãe cuida deles, mas não questiona, de fato, o marido. Se fôssemos imaginar uma situação como essa, em que as duas crianças começam a apresentar sintomas que a Medicina não sabe explicar de jeito nenhum, seria compreensível, no desespero de um pai e uma mãe, a busca por qualquer tratamento de cura, pesquisa, ajuda de outras pessoas.

Na trama, Martin seria Aquiles, o qual se mostra furioso por ser usado no plano de Agamêmnon, que  deseja casar a filha com Aquiles a fim de enganar a deusa. No filme, quando Kim se despe para Martin, é mais pela honra dele (que só deseja ver a morte do pai ser substituída pela morte de um dos filhos) que ele não aceita Kim. Não é por desconforto ou altruísmo em preservá-la. Em comparação com a peça, Aquiles resolve defender Ifigênia mais pela sua honra, não parar salvar a inocência da jovem. Em O sacrifício do cervo sagrado, Martin está mais focado em obter o que ele chama de justiça pela honra do pai (com o qual ele é muito parecido – a honra do pai é a sua honra), do que a preocupação em ver Kim, uma garota inocente, querer algo que nem sabe bem o que é. Tanto que a garota estranhamente reproduz a posição inerte da mãe, demonstrando que conversa alguma sobre educação sexual ocorreu em família.

Steven e Anna parecem concluir muito tarde o que poderá acontecer. Por fim, a peça de Eurípides termina com um tom de heroísmo dado à Ifigênia que aceita sacrificar-se pelo bem coletivo como a salvadora da Grécia. Diante disso, a deusa Ártemis troca o corpo de Ifigênia por uma corça morta, terminando em comoção. No filme, a garota Kim propõe se sacrificar. Porém, antes ela tenta arrastar-se e fugir de alguma forma de sua família. O seu pedido pela morte parece, na obra de Lánthimos, mais uma vontade de dar fim à situação de dor e limitação: inicialmente ela pede para Martin curá-la e fugirem. Não importam os pais. Ela não tem vínculo com eles. Como a garota não consegue satisfazer seu desejo, ela se arrasta fugindo dos pais. Kim só pede para ser sacrificada porque não quer mais viver aquela situação. Aqui, não há altruísmo. É só desespero.

Ainda assim, no filme Kim permanece viva. A corça simbólica da tragédia grega é o corpo de Bob, o ser mais inocente da família por ainda ser uma criança. Porém, há uma distinção importante: na peça, a deusa intervém. No filme, ficamos em dúvida se o tiro foi por acaso em Bob ou se Steven, mesmo encapuzado, escolheu matá-lo.

Toda essa análise demonstra que O sacrifício do cervo sagrado teve seu roteiro cuidadosamente feito tendo como base o clássico grego, mas com uma releitura própria e realista com a situação contemporânea.

 

Referências bibliográficas (sobre a sinopse de Ifigênia em Áulis)

VARGAS, Terezinha da Cunha; POLLO, Vera. “Ifigênia em Áulis”: a guerra, as núpcias e a morte (Contribuições psicanalíticas para uma leitura da tragédia)

 

Crítica | A forma da água

The-Shape-of-Water-James-Jean-Poster-Cropped

 

(Em breve eu publico uma matéria aqui no blog sobre as simbologias do filme ❤ )

Indicado a 13 categorias do Oscar 2018, incluindo as principais, com Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Atriz (Sally Hawkins), Melhor Roteiro e Melhor Fotografia.

A forma da água (The Shape of Water) é uma obra-prima. O tipo de filme que nos poucos instantes, projetado na tela, já se torna um provável clássico que será lembrado nos próximos anos, juntamente a filmes com imensa delicadeza e trama bem construída.

Para ver A forma da água, é necessário vestir uma capa de espectador sonhador. Há nele algo de fortemente nostálgico para aqueles que cresceram amando o cinema dos anos 50 e 60, os musicais, a melancolia e beleza do jazz. É possível que A forma da água dialogue com uma profundidade dolorosa, chegando às mais doces e tenras memórias que você tem. No meu caso, o filme possui em seus cantos muito da minha relação com meu avô, a sua paixão pela música, as várias tardes conversando sobre cinema, de dividir esse período histórico com uma nostalgia de um tempo que não vivi. Esse rememorar, através do filme, foi tão forte que é válido mencionar essa sua capacidade de trazer experiências pessoais diversas, do espectador, para o filme.

