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Conheça a excelente série policial Broadchurch

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Penhascos alaranjados recortam as areias e contemplam as ondas vindas do mar. O cenário é idílico, doce e poético para férias de verão. Aquela grandiosa massa de pedra é, na verdade, parte da costa britânica, a famosa costa jurássica, um patrimônio da Humanidade com 185 milhões de anos. É nesta região, a de Dorset, no Reino Unido, que se estabelece a cidade fictícia Broadchurch, que dá nome à série policial de Chris Chibnall. E é também nesta praia e cenário delicados onde um garoto vai aparecer morto nas areias e iniciar a investigação da série na 1a temporada.

Agora, no dia 27 de fevereiro, a série estreia a sua 3a e última temporada. O ponto forte desta trilogia é o talento de Chibnall para escrever uma boa história. Acompanhamos os detetives Ellie Miller e Alec Hardy na investigação da morte do garoto Danny Latimer na 1a temporada, para enfrentarmos o julgamento na 2a temporada mais a investigação de outro caso, os das meninas Pippa e Lisa. Em vez de ser um caso por episódio, Chibnall permite que o espectador mergulhe perigosamente nos sentimentos de cada um dos personagens. Somos comandados por Miller e Hardy, mas nos vemos à mercê das dúvidas e dos sofrimentos entre vítimas e criminosos.

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Broadchurch é um grande teste emocional. Além de ser uma boa história policial, onde acompanhamos cada suspeito e cada evidência, onde podemos criar teorias e tentar desvendar junto aos detetives, a experiência mais forte é acompanhar o drama dos personagens. Alec Hardy é um detetive que poderia ser o fácil estereótipo do personagem perturbado por um passado e mal-humorado simplesmente porque ele quer ser assim, como já vimos em tantos anti-heróis por aí. Contudo, ele é muito mais do que isso. O roteiro de Chibnall revela a sensibilidade de Hardy, o peso doloroso de carregar um caso de infanticídio não resolvido, a ausência da família e o único fio de esperança, que é a amizade com Miller. Ele acaba por ser um herói complexo, com o qual o espectador passa a se relacionar com profundidade, pois no fim apenas nós testemunhamos como tudo para ele é doloroso e como ele se sente derrotado em relação à própria vida.

Ellie Miller, de início, é uma personagem doce, e parece ser o estereótipo criado às personagens femininas para preservar o mundo das emoções e da sensibilidade, características que acreditam pertencer apenas às mulheres. Porém, mais uma vez, Chibnall faz de Miller uma personagem feminina forte, com suas vulnerabilidades humanas, e principalmente, não tem receio de mostrar que a raiva pode ser um sentimento pertencente à mulher. Quantas vezes vemos mulheres com raiva na televisão ou no cinema? Logo a raiva é dada como um sentimento histérico, sem razão alguma. Se o personagem masculino, porém, apresenta essa raiva, ele é enaltecido. Assim, Miller é essa força da natureza que engrandece Broadchurch. Ela vê o melhor nos outros, mas logo cresce como detetive e passa a saber suspeitar, a dar chance à dúvida. Enquanto nativa de Broadchurch, durante a investigação, ela é obrigada a pressionar as pessoas com quem ela cresceu, a duvidar e a ver suas falhas. E, na 2a temporada, passa pelo grande teste, junto ao Hardy, de ver o trabalho de investigação com o qual se empenharam tanto ser posto em dúvida também.

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Além da excelente construção de personagem pelo roteirista, Ellie Miller e Alec Hardy exercem um fascínio por conta das brilhantes atuações de Olivia Colman e David Tennant. Logo na primeira cena, Olivia encanta por saber conduzir a sua personagem de forma humana e doce. A emoção que ela expõe, enquanto atriz, é fundamental para que o espectador entenda o peso da investigação do menino Danny: estamos vendo tudo pelos olhos e pela emoção da Ellie, pois o seu filho era melhor amigo de Danny. Houve cenas em que não era necessário chorar, porém a situação e o roteiro são tão fortes que Olivia conduzia a cena com independência. Inclusive, Ellie foi criada para ser interpretada por ela. E, de fato, é impossível vê-la sem a atuação de Olivia, consagrada por 2 prêmios BAFTA, um deles por sua performance na série.  O trabalho de Olivia tem crescido muito por conta do sucesso de Broadchurch, com séries e filmes premiados em 2016 como The Night Manager, Fleabag, Flowers e o filme The Lobster, enredos que vão do drama à comédia, mostrando o quanto Olivia pode ser versátil.

O desempenho de David Tennant como Alec Hardy é igualmente brilhante. Para compreender o detetive, é preciso ser bem observador e constatar a nuance entre as expressões de David. Podemos estar acostumados a vê-lo pela leveza do 10th Doctor em Doctor Who, pelos seus papéis excelentes em peças de Shakespeare ou mesmo o vilão Kilgrave em Jessica Jones, mas aqui David concede muita humanidade ao Hardy, sentimos que ele, de fato, existe. Acaba por se tornar difícil juntar a imagem do ator ao personagem, pois Hardy é esta figura taciturna, que carrega e esconde todas as suas dores, oculta a sua sensibilidade e se sacrifica pelos outros. Assim, a grande qualidade de Broadchurch reside nas mãos de Olivia Colman e David Tennant.

