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Um resgate pelos livros não-lidos

Publicado no site Literatortura

books tumblrEm pleno Dia internacional do livro – fato esse que soube ao abrir o facebook – constato que sonhei algo bem estranho esta noite. Eu residia em algum lugar bem diferente da cidade de São Paulo e havia sido uma exigência do governador esvaziar inúmeras casas. Por isso, milhares de moradores foram obrigados a por seus pertences para vender na garagem. Isso gerou um caos entre as pessoas, uma correria e um desejo por proteger, corporalmente, os objetos que haviam ganhado do pai, da mãe, que tinham comprado com desconto na feirinha, no site. Tudo.

E, claro, eu briguei por causa dos meus livros. Até em meus sonhos eu acabo rindo da minha situação, minha vida à disposição dos livros, como se fossem autoridades. Achei engraçado e na hora eu constatei que estava sonhando, mas creio que eu quis continuar lá para ver a cena, até onde eu poderia chegar.

Eu agarrava os meus livros enquanto os outros tentavam barganhar. “Ei, quanto sai este livro grandão aqui?”. E eu olhava entristecida para o Outono da Idade Média e resmungava, “não está à venda”. Depois vinham as outras obras de estética, e meu sangue começava a fervilhar. Não era justo abrir mão de todos.

No sonho, me ocorreu a pergunta – já no estado em que eu compreendia que era um sonho: vale a pena salvar e proteger o livro não-lido ou aquele que já li e tenho boas memórias dele? Comecei a projetar uma nova cena naquela que eu observava no sonho, eu descartando facilmente os que eu não havia gostado. Mas era justo isso? Tentava também salvar, ao mesmo tempo, os livros que eu havia lido e me marcaram por toda a adolescência. Colocá-los em malas era fácil. O problema estava no fato de que eu queria salvar os que eu não havia lido.

O mistério de existir muitas, muitas páginas guardando segredos e mundos prontos para serem habitados, era o que me corroia enquanto eu via pessoas se adiantarem aos meus exemplares esfomeadas por livros de graça, como se fosse um bota-fora. Há alguns anos eu escrevi uma crônica colocando os meus livros não-lidos como ‘livros-promessa’ e que eles tinham um grande valor nesta questão que já me inquietava, se houvesse um incêndio, quais livros deveria salvar. Receio ainda não ter respostas.

Ocorre-me, também, que há algumas semanas eu sonhei também que vivíamos numa era apocalíptica – que, olha só a surpresa, tinha gigantes, dragões e estacionamentos destruídos, vai entender – e a urgência era escolher quais livros eu levaria comigo numa viagem sem volta. As livrarias estavam apinhadas de gente correndo para lá e para cá, e o exemplar do qual eu não queria desgrudar era O vermelho e o negro, de Stendhal. Mas eu não o li ainda! Nem tenho o livro, para dizer a verdade. Por que ele estava lá? Claro, porque na mesma semana eu vi o exemplar na livraria e pensei que eu queria lê-lo em breve.

No meu sonho de hoje, eu até cogitava se não valia a pena entrar em combate com os outros, de bradar ‘vou arrancar suas tripas se tu roubar esse livro agora’. Eu quero crer que a vontade mesmo era a de salvar livros que são mais importantes aos outros, mais do que para mim. De preservar a possibilidade de existir outras alternativas, em um pós-apocalipse onde o estado total seria muito incerto. O livro, muitas vezes, é isso. Não é apenas a chance de viver a experiência do outro, mas ver o outro, reconhecê-lo. Assumir que a realidade – sendo apocalíptica ou não – precisa ser superada. E ela é, quando um livro é aberto.

Por isso, aproveite não apenas o Dia internacional do livro. Aproveite todos os dias com este objeto mais misterioso que as tecnologias disponíveis. Eu, pelo menos, acho ainda muito estranho o que pode acontecer quando a gente abre esse bloquinho feito de papéis anotados por outra pessoa, as dúvidas ressurgem e as sensações se aproximam para serem vividas. Não dá para ser o mesmo depois que você o abre. Mas é bom correr o risco e depois ver o que aconteceu do outro lado.

Rosa-púrpura no real

As roupas se penduram no varal
Tremem ao vento
Clamam por entre as pregas
A presença dessa ficção.
No varal suspendi minha bandeira
Implorando, acenando
Aos dias de casa cheia.
Volte, meu outro
Em que me vejo.
Outro que me acompanhava à padaria,
Chorava comigo no cinema.
Agora os filmes são solitários,
Até os atores espiam a plateia
Procurando você,
Meu outro eu
Quieto agora pela realidade cruel.
Os atores se ajuntam à tela,
Cogitam até sair à sua procura!
Em explosão de rosa púrpura
Você aparece na minha frente,
Preto e branco, adormecido.
De tanta espera o mundo envelheceu
As roupas e as lágrimas secaram.
Mocinha que espreita o horizonte
Fica para os trovadores.
É melhor as mentiras esquecer,
Com uma comédia blasé na TV,
E adeus à Ideia que foi você.