A trama tem sua esquisitice maravilhosa: trata-se de uma fábula de amor com um toque de scifi. Elisa (Sally Hawkins) é uma jovem muda, entusiasmada com as pequenas coisas da vida e com dias sem grandes reviravoltas. A sua rotina é a de zeladora em um laboratório experimental secreto do governo. Lá, ela trabalha junto a Zelda (Octavia Spencer). A amizade de dez anos das duas se dá pelos turnos de trabalho, nessa profissão desvalorizada por entre os homens de grande nome do laboratório. É nesse contexto que Elisa conhece a criatura aquática (Doug Jones) que está sendo mantida no laboratório para estudos. Explorada e torturada, a criatura serve aos fins patriotas americanos na Guerra Fria, nas mãos cruéis de Richard Strickland (Michael Shannon). Diante desse abandono, Elisa se aproxima aos poucos desse anfíbio humanoide e uma bela história de amor nasce entre as duas espécies.

couple

O filme é dirigido pelo excelente Guillermo Del Toro, um dos poucos diretores capazes de criar um universo próprio por meio das criaturas que desenvolve. Del Toro não concede limites à imaginação. Ver seus filmes é um presente. A forma da água possui a delicadeza da descoberta do fantástico que vemos em O Labirinto do Fauno. E traz uma ligação direta com os sentimentos mais comuns da vida humana: a solidão, o desejo de estar com alguém, a ajuda ao próximo, a solidariedade, e a capacidade de sonhar mesmo em um cenário grotesco.

O olhar que Guillermo Del Toro dá às suas criaturas é de admiração e carinho. Se pensarmos que as referências principais de A forma da água são Monstro da Lagoa Negra (Creature from the Black Lagoon, 1954) e A Bela e a Fera (1946), encontramos um contraste no tratamento da criatura. No primeiro, ela é um monstro que deve ser exterminado. No segundo, a Fera recebe uma segunda chance, expõe seu coração humano e conquista a mocinha. Além disso, sabemos que King Kong (1933) captura a jovem, sendo o amor algo impossível e a beleza só reside na figura da mulher. Em A forma da água, a personagem feminina tem total autonomia, é ela quem apresenta o seu mundo para a criatura. E, pela direção de Guillermo Del Toro, é possível ver a humanidade profunda dessa criatura que sofre, que respiração como nós, que ama e que precisa ser protegida.

Com efeito, A forma da água é uma grande história sobre ser marginalizado socialmente. Todos os personagens possuem alguma dificuldade com a imagem que se têm deles e quem eles realmente são. A começar por Elisa: o filme nos mostra a sua vida pessoal, seus desejos, os seus sonhos. Conseguimos ver muito dela sem sequer ser necessário falar. O fato de Elisa ser muda dá visibilidade a quem tem a mesma condição. O filme torna essa sua característica aquilo que, de fato, é: normal. É na criatura que Elisa encontra a máxima conexão com alguém. O seu modo de se comunicar é, finalmente, compreendido pelo outro.

A personagem Zelda também passa por isso. O seu casamento tem como base a mentira. Ela só pode expor o que realmente pensa para a amiga Elisa. Em casa, Zelda suporta a presença do marido, mentindo e fingindo o que não sente. Quando ela se vê diante da possibilidade de ajudar Elisa e a criatura, Zelda fala por si mesma. Além disso, tanto ela como Elisa lidam com o problema de ter que aturar qualquer situação absurda, como faxineiras, precisando ocultar o que pensam. E ainda tem o fato de que Zelda enfrenta o racismo.

elisa zelda

Giles (Richard Jenkins), por sua vez, é homossexual e um artista incompreendido. A sua única família é Elisa, e tão somente na sua companhia ele pode ser quem ele deseja ser. Pelos outros, ele é visto de forma condenável e não encontra espaço para si mesmo. A esse grupo, soma-se a presença do cientista Hoffstetler (Michael Stuhlbarg) que se opõe às decisões tomadas por seus superiores. Assim, A forma da água engrandece os desajustados, dá voz a cada um deles.