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O tema da série, o infanticídio, é tratado com cuidado e maestria, mas não é o único tema. O casamento, a complexidade das relações, a confiança no outro, a insegurança em carregar a responsabilidade por tentar explicar crimes terríveis. E, agora na 3a e última temporada, três anos terão se passado e vamos acompanhar Miller e Hardy investigando um caso de estupro. Com pesquisas de três anos realizadas com grupos de apoio em Dorset e investigadores que trabalham na área, Chibnall promete uma última temporada que retrate bem o drama da vítima. E se pensarmos, é algo necessário entre os seriados, que muitas vezes usam o estupro apenas como pano de fundo em mais um caso ou nunca dão voz à vítima. Por isso, Broadchurch é uma reunião de todos esses temas, conseguindo criar quase uma sinfonia melancólica e realista sobre a vida.

Seguindo isso, Broadchurch é uma série policial rara. Com uma fotografia e paleta de cores extremamente cuidadosas, que falam muito pelo estado emocional dos personagens, ela surpreende por se destacar em seu gênero televisivo. A ênfase no cenário belo e a profundidade do drama vivenciado pelos personagens são contrastes enormes, mas que encontram um equilíbrio na bela produção da série. Chibnall, o roteirista, se inspirou bastante nos livros do autor inglês Thomas Hardy, que escreveu novelas inseridas no Romantismo, no século XIX. Assim como na escola literária a Natureza traça um diálogo com as emoções humanas representando-as, a série gosta de explorar as cores do ambiente: o azul melancólico dos céus pertence ao Hardy, enquanto o laranja quente e vivo é de Ellie. Cores que parecem exercer um contraste, mas que nos cenários do penhasco alaranjado e das ondas azuladas, convivem perfeitamente.

Há vários momentos em que o Hardy contempla o mar do alto de um penhasco. Quase como as pinturas românticas de Caspar David Friedrich. Porém, enquanto na pintura o homem surge como aquele que domina a natureza e a contempla apenas de longe, Hardy se mistura totalmente à Natureza. Com seus problemas de saúde, o personagem olha para ela como quem pensa sobre a vida e a morte, e ele se recorta no cenário apenas como mais um homem frágil diante da dimensão da Natureza. Ela é mais um personagem da série, e por isso a fotografia tem grande importância: em meio aos crimes, ela se preserva como um belo doloroso, que muitas vezes fala pelas emoções dos personagens.

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Casper David Friedrich, Wanderer above the Sea of Fog (1818)

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O figurino também é relevante, pois ele parece, à primeira vista, tão simples quanto as roupas que vestimos diariamente. E é este o objetivo: vemos personagens realistas e imperfeitos como nós, com pouca maquiagem e vestes simples. A jaqueta laranja de Ellie é o grande símbolo de sua personalidade viva, a qual ela precisa lutar para preservar em meio a todo o caos das investigações e da desilusão com a própria cidade. Alec carrega elementos azuis que denotam a sua melancolia. Quando Ellie veste roupas azuis, na série, é claramente o instante em que ela adentra no universo de Hardy, descobrindo mais sobre seu passado. Nas fotos promocionais da próxima temporada, Ellie usa mais roupas azuis, e isso faz pensar se ela terá mais proximidade com Hardy, se a amizade entre eles vai se aprofundar, e o que os tons frios falam pela sua personalidade.

Esse trabalho na cor do figurino chama a atenção porque a série pega, de início, as características que normalmente as ficções concedem aos seus personagens: se é mulher, ela é o lado sensível e com cores mais quentes; se é homem, ele é a racionalidade, a melancolia e os tons frios. Por muito tempo, a racionalidade já foi dada como atributo natural masculino, o que sabemos que não é verdade. A ciência, a melancolia e o conhecimento eram direitos exclusivos do homem. Para a mulher, eram reservadas a leveza e a sensibilidade. O que Broadchurch faz, no roteiro, é algo fantástico: coloca seus personagens nesta zona, logo no início, para depois desconstruí-los. Hardy é emotivo, tem rompantes de raiva e choro pelas vítimas, e admite que, por isso, não conseguiria conduzir uma investigação, na 2a temporada. O que ele faz? Pede ajuda à Ellie. E a personagem assume a raiva e a racionalidade, expõe a melancolia, mas com a peculiaridade das próprias vivências. Ou seja, não há, em Broadchurch, tentativas de tornar um personagem mais importante que o outro: Hardy e Miller são colunas que se erguem igualmente sustentando Broadchurch.

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E ainda é preciso destacar a qualidade da trilha sonora. Ela opera junto com as cores e a fotografia. Da mesma forma que essas estabelecem um cenário que fala pelos personagens, a trilha é como uma voz da cidade: em alguns momentos é possível ouvir as ondas misturadas ao piano, ao toque eletrônico e ao violino, mesmo que não tenha praia alguma na cena e seja em ambiente fechado. As ondas, o peso da Natureza continua como parte da vida daqueles personagens. E a trilha de Ólafur Arnalds compõe muito bem todo o trabalho sinestésico da série.

 Sendo assim, a série Broadchurch é algo que precisa ser visto. O gênero policial tem se destacado entre as últimas produções europeias, se diferenciando do modelo americano que explora um caso por semana. Para quem prefere acompanhar um caso por toda uma temporada, ver um desenvolvimento maior da personalidade dos protagonistas, Broadchurch é uma ótima opção, e mesmo um dos maiores exemplos desse novo segmento no gênero. E ainda é uma história tão humana que ser espectador dela, fazer parte da vida de Ellie Miller e Alec Hardy, é uma experiência singular semelhante às jornadas do herói, com personagens que se tornam próximos e amados.