Pés suspensos em devaneios

Hoje, André acordou diferente. Os pés formigavam quando levantou da cama. Parecia que não era mais um adolescente. Olhou-se no espelho, a barba por fazer o tornava mais adulto, mas não era isso. Os pés formigavam, o coração disparava.

Pode-se dizer que era um dia comum. André descia as escadas, sentava-se na mesa, cortava o pão, despejava o café na xícara. E tudo isso, agora, parecia ter um som diferente. Aliás, nunca reparara o quanto era sonoro o contato da faca com as casquinhas do pão. Escovar os dentes também parecia um gesto novo. E ele sentia ansiedade para estar do lado de fora.

Não é bem em casa que André sentia  os pés amarrados e seguros. Eles formigavam por desejar ir além das ruas que conhecia, do país que conhecia. Caminhavam por lojas, corredores, salas, aulas, cafés, livrarias, cinemas, museus, com o prazer da aventura de se surpreender com pequenos acontecimentos. Contato com o ar abafado depois que chovia, do vento bruto produzido pelo metrô que se aproximava, com gente de todas as expressões e roupas, com a luz da universidade que acabava no meio da aula, com a poluição, tudo possuía vida e era surpresa. Terra, concreto, pedrinhas, ideias se aglomeravam no solado ao voltar das ruas.

Após um dia cheio dessas sensações esquisitas, como se o mundo tivesse resolvido abrir seus olhos, André chegou em casa exausto e com os sapatos pesados, densos. Carregavam o mundo lá de fora. E a sujeira no tapete não era bem sujeira, era o que ele havia colhido em seu dia. O centro de São Paulo apinhado de gente, os vendedores ambulantes querendo vender, ternos, saias, saltos vestindo a cidade.

Era certo que devaneios André ainda tinha. Talvez tudo isso aí fosse devaneio. Mas, ora, eles são diferentes quando seus olhos e mente crescem. Havia pouco tempo em que começara a estudar o que gostava e parecia que o mundo ganhara mais peso. Antes apenas sombras nas quais ele acreditava, agora parecia que André visualizava o mundo desnudado e se encantava ainda mais com ele. Antes era fácil sonhar alto com o futuro. Agora, que ele começara a ser vivido, tornou-se mais concreto, espécie de uma escultura que finalmente ganhava os toques do visitante num museu, sem plaquinhas para proibir o contato com as sensações.

E, então, os devaneios passam a ser vistos como pipas enfeitando o céu. Quando brincam loucamente no azul, arriscam-se e, de repente se prendem ao telhado, até ao pneu do carro em movimento! Parecem desejar mais do que a liberdade dos céus. Elas querem um pouquinho de realidade. E, ao recebê-la, sabem o momento certo de se libertar mais uma vez, para se confundirem entre as nuvens.

E as sensações diárias não deixam de ser um despertador para a realidade mais imediata. Elas estão ali, prontas para serem encantadas. Talvez signifique achar graça da vida, mesmo quando se está melancólico e sozinho. Se antes os sapatos de André só encontravam sentido por entre os devaneios, agora eles sabem muito bem o passo que dão. Ainda possuem dúvidas. Mas ousam desgrudar-se do solo, vivendo entre mundos suspensos e maravilhosos, para logo voltarem ao chão. Mais vivos.

Verde esperança

Maria era uma mocinha sonhadora.
No ano novo vestia branco
Crente de que paz iria garantir.
Mas de tão envolta em sonhos,
Maria  aceitava o que o mundo lhe dava.
E assim aguardava o seu destino.
Certo dia,
Maria resolveu viajar no ano novo.
Queria ver novos ares, revolucionar a sua vida!
Mas parecia que o ano novo não começaria bem.
A mala se extraviou
E sem seu branco Maria ficou.
Lojas fechadas, pessoas de branco na rua
E ela, raivosa e abandonada
Pelo próprio destino.
Ela queria se grudar em 2012, não deixá-lo para trás.
Como passar sem o branco?
Foi então que viu uma criancinha,
Trabalhando arduamente no dia do ano novo.
Já estava cansadinho de tanto vender
Lenços coloridos aos turistas felizes.
Maria se aproximou, logo se desanimou.
Não tinha branco, mais essa!
Foi então que a criancinha,
Vendo os olhinhos verdes da doce Maria
Já tristes e desamparados,
Repousou um lencinho verde nas mãos da moça.
Não aceitou nenhuma moedinha pelo lenço.
Mas fez um pedido:
Que Maria estivesse com ele à meia-noite.
Assim, o lencinho verde
Uniu duas pessoas improváveis
Enrolando-os em verde esperança
De que seus sonhos pudessem voar coloridos
Como fogos de artifício.
Com esperança os dois sorriam
Para ver se o ano novo poderia ser melhor.
Já havia começado bem.