O trabalho do elenco é de grande riqueza. Sally Hawkins carrega a grande dificuldade que é atuar sem poder se expressar pela fala verbal. A atriz é ideal para a personagem e faz com que acreditemos com facilidade em todas as emoções de Elisa. Não há outra atriz que faria de Elisa tão especial quanto Sally. O trabalho corporal e expressivo de Doug Jones como a criatura fornece vida e magia ao figurino. Juntos, temos dois personagens icônicos. Octavia Spencer também é cativante, dosa bem o humor do filme e faz de Zelda a melhor companheira que Elisa poderia ter. Richard Jenkins como Giles dá a doçura certa para o personagem e tem uma história admirável. Michael Shannon, por fim, faz um perfeito antagonista para a criatura aquática, reunindo muito bem todo o ódio e recusa pela espécie.

O romance, no filme, também se apresenta de modo muito cauteloso. Para pensar a relação entre Elisa e a criatura, é preciso destacar alguns pontos como a questão da linguagem, da imagem e do silêncio. Existe um ensaio do filósofo Merleau-Ponty que se chama A linguagem indireta e as vozes do silêncio. Nele, o autor demonstra como a linguagem se dá apenas visando o outro: não existiria comunicação se nós não falássemos considerando a recepção do outro quanto ao conteúdo. Quando alguém não entende o que dizemos, reformulamos nossas frases, tentamos alcançar o outro. No caso da linguagem de sinais, a palavra se dá pela imagem. Toda a nossa linguagem é um sistema bem articulado entre signo e significado. A linguagem também é a nossa marca de humanidade e pertencimento à cultura.

Em A forma da água, Elisa e a criatura se comunicam por gestos, por desenhos, por algumas palavras ensinadas da língua de sinais, e pela música. Isso nos lembra que o silêncio também fala. Na linguagem cinematográfica, uma cena silenciosa diz e muito. Força um impacto, seja ele trágico ou cômico. Mas a música é capaz de fazer o mesmo. Essa importância da linguagem no filme é mostrada não apenas no contraste inicial que poderia ter – e não há – entre humano e criatura, mas entre os demais personagens. Pois se a linguagem pode unir as pessoas, falando verbalmente ou não, ela também pode ser um modo de divergência e atrito.

Entre Elisa e a criatura, entre os personagens próximos da jovem, a língua é comunhão. Eles compram o valor imenso que a criatura tem para Elisa, e defendem o direito de proteção dessa criatura. Mas aqueles que abusam do poder, no laboratório, parecem falar um idioma diferente: falam de ciência não à favor da vida, mas pelo progresso e pela guerra.

Conhecemos aquela máxima de que “uma imagem vale mais do que mil palavras”. Isso se aplica bastante em A forma da água, porque mostra que imagem é forma de linguagem também: se analisarmos quadro a quadro, Guillermo Del Toro fez de seu filme uma grande pintura. Sempre há muito do que se falar sobre uma imagem, principalmente quando estudamos obras de arte. Mas, assim como um gesto, a imagem em seu silêncio pode expressar mais do que um conjunto de frases que não conseguem alcançá-la por inteira. Esse é o mérito de A forma da água: a imagem demonstra a magnitude do amor de Elisa e a criatura, sem que a palavra seja a única condição para que consigam se exprimir.

DC442191-E5B0-4CB2-AF9C-6B5B0D577E0B-800x445

Por isso a direção, as cores escolhidas e a trilha sonora são participantes ativos do filme. Primeiro, há uma coreografia muito bem construída nos gestos dos personagens e na postura: Elisa encarna a posição das mocinhas da Era de Ouro, e isso está no modo delicado de andar, na posição dos pés entrelaçados ao se sentar. Tudo é construído por Guillermo Del Toro como parte de uma grande coreografia que busca reencenar os filmes icônicos do Cinema.