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A série é exibida no Brasil pelo canal +Globosat, está disponível no Now da Net, em torrent e online. A 3a e última temporada estreia dia 27 de fevereiro, segunda-feira, 9pm (18h no horário de Brasília) no canal ITV, em UK.

Se tiver interesse em ler as proximidades da série com os livros de Thomas Hardy, o tumblr da Penfairy apresenta algumas análises (com spoilers) aqui aqui aqui aqui aqui e aqui (sugestões de leitura). Porém, este post aqui explica em geral as influências do autor na série e quem foi Thomas Hardy, que infelizmente não é tão conhecido assim no Brasil, com poucas traduções. Os livros tomados como referência pela série, segundo a autora do tumblr que pesquisa o trabalho de Thomas Hardy há alguns anos, são Tess of the d’Urbervilles (importante para a 3a e última temporada) e Desperate remedies. Mas Chibnall se refere a alguns detalhes de outras obras, e principalmente apresenta uma atmosfera e cenário modernos da região de Wessex.

Saiba mais sobre o universo da Wessex de Thomas Hardy aqui na BBC News. E se quiser começar as leituras, a obra Tess of the d’Urbervilles (no original) está disponível gratuitamente no site da Amazon para Kindle.

[Inédito] Van Gogh e Paul Gauguin reunidos em foto rara

Publicado no site Literatortura 

Este é um documento excepcional que acaba de ser exumado e o qual o site L’Express revela a sua existência: Vincent Van Gogh e Paul Gauguin posam em uma mesma fotografia. Esta é a primeira vez que esses dois artistas considerados geniais na história da arte figuram em um mesmo clique.

Tal descoberta extraordinária foi possível pelo célebre marchand de fotografias, Serge Plantureux. Apenas algumas raras fotografias de Van Gogh, quando criança, haviam sido apresentadas até hoje. Contudo, nós podemos ver aqui, pela primeira vez, talvez, o grande pintor holandês na idade adulta (outros retratos circulam, mas os quais têm sua autenticidade discutida). Ele é o terceiro contando da esquerda, com um cachimbo nas mãos.

Detalhe (um tanto difícil de ser visualizado): sobre a mesa está repousando – no primeiro plano, diante da garrafa – o famoso chapéu em pele de coelho de Van Gogh, com o qual ele se representa em seu célebre autorretrato com a orelha cortada, em janeiro de 1888.

Rue Blanche, em Paris

Paul Gauguin está na extrema direita. Ele veste um “bragou berr”, calça bufante tradicional da região de Pont-Aven, onde ele se instalou em 1886. Na data em que este registro foi feito – imagem em cartão, de 9 centímetros por 11 -, ele acaba de retornar de uma viagem ao Panamá.

Este clique histórico é datado do fim de 1887, sem dúvida do mês de dezembro. Ele foi tirado no pátio da Rue Blanche, 96, em Paris, onde André Antoine havia convidado jovens artistas à expor no Théâtre-Libre. Van Gogh apresenta, também, um quadro neste anexo, Le jardin avec amoureux. Estão igualmente presentes na fotografia Emile Barnard (o segundo a partir da esquerda, com uma barbicha), pintor que havia reencontrado Paul Gauguin em Pont-Aven no ano anterior; Félix Armand Jobbé-Duval (o segundo contando da direita), artista bretão próximo de Gauguin; André Antoine, no centro; e Arnold Koning, um amigo dos irmãos Van Gogh (na extrema esquerda, com a boina).

O quadro exposto por Van Gogh, em 1887, Le jardin avec amoureux

Entre 120 mil e 150 mil euros

A pesquisa de Serge Plantureux, que já havia revelado uma foto inédita do escritor e poeta Charles Baudelaire (aqui), em 2013, pôde comprovar que todos esses artistas, quase personagens para a posteridade, estavam em Paris no mês de dezembro de 1887. Van Gogh somente partirá em fevereiro de 1888 para Arles, com as trágicas consequências que conhecemos: a violenta disputa com Gauguin, ameaçado com uma navalha, antes de o pintor holandês cortar a orelha. Esta cena terrível irá ocorrer em dezembro de 1888, exatamente um ano após a foto tirada na rue Blanche.

Por fim, este precioso clique for recuperado por Serge Plantureux do acervo do editor e bibliotecário Ronald Davis, fornecedor oficial da família Rothschild. Será oferecido em leilão no dia 19 de junho, em Bruxelas, em uma venda de fotografias antigas. Está estimado entre 120 mil e 150 mil euros.

Fonte: L’Express

A polêmica da selfie

Publicada na minha coluna semanal do Fashionatto

cat-selfieNa semana que passou, fui bombardeada por selfies, notícias sobre selfies, polêmicas sobre selfies – as que quero tratar aqui, tweets sobre o mundo tecnológico. Resolvi, então, reuni-los aqui na coluna de hoje, para pensar um pouco sobre o assunto. O dicionário Oxford escolheu, em 2013, incluir “selfie” como a palavra do ano. Curioso contatar que “twerk” – a coreografia que Miley Cyrus fez no VMA do ano passado – e “binge-watch” (quem assiste muita televisão) competiu com o posto de palavra do ano, mas perdeu para a selfie. (aqui)

Utilizando a definição do Oxford, a selfie é “uma fotografia que a pessoa tira de si mesma, com um smartphone ou webcam, carregada em um site de mídia social”. Para quem está nas redes sociais, a selfie não é grande novidade. A impressão que dá, porém, é que o status de uma foto com um amontoado de rostos ou de si mesmo era um tanto esquisito ou, em alguns casos, narcisista se tirado e postado quase todos os dias, acabou por se tornar popular, com todo mundo falando em “vamos tirar uma selfie”, porque, claro, agora é tendência.