Contar os estilhaços

Era um sonhador o Josué.
Só se perdia em contas!
Ao ponto de ônibus ele ia a pé
Contando ladrilhos,
Em somas soltas.
O número regia o seu mundo,
Contava copos, coisas, cartas,
Até as frutas do seu Raimundo,
Pra registrar tudo feito atas.
Mas os estilhaços do coração
Josué não conseguia contar.
Tudo se encontrava no chão,
Amor pisado, esperança a chorar.
Ah, que dó ver aqueles pedacinhos!
Infinitas dores esparramadas
De beijos, gritos e carinhos.
Mais um entre as almas rejeitadas.
Josué tentava contá-los em vão
Talvez um jeito de somar.
No caderno, sua dor virava borrão
Que borracha alguma sabia apagar.
O campo do amor era probabilidade
Mas incerto, um quase-sim, quase-não,
Que arrebata em qualquer idade.
Aceite a verdade, Josué!
São infinitos seus estilhaços
E você existe pra amar.
Feita de ilusões e abraços 
A paixão não serve pra calcular.

Do anúncio à arte

João trabalhava numa agência publicitária. Ele projetava desenhos para pequenos anúncios publicitários. Pasta de dente que prometia um sorriso branco, um lápis de cor que possibilitava o melhor desenho, o desodorante que atrairia todas as mulheres quando usado. Vivia imerso num mundo de sorrisos imediatistas, anúncios que serviam para o hoje e, amanhã, já estavam no lixo. Desenhos feitos por ele meramente produzidos e dispensados após terem feito o seu trabalho de persuasão.

O chefe de João não era lá muito agradável. Na verdade, ele era bem populista. Como os anúncios, ele se desmanchava em sorrisos pelos corredores, mas sala adentro falava o quanto a Maria havia engordado, se ela estava com problemas em casa. Falava também do rapaz da copiadora, “aquele lá tem um olhar soturno, parece prestes a dar um golpe na empresa. Ou será terrorista?”. Imaginação fértil e maldosa. É, ele vivia num mundo paralelo em que todos poderiam trai-lo, indo trabalhar para o concorrente. Ah, palavra que soava terrível. Concorrente. Tal qual os anúncios pregados pela empresa, o chefe de João era falsamente animado, parecia ser o modelo perfeito de chefe por conta de sua agradabilidade. Mas, no fim, ele era um tipo de líder descartável, não agregava nada à equipe. Tão falso quanto o sorriso branco prometido pelo anúncio, nunca conquistado, o oposto do que dizia na propaganda.

E João o incomodava. Ele tinha um espírito empreendedor, seja lá o que for isso. Ele não almejava ser apenas um desenhista de anúncios efêmeros. Em seu íntimo, ele queria ser um artista! Chegava tarde à noite e ia pintar as suas aquarelas, finalizar quadros à óleo, mundos retratados por ele que, apesar dos tons fortes e meio surrealistas, pareciam mais reais do que aquilo que ele pintava nos anúncios. Seus quadros não possuíam a promessa fútil que a sociedade atual tanto adora perseguir. Não, seus quadros carregavam na tinta colorida para que essa se fizesse presente até o último ponto branco da tela; que chamasse a atenção do observador por trazer lembranças adoráveis da infância, talvez dos doces coloridos que João comia após o jantar, com a mãe. Ah, ele ainda não sabia definir qual era a sua arte, mas sabia muito bem que ansiava mais por um legado na parede de um museu do que um anúncio lançado à infinitude das ruas e dos outdoors.

Certo dia, ele passou em frente à sala do chefe e o ouviu falando ao telefone.

-Esses empregados tem me decepcionado e muito – disse o chefe – Em alguns vejo a facilidade de convencer a produzir tal anúncio do jeito que eu quero…aí fica fácil transformar o que eles têm de bruto naquilo que eu quero e com o qual eu vou lucrar muito, né? Mas tem um em particular que me incomoda…o João, que faz os desenhos, sabe? Ele me parece disperso. Vem com ideias novas demais, não gosto muito disso. Essa história de ser visionário é modinha depois que se falou tanto em Steve Jobs. Ser inovador, criativo…aff, não me importo com isso, quero conquistar o mercado e só. E esse garoto…parece que não tá aqui na empresa. Quando discorda de alguma coisa, logo fala e vem com projetos novos. E os outros ficam entusiasmados…perco o meu posto de chefe. Eu sou um líder, é a mim que eles devem seguir!