As cores variam entre verde-água e azul por conta da referência à agua, mas o vermelho dá o tom de paixão à trama e, principalmente, os ambientes tem algo de antiquário: o apartamento de Elisa e o de Giles parece um grande apanhado de objetos antigos. Se lembrarmos o significado de um antiquário, é um grande reservatório de objetos recusados, às vezes obsoletos, que são belos por terem uma história para se descobrir. São como os próprios personagens, invisíveis aos outros, mas com uma beleza singular. Somado a isso, o trabalho de Alexandre Desplat enriquece as ligações do filme com o cinema clássico e o universo dos musicais, além de todo o ideário do amor romântico francês.

Deste modo, A forma da água é um filme que homenageia o amor, que reconta uma história universal a sua própria maneira. Guillermo Del Toro é um mágico que conduz, por meio dos detalhes, a concepção de um universo particular e belíssimo. É possível, no final do filme, provar a mesma sensação de emergir à superfície após residir horas envolvido na história de amor. Por isso A forma da água é um filme que deixa resquícios ao sair da sessão e promove uma conexão forte com o ato de se sentar numa poltrona e dar um voto de confiança para uma fábula que será passada adiante.

 

 

 

Crítica | Sem fôlego

Publicado no site A Toupeira

SemFolego_Cartaz_WebA premissa do filme “Sem Fôlego” (Wonderstruck), dada pelo tom do trailer, é de uma busca catártica de duas crianças pela própria identidade, ao som da épica música Space Oddity, de David Bowie. Alguns elementos como a magia do gabinete de curiosidades e da descoberta do mundo por meio da evolução no Museu de História Natural de Nova York fazem do vídeo uma boa promessa.

O enredo conta a história de duas crianças e épocas distintas. Em 1977, habitante de Minnesota, Ben (Oakes Fegley) sofre pela perda da mãe e tem sua vida mudada quando é atingido por um raio ao atender um telefonema. Por sua vez, em 1927 vemos a jornada da garota Rose (Millicent Simonds), que foge de casa para encontrar a consagrada atriz de cinema mudo Lilian Mayhew (Julianne Moore). Dois pontos unem a vida de Ben e Rose: o fato de serem surdos e a presença de um livro antigo sobre um gabinete de curiosidades.

A princípio, a história e os elementos dados na narrativa são promissores. A busca pela própria identidade, a falta de compreensão diante das dificuldades em ser surdo, e o olhar sonhador da criança que consegue identificar o frescor do mundo, pois tudo é visto, neste instante, pela primeira vez. É o grande olhar de um desbravador, como daquele que pesquisa e coleta os objetos mais exóticos do mundo e os reúne em um gabinete de curiosidades.

O problema, porém, é que o filme menciona elementos que, ao fim, são muito mal utilizados para a construção da trama e o desenvolvimento dos personagens. Primeiro, o formato escolhido para contar a história de ambos não permite que conexão alguma se estabeleça entre espectador e personagens. Vamos da jornada de Ben a de Rose como se fosse uma mera linha temporal, em que uma história é contada sem se preocupar com as emoções das pessoas retratadas.

A trama de Rose é toda contada no formato de um filme mudo de 1927, em preto e branco e com a trilha sonora acompanhando-a. Contudo, reunindo a sua parte com a de Ben, o modo de contá-la se torna vazia e até mesmo entediante.

De uma cena a outra, somos levados às resoluções dos personagens, sem surpresa ou encanto algum. O caminho é óbvio, e a trilha sonora também não ajuda, é insistente em tentar recriar um formato de outra época, tornando-a uma imagem superficial e pouco crível. Além disso, as tomadas situadas nos anos de 1970, com Ben, são exaustivas, com uma câmera que não foca nas cenas apresentadas, tornando-se meros borrões que buscam remeter ao universo periférico de Nova York.

Como foi dito, tanto o tema da surdez quanto o olhar fundante da criança podiam compôr uma história singular. A resolução dada ao enredo é rápida demais para criar impacto, não dando tempo para o espectador se envolver e ter a mesma sensação, ao final, de pertencimento a um lugar, junto aos personagens. Nem mesmo a presença do tal livro tem um impacto verdadeiro na trama.