Para esse assunto, primeiro, vou colocar aqui que não sou enviada pelos deuses para trazer a palavra divina de que selfies são um mal da sociedade pós-moderna-líquida e precisam ser exterminadas. Dizer que é um mal é um termo pesado, pois em geral a selfie é algo comum. Obviamente, se você tem uma rede social, a selfie é a forma mais fácil de simplesmente tirar uma foto de si mesmo e atualizar o perfil. O curioso está na sua popularização repentina e nos extremos que pipocaram esses dias na mídia.

Relembrando um fato do início do ano, no Oscar, a apresentadora Ellen Degeneres proporcionou uma evidência maior à selfie quando postou uma foto– incrível, diga-se de passagem – com diversos atores consagrados na cerimônia do Oscar. Com isso, já dá para apontar uma primeira característica da selfie: ela permite a proximidade, no caso, humanizou os atores que sempre estão seguros de suas poses na maior cerimônia da área cinematográfica.

As redes sociais fazem isso por nós, já sabemos que elas prometem a proximidade e a quebra de fronteiras apenas com um clique. A selfie posiciona o sujeito no foco de sua foto, claro, mas permite a proximidade que teríamos da pessoa diante dela, presencialmente. Ficamos na altura dos olhos do observador, próximos. Em grupo, provavelmente encena-se a sensação de alegria genuína de pertencimento a um grupo enquadrado na foto, que precisou ser registrado. Dito isso, a selfie pode, sim, ter uma motivação ingênua e um mero registro a ser guardado ou divulgado por conta de um momento memorável.

Contudo, o problema vem a seguir. No dia 21, alguns sites (aqui) divulgaram que uma estátua do século XIX havia sido quebrada após um jovem subir na perna da estátua – sim, subir – para tirar uma selfie com a estátua. Uma estátua. Uma selfie com uma estátua. Do século XIX. Quebrada. Nesse momento, eu contenho aqui minhas mãos tremendo, os dentes rangendo e uma vontade de dar um tapa em uma pessoa que faz isso. Mesmo que não fosse uma estátua, que o tal ato de tirar uma selfie causasse um acidente – sei lá, tirar foto de si mesmo com um trem atrás que, por fim, acaba por atropelá-lo. Não faça isso – já é extremamente grave.

As câmeras não registraram a destruição dessa peça rara do século XIX ou talvez não queriam divulgá-lo. No momento, já estão trabalhando na sua restauração. O que nos faz pensar aqui é o que motiva alguém a querer tirar uma foto com uma estátua. Se você é estudante de Arte, pode até ser que lá no fundo você queira tirar uma foto com a Mona Lisa ao fundo, no Louvre. Ou com a Vênus de Milo. Provavelmente isso será um ímpeto de alguém que vê nas páginas dos livros essas imagens que sempre os encantou e, no fim, estar diante delas é tão inacreditável que o registro parece responder que sua existência é mesmo real.

Mas há uma sensação geral de querer registrar tudo numa viagem, quase inevitável quando já se tornou recorrente a frase “vou postar no facebook”. Ou checar suas atualizações no celular enquanto almoça com seus colegas. O problema está nessa distância que a tecnologia pode criar, no excesso que ela incita quando puxa o sujeito para um abismo de simulacros, num espaço em que ele acredita ter poder supremo para postar conteúdos que atinjam o outro – aqui entra o cyberbullying -, ou esquecer que há um mundo real acontecendo, pessoas reais existindo, enquanto prefere recriar a própria identidade nesse mundo efêmero.

E é muito difícil fugir disso. Nem sei qual solução se daria a isso. Provavelmente apenas um alerta que eu estou tentando repetir a mim mesma e que vou falar a você, meu querido  leitor, se ainda estiver aí depois de tudo o que escrevi: o mundo tecnológico acaba por trazer muitas pessoas para perto, que vivem em outros estados, países, que passam a estar na sua vida. E isso é ótimo, uma oportunidade para expandir suas opiniões, vivências.

Mas conhecê-los pessoalmente é, ainda, uma sensação que não dá para substituir. Mesmo que criem robôs futuramente, numa vida paralela em que se substitua humanos – estou falando em robôs mesmo? Meu Deus, preciso encerrar isso aqui – a presença do outro traz o inesperado. A surpresa, o choque de algo novo começar a existir numa convivência, é algo que nem a tecnologia ainda conseguiu inventar ou colocar num chip. O exato momento em que a imagem que você fazia do outro se modifica ainda não foi capturado, justamente porque é uma daquelas coisas que nem conseguimos explicar pela palavra.

Desta forma, não é necessário se prender em casa, jogar o notebook pela janela, ir viver na floresta, se mudar para uma caverna, a fim de evitar o mundo tecnológico. Mas até que ponto isso não está interferindo na maneira com que contemplamos as pequenas cenas do cotidiano? Se é que as contemplamos. Até nossa relação com a história e vivência que o outro tem para nos contar se tornou limitada a poucos caracteres, num desejo de que o outro conte logo porque o tempo é curto. Por isso, volto aqui, depois de todo esse caminho, à selfie. Será que a foto que tiramos – depois de mais de 50 versões até achar apenas uma boa, satisfatória aos olhos daquele que vai ver nosso perfil – fala mesmo sobre você? Se selfie envolve um retrato de si mesmo, onde se encaixa a nossa liberdade de registrar realmente um retrato que se oponha ao desejo do outro?