Houve uma pausa, o chefe ouvia o seu interlocutor. E então respondeu:

-Hum, não acho que esse garoto seja um grande perigo…ah, vai, ele não desenha muito bem. OK, ele desenha. Mas vai passar a vida indo de agência em agência, fazendo aqueles sorrisos tolos de pasta de dente, já tá condicionado a isso. Duvido que vai conseguir alguma coisa além desses anúncios. Essa é a verdade, há gente que nasceu pra ser mandada porque tem talento limitado – acrescentou o chefe – Bom, agora preciso ir, meu caro. Depois nos falamos!

Não deve ser muito agradável ouvir isso de alguém que lhe parecia legal, pelo menos. Quer dizer, será que tenho talento o suficiente para pintar obras de verdade? E então foi essa a hora em que sentimentos romperam. De respeito à raiva foi-se num instante. João se questionava: quem esse cara pensa que é? Ele, João, até simpatizava com o seu chefe, mas e aquele sentimento colérico que estava agora despontando em seu interior? Mesmo que tenha despontado abruptamente, parece que tal sentimento já existia antes de tão intenso e certeiro. Mas não existia. De tanto formular uma imagem da pessoa que perfeitamente conquista a quem está ao seu redor pela retórica, João foi se emaranhando pela palavra sedutora de alguém que se mostra num espetáculo em que é o personagem heroico. Contudo, agora, por um simples telefonema, mostrara-se ardiloso e terrivelmente objetivo.  “João, você pode ser quem quiser, meu garoto”, ele disse, certa vez. “Você tem um futuro promissor aqui na agência, eu irei te dar só chances de crescer!”. Ah, controlar-se é difícil. João não poderia dizer que essa foi uma decepção trágica digna de um mito grego. O respeito fora embora, esmaeceu diante dessa pintura. Imagem que antes se mostrara colorida, agora se distorcia num horror expressionista.

Não, João deveria provar que merecia algo melhor. A sua arte merecia isso. Não era justo que ele passasse noites tentando pintar uma nova realidade na tela em branco e se deixar, ao acordar, corroer-se por aquela que lhe era imposta.

Então ele voltou à sua mesa, já vazia de trabalhos, estava naquele momento definido por ele como “limbo”, aguardando um novo projeto ou o que o chefe iria mandar que ele fizesse. Já havia recebido o salário do mês, estava tudo certinho. Parece que o dia havia lhe dado uma pausa apenas para decidir. Pegou o pouco que tinha nas gavetas, pôs numa caixinha de papelão.

Com passos decididos, João entrou na sala do chefe. Disse que estava cansado do seu trabalho e que procuraria por outro mais criativo. Estava exausto, após anos, em lidar com sorrisos de pasta de dente que se esmaeciam assim que ele lhes dava o último retoque. E também não acreditava naqueles lápis de cor que vendia. Eram tão fracos, não tinham o direito de se auto-titularem a solução para os artistas que querem uma obra feita às pressas. É isso. Agora, livrando-se desses signos vazios, das promessas tolas que ele era obrigado a vender por seus traços, buscaria um modo mais sincero de pincelar a realidade.

Todo mundo

Todo mundo já se viu sozinho na multidão
Apertou-se ao casaco querendo fugir
Resistindo à dor que sonha um dia sorrir
Nas tardes que contemplam o chão.

 

O calafrio denuncia o medo de escolher
Como dar aos dias uma utilidade,
Analisar os limites para viver.
A escolha é a dolorosa liberdade.

 

O passado já está todo emaranhado,
O coração, com a tristeza, acostumado
Pulsa no casaco com uma mera lembrança,
Vestindo a face da desiludida criança.

 

Sonhos no bolso pedem o fôlego de uma nova vida
Mas encontram as asas destruídas no chão.
Voar se torna restos de uma expectativa diluída
A revolucionária vida que se reduzira em ínfimo grão.

 

Todo mundo já sorriu com os olhos devastados,
Tentou arrumar a própria casa com as emoções confusas.
Viu o céu outrora azul se fechar em temores resignados.
E quis ser racional apesar das ideias difusas.

 

Todo mundo passa a ver que a vida é um turbilhão,
Aprende-se que o humor vive ao lado da melancolia.
O segredo é fazer de tal antítese uma harmonia
E não olhar um mundo vivo na escuridão.

 

Por entre os fios, a solidão

Medianera, o lado de um prédio que apresenta as falhas, as rachaduras, o que se tenta esconder com merchandising, propagandas falsas. Duas pessoas com dificuldade de mostrar seus sentimentos, veem a existência engolida pela multidão da cidade, aceitam viver anônimos. Essas frases não correspondem apenas a um filme e sim, dois: Românticos anônimos e Medianeras.