Assim, Sem fôlego possui nas mãos elementos que poderiam dar certo para uma construção narrativa e perde a oportunidade de criar um grande filme sobre a exploração da beleza do mundo através do heroísmo de duas crianças e a união de duas épocas por meio de um singelo livro.

Crítica | Me chame pelo seu nome

me chame pelo seu nome imagem de capa

Publicado no site CF Notícias 

Indicado ao Oscar em quatro categorias: Melhor filme, Melhor Ator (Timothée Chalamet), Melhor Roteiro adaptado, Melhor canção original.

O filme Me chame pelo seu nome (Call me by your name) evoca o melhor dos ares festivos e sonhadores das férias de verão. É uma grande exposição delicada sobre o primeiro amor e as dores dos ritos de passagem. Dirigido por Luca Guadagnino, retrata o romance de verão entre Elio e Oliver, e pode ser visto tanto como uma história de amor quanto como uma bela narrativa sobre o tempo.

Indicado a três Globo de Ouro por Melhor Filme Dramático, Melhor Ator em Filme Dramático – com o talentoso Timothée Chalamet – e Melhor Ator Coadjuvante por Armie Hammer (Oliver), o filme tem recebido elogios por parte da imprensa internacional e com razão. Curiosamente, Me chame pelo seu nome tem uma participação intensa brasileira: um dos produtores é Rodrigo Teixeira, e a RT Features é a sua produtora responsável pelo filme italiano cada vez mais próximo do Oscar, o qual ainda não liberou a lista de indicados à edição de 2018.

A história se passa na Itália dos anos de 1980, durante as férias de Elio (Timothée Chalamet). O jovem está prestes a fazer 18 anos, e vive dias de leitura, passeios e transcrições de música. A família dele é composta por pais acadêmicos que recebem, nesse período, alunos de outros países para ficar na casa deles. Por isso, o americano Oliver (Armie Hammer) se hospeda durante o verão para acompanhar os estudos de arqueologia do pai do jovem e acaba por viver um romance efêmero de verão com Elio.

A obra tem o ritmo leve e preguiçoso de férias. A forma com que ela retrata o tempo parece distante da intensidade que vivemos no meio urbano atual. É fácil o espectador se deixar deitar na beira de uma piscina para experimentar a mesma sensação de Elio e Oliver ao aproveitar dias solares. A permissão do tédio, de observar os fatos e viver o dia sem ter como base tarefas a seguir, mas tão somente a presença do sol, é um convite irresistível que Me chame pelo seu nome faz e consegue cumprir, deixando o espectador viver tudo com intensidade pela perspectiva do jovem Elio.

me-chame pelo seu nome

A paleta de cores e a fotografia são compostas pela delicadeza das cidades do interior da Itália, entre as águas e as pedras que circundam os habitantes, pedras essas que parecem sempre possuir uma história muito antiga para narrar. O figurino também é responsável pela excelente transformação do ambiente na Itália dos anos de 1980, favorecendo a caracterização dos personagens de modo fiel.

Além da adaptação do livro de André Aciman conceder um bom enredo, o elenco é o grande responsável pela qualidade do filme. Armie Hammer consegue transferir o ar misterioso e maduro a Oliver, característica que aos poucos se ameniza diante das emoções que ele se permite mostrar e como se entrega à relação. Por sua vez, o trabalho de Timothée Chalamet faz de Elio um personagem fascinante. Começa o filme com uma postura acanhada, uma personalidade reclusa que duvida de si mesma diante de Oliver, para uma figura que amadurece aos poucos diante dos olhos do espectador. Notamos isso pelo olhar, pela forma de andar, os gestos e as falas insinuantes de Elio, tornando-se um personagem cativante, do qual é impossível tirar os olhos.