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Marina Franconeti escreve todas as terças-feiras para o Fashionatto.

fonte da imagem de capa: heavy.com

Motherland chronicles: um mundo místico nas lentes de Jingna

Matéria publicada no site Fashionatto

O ensaio fotográfico a seguir carrega uma grandiosidade singular. Com uma atmosfera etérea, mesclando elementos mitológicos com estereótipos dos contos de fadas clássicos e animes orientais, a fotógrafa Zhang Jingna criou um mundo à parte, em um projeto que durou um ano. Ela consegue, por meio da fotografia, forjar uma nova realidade com um figurino surpreendente, o qual é o grande responsável pela beleza do ensaio.

O projeto foi nomeado Motherland Chronicles. Zhang Jingna, junto ao ilustrador Tobias Kwan, criou o que seria, inicialmente, um exercício semanal que se tornou em um book extremamente artístico. Uma história foi desenvolvida e um mundo conceitual surgiu pelas lentes da fotógrafa. A regra era publicar uma foto a cada semana, com o tema fantasia.

Para Zhang, este projeto foi uma junção criativa de imagens e temas que ela resgatou de sua infância, como o anime japonês e as influências das fantasias. Além disso, ela pôde desenvolver um trabalho diferente dos ensaios comerciais nos quais ela trabalha frequentemente, tendo em vista o deadline dos clientes. Em Motherland Chronicles, a fotógrafa ficava imersa nesse novo mundo de 5 a 8 horas, para finalmente capturar o conceito e os detalhes que pretendia transmitir. Para ela, o projeto “treina os olhos dela e a estética numa diferente perspectiva do que quando está desenvolvendo um trabalho comercial e relacionado à moda”. O curioso do projeto é que ele é desenvolvido a cada semana, o que a faz trabalhar intensamente nos conceitos envolvidos, na produção, no ensaio e edição, a tempo de terminá-lo.

No caso da imagem acima, que compõe o Motherland Chronicles nº 34, nomeado In the Secret Garden, a fotógrafa desenvolveu-a entre um e dois dias. Segundo ela, é inspirado nos séculos 10 e 13 da Rússia. Uma vez que ela teve a ideia inicial, primeiro comprou as flores durante a manhã no LA Flower Market. Depois, ela levou o resto do dia planejando o ensaio, assim como o convite à modelo e o estilo do figurino, cabelo e maquiagem. No dia seguinte, ela já estava pronta para o ensaio.

Tobias Kwan, então, fez a ilustração do ensaio, que ficou igualmente bela.

Em Motherland Chronicles nº 1, The First, é o mistério que reina no ensaio. Foi o modo com que Jingna começou o seu projeto, a fim de deixar a máscara se misturar à maquiagem do rosto e o cabelo desgrenhado às penas, criando uma identidade para o projeto e uma harmonia à imagem. Ela não sabia como iria fazê-lo, mas teve a ideia quando viu uma máscara numa loja de fantasias para o Halloween. Ela lembrou que tinha uma máscara que trouxe de Veneza, sendo o detalhe perfeito para o início do projeto.

Só de imaginar o desenvolvimento de um ensaio fotográfico debaixo d’água, já sabemos o quão difícil pode ser realizá-lo. Não seria diferente, no caso de Dive. Jingna ficou 6 horas na água, em todo o processo do ensaio. Foi necessário pedir a ajuda de outra profissional, que tinha uma câmera específica, para conseguir fazê-lo. Mas, por fim, ela conseguiu concluir o projeto, sempre com o objetivo de explorar um método novo.

Com o ensaio Raven Girl, Jingna narra um fato curioso que ocorreu nos bastidores. Ela precisou fazer o ensaio no seu apartamento e o processo foi cansativo. E para piorar, o clima estava muito quente. Durante 5, 10 segundos, a modelo ficou inconsciente, desmaiou porque, obviamente, o calor só dificultava o uso do vestido longo, preto e feito de penas. Quando ela acordou, perguntou “ah, oi, eu estive longe por muito tempo?” e o choque foi diluído pelos risos da equipe, afirmando o quão graciosa foi a queda dela com o vestido, parecendo a bela adormecida. Depois disso, ela foi para a emergência, claro.

A ilustração de Tobias traz a atmosfera bem bizarra e trágica do ensaio, em que ele desenhou a Raven Girl contando histórias do Goethe (o livro que ela segura) para um bebê gigante.

O projeto de Zhang Jingna é ousado porque demonstra que a fotografia não é somente um método de apresentar a realidade. Mas é capaz de criar um novo espaço. E ela o faz pelos detalhes presentes no figurino, na expressão da modelo. Cada ponto da foto conta uma história. Aqui, o figurino se torna protagonista.

Ademais, o projeto também traz à tona a ideia de que o processo artístico não se resume somente ao produto final. Ele está nos erros e acertos do artista durante o tempo dedicado. Visualizamos apenas o todo do trabalho, mas as partes que o compõem estão nas entrelinhas. E elas merecem ser reveladas pelo relato do artista a fim de que se conheça não só o produto final, mas levar a sério também a criação.

Mais imagens aqui e aqui 

Fonte

Série de fotos expõe a mítica união entre mulher e Natureza

Matéria publicada nos sites Literatortura e Fashionatto

Ao longo dos séculos na Literatura e na Arte, a figura feminina esteve, muitas vezes, vinculada ao teor mítico da Natureza. Ela nutre a terra, o

vento movimenta as árvores, os animais conseguem seu sustento pelo mistério da vida. Era assim que se visualizava a Natureza, como uma entidade nunca plenamente compreendida, dotada de magia. E a mulher como procriadora, capaz de conceber uma nova vida, tal qual a Natureza.