Jean-René e Angélique fazem parte do primeiro. São emotivos demais, sentem a ansiedade em cada parte de seus dias. A insegurança não permite que exponham seus talentos e, quando amam, optam pelo sentimento oculto, anônimos em tudo. O medo de enfrentar o que vem à tona faz Angélique cantarolar para si mesma I have confidence, do musical A Noviça Rebelde. Como se houvesse uma voz em si mesma – que ela desconhece – capaz de proporcionar confiança e salvá-la dos possíveis fracassos pelos quais pode passar se der um passo adiante em sua vida. Jean-René cresceu sob a cautela exagerada dos pais, que comemoravam se não ocorresse nada de diferente em suas vidas, pois assim significava que estavam em segurança. Para Angélique e Jean-René, viver em segurança é a forma que encontram de não enfrentar o inesperado do lado de fora. Optam pelo que é cômodo e duradouro. Mas como agir se duas pessoas inseguras e com medo de arriscar se apaixonam?

Martin e Mariana também são solitários. Vivem numa Buenos Aires emaranhada por fios que – dito pela própria Mariana – serviriam para unir as pessoas, o que não ocorre, apenas separam as pessoas na cidade, colocando cada um em seu devido lugar. Martin tem como companhia uma cadelinha e o computador. As músicas que ouve servem como refúgio para um cotidiano vazio, cheio de fobias. Leva a vida de forma metódica e evita ao máximo sair de casa. Ele vê na fotografia uma maneira de encarar o mundo à sua maneira e tentar transformar a realidade que vê. Mariana ama observar os prédios, pois é formada em arquitetura. Mas, como tudo em sua vida, vive de projetos. Trabalha como vitrinista de uma loja. Em casa guarda os manequins masculinos e femininos, que mudam de roupa de acordo com a estação. Na casa da jovem, os manequins se encontram despidos, talvez demonstrando as fragilidades que Mariana tem. Ela se sente observada apenas quando se encontra na vitrine, montando uma realidade paralela à da ampla Buenos Aires, e insiste em procurar o Wally por entre a multidão representada no livro “Onde está Wally?”, aguardando por alguém que mude sua vida repentinamente.

Esses quatro personagens, apesar de constituírem filmes de nacionalidades diferentes – um é francês e o outro é argentino – conseguem transmitir com delicadeza, profundidade e inteligência a solidão em meio às relações sociais. Não é difícil se identificar com tais personagens. Uma cidade que vê o seu passado, seja o chocolate maravilhosamente criado há muito tempo e existente na memória de gerações, ou os prédios históricos apagados pela novidade do edifício recém-construído, demonstra a necessidade que as pessoas sentem de conseguir dizer quem são, construir uma identidade e deixar-se interligar por outras pessoas.

Angélique, Jean-René, Martin e Mariana representam os temores, as falhas e os sonhos humanos. Pode-se dizer que os quatro aguardam por alguém que os resgate da monotonia e infelicidade cotidianas. Por entre pessoas desconhecidas e encontros efêmeros, resta buscar a autonomia enfrentando os próprios medos. Esperar por alguém como o Wally, que tanto se ocultara quando se olhou fixamente para uma mesma página, talvez não seja a primeira solução. Tirar a vida da página dos projetos significa olhar as maiores falhas que se possui, tais quais as rachaduras que se deseja ocultar em medianeras. Para encontrar o Wally, há várias opções: a sorte, um olhar clínico,
a análise metódica de cada centímetro da página. Mas, principalmente, a busca por Wally significa encontrar a própria identidade em meio à multidão.

Resenha compartilhada pelo perfil Medianeras, no facebook, aqui!

Heróis de um carnaval

A capa tremulava ao vento e o glitter caía delicadamente da estrelinha que ornava uma simples vareta. Os passos do super-homem e da fada faziam-se com urgência. O caminho seria árduo, cheio de perigos, mas eles sabiam de suas responsabilidades. Em alguma parte do mundo mais uma ditadura se desfazia e o super-homem seria chamado para apartar brigas e trazer a paz. A fadinha, bem, tinha como função realizar o sonho de mocinhas que queriam brilhar e ser tão belas quanto a capa da Vogue.

Uma multidão se formava à frente deles. Seriam admiradores? Pessoas que já precisavam de ajuda? Próximo a eles, o barulho de rodas os tirou desse sonho. O super-homem e a fadinha andavam rumo… ao ponto de ônibus. Não iam salvar mocinhas indefesas. A multidão à frente era uma fila de pessoas conturbadas a subir no ônibus, acreditando que suas vidas possuíam tanta urgência quanto a necessidade de salvar o mundo. Bem, a única missão do super-homem e da fadinha era o carnaval.