O filme poderia ser mais uma história sobre amores de verão, porém a forma com que se escolhe contá-la é o que faz dele uma excelente obra. As referências à arte, à filosofia e à música não são aleatórias. No conjunto, o longa se compõe por cada uma de suas menções. A primeira referência que se pode notar, na trama, é o espaço onde os personagens se concentram. Em alguma cidade da Itália, os personagens criam um vínculo em um lugar onde a história tem camadas intermináveis. O pai de Elio é arqueólogo e a produção trabalha sob a mesma tarefa: explorar e descobrir sentimentos como quem encontra uma estátua esquecida ao fundo do mar. É Vênus, a deusa do amor, por sua mão feita de pedra de outros tempos, que coroa e oferece trégua à relação dos personagens.

me chame pelo seu nome 2

A presença da água também é importante. Primeiro, ela se mostra como parte do imaginário da Roma antiga, dos tempos de banhos públicos entre os homens em águas termais. É confirmado pela História que, entre os gregos, a relação homossexual não era tabu. Pelo contrário, a relação entre homens mais velhos e os mais novos era incentivada por se considerar que havia uma transmissão de valores do mais sábio a nova geração, e que o mais velho aprendia com o mais novo.

Elio e Oliver possuem, de início, esse obstáculo da diferença de idade, que aos poucos é superado. É bem-vindo o fato de a trama conseguir apresentar uma relação igualitária, que não consiste em um homem mais velho explorando um mais jovem, numa relação em que pesaria a experiência e conhecimento do outro enquanto o mais novo se sentiria diminuído ou mesmo privilegiado apenas por ter sua atenção. O filme toma cuidado para apresentar uma relação mútua particular entre duas pessoas de idades diferentes, com uma interação que cresce de forma natural, sensível e realista, sem soar desigual ou abusiva pela idade e experiências distintas.

A abordagem do masculino usando a sensualidade das esculturas gregas de Praxíteles também contribui muito para o longa. Sabemos como é difícil e um tanto raro, no cinema, ver o retrato do corpo e da sexualidade masculinos da mesma forma que se vê o feminino. A verdade é que a nudez feminina é sexualizada com imensa frequência nas artes, enquanto a masculina por vezes é dada como apenas uma exaltação do corpo atlético e honrado por representar a força potencial pertencente ao ideário masculino.

A narrativa faz dos próprios personagens uma alusão às esculturas gregas e ao passado da Itália, e novamente, a água não é item arbitrário. É possível entender a estrutura do filme se prestarmos atenção às citações de Heidegger e principalmente aos fragmentos de Heráclito. Na trama menciona-se a famosa frase de Heráclito, filósofo de cerca de 500 a.C., “nunca se banha duas vezes no mesmo rio”. O filme, com a sua simplicidade de mostrar um romance efêmero, também dialoga com a ideia filosófica de Heráclito, de que nada é fixo, a única coisa permanente, segundo ele, é justamente a mudança. Grande parte do filme se passa nas águas. A estátua resgatada do mar é a mudança entre Oliver e Elio. As outras cenas em que os dois também se encontram nas águas são simbólicas na relação de ambos como mais uma mudança. Elio e Oliver não são os mesmos cada vez que se banham nas águas, e a relação muda os dois.

O ponto que arremata a inteligência do filme é a presença do fogo. Entre os pré-socráticos, buscou-se responder qual era o elemento essencial que forma o cosmos. Tales, considerado o primeiro filósofo ocidental, afirmou “tudo é água”. No decorrer da produção, vemos as referências ao sêmen e ao alimento suculento (o pêssego) como parte importante da história dos dois, sendo que são elementos mencionados pelo próprio Tales como sinônimos de vida por serem úmidos. Porém, Heráclito via o fogo como o elemento da natureza que definia o cosmos. E por que o fogo? Porque ele é a luta dos contrários, é como existe, de fato, vida: na mudança. O fogo seria, então, a imagem da permanente mudança, da vida que consome a si mesma. No filme, o fogo se apresenta como a mudança que é preciso contemplar por ser inevitável na existência humana.

Dito isso, Me chame pelo seu nome apresenta uma relação com um arco bem planejado na sua proposta, sem necessariamente ter que oferecer reviravoltas e tristezas. O título apresenta o peso da relação desses dois personagens: carregar o nome do outro é assumir a responsabilidade pelo outro. A película, em todo o seu retrato delicado de um verão, apresenta, assim, um ensaio sobre o significado da vida e do tempo. O término deixa notas melancólicas por mais um verão terminado e a sensação de ter presenciado um produto de imensa qualidade.