Essa concepção da mulher que vemos na poesia e na arte pode ser encontrada também na fotografia de Katerina Plotnikova. A artista cria uma atmosfera nebulosa que revela um mundo semelhante aos contos de fada. Seu trabalho expõe mulheres jovens em vestidos esvoaçantes, com animais em torno, como se fossem as princesas ingênuas de um conto de fadas dos irmãos Grimm. Ou, no ensaio em questão, a mulher como alegoria da Natureza.

Fica evidente a inspiração de Alice no País das Maravilhas e O Mágico de Oz em algumas das criações da fotógrafa. Mais do que uma foto, ela traça um diálogo com a aura que as ficções criaram em torno da menina e da mulher. A nudez soa como uma Vênus perdida numa floresta, ou, no caso das meninas com cervos e raposas, a descoberta do mundo pelos olhos inocentes da infância.

O tratamento dado às cores pela fotógrafa transforma o que seriam meras fotos coloridas em uma cena real do que é, contrariamente, uma ilusão. Incomoda a beleza das fotos. E, por um momento, parece que acreditamos na mitologia e nos contos de fadas. Mas nota-se que a fotógrafa busca justamente brincar com o que é estranho e irreal. A presença dos animais selvagens, quietos e tranquilos nos colos das garotas, está lá para mostrar que é uma ficção. E que a artista está fundando um novo mundo pela imagem.

Podemos dizer que essa aproximação da mulher à Natureza, presente no ensaio de Katerina, lembra os versos do poema Ariana, a mulher, de Vinicius de Moraes. Ariana e as mulheres no ensaio se encontram também na terra e na essência dos animais, como se fossem uma só:

“Baixei à terra de joelhos e a boca colada ao seu seio disse muito docemente – Sou eu, Ariana…

Mas eis que um grande pássaro azul desce e canta aos meus ouvidos – Eu sou Ariana!

E em todo o céu ficou vibrando como um hino o muito amado nome de Ariana.

Desesperado me ergui e bradei: Quem és que te devo procurar em toda a parte e estás em cada uma?

Espírito, carne, vida, sofrimento, serenidade, morte, por que não serias uma?

Por que me persegues e me foges e por que me cegas se me dás uma luz e restas longe?”

Katerina deixa bem claro o quanto idealizou a ficção para o seu trabalho artístico. “A fotografia tornou-se parte de mim. O tempo todo fico pensando em como implementar um novo design. Onde posso encontrar um cervo filhote? Como faço para colocar uma cadeira na árvore? Como posso fazer um balanço pendurado no céu?”. É surpreendente ver o quanto conseguimos acreditar, por um momento, na bela ilusão criada pela fotógrafa.

Fonte.

Dá vontade de colocar tudo aqui, mas o trabalho da fotógrafa é extenso (mais de 100 fotos). Para conferir mais, clique aqui.

Revisado por Amanda Prates

O cotidiano pelos olhos do fotógrafo Henri Cartier-Bresson

Matéria publicada no site Fashionatto

Não é difícil reconhecer uma fotografia do francês Henri Cartier-Bresson. Ele tinha o enorme talento de congelar momentos que pareciam ter surgido magicamente para ele, um momento que parou para as lentes do fotógrafo sabendo que seria inesquecível. Mas a verdade é que Bresson tinha um olhar apurado para o aspecto por vezes cômico ou melancólico presente nas ruas, no cotidiano das pessoas. A sinceridade no seu registro salta da fotografia.

O pai do fotojornalismo moderno nasceu em 1908, em Chanteloupe, na França, e morreu em 2004. Sua fotografia foi influenciada pelo húngaro André Kertész. Bresson teve inúmeros discípulos que também se tornaram lendas da fotografia, entre eles Robert Doisneau, Willy Ronis e Edouard Boubat. Mais um ponto interessante de sua carreira é que as fotografias de Bresson já estamparam revistas como a “Life”, a “Vogue” e a “Harper’s Bazaar”. Várias figuras conquistaram as lentes de sua câmera, registrando os últimos dias de Ghandi e ainda Pablo Picasso, Braque, Alberto Giacometti, Henri Matisse, Paul Claudel, Paul Valéry, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir e Albert Camus.

O que a fotografia almeja, muitas vezes, é revelar a identidade de um povo inserido naquele contexto em que o fotógrafo se encontra, apresentar o que ninguém visualiza como arte, descobrir pequenas cenas de gênero a fim de apresentar ao mundo outras possíveis realidades ocultas no cimento urbano. O que salta aos nossos olhos diante de uma foto de Bresson é a capacidade da imagem em falar por si mesma. Comumente, busca-se a legenda que explica o sentido da foto tirada pelo artista em um museu como uma luva que veste perfeitamente a foto. A questão é que, vendo não só essas fotos de Bresson, mas de muitos artistas, é possível perceber que a plaquinha, essa luva, pode ser imperfeita. Nós conseguimos interpretar Bresson livremente e é isso que a fotografia deseja: instigar o observador a fazer parte dela. Assim, o momento estático, na foto, se presentifica com inúmeras possibilidades de interpretação.

Se olharmos com atenção para as fotos de Bresson, veremos que ele aplica poeticamente a geometria aos seus trabalhos. Na composição das imagens, ele integra linhas verticais, horizontais e diagonais, curvas, sombras, triângulos, círculos, convertidas ao olhar do artista.

Acerca do momento decisivo para o clique, Bresson disse que, às vezes, costumava ocorrer espontaneamente ou alguns exigiam paciência dele para esperar o momento certo. Inflexivelmente, Bresson esperava. Ele era muito metódico e, assim, sabia quando a pessoa estava no espaço e composição perfeitos para ser clicada.

Henri Cartier-Bresson conheceu vários lugares no mundo, como Índia, toda a Europa, Estados Unidos, China e África. Quando ele viajava, era capaz de aprender com a cultura local, observando-a respeitosamente. Por exemplo, quando ele estava fotografando na Índia, optou por ficar durante um ano imerso na cultura indiana a fim de retratá-la fielmente.

Encontramos nos trabalhos dele, também, o talento para tirar fotos de crianças brincando pelas ruas, criando imagens envoltas numa beleza nostálgica da infância. Quando fotografava nas ruas, sabia se colocar como um observador discreto. Para ele, era como se houvessem mundos distintos para desbravar, mas que pediam atenção e cuidado para que não perdessem a poesia da cena. A figura de um fotógrafo não deixa de ser a de um aventureiro em meio a um mar bravio, com ondas inesperadas. O clique da câmera deve ser perspicaz para que a cena sobreviva.

Podemos tentar decifrar a cena de algumas das fotos de Bresson. Um menino carregando garrafas, aparentemente bem pesadas, as quais ele abraça com um sorriso contido, mas orgulhoso por sua força, como se fosse um herói por carregá-las. Talvez ele tenha recebido alguns trocados para ajudar uma senhora. Ou a mãe dele, exausta, pediu que o filho as levasse para casa ou para o quintal, organizando uma festa familiar. Como se pode ver, a foto é capaz de dizer inúmeros discursos.

Um casal deitado na praia, entre os cascalhos, protegidos do sol por um guarda-chuva. Fica no ar o mistério dos rostos ocultos e se estão se beijando, dormindo. O tom inesperado e criativo da foto está no uso do guarda-chuva para protegê-los do sol, e não da chuva.

Talvez na foto ao lado, Bresson tenha visitado uma escola. As crianças ficaram curiosas diante da câmera e, timidamente, resolveram olhar, ingenuamente achando que não seriam vistas. Será que essa foi uma foto de fato planejada? Nunca saberemos. Pode ser que Bresson tenha ficado esperando o momento em que a escadaria estivesse lotada de crianças para, finalmente, clicar. O interessante é o aspecto vertiginoso da escada encaracolada. Olhamos a foto, mas parece que seus personagens nos veem também. Estamos, mais do que nas outras, sob a perspectiva do próprio Bresson. A troca de olhares fica em suspenso e parece que, simultaneamente, as crianças aguçam nossa curiosidade e nós, espectadores de Bresson, provocamos o mesmo nelas.

Desta foto parece até mesmo soarem os risos das crianças. E pela perspectiva de um buraco em um muro, como se estivéssemos à espreita observando, como uma criança se esconde. O buraco terá sido provocado por algum bombardeio? Será um lugar inóspito, habitado somente por essas crianças durante algumas horas de brincadeira?

Já essa foto parece remeter ao quadro Banhistas em Asnières (1884), de Georges Seurat, e à presença do barco nas obras de Monet. As pessoas sentadas à margem do rio, o barco à espera, o piquenique no gramado, o valor que as saídas do meio urbano tomaram no final do século XIX. Parece que isso vibra na foto de Bresson como referências.

Por fim, a foto ao lado é memorável. O reflexo perfeito do homem a saltar na poça. É como se houvessem duas fotos inseridas em uma só, nos fazendo pensar o que pode ser ilusão ou não. Muitas das críticas iniciais à fotografia, no final do século XIX, diziam que ela limitaria a imagem ao que é exposto, como se fosse uma mera cópia da realidade. Porém, podemos conceber a fotografia como mais uma maneira de chocar nosso olhar. Por vezes, ela guarda na imagem não a verdade sobre um acontecimento, mas o choque perpetuado, uma memória. E, sendo assim, pode ganhar novas interpretações e significados, chocando ou não quem a contempla. Permanece na fotografia o contato instigante com duas vidas – a realidade concreta e a retratada na foto – como se a ficção tremeluzisse na poça que o homem salta, mostrando que está lá para ser vista pelos nossos olhos.

As palavras do jornalista Truman Capote definem bem a personalidade de Bresson, um homem apaixonado pelo seu ofício. “Ele dançava na calçada como uma libélula inquieta, três grandes Leica penduradas ao pescoço, a quarta colada ao olho, tac-tac-tac, disparando cliques com uma intensa alegria e uma concentração religiosa de todo o seu ser. Nervoso e alegre, dedicado ao seu ofício, Cartier-Bresson é um homem solitário no plano da arte, uma espécie de fanático”. Dessa dança frenética pelas ruas, cenas foram reveladas não somente por uma câmera, mas pelo nosso olhar, que as contempla no papel e na própria vida.

Fonte.

Revisado por: Nathália Rinaldi.

Ensaio fotográfico transforma desenhos infantis em realidade

Matéria publicada no site Literatortura 

Toda criança já sonhou com seus desenhos se tornando cenas reais de sua vida. Não exatamente desenhos de monstros ou pesadelos que ela possa ter tido, mas sim de mundos imaginários, criaturas fantásticas, o sonho de voar como Peter Pan. O desenho se torna uma das primeiras expressões dos desejos infantis, uma forma de começar a colocar os seus sonhos e intenções, enquanto se está crescendo, no papel.