Entre eles, havia a mãe, conduzindo-os para o ponto de ônibus. Ela pintou a máscara nos olhos do filho com muito carinho, enquanto colocou a tiara nos cabelos castanhos da filha, a mesma que usara no carnaval ao conhecer o marido. O carnaval era simbólico para a família, pois marido e mulher casaram-se no carnaval, e os filhos, gêmeos, nasceram com a mesma felicidade de uma escola de samba entrando na Marquês de Sapucaí. A comemoração do evento era em blocos de rua, próximo ao bairro dos avós, ou em salões. Desta vez, o super-homem e a fadinha rumavam à escola para a comemoração.

No ônibus a balançar, alguns ignoravam as criancinhas, preocupados demais com os seus problemas. Uma pessoa ou outra sorria e exclamava “ah, que fofura!”. Só isso. Não reparavam o quanto o super-homem e a fada eram heroicos? No cotidiano, preferiam esconder a identidade, claro. Naquele dia, em especial, estavam mostrando a todos quem eram e só o que recebiam era um aperto na bochecha?

Ao chegar à escola, numa profusão de ciganas, princesas, homem-aranha e batman, havia crianças com a mesma fantasia! Mais um super-homem e uma fadinha! Mas eles eram únicos, como podem aparecer do nada? Não entraram em contato! A fadinha ficou desolada, sonhava em criar roupas num passe de mágica e agora via a sua magia ser roubada por uma fada qualquer. O super-homem nem se sentia mais tão heroico assim. Não serviria para nada nos conflitos mundiais. Os dois se encararam, melancolicamente, deram-se as mãos e sentaram-se em um banquinho, para observar a alegria das outras crianças.

Com um pacote de confetes, a mãe chegou alegremente a eles. Estranhou a face tristonha dos filhos, olhou em volta e logo viu a outra fada e o super-homem. “Ah, essas outras crianças só vestem uma fantasia no carnaval, por algumas horas. Eles não nasceram no carnaval. Desde o dia em que vocês vieram ao mundo, já são os meus heróis”. A mãe deu um beijinho em cada um, ajeitou a tiara da menina e a capa do filho.

A fadinha e o super-homem se olharam. A fantasia deles tinha lá a sua originalidade. A varinha de condão da outra fada soava tão falsa! E qual é o herói que não passou por uma crise? Vilões e concorrentes existem. Mas nenhum deles tinha uma tiara ou uma máscara como as que usavam. Munidos de confete, o super-homem e a fadinha foram para a brincadeira. Não precisavam de histórias em quadrinhos ou contos de fada para serem heróis.

Prateleiras e sonhos

O abrir da geladeira me frustra
Por entre as prateleiras não há o que anseio
Essa fome vai além da fruta, do pão
Não é material e nem consumível
Talvez seja uma procura em vão
Vejo um espaço vazio ocupado por sonhos
Não-tateáveis
Intratáveis,
Porque imperam a nossa existência
Veem quando querem…são orgulhosos!
Ora são sonhos sem sabor, incógnitas
Ora sonhos palatáveis, com gostinho de doçura
Sonhar é o constante desejo do paladar à espera da fome abatida

Palavras escritas na cartolina

Clara não parava de pensar no atraso em que se encontrava. Entrou no metrô cheio, espremeu-se por entre as pessoas em plena manhã de segunda-feira. Ia para mais um dia de trabalho na redação de um jornal, após uma noite mal dormida concentrada na reportagem que deveria apresentar. Por que escolhera aquela profissão? Na ficha de inscrição do vestibular a escolha parecia natural, mas no dia a dia, a opção tornava-se uma incógnita.

Mais uma estação e a porta se abriu. Uma menina, na faixa dos onze anos, entrou segurando os livros escolares. Ficou ao lado de Clara e olhou, discretamente, para o livro de Comunicação. Houve um lampejo de admiração e sonho. O fascínio com que a menina contemplava o livro era o que faltava para Clara na exaustão do cotidiano. A jovem sentira o mesmo fascínio por Jornalismo quando tinha a mesma idade. Onde estava esse olhar curioso?

As mãos de Clara suavam frias ao se ver novamente no momento em que, aos onze anos, precisou encenar um telejornal na escola. À sua frente estava a câmera para uma gravação escolar, nada profissional. A cartolina vinha com as palavras que deveria dizer. O que estou fazendo aqui? Estava expondo todo o seu nervosismo àqueles que a viam na hora de gravar, mas deveria mostrar segurança ao falar! Confuso demais para uma menina. Ficou zonza ao encarar as palavras corridas na cartolina branca. Só tinha que falar aquilo. Pra que se sentir nervosa?