Crítica | Roda Gigante

roda-gigante-poster-oficial-critica

Publicado no site A Toupeira

Uma ex-atriz sonhadora que desistiu da carreira no teatro. Um rapaz aspirante a dramaturgo. Uma garota a qual busca reconstruir a vida longe do gângster que amou. São esses os personagens principais do novo filme de Woody Allen, “Roda Gigante” (Wonder Wheel), que estreia nesta quinta-feira (28).

O longa podia certamente ser encenado em um palco. Todo o intuito das passagens de diálogos longos e a ênfase nos tipos humanos soam como uma peça teatral ambientada na famosa Coney Island. Entre a brilhante praia, os mundos artificiais e ilusórios do parque de diversões, narrativa tragicômica escrita por Allen se estabelece.

A história conta o drama de Ginny (Kate Winslet), infeliz em um casamento com Humpty (James Belushi) e a paixão pelo salva-vidas Mickey (Justin Timberlake). O caos no centro familiar é dado com a vinda de Carolina (Juno Temple), filha de Humpty, fugindo da vingança de um gângster.

O roteiro de Allen soa como um pastiche de suas próprias obras. Ele repete as várias fórmulas que já desgastou no decorrer de seus últimos filmes. É verdade que “Roda Gigante” é melhor que o maçante e sem vida “Magia ao Luar”, mas sem a dose boa de melancolia em “Blue Jasmine”. E sem a magia adocicada de “Meia-Noite em Paris”. Todas as reviravoltas na trama são esperadas. Certamente, não é ruim que se saiba o que vem pela frente no enredo de um filme. Mas, se bem preparado o terreno e a atmosfera, aquilo pode funcionar. O que ocorre, porém, é o erro de o roteirista e diretor repetir, sem a menor dedicação, os estereótipos e viradas de roteiro já utilizados à exaustão nas suas histórias.

O índice mais forte é a personagem de Kate Winslet. Allen insiste em construir personagens femininas à beira da loucura ou ataque de nervos. Contudo, se em “Blue Jasmine” Cate Blanchett consegue dar grandeza à protagonista que deixou de ser rica e precisa trabalhar, se adaptando à vida sem luxos, pouco resta para Kate Winslet trabalhar com o roteiro fraco que tem em mãos. “Roda Gigante” é uma tentativa de aumentar o tom cômico e as cores que “Blue Jasmine” equilibra com sobriedade, soando como cópia colorida. O que ocorre é que, se pretende ser cômico e inesperado, não consegue com o roteiro de piadas batidas e personagens com os quais é difícil de realmente se envolver.

No fim, todos soam como peças mal utilizadas no filme. Ginny, de Kate Winslet, teria possibilidades interessantes com o seu passado de atriz. Mas ela só se torna a visão que Allen repete, em seus filmes, de muitas de suas personagens, com a diferença de que em “Blue Jasmine”, finalmente, a loucura que ele dá àquela personagem feminina faz sentido diante de tudo pelo qual ela passou. Enquanto isso, a versão de Allen para seus personagens masculinos são sempre aqueles que, mesmo com seus dilemas psicológicos e neuroses, se saem bem ao final, pelo menos com a chance de se realizarem intelectualmente.

De “Roda Gigante” realmente só fica a qualidade da fotografia. O grande protagonista do filme é, de fato, o trabalho refinado de Vittorio Storaro, pois é ele quem concede à produção alguma qualidade destacável. Coney Island é mostrada na tela com todos os tons possíveis de nostalgia daqueles verões litorâneos com parques de diversões para amenizar o tédio. A luz também fornece um papel importante para dar atmosfera aos sentimentos dos personagens, do azul se vai ao laranja, retorna-se ao azulado, se há discussões e intensidade, ele usa rosa ou vermelho. Tudo isso para mostrar como é falso o universo dos personagens que vivem ao lado do parque de diversões.

O grande problema é que, mesmo contando com esse trabalho de Storaro, a iluminação e fotografia perdem seu potencial quando o ator ou atriz precisam falar os diálogos. Eles parecem fora de tom, com uma comicidade na hora errada, não contribuindo para justificar as atitudes dos personagens.