É comum ver crianças fazendo desenhos de sua família, como elas a compreende, de casas com um sol no céu sorrindo ao canto da folha. É a maneira de canalizar a imaginação que está se formando num período em que ficção e realidade se confundem. Aos poucos elas vão se tornando lembranças e aprendemos a discernir um pouco o que pode ter sido imaginado. Mas a verdade é que a memória é um campo dúbio no qual a linha que divide o imaginário e o real é bem tênue.

 E se esses desenhos se tornassem realidade? O artista plástico coreano Yeondoo Jung decidiu fazer algo meio insano: um ensaio fotográfico recriando cenários irreais de desenhos infantis, como se estivessem num mundo imaginário. Por isso, um de seus maiores trabalhos é conhecido como “Wonderland”, o País das Maravilhas, de Alice.  Ele selecionou desenhos de crianças entre 5 a 7 anos, levando quatro meses para o artista selecionar 1.200 croquis nos jardins de infância de Seul. Assim, em 15 de julho de 2010, após ter convencido cinco estilistas a criar as roupas para os ensaios, a Emmanuel Perrotin Gallery, em Paris, dedicou uma exposição com os desenhos e as fotos de Jung.

 É fascinante ver até onde vai a imaginação das crianças, desinibida e longe de censuras. As fotos podem soar estranhas quando as vemos, mas é justamente porque hoje se tornou incomum imaginar o mundo dessa forma. A sensação que temos ao olhar as fotos é que realmente fizemos desenhos desse tipo quando éramos crianças e agora finalmente vemos como poderiam ser na realidade, mas com uma releitura livre, deixando para a gente a chance de imaginar, novamente, outras possibilidades para esse desenho. Desta forma, a foto não limita seu significado, apenas proporciona uma leitura divertida e sem compromisso da real grandiosidade do desenho infantil.

O resultado pode ser conferido abaixo! Os desenhos lembram algum que você tenha feito quando criança?

fonte.

Revisado por Amanda Prates.

A nuvem é ilusão: confira uma série de fotos de nuvens fantásticas

Matéria publicada no site Literatortura

As nuvens são a maior representação do efêmero. Se você tem a sorte de olhar para o céu e ver uma imagem definida em uma delas, em pouco tempo a figura se esvai formando outra. Uma verdadeira galeria a céu aberto, se você contemplá-la com atenção. Quando criança parece que há toda uma aura em torno dos desenhos de nuvens. Depois nos tornamos adultos e esquecemos que já vimos dinossauros, animais, monstros, flores no contorno almofadado de uma nuvem.

O filme O Fabuloso destino de Amélie Poulainé um dos filmes que, no meu caso, recuperou esse fascínio pelas formas aleatórias das nuvens. A personagem nos faz ver que a maioria já quis fazer o mesmo: fotografar e registrar aquele momento único em que, aos seus olhos, uma forma acaba de surgir no céu. A nuvem tem um tom de urgência. Chamar alguém que esteja por perto a fim de fazer o mesmo e olhar para o céu pode ser arriscado. Não necessariamente a pessoa verá a mesma forma que você. A nuvem é subjetiva.

O artista Berndnaut Smilde, na exposição The Uncanny (O Estranho) que ocorreu esse ano na galeria Ronchini, em Londres, consegue o impossível: por meio de uma máquina que produz névoa, o artista transfere a tão distante nuvem para uma sala, podendo ser fotografada pelo visitante. Nunca o efêmero esteve tão próximo. E sua presença, tão controlada. Assim, ele recupera a beleza da nuvem e a faz mais próxima, focando sua vulnerabilidade, sobre a qual não costumamos pensar.

É possível também considerarmos a perspectiva do poema Nuvens, de Álvaro de Campos (leia aqui na íntegra). Em nenhum verso ele enfatiza que trata de nuvens, somente no título. Mas você as sente permeando o poema. Veja só:

“Outros viajam (também viajei), outros estão ao sol 
(Também estive ao sol, ou supus que estive).
Todos têm razão, ou vida, ou ignorância simétrica,
Vaidade, alegria e sociabilidade,
E emigram para voltar, ou para não voltar,
Em navios que os transportam simplesmente”.    

 A angústia que conhecemos nos poemas de Álvaro de Campos diante da frieza cotidiana, o sentimento de que nada mais surpreende, pode ser sentida nesses versos. As ocupações enclausuram os homens. Bom, e claro, podemos dizer que a grande soma de prédios nos impede de ver qualquer outra realidade além de concreto. As pessoas se encontram e se desencontram com muita facilidade, a viagem tornou-se simples de ser feita. A razão vem como um senhor que comanda cada passo e a vaidade, por vezes, isola-nos mais da vida que pulsa.

 “Não sentem o que há de morte em toda a partida,
De mistério em toda a chegada,
De horrível em iodo o novo…” 
 

A nuvem não deixa de ser morte. E ainda ilusória. Ela carrega o mistério do porvir. Mas mesmo com todas essas definições, poderíamos ainda ousar dizer que, poeticamente, a nuvem é o nada. A matéria-prima dela é justamente a sua mutabilidade. E quem faz a nuvem? Nossos olhos, quando insistem em ver imagens com as quais convivemos na nossa realidade.

E nada melhor que a fotografia, que sempre eterniza o efêmero, para nos apresentar o registro de nuvens que provavelmente nunca veremos no caminho de casa para o trabalho. As formas são alucinantes, as cores surpreendem. Nem parecem existir. Mas é novamente a surpresa que a nuvem prepara aos nossos olhos. Confira o ensaio fotográfico aqui

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