Respirou fundo e pensou nas repórteres que via todo dia na TV. Parecia tão simples, para elas, contar sobre os problemas da cidade ou o assassinato de uma criança. Talvez fosse simples apenas aparentemente. No fundo, Clara imaginava as repórteres nervosas como ela. Bom, vamos acabar logo com isso. Melhorou a postura, ajeitou o terno, olhou para a câmera e, pausadamente, falou o que estava escrito na cartolina. Ah, consegui!

Ao encarar a sua imagem difusa refletida na porta do metrô, Clara deu uma risadinha, lembrando do nervosismo pelo qual passara na infância. Desde aquele momento decidiu fazer Jornalismo. A curiosidade pelo mundo, a imprevisibilidade que a surpreendia tal qual a epifania provocada pela menina no metrô. Agora que ia trabalhar, Clara percebeu como ainda era a mesma menininha ajustando o terno diante da câmera e respirando fundo ao aceitar o peso de ser uma jornalista.

Noite estrelada

Um café iluminava a rua, convidativo aos devaneios da jovem. Precisava escrever, mas faltavam-lhe ideias. O salto alto tocava charmosamente, ao andar, a rua irregular em que ela se encontrava. Sentou-se em uma das mesinhas, pediu um café e croissants. A noite era estrelada, o café parecia agradável para fluir alguns pensamentos. O estabelecimento era simples, com mesinhas no lado exterior, uma cobertura oblíqua cobrindo-as delicadamente. Acima, algumas janelas abertas, indicando que a moradia pertencia ao dono do café. A figura do estabelecimento era semelhante ao Terraço do Café em Arles à noite, de Van Gogh. Realmente encantador.

A jovem procurou observar à sua volta e escrever sobre o café, as pessoas jogando bilhar no interior e conversando animadamente. Enfim, era uma cronista tentando mostrar o encanto da simplicidade da noite estrelada. “Ah, noite estrelada, nome do quadro de Van Gogh”, suspirou. Sentia-se, de fato, no quadro do pintor. A madrugada emanava o perfume do café, envolvendo-a. Assim, adormeceu.

Mais tarde, foi difícil abrir os olhos com tanta claridade. “Já amanheceu?”, questionou-se. A jovem abre os olhos e percebe que não está mais no café. Usava um vestido amarelo clarinho, rodado, acima do joelho. A saia era de tule, abaixo do tecido leve e delicado do vestido.

Repousava num campo de girassóis. O amarelo vibrante a cegava de tão intenso. O vento penteava as pétalas do campo. Parecia um baile em homenagem a ela, que também estava apropriada para a festa, com um vestido igualmente amarelo. A jovem misturava-se ao cenário. Ou o cenário a compunha. A reciprocidade entre ser humano e sujeito nunca fora tão intensa. Ousaria dizer que se encontrava em um estado de natureza, com apenas a necessidade de respirar o ar puro daquele campo. Um sentimento paradoxal para o momento, já que o encanto da cena estava no casamento entre a vestimenta que usava e a cor natural das flores.

Repentinamente, ouve-se o voar dos pássaros. Eram corvos. A sensação de melancolia toma conta da moça. Era hora de acordar.

Fora tudo um sonho. Digno dos filmes de Akira Kurosawa. A jovem sentia-se como o humilde pintor de um dos curtas do diretor, personagem que envolve-se com as obras de Van Gogh. Ela adormecera sobre os livros adornados com as pinturas do artista. Tudo terminara com a melancolia, o voo dos corvos. Agora, só restara a inspiração que o seu inconsciente pedia para ser retratado. As palavras surgiram rapidamente sob a caneta orientada pelas mãos e pela mente da jovem.

**Para quem quiser ver, no texto há os links das obras do Van Gogh em que os cenários descritos foram baseados (:

Sob a perspectiva de um rasgo

“Um dia terá que ser admitido oficialmente que o que batizamos de realidade é uma ilusão até maior do que o mundo dos sonhos” Salvador Dalí
"Dream Provoked by the Flight of a Bumble Bee", Salvador Dalí

Um elefante em tamanho descomunal anda sobre o mar. Tigres saltam da boca de um peixe. Assim descreve-se a obra surrealista de Salvador Dalí. Pelo ponto de vista pragmático, nada do que foi narrado é possível. Mas como um verdadeiro artista, Dalí coloca em questão o que se conhece como real. Para ele, há um mundo surrealista, em que são possíveis tigres irromperem de peixes.

Deleuze e Guattari, ambos filósofos, disseram que os artistas e pensadores em geral buscam promover “rasgos” no guarda-sol. Obviamente é uma metáfora, tal qual a pintura de Dalí. O guarda-sol representa a realidade, tudo aquilo em que o sujeito se apóia, se debruça para que seja possível organizar o pensamento.