Dentro de casa nada é belo como parece. E essa mensagem, que Allen fica enfatizando tanto durante o filme, só surge com beleza pela luz e fotografia, mas não pelo roteiro. Ao fim, o longa não permite emoções e nem construir impressões sobre os personagens, e mostra um Woody Allen tentando aplicar a todo custo as mesmas histórias que já contou.

O Assassinato no Expresso do Oriente, de Agatha Christie

expresso

Publicado no site Notaterapia 

O Assassinato no Expresso do Oriente

Agatha Christie

HarperCollins Brasil, 200 páginas, capa dura

O Assassinato no Expresso do Oriente, da autora britânica Agatha Christie, é uma de suas obras mais conhecidas e aclamadas no gênero policial. A experiência de ler essa história é a de poder ser Hercule Poirot por alguns dias e desvendar um crime juntamente à narrativa veloz e instigante, tão fluida quanto um trem que corta a Europa.

A história se passa toda no interior do trem Expresso do Oriente, no qual o americano Ratchett é assassinado e encontrado com golpes de faca em sua cabine, ao lado daquela em que o detetive belga Hercule Poirot dormia. Vendo-se diante da possibilidade de o assassino ainda estar no trem, parado por conta de uma nevasca, Poirot se engaja com o caso, pressiona cada uma das pessoas no trem em depoimentos fascinantes.

Agatha Christie trabalha, em primeiro lugar, com os estereótipos do próprio gênero policial. Há um caso, pistas verdadeiras e falsas, em meio a tipos humanos variados. Essa heterogeneidade de etnias, entre cada um dos suspeitos do trem, é a oportunidade para enganar o leitor: baseando-se nos equívocos em se esperar que mulheres fossem fracas demais fisicamente para cometer crimes; italianos e latinos como as primeiras suspeitas baseadas em xenofobia; ricos como incapazes de sujar as mãos; e as análises superficiais psicológicas que muito se compra na literatura, nesse livro Agatha consegue tornar tudo isso uma razão cômica, dialogando com as teorias que os próprios leitores podem vir a ter. Com personagens pertencendo a diferentes regiões e classes sociais, o que temos é um prato cheio para suspeitas.

Hercule Poirot é quem comanda o romance e logo ganha a simpatia do leitor. Com bigodes grandes demais – os quais ele tem a dificuldade de manter limpos ao tomar sua sopa -, o detetive tem ar gentil e cômico, que combina com o absurdo da situação que investiga. A atmosfera é agradável, com a beleza das roupas elegantes dos anos 30 e o romantismo de trens que cortam o frio europeu.

Além disso, a estrutura do romance é simples, mas muito rica. A autora sabe como recuar diante de suspeitas a alguns personagens, como lançar luz em novos suspeitos, confundindo o leitor que busca acompanhar o caso como um detetive. Nós nos vemos com páginas de anotações e teorias criadas, ansiosos para chegar finalmente ao desfecho. Tive a oportunidade de ler esse livro em grupo, ideal para isso, pois as teorias se expandem, e a dúvida sobre as várias opções de resposta para o crime se intensifica.

O Assassinato no Expresso do Oriente é uma leitura que entusiasma por ser instigante. A grande quantidade de diálogos e as transições bem feitas de um personagem ao outro lembra a estrutura de uma peça teatral, e é essa mesma a inspiração para a obra e para o crime. Em geral, o trem é um grande palco onde cada personagem expõe o seu papel social e Poirot é o dramaturgo que os testa. O leitor é, ao fim, a plateia surpresa com o desfecho e aquele que aplaude a sagacidade do simpático detetive de bigodes ao fechar o livro.

O filme O assassinato no Expresso do Oriente, de 2017, estreia dia 30 de novembro. Dirigido por Kennenth Branagh, e responsável por Poirot na adaptação, o filme conta com um elenco grandioso: Judi Dench, Olivia Colman, Penélope Cruz, Josh Gad, Daisey Ridley, Derek Jacobi, Johnny Depp, entre outros. A versão clássica, de 1974, foi dirigida por Sidney Lumet, com Sean Connery, Ingrid Bergman, Albert Finney, Lauren Bacall.

%d blogueiros gostam disto: