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TagMuseu d’Orsay

OBRA DE ARTE DA SEMANA | As quatro partes do mundo sustentando a esfera celeste, de Jean-Baptiste Carpeaux

jean baptiste carpeaux

Publicado no Artrianon (março)

Uma obra grandiosa que fala sobre a humanidade e que soa incrivelmente renovada se a pensarmos nos últimos dias de anúncio de uma pandemia, com fechamentos de fronteiras e países tomando decisões emergenciais em razão do novo coronavírus. A escala mundial, de repente, se tornou pequena e possível de se sentir em poucos dias, em qualquer região.  A escultura em bronze do artista Jean-Baptiste Carpeaux, As quatro partes do mundo sustentando a esfera celeste (Les quatre parties du monde soutenant la sphère céleste) de 1872, representa o trabalho da Europa, da América, da Ásia e da África em segurar, no alto, o globo terrestre.

Sobre Carpeaux, sabe-se que o artista foi filho de pedreiro e fabricante de rendas. Seu pai conseguiu matriculá-lo aos 10 anos na famosa Petite École de Paris, onde aprendeu desenho, arquitetura e lapidação. Em 1844, ele ganhou a entrada para a École des Beaux-Arts e passou a maior parte da década seguinte repetidamente tentando ganhar o Prix de Rome em escultura. Quando finalmente ganhou, pôde viver em Roma e se inspirar nos grandes nomes italianos. Carpeaux criou também as obras Ugolino e seus filhos e A Dança, um grande e animado grupo para a fachada da Opéra de Paris, e a qual foi recebida pelos críticos e público como um escândalo.

Exposta no saguão do Musée D’Orsay, trata-se de uma das principais esculturas que reside na simbologia do museu junto ao relógio. Vale observar, em primeiro lugar, que hoje consideramos como continentes a América, Europa, África, Ásia, Oceania e a Antártida. A escolha do artista se concentra em nomear apenas as regiões, possivelmente, a partir dos domínios entre impérios e reinos. É uma divisão com a perspectiva do século XIX.]

Jean-baptiste_carpeaux,_le_quattro_parti_del_mondo_che_tengono_un_globo,_04

Dito isso, podemos pensar sobre a estrutura da escultura. Para começar, a esfera celeste é toda vazada. A escolha de Carpeaux em representar o globo dessa forma é inteligente, pois aquilo que poderia parecer uma massa densa, o peso enorme que Atlas segura nas costas, é figurada com leveza, quase sem forma. O contraste entre o mármore dos corpos e o globo dão a impressão de que o peso reside mais entre os continentes do que na esfera.

É preciso notar que cada figura apresenta um movimento à cena. Elas não se encontram estáticas ao sustentar o globo, mas girando em aflição por dividir o peso e o movimento. A Europa tem os braços levantados, o cabelo esvoaçando e olha para o globo, o corpo todo reto. A Ásia, com suas tranças longas, olha preocupada, com o rosto voltado para a Europa. A África e a América estão lado a lado, uma com os cabelos longos olhando para o alto, e a outra com o cocar de penas, o corpo virado para o lado. O detalhe interessante está na figura da África: grilhões foram quebrados, e ela está livre da escravidão. Carpeaux fez bustos em vários materiais dessas personagens, e a figura da África deu origem a um busto que Carpeaux exibiu com a inscrição “Por que nascer escravo?”.

Considerando que o século XIX é um período tomado pelo orientalismo e visões reducionistas sobre nacionalidades além da europeia denominadas como o “outro”, o trabalho de Carpeaux é admirável, nesse contexto, por preservar os traços de cada figura e marcas das culturas. É verdade que os corpos seguem os padrões europeus da beleza feminina, que retorna constantemente à Vênus. Ainda assim, o artista não escolheu em representar as quatro partes do mundo por figuras femininas de mesma face, alterando só os gestos. São figuras com características e emoções próprias, tornando o conjunto da escultura uma reunião de nacionalidades além das fronteiras europeias, as quais tinham perspectivas hegemônicas no século.

Além dessa obra, há outra versão feita por Carpeaux, no Jardim de Marco Polo, na Fontaine de l’Observatoire, em Paris. O barão Haussmann, o prefeito de Paris responsável pelas alterações que delinearam o aspecto que conhecemos hoje da cidade, encarregou Carpeaux de projetar a fonte em 1867. O escultor escolheu o tema que combinou com o do Observatório e a figura de Marco Polo, mercador veneziano que viajou para a Ásia, com todo o ideário europeu de “descoberta” de outras culturas.

Fontaine_de_l'Observatoire,_July_4,_2007

Foi Emmanuel Frémiet quem continuou o trabalho da escultura na fonte após a morte de Carpeaux em 1875, fabricando os oito cavalos, os golfinhos e as tartarugas da bacia. Louis Vuillemot fez as guirlandas em torno do pedestal. E Pierre Legrain esculpiu o globo com os signos do zodíaco.

O trabalho todo de Carpeaux é uma composição majestosa da delicadeza no bronze e na pedra. O pathos da cena, a emoção, é a escolha central do artista em contar uma história pela escultura e cativar. Isso aparecia no seu gosto pelo movimento das vestes, dos gestos e olhares, algo mais expansivo e apaixonado do que o ar contido do neoclassicismo e as referências gregas. A escolha do globo terrestre também retoma a cosmogonia grega, de Parmênides e Platão, pois nessa tradição havia o mundo terrestre e o Outro-Mundo. Passando para esse segundo, pela morte, leva ao círculo desejável.

O universo, em Timeu de Platão, estaria na forma da esfera: “Quanto à forma, Ele (o Criador), deu-lhe (ao Universo) a mais conveniente e natural. Ora, a forma mais conveniente ao animal que deveria conter em si mesmo todos os seres vivos, só poderia ser a que abrangesse todas as formas existentes. Por isso, ele torneou o mundo em forma de esfera, por estarem todas as suas extremidades a igual distância do centro, a mais perfeita das formas e mais semelhante a si mesmo, por acreditar que o semelhante é mil vezes mais belo do que o não-semelhante” (PLAO, 2, 488).

Seguindo esse trecho de Platão, a proposta da obra de Carpeaux propõe o equilíbrio pela esfera porque as quatro partes do mundo podem ser vistas como a principal conforme fizermos o círculo, o movimento da esfera em torno da escultura. Nós mesmos passamos a ser uma parte do movimento de sustentação. Estando o globo segurado pelas duas mãos de cada figura, evita-se representar o globo como objeto detido em apenas uma das mãos, como dominância de território. O poder está nas quatro figuras, de modo que esteja submetido à preservação do todo. E, sendo o círculo essa perfeição que dá ao semelhante a beleza, não há distinção entre as partes. São todas em igual equilíbrio responsáveis pela manutenção da esfera celeste.

Nada diferente da situação vivida no século XXI, em que a possibilidade de viver uma pandemia em escala global e dar visibilidade a mais histórias e vivências das pessoas em torno do mundo ao mesmo tempo, reúne, em certa medida, esse belo do semelhante e a perfeição da totalidade. E, ainda, demonstra que a sustentação de algo tão grandioso como a Terra e a vida ainda reside numa responsabilidade social pelo coletivo.

Referências bibliográficas

CHEVALIER, J. Dicionário de símbolos. Jean Chevalier, Alain Gheerbrant, com a colaboração de: André Barbault. coordenação Carlos Sussekind; tradução Vera da Costa e Silva. 26a edição. Rio de Janeiro: José Olympio, 2012.

Tortured Soul, Golden Touch – The New York Times

Enciclopédia Britânica

Musée D’Orsay

Les rues de Paris

Créditos das imagens: Louise Going out, Wikipédia

Olympia e a primeira vez no Museu d’Orsay

22. Olympia - 1863

Já houve momentos em que eu me vi com dificuldade para começar um texto. Normalmente já passei dias achando que não conseguiria colocar uma ideia no papel, até que encará-lo é a única saída para lançar a primeira palavra. E uma boa estratégia também pode ser iniciá-lo de maneira metalinguística, só para que se dê um passo na página branca opressora. Então creio que seja este o tipo de início que você está lendo. Mas isso aconteceu porque a dúvida era como eu expressaria as diferentes emoções, que parecem ter durado horas, diante do quadro que estudo na graduação. E fazer uso da metalinguagem me parece compreensível, já que uma obra de arte nos obriga a tratar dela em seu interior.

No caso, falo de Olympia (1863), de Édouard Manet. Adiei por alguns dias este misto de matéria e crônica porque trato da Olympia em relatórios da iniciação científica há dois anos. Para uma estudante de graduação, dois anos de pesquisa se tornam significativos demais. O início é inseguro e, quando se menos espera, o relatório se torna um espaço agradável onde habitar. Não nego o encanto em falar sempre da Olympia. Contudo, quando se é posto diante da obra – e não das reproduções que você tenta usar, dando o máximo de zoom para observá-la, ou as imagens dos livros – a pergunta é invertida: em vez de se questionar “o que falar dela?”, torna-se “como falar dela?”.

Nas páginas de livros, nas análises críticas, vi Olympia de maneira mais branda do que a obra presente no Musée d’Orsay. E olha que a imagem e o estudo já são extremamente envolventes, e impossível não se encantar pelo mistério que a envolveu no século XIX. Vista no museu, ela é assustadora por ser imponente. Se em 1865, quando exposta no Salão, Olympia provocou mais de 80 críticas raivosas, que as classificavam como “mulher-gorila” devido a sua linha amarronzada – o que já indica as distinções entre classes sociais daquele público que a viu – até “corpo em putrefação”, ao vê-la, de fato, entendi como aquele olhar de Olympia e a sua nudez conseguem ser imponentes.

Na imagem dos livros, seu corpo parece um pouco mais fluido. Na obra, com as tintas de Manet, ela praticamente respira e nos questionamos por que o seu tronco é tão rígido e como se sustenta nos lençóis tão macios. Este questionamento já feito antes, durante a pesquisa, se tornou mais urgente e renovado diante da obra. A pele de Olympia é feita de um branco misturado ao amarelo e marrom, é instigante que tenha sido definido como uma tonalidade de cadáver pelo crítico do Salão, pois o seu corpo parece estar iluminado e, ao mesmo tempo, ocultar pedaços de sua pele em certos cantos de escuridão, o que realmente deve ser o motivo por trás desta crítica tão direta e irônica. A pele de Olympia, quando você sobe a pequena escada no Orsay e vê obras de Alexandre Cabanel, se mostra totalmente diferente da pele alva herdadas de Vênus e do imaginário renascentista, de uma mulher universal. Uma constatação na pesquisa e retomada no Museu.

Enquanto eu via Olympia, havia um grupo como visita guiada e um rapaz perguntou por que seu nome era Olympia. E a resposta que a guia deu foi sobre o fato de “Olympia” ser um nome comum à época. Mas é preciso acrescentar que cortesãs poderiam ter ganhado este nome. Ela é uma cortesã posta em destaque e que olha diretamente ao espectador. E tem mais essa experiência de choque: o olhar de Olympia possui uma força incomum. A parte superior em que seriam os cílios fica bem evidente pela marca do pincel, uma pincelada marrom e branda, em que Manet não oculta a sua técnica. Parece um olhar fictício que, ao mesmo tempo, com o marrom meio acobreado concedido por Manet, torna Olympia uma cortesã que segue o espectador com veemência e curiosidade e, ainda assim, tem um olhar fugidio e um tanto estrábico. Esse recuo do olhar, visto de maneira bem comedida em Madame de Senonnes (1814), do pintor neoclássico Ingres, por exemplo, ganha uma evidência ainda maior em Olympia. Manet, de fato, deseja que haja a ambiguidade perturbadora neste olhar, da mesma forma que a encontramos nos cabelos ocultos e vermelhos de Olympia e na sua nudez de diversos tons.

Desta forma, minha primeira visita ao Musée d’Orsay foi entrar no saguão, ignorar as demais obras (por enquanto) para procurar Olympia. O encontro com ela foi um rompante de emoção descontrolada – é meio embaraçoso ver que só você está chorando no museu -, além do choque de encontrar mais e mais signos que falam sobre Olympia. Após isso, visitei apenas o andar dos impressionistas e Manet surpreendeu mais uma vez, com a força dos olhos de Berthe Morisot em O balcão e a densidade de Um almoço na relva. Contudo, há muitas obras neste andar que merecem um futuro comentário mais detido – e apaixonado, sobre elas.

16. The Balcony - 1868-69
O Balcão (1868-1869), Manet

Se antes eu me maravilhava com o fato de Manet ter retratado os outros dois personagens, em O balcão, de modo esmaecido a fim de evidenciar os olhos e a percepção de Morisot ao canto, observando a cidade não vista, o quadro assusta por presentificar com força extrema as dúvidas acerca de um olhar de uma personagem e, bem, do nosso próprio olhar. É o que uma obra de arte faz por si mesma, presentificar a sua própria verdade. Mesmo em uma era das imagens que acaba por esvaziar o sentido da obra de arte situada em um museu, em meio aos vícios por fotografar todos os quadros em uma galeria e mostrar aos outros onde se esteve, as obras de arte sempre preservam suas verdades ocultas e acenam para o olhar do espectador, buscando desvelá-las. E a nossa resposta a tal aceno ainda sobrevive. O melhor é ser um turista curioso, que se deixa respirar além das programações de férias, por entre as obras que estão prestes a se apresentar como grandes singularidades.

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