Por exemplo, quando tentamos entender um problema matemático ou até mesmo um acontecimento do cotidiano. Antes se organiza os fatos, tudo o que ocorreu para que seja possível chegar a uma conclusão e o assunto fica “resolvido”; é um processo empírico. Porém, permitir que tudo seja visto como concluído, determinado, leva o sujeito a se estabilizar totalmente em face da realidade que o guarda-sol abriga e passa a não questionar o mundo a sua volta.

Então, surge a função dos artistas: abrir fendas no guarda-sol, desafiar a suposta realidade que a maioria aceita, e mostrar que há uma escuridão além desse rasgo, no firmamento. A escuridão é tudo aquilo que desconhecemos. O sentido de vida e morte, Deus, amor. A função do artista não é rasgar e mostrar uma outra realidade, como se a dele estivesse certa. Pelo contrário, a intenção é desmascarar aquilo que se diz real e promover o caos, a tentativa de refletir sobre o que está “lá fora”. Certas questões sempre irão precisar de “rasgos”, reflexões. Mas é preciso fazer um adendo: o fato de desconhecer grande parte do mundo não pode trazer ao ser humano a necessidade de ser supersticioso, pois isso causa sofrimento e medo, que não permitem a reflexão.

Sendo assim, o artista ensina que nunca saberemos tudo, tal qual o filósofo Sócrates pensava, “Só sei que nada sei”. Melhor ainda, em vez de pensar na frase do pré-socrático, a ensolarada música do Kid Abelha diz o mesmo. “Nada sei dessa vida. Vivo sem saber. Nunca soube, nada saberei. Sigo sem saber”. É possível ter em comum com Salvador Dalí muito mais do que se imagina. A loucura é aceitar a realidade exatamente como ela se mostra. O bom senso é permitir que tigres irrompam de peixes.

Uma viagem, balões e sonhos

UP – Altas Aventuras, de Pete Docter, Bob Peterson

EUA, 2009

Animação da Disney/Pixar

Quando vimos Wall-E, da Disney/Pixar, esperamos que mais nenhum filme o supere. E então surge UP Altas Aventuras e nos encanta novamente com a magia típica dos filmes da Disney. O filme narra a história de Carl Fredricksen, um velhinho mal-humorado, solitário e viúvo de 78 anos que vive  numa casa que está no meio de uma construção de prédios moderníssimos.

Quando criança, Carl sonhava em ser um explorador, conhecer a América do Sul. Aos poucos os sonhos infantis são deixados de lado diante da vida que ele e a amada começam a ter. Mas, no alto dos seus setenta e poucos anos, Carl decide realizar a famosa exploração que ele tanto sonhara e que a amada idealizava em vida. Resolve partir na casa que vivia, içada por milhares de balões. Mas Carl não esperava pela companhia inicialmente inconveniente: Russel, um menino tagarela, um escoteiro que também sonha em ser um grande explorador.

O filme é inteiramente poético. Mesmo se tratando de um filme supostamente infantil, consegue abordar temas como a morte, a solidão e até mesmo a relação com o passado, de uma forma extremamente sublime.

Presenciamos uma verdadeira transformação do personagem. Primeiramente ranzinza, preso ao passado em que vivia com a esposa que tanto amava. Fora muito feliz com a esposa, mas não conhecera o lugar com que sonhara na infância. O desenho na parede que enfeitava a casa, retratando o Paraíso das Cachoeiras que queriam conhecer na América do Sul, era uma espécie de utopia que ambos tentavam alcançar, mas não conseguiam. Carl é simplesmente o retrato do ser humano que sempre caminha em busca dos sonhos de criança, a inocência e a crença de que tudo é absolutamente possível; mas quando cresce percebe que, para conhecer aquele lugar que o acompanhara durante a infância, é preciso amadurecer e entender que nem tudo é possível.

Porém, quando conhece a América do Sul a bordo de uma casa conduzida por balões e a companhia de Russel, percebemos que Carl busca realmente recuperar o passado, a presença da amada e a suposta simplicidade de ser criança. Isso, claro, nunca voltará. Mas é exatamente disso que é feita a vida, de viver e “morrer”, alienar-se e separar-se. A grande aventura que Carl precisa enfrentar é desvincular-se da ideia de voltar ao tempo; que é necessário escrever uma nova história.

Entre uma cena e outra, é possível emocionar-se com o sonho de Carl e entender que muitas vezes nos enganamos com aquilo que buscamos. Não é necessária uma verdadeira viagem para se ter uma aventura; a própria vida é uma aventura. Mas para compreender isso, Carl precisou passar por muitos apuros na área inóspita que o filme retrata, localizada na América do Sul. E, principalmente, ao conviver com o menino Russel, o velhinho percebe que agora é hora de orientar o novo, cuidar de Russel e dos sonhos do menino, pois ele, Carl, já fora criança um dia e aprendeu a ver a vida como uma aventura.  

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